Afroliteratura, Cultura Negra, Direitos Humanos, Combate ao Racismo, Diversidade
quarta-feira, 26 de março de 2025
A madrugada e a poesia
Madrugada na cidade, onde somente os ansiosos ou os livres saem às ruas. Ouço ruídos desconexos enquanto me conformo em minha cotidiana jornada insone. Penso no tempo da vida, sobre o quanto ele pode ser importante e quanto quase nada vale, pois, durante a madrugada, o tempo dos notívagos insones pouco vale. Parece que o tempo é verdadeiramente importante quando há plateia, espectadores. Imaginem a cena de um circo, onde os trapezistas se encaram fixamente diante do salto mortal final em um picadeiro vazio, sem o suspense e o pulsar da adrenalina do grande público? A importância não está somente em você, ser humano precisa de plateia para se legitimar, de espectadores, assim é a vida.
O tempo da madrugada é tipo uma ditadura perene, imanente, onde o insone sofre sob o lento passar do tempo. O tempo universal não se importa com o destino e as emoções dos humanos, é uma quarta dimensão inexorável que se abate sobre o catre, de maneira indiferente, arrastando as expectativas e os desejos para a sua própria dimensão, sem lhe dar importância ao clima distópico desse mundo de heróis superficiais.
A madrugada possui um tempo lento, tempo de solidão, entremeado e compartilhado com suspiros e assombrações. Ali no espaço cruel da solidão, entre a realidade e o sono, existe o que podemos chamar de poesia estranha e difusa. É como se por força e diante de elocubrações cognitivas, a alma cede sua essência ao diáfano mundo da criação. Oh, alma criativa! Mãe de todos os deserdados do leito matrimonial! Via de escape dos atormentados pela incompreensão da vida! Dai-nos a paz, alma criativa. Sabemos bem da sua predileção pela noite, pelo silêncio do tempo perdido das madrugadas, pela dor desesperada dos poetas.
Enquanto a cidade dorme, nós os poetas sofremos em nossa solidão soturna. Deitados caminhamos entre os moinhos de Cervantes e as amarelinhas de Cortázar, Eneidas, Odisseias, Lusíadas, Divinas Comédias, Ulisses, Whitman, Ezras, Alejos & Carpentiers, Borges, Manns e Policarpos Quaresmas. A madrugada dos poetas é um mundo à parte onde as letras saem iluminadas como vagalumes espectrais, compondo uma sinfonia eterna entremeada de luz e cores.
Enquanto a humanidade dorme o sono dos justos o poeta insiste e teima em dormir, contrariando o afã pulsante de sua alma criativa. Quer ser normal como as outras pessoas, como todas as pessoas normais do mundo, mas como um sísifo fadado ao infinito labor, cumpre sua sina infatigável de subir as pedras das letras, noites após noites nos despenhadeiros da vida. Sua obra talvez nunca seja admirada, mas qual o quê! É realizada pela incompreensível vontade da psiquê incontornável dos loucos, determinados e incompreendidos. Uma criança chora ali, um cão ladrão acolá. São os ruídos da noite. Uma moto transporta sonhos para algum lugar e pássaros boêmios cruzam os ares embebedados pelo ar fresco da madrugada.
Finalmente a madrugada vai nos deixando, silenciosa e sorrateiramente, dando lugar a um dia ainda envergonhado por dar fim aos pirilampos brilhantes de letras e suspiros. O sol surge então com seu poder avassalador de estrela, desperta os normais que correm expeditos aos seus trabalhos, aos compromissos de um mundo enlouquecedor.
O poeta então desaba ao se defrontar com o mundo dos normais, com a busca insaciável por dinheiro, por coisas vãs, por desejos materiais. O poeta se espanta ao se ver cercado de cartões de crédito, boletos, prestações, hipotecas, crediários e caminhões de botijões de gás tocando músicas fanhosas. É o mundo dos homens, é o mundo do dia, das guerras, dos poderosos. É o mundo do dinheiro, da ganância, do egoísmo e individualidade. Nesse cenário caótico e humanamente incompreensível para se viver, o poeta caminha atento, tentando salvar seus vagalumes da tórrida existência dos conformes diurnos.
A madrugada dos poetas é acolhedora. É como um ventre solidário e solitário, que nutre sonhos que iluminarão em tempos contemporâneos, outras almas ávidas por pirilampos de poesias.
sexta-feira, 21 de março de 2025
Enredo Afro, pára ou continua?
