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Chamada de Egun

sexta-feira, 3 de junho de 2022

COMO O TORORÓ DA ANITA DEU UM GOLPE NO GOLPE E PEGOU OS BREGANEJOS COM A MÃO NA BOCA DA BOTIJA

A música sertaneja (nem tinha esse nome, era música caipira) é um estilo que surgiu com outra poética. O universo de inspiração dos cantadores era totalmente diferente do que se canta hoje pelos midas da . Antes se cantava de coração, as duplas tinham seus estilos, cada qual com seu singelo mundo de fantasia, que é a verdadeira característica do sertanejo raiz
 Quem gosta ou acompanha o verdadeiro sertanejo raiz sabe que o universo de inspiração dos compositores do gênero sempre foi infinito. Quando visitamos Tião Carreiro e Pardinho, Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho, Palmeira e Biá, José Rico e Milionário, Sérgio Reis,  entre tantos outros, podemos usufruir de  repertório riquíssimo e emocionante. São verdadeiras óperas à céu aberto onde o  sertanejo raiz descortina do seu próprio jeito a vida no grande sertão e nas veredas da vida. A caçada de espera e o medo do esturro da onça pintada, a pescaria nós rios e o medo da cobra grande, o amor do peão e da sinhazinha, o vaqueiro domador de cavalos, as festanças das comitivas que cruzavam os sertões trazendo para "sumpalo" gado selvagem cuiabano, a colheita da lavoura de café, a casinha branca no meio do nada com a morena Rosinha aguardando a chegada do peão que estava na lida, o pai vaqueiro que forma a filha doutora, o filho que gasta a fortuna do pai, o boi mandingueiro, o cachorro de caça fiel e valente, os rodeios famosos e as façanhas dos peões, o boi malvado que não respeita ninguém com prêmio  para quem montá-lo, pelejas de viola, amores, amores, amores, enfim, um universo poético tão imenso e fantástico que tornou-se patrimônio cultural brasileiro.
O cantor Gustavo Lima não é fruto desse patrimônio. É fruto da cafonice, da arrogância, da pobre capacidade poética de rimar paixão, coração e solidão. Do público arrogante e preconceituoso, dos ingressos caríssimos para impor barreiras econômicas aos mais humildes. A cafonália consegue reunir milhares de espectadores em seus shows. Atraem multidões porque o Brasil emburreceu, se tornou uma latrina cultural, um país onde parte da população persegue Chico Buarque e Caetano Veloso. São os representantes da ideologia do efêmero acusando pessoas sensatas de desvios comportamentais e opção política atrasada. Detesto essas pessoas, fujo delas, não quero conversar com elas, não namoro mulheres desse grupo, não divido mesa com eles. Tenho nojo e medo dessa gente burra e cafona. 
Essa malta ignóbil atacou duramente a Lei Rouanet acusando os artistas de perfil diferente de serem comunistas, corruptos, de mamar nas tetas do estado. Na roça se fiz que o castigo vem à cavalo. Ao atacar a tatuagem no tororó da Anita o sertanejo universitário ou breganejo tomou na tarraqueta e viu seu mundo virar de ponta cabeça. De probos vestais passaram a ser repudiados pela opinião pública. Aliás, como justificar pagamentos de shows na casa de milhão de reais com verba da Saúde e da Educação.
A máscara caiu. Haverá de se ver até que ponto essas contratações sem licitação não são campanha política para o Governo Bolsonaro. Nos shows dessas duplas sertanejas que estão envolvidas no escândalo, locutores animadores bradam contra o comunismo e pela preservação da família brasileira. O correto seria auditar todos esses shows e principalmente constatar o valor que foi pago. Certamente parte do cachê está indo para as mãos dos políticos envolvidos na treta como doação de campanha que certamente encherá mais ainda seus bolsos.
Enquanto a roubalheira come à solta, as crianças precisam andar quilômetros pelas estradas de barro para irem ao grupo escolar. A merenda das escolas que caem aos pedaços são de péssima qualidade e os professores são pessimamente remunerados.
A Saúde é um calvário para a população. Faltam médicos, remédios, procedimentos simples, atenção vá gestante e programas voltados para a saúde e bem estar da terceira idade.
Negar ao povo pobre as condições mínimas necessárias para uma sobrevivência digna em detrimento a enriquecimento de artistas e políticos corruptos é crime de lesa humanidade. Ainda há o agravante de utilizar esses shows contratados com dinheiro público, para fazer campanha política para a reeleição do atual Presidente da República, que baixaria! Que falta de vergonha! Pobre Cultura! Pobre Saúde! Pobre Educação!
Tudo tem seu valor. Porém, na política, a palavra mágica possui quatro letras e não é amor, é voto. 
A polêmica que envolve os 'cantores'
 breganejos espelha uma dimensão assustadora do golpe de 2016. Após tirarem a Dilma e prenderem Lula com a terceirização do juiz Moro, o golpe segue a passos firmes rumo à hiperhegemonia prevista por Olavo de Carvalho.
Avançando ora de maneira sutil como as trocas de comando da Polícia Federal e outros órgãos afins, ora escancarado, como é o caso do orçamento secreto e das 'emendas cheque em branco'.
O estado brasileiro está absolutamente aparelhado pelo governo Bolsonaro. Podemos incluir também as polícias e parte das Forças Armadas.
O golpe porém, torna-se mais eficiente quando aparelha o comando das igrejas neopetencostais, cravando um prego bastante profundo nas camadas mais populares do povo brasileiro. 
Não existe espaço vazio na política. Esses setores pobres da população estavam flutuando na sociedade, relegados ao limbo político pelos governos anteriores. Eles não queriam só comida, eles queriam mais, queriam ter voz, queriam ser cidadãos de verdade e não somente portadores de um cartão que garantia alguns mantimentos no fim do mês.
O golpe visualizou a lacuna e jogou pesado com a contra informação ou fake news. Do kit gay à mamadeira de piroca, da Ferrari de ouro do Lulinha à JBS da Dilma, o golpe fez um estrago nas hostes esquerdistas.
Não pense que pararam, não, eles nunca param. Agora precisavam entrar na juventude do interior, naquele público que também estava boiando nos mapas eleitorais. É aí que entram os cantores breganejos. 
O golpe engendrou uma equação ganha/ganha sem igual. Os prefeitos dos rincões recebem grandes nomes da música sertaneja,esses cantores cobram acima do milhão de reais, fazem campanha para o governo Bolsonaro, no alertando para o perigo da instalação do comunismo e todos ficam felizes, pois ao contrário da Lei Rouanet, esses gastos nesses municípios não entram no farol dos órgãos de controle. Por isso a cantilena contra a Lei Rouanet. Eles ao fazerem isso, desviavam a atenção da sociedade para que as falcatruas deles passasem incólumes. Uma maneira inteligente porém criminosa de fazer campanha política, utilizando dinheiro da Saúde e da Educação em lugarejos quase que miseráveis.
O golpe continua seu curso. Querem entregar a Petrobrás e a Eletrobras, para depois venderem a Caixa Econômica e a cereja do bolo que é o Banco do Brasil.
Esse grupo que está no poder é muito perigoso. Certamente já fizeram seus planos de abandonar o país caso percam as eleições ou então sabotar aeronaves dos candidatos que estiverem melhor colocados nas pesquisas eleitorais, tudo é possível.
Os sertanejos são a pequena parte da ponta do iceberg de lama que se avizinha.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Olhar de Folhetim

