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Racismo Ambiental

quarta-feira, 11 de maio de 2022

MÃE É PARA SEMPRE

Dona Ana chegando aos 100 anos.
O Dia das Mães sempre me soou ambíguo. Desde criança pensava nas pessoas que não tinham mãe. Algumas haviam perdido pelos tristes fados da vida, outras nem mesmo chegaram a conhecê-las pelos mais diversos e dolorosos motivos.Como será o Dia das Mães em um orfanato? Como será o Dia das Mães que perderam seus filhos?
Nesse dia, quando a mídia invade nossas vidas com propagandas amorosas visando nosso convencimento ao endividamento e ao consumo, também penso naquelas pessoas que têm mãe mas, desempregadas e endividadas, não podem ao menos comprar um simples mimo para a homenageada do dia.
Por um outro lado, não se pode vedar a ansiedade e alegria que acompanham o momento da entrega de um presente para aquela que desde a gestação nos oferta amor incondicional. Geralmente elas dizem que o presente não é necessário, que não precisava gastar dinheiro com isso, que depois vai faltar dinheiro para pagar as contas etc. Falam sempre assim, mas por dentro estão explodindo de felicidade e orgulho de estar com suas crias sob suas asas, almoçando o indefectível macarrão com frango mais delicioso do mundo.
Antes eu acusava o capitalismo de criar essas datas p gerar mais consumo, para aquecer a atividade econômica e gerar mais lucros. Mas hoje quero que essas teorias se danem, pois, uma mãe feliz vale muito mais que um milhão de Karl Marx e Adam Smith juntos.
Hoje saio de casa sem ninguém para me lembrar do casaco ou do guarda-chuva, mesmo sob calor de 40 graus. Não tenho ninguém para me assustar quando resolvo sair em horários noturnos, citando as manchetes dos programas vespertinos diários eivados de violência. E agora quando chego, independente do horário, não há mais aquele prato feito, o tradicional PF em cima da panela coberto com a tampa da mesma. Era o melhor banquete do mundo.
As namoradas sofriam nas mãos dela. Era de uma ironia fina incomparável. Nenhuma sobrevivia a seu julgamento. Depois reclamava q eu não casava nunca, que queria netos, etc.Toda mãe é pura metamorfose ambulante.
Aprendi com o tempo que não há entidade maior nesse planeta. Não há exércitos, corporações financeiras, parlamentos, nada, nada pode ser maior, nada pode superar o poder das mães.As abastadas cobrem os filhos de presentes e amor, as menos favorecidas pela vida cobrem os filhos de amor e amor. 
Então quando esse dia vai se aproximando fico tenso, um tanto agoniado, triste, pensando nela que partiu deixando um vazio enorme em minha vida. Existem outras mães em minha vida: as mães dos meus filhos, minha ex-sogra que amo muito, as mães dos amigos mais próximos, minhas irmãs que são mães e até sobrinhas e sobrinhas-netas que também são mães. São muitas mães originárias da mãe-mater, a principal. São como fios de uma teia invisível mas luminosa, que nunca para de ser tecida por teares mágicos de amor.
Acho que as pessoas que não têm mãe no Dia das Mães se aproximam mais de Deus. É quando os sentimentos se tornam mais puros e verdadeiros. É quando fortalecemos a crença em outros planos existenciais mais elevados. É quando nos sentimos transbordar com o verdadeiro amor.
A única forma de homenagear, o único presente que posso ofertar para ela que não está mais aqui, é ser sempre e cada vez mais, uma pessoa melhor. Viver em harmonia comigo mesmo, respeitar o outro, fazer valer à pena seu legado. Amanhã despertarei sendo uma pessoa melhor em homenagem à sua memória, coisa que faço todos os dias desde que ela nos deixou. E assim será até o reencontro um dia.
Amor que não se mede. Dona Ana marcou seu tempo de vida aqui na Terra. Liderança católica e de esquerda, parteira das boas, mãe dos meus amigos, enfermeira profissional de primeira e jamais errou quando atirava o chinelo na gente. 

terça-feira, 10 de maio de 2022

VERMELHO

 

Vida de sinal

Fechou, vai! Se apresenta!