Para muitos está havendo uma overdose de África na Marquês de Sapucaí, a avenida ou sambódromo onde acontecem os desfiles.
Entrando na polêmica, gostaria de pontuar algumas questões: o samba é uma manifestação cultural essencialmente negra. A gênese e as próprias digitais do samba estão impressas nos terreiros da Umbanda Omolokô, ou Umbanda Carioca e do Candomblé, tanto de Nação Ketu como Angola.
Falam tanto de Tia Ciata mas esquecem de aprofundar as narrativas, anunciando que a “casa da Tia Ciata” também era o homônimo de “Terreiro da Tia Ciata”.
O samba é coisa antiga, praticado no Recôncavo Baiano, nas rodas culturais do povo preto, em Cachoeira, Santo Amaro da Purificação e outras bandas daquele território habitado de maneira predominante por africanos escravizados e negros brasileiros nascidos no cativeiro.
No pós abolição houve uma grande movimentação de ex-escravizados do Recôncavo Baiano para o Rio de Janeiro, denominado “Grande Êxodo” ou “Êxodo Baiano”. A grande maioria se estabeleceu no Centro do Rio de Janeiro, entre a Pedra do Sal e o Estácio, em um território denominado “Pequena África”, por Heitor dos Prazeres.
Ali naquele espaço geográfico estavam localizados diversos terceiros de religião de matriz africana, os zungus, que eram casas de angú e ponto de encontro do povo negro e cortiços onde se aboletavam as famílias pobres, sendo que o maior e mais famoso de todos era chamado de “Cabeça de Porco” , pois tinha uma cabeça de porco esculpida na entrada.
Foi nesses espaços negros que o samba carioca deu seus primeiros passos. Foi embalado nos colos das Ialaorixás, Iqequerês e Iaôs. Nos cânticos e atabaques de alabês, cambondos e runtós. Da corruptela bantu “semba”, ou umbigada, talvez tenha saído o batismo do nome samba.
A Pequena África fervia no pós-abolição. O povo negro se reunia em torno rodas de jogo, dos tabuleiros das baianas, em busca de oportunidade de trabalho e nas animadas festanças regadas pelo lundu, tipo de canto e dança de origem africana.
Não havia somente a casa da Tia Ciata. Havia Tia Perciliana, mãe do João da Baiana, Tia Bebiana, Tia Amélia e Tia Carmem do Xibuca, de Oxum, iniciada nos mistérios das Iyamis Oxorongás.
Essas tias possuíam seus terreiros de Candomblé ou de Umbanda Omolokô e eles pariram o samba carioca. Nasceu da cosmovisão africana, da macumba, do baculejo, enfim, da coisa de preto.
Branco não se metia em samba, era coisa de preto, de macumbeiros, de ex-escravos. O samba era proibido, assim como a Capoeira. Os negros não podiam cantar samba, cantar a oralidade africana, suas estórias e ancestralidades, branco tinha medo.
Foram quase 100 anos de clandestinidade, de opressão, repressão e cadeia. A partir dos anos 30 do Século XX a perseguição começa a ter fim e o samba pode finalmente mostrar sua força africana, seu perfume de ébano para toda a sociedade, através das escolas de sambas pioneiras, de alguns ranchos como o Ameno Resedá de Hilário Jovino e de blocos de sujo.
A partir de então foi uma explosão de negritude que uniu o Estácio, Morro da Mangueira com a Serrinha em Madureira, Portela em Oswaldo Cruz, Vila Isabel e Vizinha Faladeira na Zona Portuária.
Do primeiro “Econtro de Escolas de Samba” no Engenho de Dentro em 1928, produzido por Zé Espinguela, passando pelo primeiro desfile oficial em 1932, até os dias atuais, o samba sempre foi africano, sempre organizado pelo povo negro em territórios pretos.
Quando acusam as escolas de samba de exacerbaçao dos enredos “afros”, estão promovendo uma tentativa de epistemicídio, pois tentam apagar, dizimar, a origem africana do samba. Depois de quase um século de perseguição o samba pode finalmente falar de Exu, Pomba Gira, Tranca Rua, Orixás, Caboclos e Inquices.