De nada adianta chorar o que passou
O viço de outrora que o tempo levou
Foi se largando por aí, pela vida, sem eira nem beira
Pelas noitadas, madrugadas, carreiras e bebedeiras
Foram tantas tentativas, tantos erros, tantas marcas de amor
Marcas doídas e sofridas
Marcas de vida que o rouge teima em ocultar
Cumpro minha cruzada em silêncio, em solidão
Minha tosca rotina vive bares repletos de aflição
Enfrento meus moinhos de vento porém sem o escudeiro
Quero um copo amigo, quem sabe um corpo amigo, um parceiro
Um corpo como abrigo, quem sabe verdadeiro
Me abrigar das tormentas que me atormentam nesse louco mundo picadeiro
Ouvir um tango de Gardel, onde o bandoleón passional envolva meus soluços em arte e dor
Peço uma dose de amparo e o garçom me diz que acabou há tempos
Até um falso beijo amargo me faz crer que eu possa amar
Mas qual o quê!
Sigo a sina de mulher sozinha nessa vida sem afeto
Perdida na vida como cão sem dono
Perdida no próprio abandono
Consumindo sonhos e desejos
Tragando homens, álcool e cigarros
Homens fracassados e vis com seus beijos senis
Mesmo assim digo sim às propostas carentes
Não tenho porque dizer não
Sou minha dona, atrevida, sou da vida, quase bandida
Não tenho família para abraçar aos domingos
Aceito a cópula com delicadeza
A mesma delicadeza com que se confeita um bolo de noiva
Mesmo investida de falsos brios
Sei que somos humanos estranhos, diferentes, sombrios
Cúmplices indecentes em nossos sorrisos pérfidos e amarelos
Lentamente o álcool me aquece
Aos poucos me incendeia em fogo
Me entrego ao seu calor para esquecer a dor
Mergulho na falsa sensação de amor, é o que me resta, é o que tenho
Minhas dores são tão presentes que nunca se tornam passado
Marcas de uma vida sem recato
 Adicta do presente devasso e hedonista
Carrego marcas gloriosas de ferozes luta de cio
Não fui à lona, não estou derrotada
Sou esperta e sagaz
Sei fingir prazer, sei ser teatral
Divido pó e pecados igualmente
Não necessariamente nessa ordem
O prazer marginal tem um ótimo sabor, é agradável
O sabor do interdito nos eleva em torpor ao inimaginável
É tanto revés, submundo, falsidade
Que até parece que é amor de verdade
E quando a aurora invade o quarto atrevida e curiosa
Assusta-se com o sabor intragável do ambiente
Meu corpo é a Tróia invadida, conquistada e colonizada por um Menelau sociopata e vazio
Jaz lasso sob os escombros de um fogo que o consumiu violentamente
São abertas as cortinas do palco da vida onde o cenário é cruel e aterrador
No campo de batalha somos guerreiros feridos pela vida
Onde a indiferença e o arrependimento predominam em uma cama sem sabor
O ar fresco da manhã é tomado pelo gosto amargo da derrota e da dor
Em lágrimas ocultas apago o cigarro
 Incinero nas cinzas os teus cheiros das outras mulheres, do teu suor, da tua bebida
Rota colombina embriagada de um pobre pierrô de vida corroída
Não sou imortal, posso ser frágil, mas sou fatal
Sou do botequim, sou a diva dos desesperados, sou da rua
Dama dos restos, dos copos solitários e dos seres abandonados
Sou o falso sorriso que sempre diz sim
Mas meu amigo eu lhe recomendo
Nunca acredite no meu olhar de folhetim.

