Postagem em destaque

Racismo Ambiental

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Racismo Ambiental


“A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Neste interregno nascem os monstros ” (Antonio Gramsci)

Racismo ambiental é um termo cunhado em 1981 pelo líder estadunidense de direitos civis Dr. Benjamin Franklin Chavis Jr., que foi assessor de Martin Luther King Jr. Chavis. No final da década de 1970, já ordenado pastor, dirigia a Comissão pela Justiça Racial da Igreja Unida de Cristo em Warren County, Carolina do Norte. Em 1987 Chavis publicou o livro “Rejeitos Tóxicos e Raça nos Estados Unidos da América”, no qual evidenciava a amplitude da questão para as comunidades negras de todo o país.

O ativista definiu a expressão racismo ambiental ao pesquisar de perto a o quanto a população negra dos EUA estava sendo exposta a resíduos tóxicos. O conceito adquiriu força nos Estados Unidos dentro do contexto das manifestações raciais contra injustiças ambientais em territórios negros.

Chavis Jr. Disse que o racismo ambiental é a discriminação racial na elaboração de políticas ambientais, na aplicação de regulamentos e leis, e no direcionamento deliberado de comunidades negras para espaços contíguos às instalações de lixo tóxico, com risco de vida para as comunidades afrodescendentes e a exclusão de negros da liderança dos movimentos ecológicos.

Ao excluir e afastar os negros da elaboração de políticas e movimentos ambientais, o sistema capitalista faz a opção por privilegiar outros grupos étnicos de raiz caucasiana. Ao aplicar o sistema de seleção dirigida, entende que a etnia negra não compreende um grupo humano que deva ser protegido, como sempre definiu o colonialismo, o capitalismo e a globalização. O sistema precisa que esses contingentes humanos ocupem esses territórios precarizados, pois ali está a mão de obra necessária para trabalhar nas plantas industriais poluentes que operam nos espaços adjacentes às suas residências.

As comunidades impactadas pelo racismo ambiental são compostas majoritariamente por população negra, que historicamente sempre foi preterida nos projetos nacionais de educação. O processo de desemprego em massa trazido pelos ventos da globalização com suas políticas neoliberais e flexibilizadoras, causou um verdadeiro tsunami na organização sindical brasileira a partir dos anos 80. Com o avanço de tecnologias industriais como a automação, por exemplo, as oportunidades de trabalho formal nos parques fabris está rareando cada vez mais e por conseguinte as exigências dos trabalhadores por melhores condições de trabalho também diminuíram, destarte o esforço de suas representações como centrais sindicais e seus sindicatos de base. O movimento sindical desde então vive em constante crise existencial, mergulhado em um profundo declínio temporal, tendo perdido parte da interlocução com as bases devido à dificuldade de comunicação entre os antigos socialistas da era analógica e os novos trabalhadores nativos da novíssima geração digital. Sobrevivendo entre as mais diversas dialéticas contemporâneas e enfraquecido cada vez pela política conservadora do Congresso Nacional, do Judiciário e pelas instituições patronais com suas agressivas pautas de reivindicações, o sindicalismo tornou-se um gigante com pés de barro.

Com o enfraquecimento dos anseios trabalhistas da massa trabalhadora, encontramos a população negra sofrendo as ações dos vetores poluidores nas plantas industriais instaladas no entorno das comunidades negras.  Essas indústrias poluidoras possuem relação direta com a saúde degredada dos seus trabalhadores e dos seus impactos nessas comunidades. A população negra que sofre sob os impactos do racismo ambiental é tornada duplamente invisível pelo sistema capitalista na medida em que é ocultada enquanto comunidade e como massa trabalhadora.

O sociólogo estadunidense Robert Bullard estendeu o conceito de racismo ambiental ao referir-se a qualquer política, prática ou diretiva, que atue negativamente a diversos grupos ou comunidades baseados em sua origem ou cor da pele. Bullard escreveu um livro muito importante acerca da justiça ambiental denominado “The Legacy of American Apartheid and Environmental Racism (O Legado do Apartheid Americano e do Racismo Ambiental). O racismo ambiental foi e continua sendo objeto de vários estudos, sendo que há uma notada convergência que aponta para situações comuns como territórios localizados onde os vetores ambientais são mais agressivos à vida humana, como lixões, aterros de lixo sanitários e controlados, depósitos de resíduos químicos, ausência de condições sanitárias mínimas como saneamento básico, emissões industriais descontroladas, indústrias químicas poluidoras, falta de ordenamento urbano e paisagístico, drenagem fluvial e controle de doenças contagiosas.

O racismo ambiental expõe de maneira desproporcional uma etnia ou classe social sendo uma forma de discriminação baseada em raça, etnia e classe social a riscos ambientais. Está para além da luta de classes e passou a ser também um problema de castas, como os “dalits” na Índia. No nosso caso podemos apontar as pessoas negras periféricas que são consideradas pela branquitude como casta inferior. Essas pessoas negras são as mais vulneráveis aos impactos ambientais e que realizam os diversos trabalhos infames que a branquitude renega exercer. A população negra desses espaços vive confinada em senzalas contemporâneas ou campos de concentração do capitalismo que são as favelas, território abandonado pelo estado que comparece cotidianamente com a polícia para causar medo e opressão ao moradores. A população negra das favelas é um contingente humano considerado como estoque étnico descartável, para o qual a discriminação e a injustiça ambiental estão irremediavelmente destinadas. O ambiente degradado afeta e adoece as pessoas que habitam esses espaços, caracterizando de maneira definitiva como uma ação racializada negativamente pelo estado.

A história mostra que o surgimento das primeiras favelas no Rio de Janeiro foi provocado pela ocupação das encostas dos morros do Centro do Rio pelos militares que combateram na Campanha de Canudos e pela massa de escravos liberta através da Lei Áurea. Com o fim da Campanha de Canudos (1896-1897) os soldados que retornaram esperavam receber casas para morar que foram prometidas pelo governo. Como a promessa não foi cumprida, os soldados que se abrigavam temporariamente no entorno do Ministério da Guerra ao lado da Central do Brasil não tiveram outra alternativa a não ser juntar madeiras que coletaram pela cidade e construírem seus barracos no Morro da Providência, que já abrigava os que foram defenestrados dos cortiços derrubados pelo Prefeito Pereira Passos.