O racismo estrutural possui uma orientação visceral contra as manifestações da negritude. Primeiro proibiu, depois tolerou, assimilou e agora quer se apropriar em definitivo, determinando o que é aceitável e o que não é. Quando a chibata cantava nas costas dos sambistas não tinha branco se manifestando contra a arbitrariedade, mas sim a favor.
Acho engraçado que ninguém opina sobre a predominância alemã da Oktoberfest. Nunca vi nemhum negro reclamar pelo excesso de cultura alemã no belíssimo evento do Sul do Brasil.
quarta-feira, 5 de março de 2025
Não deixe o samba morrer
Agora cismaram que nos desfiles de escolas de samba tudo é religiosidade africana. Esse pessoal podia estudar um pouco mais os enredos sobre a cosmovisão africana e suas ancestralidades. O Continente Africano possui 54 países com mais de 100 idiomas e culturas diferentes. De muitos desses países vieram os escravizados que participaram de nossa cons tituição indo-afro-ibérica. A empresa colonial e escravista transportou para o Brasil entre o Século XVI e o Século XIX cerca de 5 milhões de africanos escravizados, sendo que 1 milhão deles e delas morreram na travessia e foram jogados ao mar, muitos ainda vivos mas com enfermidades.
No século XVI o Continente Africano era totalmente desconhecido pelos europeus. Salvo a costa do Marrocos onde os portugueses conquistaram Ceuta em 1415, quando partiram de Lisboa com 220 navios e 50 mil homens.
A partir de Ceuta os portugueses passaram a avançar pela costa africana prevendo a instalação de entrepostos que serviriam de apoio para a carreira das Índias, completada por Vasco da Gama em 1498.
O Cristianismo na África Subsaariana ainda era muito incipiente no Século XVI mas tomou impulso com a emissão das s bulas papais Dum Diversas e Romanus ok, onde a Igreja Católica passou a permitir a escravização de não-cristaos, gentios e sarracenos.
Os escravizados que foram trazidos para o Novo Mundo cultuavam suas religiões e credos de matriz africana, desse modo não conheciam outra religião e tampouco o Cristianismo. Voltando para a Marquês de Sapucaí, se o enredo for contar alguma história do povo negro, que construiu essa nação, necessariamente passará pelas religiões de matriz africana. A própria existência das escolas de samba está intimamente vinculada aos centros de Umbanda Omolokô e terreiros de Candomblé. Foi no intenso caldeirão cultural da Pequena África, no Centro do Rio de Janeiro, que o samba carioca começou a tomar forma. A referência principal da gênese do samba foi a casa da Tia Ciata, Iaquequerê do terreiro do famoso babalorixá João Alabá, que assumiu o terreiro do babá Bamboxé Obitikô, que voltou para Lagos na Nigéria após a abolição da escravatura.
Tia Ciara curou uma ferida renitente na perna do Presidente Wenceslau Braz, que em reconhecimento proibiu a polícia de interferir tanto na prática religiosa do terreiro, como nas rodas de batuque que varavam as madrugadas. Existiam também outras "tias" como Amélia, Perciliana (mãe de João da Baiana), Bebiana e Carmem do Xibuca de Amaralina, que animavam as noites da Pequena África. Dali o samba foi se moldando e se espraiando para todo o Rio de Janeiro. A turma do Estácio com Ismael Silva, Bide, Marçal , Brancura e Edgard deram luz ao ritmo cadenciado para o samba que é tocado assim até hoje. Madureira tinha o Ogã e jongueiro Paulo da Portela que fundou o Conjunto Oswaldo Cruz que passou a se chamar Vai Cono Pode e depois Escola de Samba Portela. Na Serrinha tinha a Dona Eulália, Vó Joana e Tia Maria, todas do jongo, além de Mestre Fuleiro, Molequinho, Mano Décio e Eloi Antero Dias, o Mano Elói, pai de santo que levou o samba para a Mangueira. Carlos Cachaça que foi testemunha ocular do fato afirmou que Mano Eloi apresentou o samba no terreiro de Omolokô de Tia Fé, na presença de Zé Espinguela, o Pai Olufá e outros presentes. Tia Fé, figura lendária e venerada até hoje em Mangueira fundou um rancho carnavalesco denominado Pérolas do Egito, que junto com outras agremiações formaram a Estação Primeira dé Mangueira em 1928 sob a direção de Cartola, que era cambono da Umbanda Carioca ou Omolokô, Saturnino Gonçalves pai de Dona Neuma, Abelardo da Bolinha, Carlos Cachaça, Seu Euclides, Zé Espinguela, Seu Maçú e Pedro Paquetá. Em Vila Isabel tinha Noel Rosa que viveu embates famosos com Wilson Batista.
