O momento na crise da segurança pública na Cidade do Rio de Janeiro exige profunda reflexão sobre a ação policial que aconteceu nos complexos da Penha e Alemão. A matança ocorrida em pleno século XXI repete o modelo de invasão militar ocorrido no passado em Palmares e Canudos, onde o estado brasileiro cobriu de sangue o chão de nossa nação. A reprodução da necropolítica contra a população negra, pobre e periférica demonstra que a democracia e os Direitos Humanos em nosso pais ainda engatinham como um bebê.
O eurocentrismo definiu através de inúmeras pseudo ciências que o povo negro era inferior, bárbaro e a base de uma pirâmide racial engendrada pelo racismo que decretava que o ser humano negro não possuía alma.
Ao não possuir alma o ser humano negro não era humano, e assim sendo desumanizado era, passando a ser tratado como animal com todas as ressalvss aos animais. A religião africana se tornou superstição, a língua virou dialeto e a cultura passou s ser folclore. Para agravar o panorama o Papa Nicolau V emitiu duas bulas papais "Dum diversas (1452)" e "Romanus Pontifex (1455)", que autorizavam a invasão, conquista dos territórios não cristãos e a consequente escravização de todos os seus habitantes até a morte. Como no Continente Africano praticamente não havia cristianismo, o mercantilismo/capitalismo viu a oportunidade de conquistar novos territórios e estabelecer mercados consumidores. Para que isso acontecesse decidiu que seria uma medida lucrativa trazer africanos escravizados visando a construção do Novo Mundo.
Imaginemos a curiosidade e alegria da população local quando em 1532 aportou aqui oficialmente o primeiro navio negreiro vindo de África trazendo centenas de africanos acorrentados. Curiosidade étnica pois só viviam por aqui portugueses e indígenas e alegria para os europeus por saberem que não precisariam mais se esforçar em trabalhar, pois a partir daquele momento os negros escravizados seriam a grande força de trabalho na construção da imberbe nação.
Foram 350 anos contínuos de escravidão comercial intensa, onde o Rio de Janeiro se transformou na maior cidade negra das Américas e até hoje, após 137 anos do fim da escravidão decretada pela Lei Áurea em 1888, a escravidão se perpetua dentro maneira insidiosa dentro de uma liberdade hipócrita definida pelos racistas como "democracia racial".
O Brasil desde 1500 até os dias atuais, passou mais tempo sob escravidão do que sob liberdade. Foram 358 anos sob escravidão e da abolição até os dias de hoje são somente 137 anos de "liberdade". Nosso país viveu a maior parte do tempo sob ditaduras, governos golpistas conservadores e racistas, que nunca priorizaram amenizar os tristes fados do povo negro. A cidade negra continua negra mas sempre governada pelos brancos e tampouco livre da escravidão, do destino ontológico imposto pelo capitalismo excludente e opressor. O espírito escravocrata permanece desfilando nas passarelas antropológicas do país de maneira vívida e incólume.
No dia 14 de maio de 1888 o país assistiu ao maior projeto de gentrificação de sua história. Em um cenário surreal, centenas de milhares de negras e negros vagavam pelas estradas e periferias das cidades, sem um destino definido. Surpresos com a liberdade e assustados com a dura realidade, saíram de um cativeiro para outro. Os negros e negras compunham uma legião de analfabetos famélicos, discriminados e enxotados pela população branca que comemorava a novidade das chegadas de incontáveis levas de imigrantes europeus e asiáticos, parte do projeto governamental de embranquecimento da população brasileira. O país desprezava a população negra recém liberta, que passou a ser considerada como um entulho étnico incômodo e descartável.
Desprezada pela população branca e renegada pelo poder público, a população negra foi entregue à própria sorte, ao contrário dos imigrantes que recebiam apoio como terras e subsídios governamentais para que pudessem se estabelecer com suas famílias.
Sem dinheiro para adquirir terras ou casa própria e sem acesso à educação formal, o negro viu seu futuro e de seus descendentes mergulharem na pobreza e na longevidade da sub cidadania.