Os negros e negras recém libertos não possuíam vínculos trabalhistas e tampouco recursos financeiros para adquirir um lote de terra para construir uma casa. A solução encontrada era ocupar um espaço de terra em uma das encostas dos morros da cidade e construir uma habitação frágil e improvisada com madeiras que eram coletadas pelos entulhos de lixo da cidade.

Por um outro lado, o Rio de Janeiro passava por um intenso processo de modernização denominado Bota Abaixo, onde o Prefeito Pereira Passos de maneira arbitrária determinou que mais de 2000 casas e cortiços da população negra e pobre fossem derrubados para dar lugar a construções de avenidas e bulevares modernos que imitavam a cidade de Paris.

Em seu livro “Planeta Favela” (Boitempo, 2006), o californiano Mike Davis apresenta um estudo baseado em dados da ONU que aponta para dados surpreendentes. O principal é que as favelas estão recebendo 25 milhões de novos habitantes por ano, número que passa a engrossar o contingente de pessoas que sofrem com o apartheid urbano. Segundo Davis, a neogentrificação faz parte do novo modelo de desenvolvimento hegemônico do capitalismo, que trata a humanidade como objeto e a utiliza de todas as maneiras possíveis em busca do lucro desenfreado. Enquanto uns são utilizados como peões em um tabuleiro de xadrez, outros são solenemente ignorados na fria qualidade de estoque étnico descartável.

O pesquisador Costa Pinto desenvolveu um estudo na década de 50 no Rio de Janeiro que apontou que em cada 100 habitantes da cidade 27 eram “de cor”, enquanto que nas favelas o indicador era invertido para 71 negros para cada 100 moradores. Costa Pintpo denominou esses dados como segregação étnica.  No ano de 2001 o pesquisador Ney Santos Oliveira utilizando dados da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar – PNAD, do Morro do Estado em Niterói, revela que 27,4% dos moradores da comunidade são brancos enquanto que a população negra representa 72,6% dos moradores. Enquanto que nas áreas nobres de Niterói os dados se invertem com 72% de moradores brancos e 28% de moradores negros.

A elite gosta da favela, não para frequentar, mas por ser um território extremamente precarizado, sem os requisitos mínimos necessários de civilidade e controlado por poderosas facções criminosas que impõem suas próprias leis e submetem à comunidade um regime de terror e violência. É um território onde há submissão total dos moradores ao poder paralelo, que é o principal emulador das normas locais vigentes. Para a burguesia isso é bom, pois, seus serviçais recebem em seus próprios territórios as “lições de servilismo e obediência” necessárias para lidar com o poder enquanto que estabelece uma relação de alteridade social que diz a quem devem obedecer. A subserviência e o conformismo impostos pelo terror, mostra para aquela população de maioria negra que a rebelião não é uma possibilidade. Devem compreender e assimilar que seus destinos estão traçados de maneira inexorável e que não podem tentar se organizar e se rebelar para transformar a situação em que vivem.

A existência das favelas é fundamental para a sobrevivência das elites. A dicotomia civilizatória define para a população pobre daqueles territórios a impossibilidade de qualquer ascensão social que equipare suas vidas as de seus patrões. Por isso a inconformidade das elites com o sistema de cotas, pois o sistema democrático faz com que seus filho frequentem as mesmas salas das universidades que os filhos de seus empregados.

A favela é o marco civilizatório que define o fim da rebelião. Viver em seu seio com a violência cotidiana do narcotráfico e com a guerra cotidiana promovida pelos aparelhos de repressão de estado, ou seja, as polícias, mostra que todos estão entregues à própria sorte, sem amparo ou justiça social. Como se não bastasse o conjunto de assimetrias sociais, agregue-se ainda a discriminação pelo Código de Endereçamento Postal – CEP. O recurso que tem como objetivo facilitar a identificação de logradouros para o endereçamento postal, tornou-se um outro indicador que podemos chamar de Código de Envolvimento Perigoso, que serve como marcador social para os sistemas de avaliação de crédito, risco bancário e contratação pelos setores de RH das empresas e de contratação de trabalhadoras e trabalhadores domésticos por seus patrões. O racismo ambiental faz com que os trabalhadores que habitam territórios negros sejam obrigado a renegá-los  em busca de uma chance no mercado de trabalho. São levados a buscar endereço de parentes que moram em outras áreas da cidade para que possam apresentar um endereço “condizente”.O filósofo camaronês Achile Mbembé desenvolveu o conceito de necropolítica, onde nesses territórios precarizados o estado através dos seus sistemas de repressão possui licença para matar.

As crianças desses territórios não são expostas somente à violência cotidiana das armas. Vivem ameaçadas pelos mais diversos vetores ambientais negativos que podem afetar aquele agrupamento humano. A convivência em habitações por vezes diminutas e insalubres, que abrigam várias pessoas, propícia a disseminação das mais diversas doenças contagiosas como por exemplo a tuberculose, que em certas comunidades do Rio de Janeiro está em situação alarmante.

A ausência de saneamento básico no Brasil no ano de 2019 sobrecarregou o SUS com quase 280 mil internações com 2.734 óbitos. A incidência de internações foi de 13,01 casos por 10 mil habitantes, gerando um custo adicional ao país de R$ 108 milhões no mesmo ano. O estudo Saneamento e Doenças de Veiculação Hídrica do Instituto Trata Brasil foi realizado a partir de dados públicos do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento – SNIS e DATASUS no portal do Ministério da Saúde. A região Nordeste, que em números gerais registrou mais internações, teve a maior despesa com esse tipo de internação – R$ 42,9 milhões. Na sequência, o Sudeste teve R$ 27,8 milhões com gastos desse tipo, contra R$ 15,2 milhões do Norte, R$ 11,7 milhões do Sul e R$ 10,2 milhões do Centro-Oeste.

A falta de acesso à água tratada e esgotamento sanitário ocasionou a morte de 907 pessoas no Sudeste, 331 no Sul, 214 no Norte, 213 no Centro-Oeste e mais de mil no Nordeste por doenças de veiculação hídrica, entre elas estão as diarreicas, dengue, leptospirose, esquistossomose e malária.