Aliás, Paulo da Portela e Zé Espinguela no ano de 1929, realizaram o Primeiro Encontro de Escolas de Samba no terreiro de Zé Espinguela Engenho de Dentro que foi a gênese dos atuais desfiles de escola de samba. Esses pioneiros e pioneiras passaram muito aperto com a repressão da época por fazerem samba.
Como não falar de religiosidade se as baterias das escolas de samba tocam cada uma para seu orixá. A Mangueira, por exemplo, toca para Oxossi enquanto que a da Portela e da Mocidade para Ogun, União de Padre Miguel para Xangô e e assim por diante.
Após recebermos este tesouro cultural, passamos a ser cerceados pela branquitude beócia de nossa ancestralidade, tentando através de discursos anódinos, conter nosso vigor e paixão pela riqueza de nossa origem multicultural e pluriétnica. Para eles é fatigante ouvir nossas ancestralidades e de acordo com seus desejos, não poderemos mais contar nossas epifanias, cantar as histórias de nossos ancestrais na festa que nós criamos e eles querem ditar as regras. Até compreendemos que é difícil emocionados das bolhas do zap compreenderem a complexidade cultural da cosmovisão africana. Assim é mais fácil se levantarem escudados em falsos biombos de proselitismos. Pode haver Oktoberfest todos os anos com as mesmas mulheres loiras, olhos azuis, caucasianas e batavas, aboletadas em cima dos mesmos carros alegóricos, cantando as mesmas canções saxônicas que está tudo certo. Mas nos carros alegóricos dos negros não pode. Como diz Milton Cunha, escola de samba é negritude, pretitude, gente suada falando alto, tomando cerveja, é macumba sim, é resistência e aquilombamento. Quem não pode com mandinga não carrega patuá. Valeu Zumbi.
segunda-feira, 3 de março de 2025
O desfile das escolas de samba que você provavelmente não conhece
Acabei de sair do desfile da Mangueira como membro da consagradíssima Ala dos Compositores, a primeira desse tipo nos desfiles e fundada por Cartola. Não sei se sou merecedor mas me empenho por ser, sabendo que por ela passaram além de Cartola, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento, Zé Ramos, Hélio Turco, Leci Brandão (ainda membro), Carlos Cachaça, Saturnino Gonçalves, Zagaia, Xangô, Jamelão, Jurandir, Zé Criança, Geraldo da Pedra, e Gradim entre tantos outros.
Dentro de um desfile existem vários desfiles. Enquanto a escola passa desfilando sua imponência, centenas de pessoas trabalham esbaforidas para que nenhum contratempo aconteça ou então corrigindo contratempos que podem retirar pontos da escola.
O desfile não permite teste drive para os carros alegóricos. Nos ensaios técnicos as atenções são voltadas para som, luz, evolução e cronometragem. No desfile prá valer as operações pré desfile são tensas: colocar os destaques no topo dos carros alegóricos, subir os componentes nas alegorias, verificar os obstáculos aéreos, bombeiros civis para prevenção de incêndio, hidratação dos componentes na concentração, dar os últimos retoques nas alegorias, conferir as fantasias das alas e garantir o melhor alinhamento possível das fileiras de componentes antes de entrar na avenida. Correndo por fora tem a afinação dos instrumentos da bateria e os testes de som p os intérpretes e da própria bateria. Existem ainda diversos detalhes que são infinitesimais como maquiagem da comissão de frente, efeitos especiais e por aí vai.
O resultado final é sempre consagrados, destarte um tombo aqui e outro ali, uma alegoria perder uma peça, abrir espaços entre as alas (buracos) e a escola ter que correr no final para não extrapolar o tempo.
Geralmente todas as escolas passam bem, dentro do tempo mas sempre com uma pequena falha em algum setor. É o preço que se paga por colocar quase 4 mil pessoas em uma grande ópera à ceu aberto com músicos e cantores sem formação musical da academia, separados por esculturas gigantescas se movendo em direção ao final do desfile.