Mundos diferentes separados pelos vidros insensíveis da vida

Pela desigualdade transparente e excludente

Retirar esperança dos parcos segundos vermelhos

Da mimetização estática do tempo

Dos segundos de espera

Aguardando um gesto de amor e desejos de dias mais verdes

O sinal não espera

Frio, moldado no tic tac do tempo dos homens

Verde é verde

Vermelho é vermelho

Cada um preso em seu círculo de luz

Os carros ficam aflitos e ansiosos, há tensão no ar

Loucos para partir em busca de seus indecifráveis e até inconfessáveis futuros

Fechou mané! A hora é essa! Já é!

Mostre suas esperanças e possibilidades, suas toscas habilidades

Através do balé carente das bolinhas

Malabarismos com bolinhas no sinal

Sinal de falência da civilização

Sol escaldante, chuva fina, dia e noite

O show não pode parar

A fome não espera

A escola pode esperar

Quem sabe um dia tenha um dia de criança feliz

Sonhos embargados pela emoção

Pela indiferença do concreto da urbe

Eu quero um deus que me traga a beleza

Que me traga o calor do amor

Um deus sem cascas

Um deus novo

O Deus da restauração

O balé quântico das bolinhas se inicia

Buscando a aprovação insensível da cidade

Que poderia estourar as bolinhas da desigualdade com gestos de amor

Que dessem cor e magia a tanta desumanidade

É luz vermelha! Tempo! Ação! Bora irmão!

No corre-corre do vermelho um diz sim, dez dizem não

Cem teatralizam  fingindo alguma ocupação

Evitando o compromisso espiritual de irmão

De partilha e de solidariedade

Mas um disse sim

Sangue bom

Salvou o pão c mortadela e um bombom

E o refri pra aguentar esse rojão

Fechou mané, um bom fez boa ação

Bolinhas mil na careta dos caretas

Subindo são lamentos dos navios negreiros

Descendo são as pretas velhas socando o pilão no cativeiro

Socando a fome no pilão

Um bom fez boa ação! Salvou o pão e o macarrão meu irmão, valeu!

E o do refri prá aguentar esse rojão que ninguém é de ferro não

Abriu, verde, esperança!