O estudo do Trata Brasil mostra que quase 35 milhões de pessoas vivem em locais sem acesso à água tratada, 100 milhões de pessoas sem acesso à coleta de esgoto e somente 49% dos esgotos no país são tratados.

Os indicadores do estudo demonstram que há um país partido. De uma lado o Brasil da Bélgica com elevados padrões civilizatórios e de outro o Brasil da Índia, abandonado pelo estado e submetido à crueldade dos seus governantes, que condenam à morte e ao sofrimento milhares de brasileiros todos os anos por conta de sua origem étnica e cor da pele.

Outros fatores concorrem para o aumento das doenças da população que habita essas áreas deletérias. As ruas sem calçamento despertam processos alérgicos em grande parte da comunidade que é obrigada a conviver coma a poeira tóxica cotidianamente durante anos a fio. Esses territórios são escolhidos pelas empresas para abrigarem suas plantas industriais com o falso argumento da geração de empregos. Óbvio que esses empregos gerados pelas plantas industriais alocadas nesses territórios obedecem a uma hierarquia laboral. Os melhores postos de trabalho não são destinados aos moradores dessas comunidades. Pelo contrário, a “inteligência” da empresa e seus cargos de direção está reservada para as pessoas da burguesia, que certamente não moram nessas comunidades. Para os habitantes desses territórios são reservadas as atividades insalubres, expostas a produtos químicos e manipulações perigosas. Outro fator que estimula as empresas a se estabelecerem no entorno das comunidades é a não necessidade de arcar com os custos patronais do auxílio transporte e da vantagem da proximidade. Todas essas espertezas são encobertas pelo manto de uma característica da modernidade empresarial denominada responsabilidade social. Mas como o capitalismo sofistica-se de maneira contínua, o termo mais usado atualmente é responsabilidade socioambiental.

A ironia é que essas empresas não consideram o ser humano como parte do ambiente. Destina-lhe atividades perigosas e insalubres, não colabora com a elevação de sanitização da comunidade, polui o meio ambiente, adoece as famílias e recebe da burguesia e do capitalismo o selo de ambientalmente e socialmente responsável.

Essas empresas costumam despejar seus efluentes tóxicos nós rios e riachos dessas comunidades, contaminando o lençol freático que é utilizado pela comunidade como fonte de abastecimento de água através de poços escavados no solo.

Enquanto sistema, o racismo ambiental opera em todas as direções possíveis e necessárias ao projeto de sofisticação e expansão do capitalismo. Ataca e depaupera o modo de vida dos povos originários com mega projetos de mineração e extração de madeiras. Marisqueiras e pescadores artesanais, quilombolas, ribeirinhos e agricultores familiares. Esses povos são condenados ao exílio em seus próprio país, são desterrados de seus territórios e agregados em reservas de confinamento cada vez menores. Com o tempo são alcançados pelas periferias das cidades e passam a conviver com lixões, fábricas poluidoras e efluentes tóxicos. No Mapa de Conflitos Causados pelo Racismo Ambiental, (http://www.justicaambiental.org.br/_justicaambiental/pagina.php?id=1555) a grande parte das denúncias são referentes a conflitos fora dos centros urbanos, onde a mídia não está presente com sua cobertura jornalística.

Apesar de todos os óbices naturais, o Racismo Ambiental fez parte da pauta da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), em Glasgow, Escócia em 2021. O Movimento Negro Brasileiro participou com uma comitiva bastante representativa. Organizações como a Coalizão Negra por Direitos que representa mais de 250 entidades negras, apresentaram as demandas da população negra que sofre com os impactos gerados pelo Racismo Ambiental. O Brasil possui mais de 3.100 comunidades quilombolas e somente 13% deste total foi regularizada pelo INCRA e órgãos estaduais de terras. O Brasil necessita titular 1490 processos de regularização fundiária de com unidades quilombolas até o ano de 2030.

A participação da delegação brasileira na conferência foi bastante expressiva. Na COP 27 em Cairo no Egito o debate foi mais focalizado nas mudanças climáticas, transição energética, desmatamento e frotas de veículos elétricos. De uma maneira geral há uma enorme preocupação com os ecossistemas, biomas e florestas. Porém, no que tange à proteção de populações negras impactadas pelo racismo ambiental o debate ainda é bastante tímido. O grande desafio que há pela frente será transportar para a agenda nacional o que foi acordado nas cúpulas do clima e no Acordo de Paris. As propostas acordadas e aceitas pelo Brasil, de uma maneira ou de outra, impactam positivamente no cotidiano e bem estar das populações negras que habitam os territórios mais precarizados de nosso país.

A sociedade civil organizada enfrenta a questão do racismo ambiental em diferentes frentes de luta e disseminação de informações. Uma dessas referências é o Mapa de Conflitos envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil, projeto da Fiocruz coordenado pela pesquisadora Tânia Pacheco.

No âmbito das Nações Unidas há o “Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos – Habitat. O programa apoia comunidades como Complexo do Alemão, Maré, Chapadão, Pedreira, Vila Kennedy, Lins, Penha, Cidade de Deus, Jacarezinho e Rocinha. Esses territórios são cobertos pelo “Programa Territórios Sociais”. O Fundo da ONU para a Infância, Unicef, também colabora nessa iniciativa que atua em 10 assentamentos informais. Os idosos, incluindo acamados e com problemas cardíacos, receberam cestas básicas, desinfetantes, sabonete líquido, desodorante, xampu e escovas de dentes com o apoio da Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro. A seleção do grupo foi baseada na recolha de dados produzidos pelo Programa Territórios Sociais.

Nesse processo, a ONU-Habitat Brasil ajudou as atividades em comunidades para garantir que a assistência chegasse aos mais pobres e fragilizados.

O panorama do racismo ambiental é um mosaico horroroso que marca de maneira profunda a desigualdade social brasileira. Enquanto os moradores desses espaços precarizados não assumirem o protagonismo político da gestão dos territórios impactados nada mudará. O que podemos assistir é a visita de políticos durante o período eleitoral procurando cooptar as lideranças comunitárias ou celebrar pactos sombrios com o poder paralelo local.

Para que o sol possa brilhar de maneira equânime para todos os habitantes das cidades brasileiras torna-se necessário que todos se envolvam no processo da nova e verdadeira abolição que é nosso devir, nós do povo negro.