Lentamente e de maneira humilde, foram ocupando as áreas periféricas das cidades, subiram os morros e invadiram os mangues, de onde nunca saíram, se consolidando com suas famílias em um novo modo de viver que desafiava retirar felicidade da adversidade. Seguiram em frente construindo maravilhas como o samba e a capoeira e cultuando as religiões de matriz africanas, tríade cultural extremamente perseguida pelo estado brasileiro, mas que chegaram com triunfo e glória até os dias atuais.
Ser negro é passar a viver sob o olhar vigilante e inquisidor dos órgãos de repressão e principalmente da Polícia Militar, fundada em 1809 para proteger a corte imperial da maioria negra que compunha a maioria étnica da nação. Assim com o destino carimbado o povo negro seguiu tentando viver sob o estigma da desconfiança e das mazelas do racismo estrutural.
No Brasil em todo período pré-eleitoral são tradicionais as incursões punitivas nas comunidades do Rio de Janeiro. A elite que financia as campanhas eleitorais adora assistir os corpos negros metralhados e ensanguentados no chão das vielas, expostos pelos órgãos de repressão como necrotroféus que simbolizam a vitória e o predomínio da raça branca sobre os pretos e pobres.
Antes negros e miseráveis eram designados malandros e capoeiras, hoje são chamados narcoterroristas, mas na verdade, independentemente do que façam, a pergunta que não pode calar é quem os produziu e os colocou ali naquele território estéril, coberto de pobreza, tristezas e desesperanças.
Os negros carregam a sina de degredados em seu próprio país. O abandono e o preconceito permanecem como ectoplasmas epistemológicos que constituem óbices renitentes no cotidiano do povo negro. Óbices que através de um moto contínuo inexorável, insiste em repetir o 14 de maio de 1888 em seus mais mínimos detalhes, transformando as comunidades em algo que nada mais são que senzalas contemporâneas.
O Estado falhou miseravelmente ao não conseguir suplantar o racismo estrutural em nossa nação. Abriu mão da reparação histórica através de um vigoroso programa de inclusão pelo mecanismo das políticas públicas. Em lugar de ações locais de reparação e promoção das populações em vulnerabilidade, envia seus aparelhos de repressão para operar a necropolítica que transforma as comunidades e suas populações vulnerabilizadas em “disneylândias da morte”, sob aplausos da elite e de grande parte da classe média.
A morte de 120 cidadãos brasileiros em um único dia, em espantosas batalhas sangrentas, salvo engano aponta para um estado débil e fracassado no que concerne a uma eficaz política de segurança pública. Essas 120 pessoas que morreram crivadas de balas, talvez nunca tenham tido a chance de serem acolhidas em uma escola de qualidade, possuir uma família estruturada e oportunidades reais de possibilidades de acesso à cidadania.
Essas pessoas mortas talvez nunca tenham tido uma única chance para que pudessem usufruir de uma vida digna e assim poder modificar suas existências. Escolheram viver e morrer à margem da lei, em conflito com a lei, sem ao menos supor que a lei historicamente sempre esteve em conflito com elas.
As comunidades vulneráveis são máquinas de moer futuro devido ao abandono programado pelo estado brasileiro. O narcotráfico rendeu fortunas aos barões das drogas que em sua grande maioria vive fora do Brasil, deixando uma grande maioria negra e caricata defendendo seus interesses com a própria vida se for necessário.
A reflexão que podemos fazer no momento é até onde o estado brasileiro realmente se empenha em produzir cidadania e bem estar para os moradores de comunidades. As incursões punitivas que os aparelhos de repressão fazem nas comunidades são como enxugar gelo ou manipular a opinião pública em períodos anteriores aos certames eleitorais. Aqueles que morreram foram substituídos imediatamente após a morte do titular pois o território precisa ser resguardado. Nada mudou a não ser os novos apelidos dos novos "funcionários" da "firma".
A cidade voltou ao normal deixando um enorme rastro de sangue para trás. Ficará para sempre na lembrança a eliminação de uma centena de pessoas, que embarcaram em uma canoa onde o canoeiro que nesse caso é o estado brasileiro não faz questão nenhuma que o barco se mantenha na superfície. Enquanto o estado não tomar para si um vigoroso programa de políticas públicas de inclusão de populações vulneráveis, que aguardamos desde 14 de maio de 1888, tudo o que for feito será como "enxugar gelo" ou então para "inglês ver".