quinta-feira, 5 de maio de 2022

LUIZ GAMA - O SPARTACUS BRASILEIRO

Luiz Gonzaga Pinto da Gama, chamado o ‘Spartacus Brasileiro’, é um dos maiores brasileiros de todos os tempos. Nasceu na cidade de Salvador, capital da Bahia, em 21 de junho de 1830, em um sobrado da Rua do Bângala, na Freguesia de Santa’Anna. Sua mãe, Luiza Mahin, segundo alguns historiadores, foi uma princesa da Costa da Mina, sequestrada de sua casa real e trazida para o Brasil na condição de escrava. Do pai de Luiz Gama ninguém nunca soube o nome. O que se sabe é que foi um fidalgo branco de posses e pertencente a uma tradicional família baiana de origem portuguesa.
A mãe era mulher culta, letrada e islamizada. Conseguiu comprar a própria liberdade no ano de 1812. Alforriada então, inicia sua participação em inúmeros levantes de escravos que lutavam por liberdade na Bahia. Luiza Mahin sempre foi uma revolucionária convicta, participando de quase todas as rebeliões de cativos que sacudiram a Bahia no início do século XIX, com destaque para a Revolta dos Malês e também a Sabinada. Sua casa servia de local de encontro dos insurretos e Luiza, como trabalhava como quituteira nas ruas de Salvador, era encarregada de distribuir as mensagens secretas para os revoltosos, com as instruções de reuniões e atos de sabotagens. Foi perseguida e refugiou-se no Rio de Janeiro onde ao chegar integrou-se em outras rebeliões. Algumas fontes dizem que foi presa e deportada para África. Outras asseguram que refugiou-se no Maranhão, onde desenvolveu o Tambor de Criola. Seu verdadeiro destino permanece em mistério até hoje.
Luiz Gama foi o homem que Rui Barbosa, o Águia de Haia, se referiu na Conferência sobre o Abolicionismo de 1911 da seguinte maneira: “...foi uma rara fortuna ter cultivado intimamente a amizade de Luiz Gama em lutas que nunca esquecerei”. Rui Barbosa e Castro Alves formavam com Luiz Gama o trio baiano de abolicionistas mais brilhantes na capital paulista. Era no escritório de advocacia de Luiz Gama que Castro Alves, Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, entre outros, se reuniam para falar de política abolicionista, república, Direito e Maçonaria, ordem onde Luiz Gama galgou os mais altos graus da Loja América em São Paulo, um centro irradiador da abolição da escravidão e da república. Foram nas reuniões desta Loja que eles tomaram conhecimento desses ideais liberais e progressistas. A amizade entre os baianos é comprovada quando Luiz Gama levou o amigo Castro Alves ao navio que o transportaria ao Rio de Janeiro para se tratar de um acidente com arma de fogo. Do Rio de Janeiro o Poeta dos Escravos partiu para a Bahia e nunca mais retornou a São Paulo, morrendo muito jovem, retirado na propriedade de seus genitores.
 Como consolidar a amizade entre dois representantes da alta burguesia baiana com um negro, vendido pelo pai aos 10 anos de idade como escravo. O menino escravo, tornou-se um voraz autodidata, que por força da vida, já que foi proibido de frequentar a Faculdade de Direito de São Paulo por sua condição racial, ensinava Direito a seus pupilos conterrâneos que nela estudavam. Porém o infortúnio do destino, a escravidão em voga e o racismo, não permitiram que ele pudesse nela estudar.
Ao completar 10 anos, no dia 10 de outubro de 1840, Luiz Gama ouviu de seu pai que fariam um passeio. Apesar de nunca falar sobre seu genitor, nem mesmo pronunciar seu nome, disse que o pai era carinhoso com ele. Porém, mesmo pertencente a uma rica família, endividou-se me demasia, metido em súcias que vivia, e o passeio de barco do menino na verdade era a sua venda como escravo para o Rio de Janeiro, em um navio de nome Saraiva. Sua mãe estava foragida por contas de sua participação em diversos movimentos sediciosos e deixou o menino com o pai até que pudessem reunir a família novamente, o que nunca mais aconteceria.
Ao desembarcar no Rio de Janeiro na companhia de um grupo de cerca de cem escravos, foi entregue a um português de nome Vieira, que possuía um comércio de velas na Rua da Candelária no centro da cidade. Vieira também comerciava grupo de escravos oriundos da Bahia em troca de polpudas comissões. O português o levou para a própria casa, onde avaliou que o menino poderia fazer companhia, servindo de pajem a seus filhos. A esposa do lusitano se afeiçoou ao pobre piá negro, assim como todas as mulheres da casa, que se encantaram com o menino tão jovem, indefeso, envolvido pelo manto da tanta penúria, porém repleto de doçura. Deram-lhe um bom banho, roupas limpas e o colocaram em uma cama para dormir, quando enfim pode ter sua primeira noite de sono tranquila e em segurança, desde que havia saído da Bahia no paquete Saraiva.