Há uma inequívoca vontade por parte dos governos de que tudo deva permanecer como está. São criados mil projetos, ações sociais, intervenções locais mas tudo permanece como sempre esteve. É uma demonstração de anomia governamental misturada com ausência de força anímica, que estabeleça junto com essas comunidades um pacto de governança local e estudos que possam transformar esses espaços arquitetônicos caóticos em exemplos de urbanização e ordenação social.

Não se pode aceitar que essas cidades com tantas universidades e centros de pesquisas não possam ser provocadas pelo poder público para estabelecer parcerias com os habitantes desses territórios na elaboração de projetos de infraestrutura, com novos equipamentos sócias funcionais como escolas, creches, organizações sociais e postos de saúde eficientes. Com ruas amplas e sinalizadas e habitações dignas. Não se pode cobrar e tampouco pensar um mundo melhor quando que o que se oferece àquelas populações é o restolho social do banquete antropológico da branquitude.

*Amauri Queiroz é Escritor e autor dos livros “Racismo Tropical”, “Se a Negritude Fosse um Banco o Racismo Não Existiria”, “Mundos Invisíveis “, “A Revolta dos Blacks”, “Egotrip”, “Fallen Angel”, “Ensaios Sobre o Fascismo Brasileiro” e “Sussurros da Alma Negra”.

terça-feira, 16 de junho de 2026

CHAMADA DE EGUN


Sentado na parte baixa do porto eu ali anjo torto numa vibe de quase morto. Pancadaço de pôr de sol observo ao longe mil carreiras brancas pilotadas por surfistas prateados que deslizam em ondas de ansiedade e nos tubos que aspiram o sal pelos micro pelos de minhas narinas. Tudo é mar, onde cada vela que vai é um sopro de esperança que se apaga. E cada vela que vem é a chegada de alguém que ficou a ver navios, sem ninguém. Sereias tatuadas e perdidas nas madrugadas do porto catam guimbas de vida nas movidas meladas pela boca da noite. No estirão de (in)felicidade há o corvo que repete “nunca mais” nos lupanares sombrios de Poe na beira do cais. E o amor passa arrastado e sufocado pelos sentimentos desesperados dos adictos cativos onde madames consomem picassos e narguilés em zonas de mil vidas naufragadas e desgraçadas pelo poder do patriarcado que gerencia o claustro existencial da virgindade tóxica. Ilusões de artifícios e sacrifícios cercados por orgasmos espetaculares avaliados e certificados por célebres voyeurs onanistas. A vida passa como um filme sem roteiro com tudo acontecendo ligeiro em um falso picadeiro onde a acrobata e a mulher gorila irrompem na bamba corda emitindo urros de tensão e tesão quando repentinamente a plateia acorda pornograficamente indiferente. Ser normal é viver com dores de amores trituradas pelos moinhos de paixões contidas pelo zíper decolonial. Ah! Coração! Que abrasa e delicia meus caminhos!  Na barra do vento do entardecer! É tudo tão morto! A Lacrimosa! Amadeus chora em Viena! Estamos no tempo desta entidade estranha que não olha para trás, o tempo, que segue louco em sua sanha primordial mirando sempre para o fim do futuro no universo escuro. Olho cansado mirando as difusas brumas da eternidade que cobrem as erupções túrgidas de um monte de vênus que lança lavas de lascívia excitando a cidade enlouquecida em gozo. No meio da catástrofe adâmica surge um triste e solitário egun purgando dores e fumando um sob o gélido relento universal. Roto e pobre egun sem seu orum, vendido como um goleiro após tomar um gol de placa, ali meio de saco cheio mas consciente do seu ofício: “Venha! Acabou! Já é hora! É seu tempo! Abandone o tormento da prisão do carbono! O trem para as estrelas não espera! Renasça para mim! 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