É no mínimo uma façanha. Portanto, independente do resultado, os componentes dessas agremiações colocaram seus corações em casa detalhe, em casa alfinete, nos ensaios de canto, nos ensaios de rua, nos ensaios técnicos e nas fantasias. Essas pessoas em prol das cores de seus pavilhões deixam a vida de lado e mergulham na obsessão da construção do carnaval de suas escolas. São as garbosas Velhas Guardas com seus bravos componentes octogenários, os membros das baterias e comissões de frente com seus ensaios extenuantes, poetas e compositores responsáveis pelo hino que a escola levará para a avenida, om seus ensaios extenuantes, passistas, casais de Mestre- Sala e Porta-Bandeiras que ensaiam de forma ensandecida e as deliciosas alas das comunidades onde o sangue da escola pulsa com mais vigor.
O esforço da direção da escola para controlar esse turbilhão é louvável. São centenas de profissionais assalariados na quadra de ensaios e no barracão de alegorias, abastecimento de bares a quadra, realização de eventos para arrecadação de fundos, controle de mensalidades, gastos com fantasias, viagens de representação etc. Tudo isso acontece o ano inteiro para que a escola desfile por 80 minutos para jurados imparciais vê inclementes.
Ao fim somente uma será campeã e todas as outras amargarão a derrota e o ano investido com tanta fibra e dedicação.
Esses são os desfiles dentro do desfile. É como um iceberg onde só enxergamos a parte acima da superfície. Faz pó arte da nossa cultura e é sempre bom lembrar que todo esse espetáculo tem sua origem na Umbanda Omolokô e nos terreiros de Candomblé da Pequena África.
sábado, 1 de março de 2025
Paulo Barros contra Zumbi
O Carnavalesco Paulo Barros causou polêmica ao afirmar seu repúdio aos enredos afros das escolas de samba. O mais surpreendente é que ele como carnavalesco afirmar que "não gosta" de enredo sobre a cosmovisão africana. Qualquer ser humano que que tem o privilégio de montar esta grande aula a céu aberto que é o desfile de uma escola de samba, dirigida para milhões de pessoas em todo o planeta, deveria ter orgulho de mostrar as raízes africanas que estão entranhadas na identidade nacional de maneira inquestionável.
Não se trata de "gostar", trata-se sim de honestidade intelectual, pois, em 2022 na Paraíso do Tuiuti, Barros apresentou o enredo afro "Ka Riba Tí Ye - Que nossos caminhos se abram", quando a escola amargou o décimo primeiro lugar. Portanto o debate deveria se concentrar não em gostar ou não gostar e sim saber ou não saber desenvolver um enredo sobre a cosmovisão africana. Para quem já fez enredo sobre "Playmobil", demonstrando que atira em todas as direções, geralmente sem o sucesso da vitória, deveria se manter respeitosamente calado sobre o tema e não criticar os seus adversários com manifestações que insuflam a extrema-direita nacional. Ao negar de maneira peremptória a importância das raízes africanas, sempre sub representadas e até ocultadas pela historiografia oficial, Paulo Barros, por conta de sua limitação intelectual, presta um grande desserviço à luta pela promoção da igualdade racial no país. Não são somente "enredos afros", e sim o resgate histórico da saga de um povo que amargou 350 anos de cativeiro, registrado como um dos maiores genocídios da história universal. A redução da tragédia transatlântica afrodiaspórica, que sequestrou e escravizou nas Américas e Caribe mais de 20 milhões de africanos sequestrados de seus lares, onde eram livres em África deve ser sempre lembrada, para que nunca mais se repita. Se a representação artística desse trágico e inesquecível panorama "desgosta" o carnavalesco Paulo Barros é porque ele possui sérios problemas em relação às reparações históricas que estão em curso em todo o mundo democrático. Paulo Barros já fez um enredo sobre a Alemanha em 2013 e teve um carro alegórico sobre o Holocausto Judeu proibido pela justiça em 2008, evento que causou protestos e grande comoção na comunidade judaica, representada no fato pela Federação Israelita. Paulo Barros originalmente , em seu enredo, vestiria um destaque de Adolfo Hitler no carro alegórico do Holocausto da Viradouro. O escândalo foi rapidamente abafado pela escola e assim que terminou o desfile o carnavalesco foi defenestrado da instituição. Em tempos de recrudescimento do fascismo e do nazismo no Brasil, acho melhor passarmos a prestar mais atenção em seus movimentos, pelo que podemos observar sua capivara não é das melhores e suas digitais estão espalhadas por aí.
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