O português Vieira, com seu coração na sola do pé, resolveu vender o menino para outro traficante de escravos, que o levou com um grande grupo de cativos para São Paulo em viagem de navio. Desembarcaram no Porto de Santos e subiram a perigosa e temida Serra de Cubatão rumo a longínqua cidade de Campinas, percurso que fizeram à pé, em sofrida caravana. Tanto em Campinas como em Jundiaí, os compradores de escravos rejeitaram Luiz Gama por ser de origem baiana. Os senhores de escravos tinham notícias das revoltas de cativos na Bahia e recusavam qualquer escravo oriundo daquele estado. “Ainda mais com 10 anos!”, diziam “Já é coisa ruim desde pequeno, boa coisa não deve ter feito por lá!”. Que triste fado! Vivendo entre tantas rejeições o menino também era rejeitado inclusive como escravo, talvez o mais baixo degrau da escala humana.
O traficante de escravos sem conseguir vender o menino, o devolveu ao seu proprietário, um alferes de nome Cardoso, no centro da cidade de São Paulo. O comerciante morava em um amplo sobrado na Rua do Comércio, bem próximo à Rua Direita. Passando a viver no sobrado, Luiz Gama aprendeu diversos ofícios como sapateiro, engomador, lavador, costureiro e copeiro.
Os bons ventos da sorte começaram a lhe bafejar quando veio morar no sobrado dos Cardoso o jovem Antônio Rodrigues, um hóspede muito culto e com a mente voltada para o altruísmo e para as humanidades, estava ali para concluir seus estudos. Esse jovem mais tarde se tornou advogado e juiz de direito. Antônio Rodrigues se afeiçoou a Luiz Gama, lhe ensinando a ler, para logo depois lhe abrir as portas do mundo das ciências matemáticas e humanidades. O progresso de Luiz Gama com as letras era tamanho que passou a ensinar os filhos do Alferes Cardoso e por assim fazer, solicitou sua alforria, alegando que seu trabalho intelectual estava acima e não compreendia os ofícios de um escravo. Além disso, alegava que era um homem livre, pois seu pai era um fidalgo e sua mãe uma escrava liberta que havia comprado sua alforria. O alferes Cardoso obviamente negou a alforria e Gama após conseguir provas incontestes de sua condição de homem livre, fugiu da casa dos Cardoso e se tornou soldado da milícia estadual aos 18 anos de idade, onde permaneceu até 1854. Ocupava a patente de Cabo de Esquadra quando foi obrigado a dar baixa do serviço por supostos “atos de insubordinação” contra um oficial. Além da baixa forçada, esteve preso por 40 dias antes de ser posto em liberdade. Nos idos de 1840, em plena vigência da escravidão, a palavra de um praça negro não tinha a mínima credibilidade perante a acusação de um oficial branco. Um tribunal penal militar jamais estaria ao lado de um jovem negro de baixa patente, em detrimento ao libelo acusatório proferido por um oficial caucasiano.
Pelo que se pode observar, na trajetória de vida de Luiz Gama, desde quando foi entregue à escravidão pelo próprio pai, ainda menino e depois rapazola e homem feito, sua caminhada sempre foi eivada de revezes, onde todos, um a um foram removidos e superados, inclusive um dos principais à época que era o analfabetismo. Mais uma vez Gama teve que buscar um novo rumo para seguir em frente, pois, desde que embarcou no paquete Saraiva rumo ao assustador destino no Rio de Janeiro, longe da mãe que nunca mais veria, passou a ter a própria existência como sua principal tirana.
Luiz Gama aprendeu com a dureza da vida, que o caminho se faz caminhando. Durante os anos em que abraçou a carreira militar trabalhava nas horas vagas como Copista no escritório do Escrivão Major Benedito Coelho Neto, já então seu amigo. Também sendo amanuense, algo como auxiliar administrativo, no gabinete de Francisco Furtado de Mendonça, catedrático da Faculdade de Direito do qual também tornou-se, por seu correto comportamento e louvável saber, ordenança e homem de confiança. Serviu como Escrivão para várias autoridades policiais, sendo nomeado amanuense da Secretaria de Polícia onde ficou até 1868, de onde foi demitido a bem do serviço público como “turbulento e sedicioso”, pelos políticos dos partidos conservadores que chegaram ao poder. Luiz Gama ainda estava no período da escravidão e sua condição de negro em cargos públicos de referência incomodava o sistema escravista que se estruturava sobre a quebra da autoestima do negro, de sua alegada condição inferior, de ser quase que um objeto que falava. A sua ascensão social e política na sociedade onde o escravismo ditava as leis, certamente incomodava o poder supremacista local da época.
Como Jornalista Gama escreveu para vários periódicos onde através de sátiras defendia o fim da escravidão e a república, atacando ferozmente a aristocracia brasileira. Em seu trabalho de advogado, exercido de maneira gratuita para os negros, conseguiu libertar mais de 500 escravos. Em seu círculo de relações abolicionistas, entre tantas outras personalidades, torna-se amigo íntimo de José Bonifácio, o Moço, professor de Direito, neto do Patriarca da Independência, amizade correspondida que durou por toda de ambos.