O samba pede passagem


A escola de samba e o samba sempre foram os principais espaços de socialização da comunidade negra no Brasil. Desde os primórdios da história do samba que o povo negro se empenhou em manter um espaço comunitário, onde pudesse compartilhar com sua família atividades sociais e de lazer. A indústria do entretenimento na sociedade burguesa sempre foi voltada para as pessoas da classe média, com razoável poder aquisitivo. Nesses espaços, os negros com raríssimas exceções, podiam frequentar e participar dos eventos como convidados. O apartheid social e econômico pelo qual a população negra foi submetida, após o fim da escravidão, levou os negros a se organizar em torno dos principais processos onde mantinham algum tipo de domínio, protagonismo e poder, o Candomblé e o samba. A escola de samba é o templo profano do povo negro. Nela as famílias se reúnem e se desenvolvem no aprendizado de suas diversas características artísticas e culturais.
A cosmovisão do samba está entre as coisas mais deliciosas dessa vida. Não há nada mais gratificante que desfrutar de um bom momento, cantando e relaxando em uma boa roda de samba, ou então nos ensaios de quadra das escolas de samba que alegram os fins de semana de parte da sociedade em todo o país. A sensação é divina, e nada melhor que soltar o corpo, se entregar ao deleite do ritmo pagão, cantando e alegrando-se em animados arrasta-pés, regados a uma boa cachaça de alambique, aquela que “matou o guarda”, acompanhada de uma boa cervejinha gelada com um pratinho de tira-gosto como acompanhamento.
Quem nunca deu aquela sambadinha gostosa, ao ouvir um samba malandreado, dolente e gostoso? Bem devagar, devagarinho, como canta o Martinho da Vila. O samba sempre foi a cadência da batida do coração do povo brasileiro. É o principal alimento cultural que nos nutre e o maior legado que a população negra delegou para nossa sociedade. Suas origens são ligadas ao continente africano, aos tambores, ao Candomblé e aos folguedos da cultura negra além-mar.
João Gilberto cantava que o samba veio da Bahia e estava correto. Pois esse menino dengoso, o samba, veio aconchegado no colo ancestral das Mães de Santo do Recôncavo Baiano, principalmente de Santo Amaro da Purificação e Cachoeira, que após a abolição da escravidão foram viver no Rio de Janeiro, para onde partiram em um movimento denominado “Diáspora Baiana” ou “Êxodo Baiano”. Partiram levando na bagagem essa joia cultural fantástica que encanta o planeta. O samba é filho dileto do Jongo, do samba de roda do Recôncavo, possuindo uma relação direta com o culto aos Orixás, Inquices e Voduns, do Omolokô e daquilo que Cartola chamava de Umbanda Carioca, da qual era cambono. O samba também bebeu na fonte das tradições culturais e religiosas da África Subsaariana. Nasceu como representante de uma representação cultural que servia como momento de lazer e ao mesmo tempo como o bálsamo que amenizava o terrível sofrimento pelo qual passava o povo negro escravizado, tanto no eito de trabalho como na senzala, nos tempos do Brasil Colônia e Brasil Império.
O parto do samba carioca ocorreu com certeza nos terreiros de Candomblé e Centros de Umbanda Omolokô da Pequena África e também nas rodas de Jongo como dizem alguns historiadores. Havia uma grande concentração desses terreiros na região que abrangia um imenso território no Centro da cidade do Rio de Janeiro denominado Pequena África que ia dá Gamboa/Pedra do Sal até a Praça XI.
A certidão de nascimento do samba contém algumas lacunas, mas com certeza no formato que conhecemos hoje, surgiu entre o fim do século XIX e o início do século XX. Veio ao mundo abençoado pelos sons dos atabaques e dos tambores tocados com dedicação e amor por ogãs e alabês das casas de santo. Nasceu no instante compreendido entre o cansaço e a preguiça. Cansaço porque depois de um trabalho puxado de axé no terreiro, era necessário dar descanso ao corpo, que há pouco estava entregue ao poder espiritual, para que assim recobrasse as forças. Preguiça porque era necessário preparar o terreiro para o ritual agora profano, com comidas, tambores e outros apetrechos essenciais.
O batizado com o nome “Samba” pode ser oriundo do termo angolano “Semba”, que significa umbigada. É um tipo de dança profana do povo bantu, mas não sagrada como são as umbigadas do Jongo, como afirmam alguns pesquisadores.
Foram as tias baianas que assistiram e abençoaram o nascimento do samba, forrando seu berço com carinho e tradição. O samba em seu berço foi ninado com canções do samba de roda do Recôncavo entremeadas com batuques, lundus, polcas, maxixes e jongo. Essas tias baianas eram em sua grande maioria Ialorixás renomadas e poderosas, exerciam grande influência sobre a comunidade negra no Centro do Rio de Janeiro.
O início do século XX foi um momento de intensa felicidade para a população negra, que vivia sob os efeitos idílicos do fim da escravidão. Os negros comemoravam e agradeciam principalmente à princesa Isabel pela promulgação lda Lei Áurea, que lhes libertou definitivamente do cativeiro do branco opressor, depois de intermináveis 350 anos de sofrimentos. Apesar de tantas agruras e dificuldades, a alegria havia voltado aos corações da população negra tão sofrida e vilipendiada pelo cruel regime recém-extinto. Eram livres, mas nunca deixaram de ser vigiados pelo sistema de repressão e controlados pelo sistema jurídico, que sempre exarou leis em defesa da elite branca e sistematicamente contra a população negra.
Apesar da vigilância constante da polícia, os negros e negras se reuniam em diversos lugares denominados “zungus” para comemorar a liberdade, comer comidas típicas, buscar trabalho, praticar religiosidade e como não podia deixar de ser, utilizavam o samba de roda, o jongo, o maxixe a polca e o lundu como fundo musical para suas comemorações. A certidão de nascimento do samba foi lavrada nos terreiros das tias baianas, com destaque para as tias Ciata, Amélia e Perciliana.
Os sambistas consideram Tia Ciata como a grande parteira e mãe amamentadora do samba carioca. Nascida em 1854, em Santo Amaro da Purificação, terra de Caetano Veloso, Assis Valente e Maria Bethânia, chegou ao Rio de Janeiro em 1876 aos 22 anos de idade, onde casou e constituiu família, tendo sido mãe de 14 filhos.
Ciata além de grande doceira e festeira, era uma Mãe de Santo respeitada pelo povo negro. Ficou mais famosa ainda após ter curado com suas ervas e unguentos uma ferida renitente na perna do à época Presidente do Brasil, Wenceslau Brás. Sua proximidade com o Presidente da República, que lhe garantiu que a polícia não interromperia e encerrasse sob catatau as suas obrigações religiosas nem as animadas festas embaladas principalmente pelo imberbe samba.
Além da própria riqueza musical reinante, naquela época não havia transportes durante a madrugada. Os frequentadores dos terreiros aproveitavam que deveriam aguardar o dia amanhecer para retornar aos seus afazeres cotidianos. A madrugada era consumida então em animadas rodas de batuque, já que a designação “samba” ainda não havia sido cunhada. Geralmente o arrasta-pé virava a noite e a partir daí pode ter surgido o termo “sambar até o sol raiar”.
Pela casa de Tia Ciata passaram grandes nomes da música popular e do samba como Ataulfo Alves, Paulo da Portela, Cartola, Carlos Cachaça, Natal da Portela, Zé com Fome, Silas de Oliveira, Pixinguinha, Hilário Jovino e Donga. Sinhô, Ismael Silva, Bide, Marçal que eram frequentadores assíduos formavam a Turma do Estácio. Essa turma de bambas do Estácio foi a que mudou o ritmo do samba para uma versão mais cadenciada, fugindo do maxixe, como o que se toca até os dias de hoje nas baterias das escolas de samba. Essa mesma turma também cunhou o nome “escola de samba”, pois ensaiavam defronte a uma Escola de Formação de Professores no bairro do Estácio.
Antes do samba que conhecemos o que se dançava era um ritmo maxixado, como podemos constatar no fonograma do primeiro samba gravado no Brasil por Donga, o famoso “Pelo Telefone”. Muitos sambistas torcem o nariz para esse samba, dizendo que o fonograma é um maxixe. Outros sambistas alegam que Pelo Telefone não foi o primeiro samba, pois havia duas gravações anteriores que eram samba como Casa de Baiana em 1913 e Urubu Malandro em 1914. Pelo Telefone foi uma composição coletiva com participação de vários frequentadores da casa da Tia Ciata, mas foi registrada na Biblioteca Nacional por Donga somente, como sendo dele. Mais tarde incluiu também Mauro de Almeida como seu parceiro na composição. Um dos maiores defensores da tese de criação coletiva foi o baiano Hilário Jovino que alegava ser um dos compositores. Hilário Jovino era pai do malandro Saturnino da Praça 11 e primo de Heitor dos Prazeres. Precursor dos ranchos e do Carnaval do Rio de Janeiro, Jovino fundou inúmeros ranchos, que seriam os blocos e escolas de samba de hoje, sendo que um dos mais famosos que se tem notícia llfoi o Ameno Resedá, que tinha entre seus admiradores mais destacados o escritor Coelho Neto. O Ameno Resedá é lembrado até hoje nos desfiles das escolas de samba.
Os sambistas pioneiros não eram vistos com bons olhos pela sociedade. João da Baiana contava que seu pandeiro tinha a assinatura de um senador da república, pois, somente assim poderia transitar livremente com o instrumento pela cidade. Os sambistas eram perseguidos e geralmente vinculados pela polícia a marginais, malandros e capoeiristas, grupo também perseguido e para quem havia sido criada a lei no Código Penal de 1890 que punia quem praticava a capoeira, a Lei da Capoeiragem, cujo texto era o seguinte: "Fazer nas ruas e praças públicas exercício de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação de capoeiragem: pena de prisão celular por dois a seis meses".
Após a Lei Áurea em 1888, o governo brasileiro iniciou um gigantesco processo de embranquecimento de sua população, estimulando a imigração de europeus, primeiramente com alemães e italianos e depois do Japão, quando em 1908 atracou no Porto de Santos o navio Kasato Maru com a primeira leva de 781 imigrantes japoneses que vieram contratados para trabalhar nas fazendas do interior paulista.
Enquanto o país passava pelo processo de embranquecimento ou eugenia como muitos alegam, no Rio de Janeiro era iniciado um imenso processo de gentrificação por parte do governo.
O Rio de Janeiro era a capital do Brasil no início do século XX. O país recém-saído da escravidão era a maior cidade afroatlântica da época, mas ainda com vestígios de vocação rural. Com os novos tempos passou a sofrer mudanças que visavam sua inserção entre as grandes capitais do mundo moderno, reivindicando sua nova vocação urbana incipiente e engatinhando na industrialização. O Centro do Rio era composto por muitos cortiços, alguns com até 2 mil pessoas como o “Cortiço Cabeça de Porco”, daí o nome de cabeça de porco para qualquer tipo de ajuntamento de habitações pobres do mesmo formato. As epidemias sanitárias se sucediam na capital e a classe burguesa clamava por higienização e modernização do centro da cidade.
O Presidente Rodrigues Alves deu plenos poderes ao Prefeito Pereira Passos, que governou a cidade entre 1902 e 1906. Passos foi inspirado pela modernização da cidade de Paris, dando início ao período conhecido como Belle Époque, onde um dos principais exemplos é o Teatro Municipal no Centro do Rio de Janeiro, uma obra prima da arquitetura da época, desenhado por Francisco Pereira Passos, filho do Prefeito, que optou em desenhar uma cópia fiel da Ópera de Paris. Apesar dos esforços de Pereira Passos a inauguração do Teatro Municipal aconteceu somente em 1909 sob a gestão do Prefeito Souza Aguiar, seu sucessor.
O processo de gentrificação da capital foi avassalador e violento, com foco no centro da cidade, onde cortiços foram derrubados à revelia para dar lugar a grandes edifícios, e modernas avenidas. Essas intervenções de Pereira Passos foram consideradas autoritárias, quando grande parte da população pobre foi expulsa desses cortiços sem indenização, tendo que se deslocar para as encostas dos morros da cidade, originando um incremento no número das poucas favelas que existiam naquele período.
A modernização transformou a imagem da cidade com a inauguração da moderna e ampla Avenida Central, no estilo dos boulevares parisienses, com suas lojas e cafés de luxo. Também foi inaugurada a impressionante à época iluminação pública, a reforma do Porto do Rio de Janeiro, o primeiro sistema de saneamento básico eficiente e a vacinação forçada da população sob o comando do sanitarista Oswaldo Cruz. A vacinação compulsória levou a deflagração da insurgência negra denominada “Revolta da Vacina”. A partir da Bélle Epoque, com a modernização da capital do país, o Rio de Janeiro entrou definitivamente para o clube das grandes e modernas cidades do planeta.
A população negra foi a que mais sofreu com os impactos da gentrificação. Primeiro tendo que abandonar o local de moradia de forma compulsória, contra sua própria vontade. Segundo dentro do contexto cultural, onde as manifestações populares como o samba e a capoeira foram perseguidas e proibidas, devido ao forte recorte racial de seus praticantes, motivada pela intenção das elites da capital de europeizar o cenário das artes e da cultura da cidade, banindo a crescente cultura negra do cenário urbano. Para tanto passaram a prender sambistas que portavam instrumentos musicais e verificavam se seus dedos possuíam calos adquiridos com a arte de tocar percussão. Todo esse contexto de gentrificação originou a criação de uma forte burguesia carioca, que repudiava qualquer manifestação de origem africana ou afrodescendente.