Em julho de 1859 assiste ao nascimento do seu filho Bendicto Graccho Pinto da Gama, fruto de sua união com Claudina Fortunata Sampaio, que viria a se tornar engenheiro eletricista e que está sepultado a seu lado no mausoléu do Cemitério da Consolação. Neste mesmo ano publica “Primeiras Trovas Burlescas de Getulino”. No ano seguinte publica a segunda edição da mesma obra revisada e corrigida na cidade do Rio de Janeiro, onde mais uma vez tenta encontrar sua mãe Luiza Mahin, sem obter êxito.
A partir de 1861 Gama dedica-se de corpo e alma ao seu trabalho no jornalismo, com ênfase na “República das Letras”, focando sua verve literária e o saber jurídico na defesa das ideias liberais, republicanas e abolicionistas. Os movimentos sociais republicanos avançam juntamente com a pressão internacional pelo fim da escravidão, capitaneada pela Inglaterra com seu interesse em vender máquinas e engenhos à vapor paridos pelo ventre da Revolução Industrial.
A Junta Francesa para Emancipação dos Negros, ligada à Maçonaria, encaminha carta ao governo brasileiro para que a abolição da escravatura se torne um processo rápido e concreto. Que obteve como resposta do Império Brasileiro que seria apenas uma questão de forma e oportunidade. Todo esse movimento incendiava o país. Estados como Ceará e Rio Grande do Norte já encaminhavam seus processos de abolição, assim como o Rio Grande do Sul. Revoltas escravas aconteciam de norte a sul do país e em 28 de setembro de 1871, como um preâmbulo para a abolição geral e irrestrita, foi promulgada a Lei do Ventre Livre.
No ano de 1877, em meio ao incansável trabalho humanitário, Luiz Gama estabelece sua banca de advogados com Antônio Carlos Soares e Antônio Ferraz, onde exerce a profissão de advogado até o fim de sua vida. Doente e consumido pelo diabetes sua militância no final da vida era motivo de admiração por toda a sociedade. Mesmo assim fundou o Centro Abolicionista de São Paulo e José do Patrocínio por sua influência cria no Rio de Janeiro a Sociedade Brasileira contra a Escravidão, cujo presidente era Joaquim Nabuco. Tornou-se destacado maçom, recebendo daquela fraternidade todas as honrarias possíveis.
Morreu em 24 de agosto de 1882 na cidade de São Paulo. Exatamente 6 anos antes da abolição da escravatura, pela qual tanto lutou e dedicou sua vida de jurista, jornalista e poeta. Seu funeral foi o maior já registrado na história da capital paulista. Se fossemos calcular proporcionalmente em relação aos dias de hoje, seriam milhões de pessoas às ruas acompanhando a passagem do cortejo fúnebre.
Luiz Gama deixa como exemplo para o povo negro, que nada pode suplantar a força de vontade, a garra de vencer e a paciência para triunfar. São inúmeros recados que sua existência deixou para a posteridade. Mas alguns são basilares como a importância da educação formal na vida de todos os seres humanos. O segundo exemplo é a retidão de caráter e a determinação na crença do que é o bem natural e humano, e o último, que é a lealdade do compromisso com a justiça e a liberdade. Se hoje pessoas negras conseguem galgar patamares significativos tanto na vida pública como na iniciativa privada, com certeza há a pena, o cérebro e o olhar de Luiz Gama. Se em cada parque, praças e praias do país as crianças negras correm livres e felizes está ali o sorriso de Luiz Gama. Ele nos deixou como responsabilidade uma tarefa imensa que é defender o legado dos abolicionistas, que dedicaram suas vidas para que nós pudéssemos ter as nossas bem ao alcance de nossas mãos.
A vida de Luiz Gama é uma saga inimaginável. Se fosse no hemisfério norte, certamente teria se transformado nas mais altas linguagens culturais, artísticas e históricas. Nós escritores, poetas e amantes da liberdade, podemos homenageá-lo com lindas produções literárias que comporão essa coletânea tão especial. Traçaremos linhas de uma teia que serão o amálgama de um admirável mosaico, daquele ser humano que nasceu livre, foi tornado escravo pelo próprio pai aos 10 anos de idade, sofreu todas as intempéries da vida, deu a volta por cima e, mesmo atado aos grilhões da escravidão, soube perseverar e transformou todos os limões azedos que a vida sempre lhe ofertou em uma deliciosa e refrescante limonada chamada liberdade, para si e para todos os negros escravizados do país em que vivia e os que viriam depois.
A faculdade de Direito do Largo de São Francisco, emitiu um diploma post mortem de Direito parra Luiz Gama e erigiu um busto em sua homenagem, tentado reparar e ao mesmo tempo homenagear aquele que talvez tenha sido o maior advogado brasileiro de todos os tempos.