Com o passar dos anos, o samba foi se organizando e aos poucos e cada vez mais passando a fazer parte da vida cultural da cidade. No início dos anos 1920 o carnaval de rua organizado era alegrado pelos ranchos carnavalescos da burguesia. Os desfiles aconteciam na moderna Avenida Central e eram um feudo exclusivo da elite e da classe média. Os pobres não podiam desfilar nos ranchos e corsos da Avenida Central, devido ao alto custo exigido na confecção das fantasias, e também por não pertencerem ao mesmo estrato social dos foliões. O primeiro rancho popular a desfilar foi o “Reis de Ouro” de Hilário Jovino, que criou as figuras do Mestre Sala e Porta Bandeira e também o conceito de enredo, depois absorvidos pelas escolas de samba. Os pobres também desfilavam em blocos e cordões compostos por maioria negra que vivia na região da Pequena África. Esses blocos mantinham a tradição de usar atabaques e tambores que marcavam o ritmo das batucadas africanas mescladas com elementos do Candomblé. As primeiras licenças para desfiles de blocos emitidas pela polícia datam de 1889 para os blocos “Grupo Carnavalesco São Cristóvão”, “Teimosos do Catete”, “Corações de Ouro” e “Piratas do Amor”, entre outros.
Havia ainda os “blocos de sujo”, que assim eram denominados porque eram compostos por trabalhadores que saíam do trabalho diretamente para o carnaval, sem tomar banho. Esses trabalhadores-foliões compravam máscaras de Clóvis ou de Velhos e saíam na frente dos cordões, abrindo o desfile dos blocos. Marchavam sempre em grupo, abrindo os desfiles, criando então o embrião das atuais Comissões de Frente das escolas de samba.
Nos anos 1920 a contribuição da Turma do Estácio foi fundamental para compreendermos o samba como é tocado hoje. Os sambistas do Estácio eram famosos e também participavam dos saraus da casa da Tia Ciata, com destaque para Ismael Silva, Bide, Marça e Brancura. Bide foi o criador do surdo de marcação, quando utilizou pela primeira vez uma lata de banha de 20 quilos vazia, colocou papel de saco de cimento molhado amarrou nas extremidades com barbante e arame, aquecendo o instrumento na fogueira. A marcação do surdo criado pela Turma do Estácio retirou o ritmo maxixado do samba e manteve sua característica cadenciada que é utilizada até os dias atuais. Bide também alterou a estrutura de apresentação dos sambas das escolas que eram cantados de maneira improvisada, passando então a ser compostos e ensaiados antecipadamente.
Em 1929, Zé Espinguela ou Pai Olufá, Pai de Santo do Morro da Mangueira e o sambista Paulo da Portela, realizaram o primeiro encontro de escolas de samba, defronte à casa de Zé Espinguela no bairro do Engenho de Dentro. Juntos definiram critérios como Mestre Sala e Porta Bandeira, Samba de Enredo, Ala das Baianas em homenagem a Tia Ciata e a Bateria no que seria a gênese do que assistimos hoje nos sambódromos de todo o país.
Nos anos 1930 os desfiles das escolas de samba eram desorganizados. Não havia uma metodologia definida e a única obrigação das escolas era passar defronte à casa de Tia Ciata, na Praça 11, para reverenciá-la e receber sua aprovação. Não havia um local pré-definido e nem premiação. Nos anos 40 passa a ter início a organização “profissional” das escolas de samba. Alguns sambistas eram muito respeitados pelo mundo do samba e poderiam ser chamados de Embaixadores do Samba, autênticos líderes de ébano, entre os quais se destacava Paulo da Portela e Zé Espinguela. Através das gestões de Paulo da Portela e outros sambistas, o Presidente Getúlio Vargas, empenhado em demonstrar apreço pelo nacionalismo e pela cultura nacional, promulgou finalmente a descriminalização do samba durante o Estado Novo.
A partir desse momento, livres juridicamente para atuar, as escolas de samba se proliferaram com força total, reunindo principalmente nos subúrbios inúmeras agremiações como o Império Serrano, dissidência do Prazer da Serrinha no Morro do São José Operário em Madureira, Conjunto Oswaldo Cruz que depois se tornou Vai Como Pode e finalmente Portela também de Madureira/Oswaldo Cruz, Salgueiro na Tijuca que foi o resultado da fusão de duas escolas do Morro do Salgueiro as “Depois Eu Digo” e “Azul e Branco”. A Imperatriz Leopoldinense na Zona da Leopoldina originária da Recreio de Ramos, tendo como base o Complexo do Alemão, Mocidade Independente de Padre Miguel da Zona Oeste que surgiu a partir do time de várzea local “Independente Futebol Clube”, Unidos Vila Isabel fundada por seu China inspirado não bloco “Acadêmicos da Vila”, bloco da “Dona Maria Tataia” e dos clubes “Unidos da Vila” e “Vila Futebol Clube”. Vila Isabel é um bairro conhecido pelo talento de seus compositores, sendo que os dois mais conhecidos são Noel Rosa e Martinho da Vila, a Deixa Falar sempre carregou sua enorme tradição, que depois se tornou Estácio de Sá, no Centro do Rio de Janeiro, a Vizinha Faladeira reivindica ser a primeira escola de samba e foi a agremiação que introduziu o luxo nos desfiles. A Beija Flor de Nilópolis, da Baixada Fluminense é uma das grandes forças atuais do samba e investe em enredos voltados para a negritude, tendo em Joãosinho Trinta, Neguinho da Beija Flor, Selminha Sorriso e Pinah seus grandes destaques. A nova geração é composta pela União da Ilha do Governador , Unidos do Viradouro, Porto da Pedra, ambas do lado de lá da Baía de Guanabara, Grande Rio, Unidos da Tijuca e São Clemente, União da Ilha, Caprichosos de Pilares, Acadêmicos de Santa Cruz, Unidos de Lucas, entre muitas outras.
As escolas de samba seguem uma antiga tradição de se organizarem por famílias. Tirando a Mangueira como exemplo, podemos ver o poder da escola distribuído entre as famílias. Entre os principais clãs da negritude daquele território estão as famílias da Dona Neuma/Saturnino/Chininha e Guesinha, Geraldo da Pedra, Zé Criolinho, Zé Ramos, Cartola e Zica, Dória, Tia Fé/Gilda/Roberto Firmino e Guanaira, Nelson Sargento, Tinguinha/Elmo, Carlos Cachaça, Zé Criolinho,  Tantinho, Hélio Turco, Alvinho e Padeirinho. Todas famílias importantes na genealogia mangueirense, que sempre mantiveram o poder entre si, excetuando um ou outro pequeno hiato.
A Mangueira surgiu da união de diversos blocos e ranchos da comunidade. No morro já existia o rancho da de Tia Fé denominado Pérolas 