segunda-feira, 2 de maio de 2022

OLHAR DE FOLHETIM


De nada adianta chorar o que passou

O viço de outrora que o tempo levou

Foi se largando por aí, pela vida, sem eira nem beira

Pelas noitadas, madrugadas, carreiras e bebedeiras

Foram tantas tentativas, tantos erros, tantas marcas de amor

Marcas doídas e sofridas

Marcas de vida que o rouge teima em ocultar

Cumpro minha cruzada em silêncio, em solidão

Minha tosca rotina vive bares repletos de aflição

Enfrento meus moinhos de vento porém sem o escudeiro

Quero um copo amigo, quem sabe um corpo amigo, um parceiro

Um corpo como abrigo, quem sabe verdadeiro

Me abrigar das tormentas que me atormentam nesse louco mundo picadeiro

Ouvir um tango de Gardel, onde o bandoleón passional envolva meus soluços em arte e dor

Peço uma dose de amparo e o garçom me diz que acabou há tempos

Até um falso beijo amargo me faz crer que eu possa amar

Mas qual o quê!

Sigo a sina de mulher sozinha nessa vida sem afeto

Perdida na vida como cão sem dono

Perdida no próprio abandono

Consumindo sonhos e desejos

Tragando homens, álcool e cigarros

Homens fracassados e vis com seus beijos senis

Mesmo assim digo sim às propostas carentes

Não tenho porque dizer não

Sou minha dona, atrevida, sou da vida, quase bandida

Não tenho família para abraçar aos domingos

Aceito a cópula com delicadeza

A mesma delicadeza com que se confeita um bolo de noiva

Mesmo investida de falsos brios

Sei que somos humanos estranhos, diferentes, sombrios

Cúmplices indecentes em nossos sorrisos pérfidos e amarelos

Lentamente o álcool me aquece

Aos poucos me incendeia em fogo

Me entrego ao seu calor para esquecer a dor

Mergulho na falsa sensação de amor, é o que me resta, é o que tenho

Minhas dores são tão presentes que nunca se tornam passado

Marcas de uma vida sem recato

Adicta do presente devasso e hedonista

Carrego marcas e cicatrizes, gloriosas e ferozes das ferrenhas luta de cio

Não fui à lona, não estou derrotada

Sou esperta e sagaz

Sei fingir prazer, sei ser teatral

Divido pó e pecados igualmente

Não necessariamente nessa ordem

O prazer marginal tem um ótimo sabor, é agradável

O sabor do interdito nos eleva em torpor ao inimaginável

É tanto revés, submundo, falsidade

Que até parece que é amor de verdade

E quando a aurora invade o quarto atrevida e curiosa através do tule

Assusta-se com o sabor intragável do ambiente

Meu corpo é a Tróia invadida, conquistada e colonizada por um Menelau sociopata e vazio

Jaz lasso sob os escombros de um fogo que o consumiu violentamente

São abertas as cortinas do palco da vida onde o cenário é cruel e aterrador

No campo de batalha somos guerreiros feridos pela vida

Onde a indiferença e o arrependimento predominam em uma cama sem sabor

O ar fresco da manhã é tomado pelo gosto amargo da derrota e da dor

Em lágrimas ocultas apago o cigarro

Incinero nas cinzas os teus cheiros de vida, das outras mulheres, do teu suor, da tua bebida

Rota colombina embriagada de um pobre pierrô de vida corroída

Não sou imortal, posso ser frágil, mas sou fatal

Sou do botequim, sou a diva dos desesperados, sou da rua

Dama dos restos, dos copos solitários e dos seres abandonados

Sou o falso sorriso que sempre diz sim

Mas meu amigo eu lhe recomendo

Nunca acredite no meu olhar de folhetim.

sábado, 30 de abril de 2022

O CAMINHO DA LUZ

Amauri Queiroz
Os antigos afirmavam que existem dois lobos dentro de nós, um bom e outro mau. Eles estão em luta constante para se apoderar do nosso espírito, das nossas escolhas, da nossa vida. Qual deles vencerá? A resposta é simples, vence o lobo que você alimentar. 
Se você optar por nutrir o lobo bom, seguindo por um caminho luminoso, reto e virtuoso, certamente ele vencerá a contenda e expulsará o lobo mau que insistia habitar seu interior. Agora, se ao contrário, o lobo mau for alimentado com hábitos destrutivos,  atitudes e pensamentos violentos, comportamento insidiosos e fazendo seu cotidiano ser permeado por atos difusos e pejorativos, esse lobo mau vencerá. Após a vitoria, após a expulsão do lobo bom, construirá um caminho de trevas e martírios em seu viver
Escolha sempre o caminho da luz. Esse caminho é como uma árvore frondosa, que por muitas vezes nos oferece raízes amargas, causando-nos decepções e sofrimento, mas no final, se formos resilientes e mantivermos a fé, ela nos entregará doces frutos.
O caminho da luz está disponível para todos, indiscriminadamente. Não tem a ver com posses, riquezas e elementos materiais. A luz espiritual é interior, sendo que muitas vezes, aliás, quase sempre, reside na simplicidade, na compreensão, na solidariedade e no amor verdadeiro, aquele que não exige nada em troca. 
Muitos reis, milionários e poderosos, apesar de grande riqueza e conforto, vivem nas sombras, envoltos em um triste mundo frio e sem luz. 
Por outro lado, podemos ver, que um humilde morador em situação de rua, pode viver feliz com seus animais, com seus amigos e com a vida simples, que o faz desfrutar um mundo repleto de luz e calor.
Nossa passagem pelo planeta Terra é bastante efêmera. Somos se muito uma mera fagulha no tempo imemorial da vastidão universal. O que nos cabe nesse diminuto lapso temporal, nesse cantinho da galáxia, é a escolha da forma como queremos viver, se nas trevas ou na luz. Seremos lembrados pelo que espalhamos de bom pela vida e não pelo que acumulamos em benefício próprio.
 A vida é simples e simples o caminho da luz que nos presenteia com a possibilidade de felicidade a cada novo amanhecer.

GÊNESIS


GÊNESIS

(Em homenagem aos 200 anos do nascimento de Fiodor Dostoiévski)

Silêncio em São Petersburgo
Fiódor Dostoiévsky deixa o mundo dos vivos
O corpo jaz hirto e solene na casa dos mortos
Crimes e castigos serão perdoados
Os demônios finalmente quedarão exorcizados
Os sinos dobram entristecidos anunciando o fim de uma consciência virtuosa
Foi decretado seu renascimento camarada Fiódor
É momento de partir, elevar-se
Ser conduzido ao etéreo
Abandonar a casca de poeira de estrelas que te limita
Partir livre e sem amarras na imensidão do cosmo
Viajar por nebulosas e aglomerados de galáxias
Berçários de estrelas dançam sobre a matéria escura
Sóis brilhantes no caminho sorriem para ti
Multiversos te encantam mostrando de onde vinham sua inspiração
Onde estarão os anjos? A corte celestial, o paraíso onde celebra-se o reencontro com nossos ancestrais?
Sua nova forma é plasmática, sem densidade ou contornos definidos
Ultrapassando as leis bárbaras e toscas do conhecimento humano
Atravessando dimensões, Mundos paralelos
Mergulhando na singularidade de misteriosos buracos negros e seus horizontes de eventos
Percorrendo o insondável
Em júbilo com a perspectiva de estar diante de Deus
Sonhando com a glória do encontro
O Dono de todo esse poder
O grande arquiteto do universo
Sentir Seu incomensurável amor
Amor imanente, imortal
Não se ouve mais os sinos terrestres
Aquele velho mundo ficou para trás
Território de expiação e sofrimentos
Onde os humanos purgam suas dores existenciais
Seus desejos inconfessáveis
Seus pecados e sentimentos hostis
Agora é viver outra vida no território da liberdade mais pura
Singram os ares os acordes do paraíso
A mente está livre das limitações da matéria
Dos julgamentos e das culpas
Do fardo da prisão punitiva do carbono
Flutuas suave nos infinitos recônditos do universo inimaginável
Sob o troar dos Pilares da Criação luzes rugem rasgando as trevas imemoriais
Surgem novos mundos da gênesis primordial, gerando novos corpos celestes, quasares, estrelas de nêutron
Nascem do mais puro caos mas seguindo o ordenamento universal
O Poder Superior onde está a determinação de Deus para que tudo permaneça ordenado
Onde está guardado o mais profundo dos mistérios
Vá para casa
Fique em paz e na luz eterna camarada Fiódor.
BIOGRAFIA
Amauri Queiroz é carioca, Jornalista, Publicitário, Escritor, Poeta, Compositor e Servidor Público Federal. Membro Internacional da Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Arte; Membro da Academia de Ciências, Letras e Artes do Brasil; Membro Correspondente da Academia Caxambuense de Letras; Fundador Imortal Internacional do Nucleo Accademico Italiano de Scienze, Letteri e Arti;
Dr.h.c pelo Centro Sarmathiano de Altos Estudos Filosóficos e Históricos; Embaixador da Paz pelo Supremo Consistório Internacional dos Embaixadores da Paz; Comenda do Mérito Histórico D. João VI; Medalha D. Pedro II – Patrono das Letras e das Ciências; Medalha Mérito Acadêmico da Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes; Comenda Maria Quitéria – Heroína da Pátria e Moção de Honra ao Mérito; Certificado de Mérito do Mérito Antônio Parreiras; Comenda Láurea Acadêmica Febacla; Título Honorífico Personalidade Cultural do Ano 2020 – Febacla. Moção de Homenagem pela Assembleia Legislativa do Estado do Mato Grosso e Moção de Aplauso pela Prefeitura de Congonhas/MG; Cavaleiro Comendador da Soberana Ordem da Coroa de Gotland da Augustíssima e Soberana Casa Real e Imperial dos Godos de Oriente.