segunda-feira, 23 de março de 2026

O Oráculo dos Aflitos


O Oráculo dos Aflitos

Tupamaro era o rei do boteco, sempre foi. Ninguém nunca soube seu verdadeiro nome, aquele que recebeu na pia de batismo. Era inquieto de nascença e meio esquisito de espírito. Carioca da gema, nasceu na parte mais alta do Pendura Saia, um cantinho pobre do Morro de Mangueira.  Bom de bola e de samba, cresceu voando nas asas da malandragem, trabalhando pouco, um biscate aqui e outro ali e namorando muito, principalmente as belas cabrochas da escola de samba, com as quais revelava seu talento de dançarino, cultivado desde a adolescência quando deslizava feliz no chão de barro da comunidade.

Aposentado precocemente em um golpe bem sucedido no INPS, arranjado por um advogado da Baixada Fluminense, passava o dia na preguiça, tomando umas cervas geladas, beliscando uns torresminhos e ouvindo sambas do seu tempo na vitrola de ficha do botequim.

Parecia um despachante-geral. Em sua mesa cativa do bar atendia e aconselhava o povo como se aquele espaço fosse um oráculo dos aflitos. Para ele a sabedoria da vida era orientada por provérbios, obviamente pertinentes e bem selecionados. Havia sempre um para cada ocasião, quando fazia vez de conselheiro e griot do espaço comunitário que revelava a vida de infortúnios e precariedades de tanta gente sofrida.

Quando via descer a comadre Filó ainda no nascer do dizia: “Tenha um excelente dia! Deus ajuda a quem cedo madruga!”, recebendo de volta um sorriso de cumplicidade e compreensão pelo triste fado de cada dia, de uma vida eivada por tantos sacrifícios e turbulências.

Aquela mesa, naquele bar, era o confessionário profano do cotidiano de toda a gente humilde do território de despossuídos. Encontravam nos provérbios do Tupamaro, um combustível a mais para seguir em frente na longa e tortuosa estrada da vida. Nem tudo é dinheiro, muitas vezes as pessoas queriam apenas um cantinho de acolhimento, um colo e uma palavra de conforto. E isso Tupamaro sabia fazer como ninguém.

Nego Ró sentou na mesa e discorreu sobre seu problema sem antes mandar descer uma bem gelada. Falou da filha dizendo que ela não era muito boa da cabeça e que estava começado a andar com gente ruim. Recebeu na lata a profecia: “passarinho que acompanha morcego amanhece de cabeça pra baixo”.

Quanto mais o dia ia passando mais pessoas passavam na mesa de Tupamaro para receber uma gota de carinho. Assim foi com Zefa do Cuscuz que se chegou para falar sobre seu filho que era um bom menino, estudioso, mas que não conseguia trabalhar em um bom emprego. Ouviu curto e grosso: “Pato novo não dá mergulho fundo” e, “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Já com Antônio Sineiro que reclamava das péssimas condições financeiras que o seu empregador, o vigário, lhe proporcionava ouviu: “De grão em grão a galinha enche o papo”.

Na favela eram comuns as desavenças depois de se exagerar nas doses daquela “que matou o guarda” ou “água que passarinho não bebe “. Tupamaro estava sempre ali, na malemolência da existência, observando e burilando o cotidiano do povo como se fosse um ourives existencial. Nas brigas da comunidade vaticinava: “um dia é da caça e outro do caçador”. Se viesse alguém chorar um amor perdido, aconselhava: “águas passadas não movem moinho”. Quando a mãe vinha reclamar do filho que estava copiando os maus modos do pai, declarava: “filho de peixe, peixinho é”. Muitas vezes vinham chorar pitangas pois não acertavam a milhar do jogo de bicho e ouviam: “quem arrisca não petisca”. Se acusavam uma vizinha de ser mentirosa, falava: “mentira tem perna curta”.

Se a mulher reclamava do carro usado que sempre quebrava, um presente do marido infiel acalentava: “cavalo dado não se olha os dentes”. Muitas vezes era provocado por alguma dona por viver sozinho em uma vida solitária na mesa do bar, respondia então: “antes só que mal acompanhado”. Se falavam alguma coisa repetidamente de alguém acusava: “onde há fumaça, há fogo”. Se ameaçassem dizia: “cão que ladra não morde” e se começava a juntar gente em torno da mesa dizia: “cada macaco no seu galho” ou “cada um no seu quadrado”, sugerindo que procurassem outras mesas.

Quando passava a porta-bandeira e trocavam sorrisos costumava dizer: “esse ovo tá querendo sal” ou “para bom entendedor, meia palavra basta”. Mas ao mesmo não queria perder sua paz no seu cantinho e pensava que a mulher estava querendo mesmo é se encostar em sua casa e pensava: “quem casa, quer casa”. Quando lhe exortavam a ir de encontro a mulher dizia: “a pressa é inimiga da perfeição”. Mas se outros a diziam de pouca aparência ele retrucava: “as aparências enganam” e “quem vê cara não vê coração” e “nem tudo que reluz é ouro”.

Tupamaro não costumava sair com pessoas estranhas. Quando convidado respondia: “passarinho que acompanha joão-de-barro acaba virando servente de pedreiro” ou então “diga-me com quem andas e te direi quem és”. Se alguém pagasse uma cerveja por conta de um bom conselho afirmava: “é dando que se recebe”. Quando elogiado por sua sabedoria costumava se gabar: “em terra de cego quem tem olho é rei”. Mas se uma mulher traída pedisse seu conselho em relação a um novo amor, frisava: “cachorro mordido de cobra foge quando vê linguiça”. Se alguma alma necessitada lhe perguntasse se era crime fazer gato na luz, respondia: “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”.  Se um viúvo lhe perguntasse sobre uma possível companheira que lhe olhava de rabo de olho, mas que já estava de olho em outra, ouvia: “mais vale um pássaro na mão que dois voando” ou “seguro morreu de velho”.

Tupamaro passava os dias ali envelhecendo naquela mesa. Os cabelos com o tempo lhe caíam gris às têmporas e as pernas já não lhe permitiam participar das rodas de samba como passista.  Ficava ali na mesa batucando seus sambas e balançando o corpo, mesmo que sentado. Lamentando cantava: “Quem pode, pode. Quem não pode se sacode”. Ao fim do dia pagava sua conta e rumava para seu descanso ao entardecer onde faria sua refeição reforçada sobre a qual dizia: “saco vazio não para em pé”. Se lhe ofereciam carona para sua casa na parte baixa da rua recusava dizendo: não precisa, “para baixo todo santo ajuda”.

Um certo dia parou de frequentar o bar. A cidade preocupada dirigiu-se a sua residência onde foi encontrado morto, sentado na cadeira de balanço. O corpo inerte mantinha um cartaz em seu colo onde lia-se: “santo de casa não faz milagre, cantei prá subir”.