ГЕНЕЗИС 200-летию со дня рождения Фёдора Достоевского

ГЕНЕЗИС
 (К 200-летию со дня рождения Ф. М. Достоевского)
 Тишина в Петербурге
 Федор покидает мир живых
 Тело лежит неподвижно и торжественно в доме мертвых
 Преступления и наказания будут прощены
 Наконец демоны будут изгнаны
 Печальные колокола звонят, возвещая конец добродетельной совести.
 Твое возрождение постановлено, товарищ Федор.
 Пора уходить, вставай
 Быть приведенным в эфирное
 Откажитесь от оболочки звездной пыли, которая ограничивает вас
 Отправляйтесь свободно и без связей в необъятность космоса
 Путешествуйте по туманностям и скоплениям галактик
 Звездные питомники танцуют над темной материей
 Яркие солнца в пути улыбаются тебе
 Мультивселенные очаровывают вас, показывая, откуда пришло ваше вдохновение
 Где будут ангелы?  Небесный двор, рай, где празднуется воссоединение с нашими предками?
 Его новая форма — плазма без плотности и четких контуров.
 Преодоление варварских и грубых законов человеческого познания
 Пересекающиеся измерения, параллельные миры
 Погружение в сингулярность загадочных черных дыр и их горизонты событий
 пересекая непостижимое
 Радоваться возможности предстать перед Богом
 Мечтая о славе встречи
 Владелец всей этой силы
 Великий Архитектор Вселенной
 Почувствуй свою безмерную любовь
 Имманентная, бессмертная любовь
 Земных колоколов уже не слышно
 Этот старый мир позади
 Территория искупления и страданий
 Где люди очищают свои экзистенциальные боли
 Ваши невыразимые желания
 Твои грехи и враждебные чувства
 Теперь он живет другой жизнью на территории чистейшей свободы
 Воздух поет аккорды рая
 Разум свободен от ограничений материи
 Из суждений и вины
 От бремени карательной угольной тюрьмы
 Вы мягко плывете в бесконечных глубинах невообразимой вселенной
 Под грохот Столпов Творения рев огней прорывается сквозь извечную тьму
 Новые миры возникают из первобытного генезиса, порождая новые небесные тела, квазары, нейтронные звезды.
 Рожденный из чистейшего хаоса, но следуя универсальному порядку
 Высшая Сила, где Божья решимость состоит в том, чтобы все оставалось в порядке
 Где хранится самая глубокая из тайн
 Идти домой
 Покойся с миром и вечным светом товарищ Федор.



 БИОГРАФИЯ
 Амаури Кейрос из Рио-де-Жанейро, журналист, публицист, писатель, поэт, композитор и федеральный государственный служащий.  Международный член Бразильской федерации академиков науки, литературы и искусства;  Член Академии наук, литературы и искусств Бразилии;  член-корреспондент Академии Caxambuense de Letras;  Международный бессмертный основатель Nucleo Accademico Italiano de Scienze, Letteri and Arti;
 Dr.h.c. Сарматского центра высших философских и исторических исследований;  Посол мира Международной высшей консисторией послов мира;  Почетная грамота за исторические заслуги Д. Жоао VI;  Медаль Д. Педро II - покровитель литературы и науки;  Медаль за академические заслуги Бразильской федерации академиков науки, литературы и искусства;  Благодарность Марии Китериа - Героине Родины и Почетная грамота за заслуги;  Почетная грамота Антонио Паррейраса;  Благодарность академического лауреата Febacla;  Почетное звание «Культурная личность 2020 года» — Febacla.  Движение почтения Законодательного собрания штата Мату-Гросу и Движение аплодисментов мэрии Congonhas/MG;  Кавалер Суверенного Ордена Короны Готланда Августейшей и Суверенного Королевского и Императорского Дома Готов Востока.