terça-feira, 31 de maio de 2022

RACISMO ESTRUTURAL

O racismo estrutural é a política institucional que mantém o racismo como um dos fatores estruturantes da sociedade brasileira.
Apesar de passados 130 anos da promulgação da Lei Áurea, que deu fim à escravidão no Brasil, ainda persistem alguns mecanismos que impedem a ascensão social e econômica da população afro-brasileira.
Ao contrário do que deveria acontecer, as estruturas públicas, principalmente as de Saúde e Educação, que atendem majoritariamente o povo negro, são cada vez mais precarizadas e canibalizadas, aliando-se aos fatores estruturantes a degradação do meio ambiente nós territórios de população negra.
Nós territórios negros, a necropolítica continua sendo a principal maneira de relação entre os aparelhos de repressão de estado e as comunidades negras.
O arcabouço legal vigente no país, volta suas baterias contra a população negra com um peso diferenciado em relação a outros contingentes étnicos. Para esses aparelhos de estado o negro sempre será suspeito de cometer ilícitos, assegurando assim, demonstrações inequívocas de racismo e preconceito por parte do estado brasileiro.
A população negra, historicamente habita os territórios mais degradados ambientalmente, para os quais o poder público volta suas costas, criando o que se denomina racismo ambiental.
Essas estruturas sociais assimétricas tendem a se reproduzir exponencialmente, perpetuando e garantindo espaços de poder e privilégios para grupos étnicos não negros.
O racismo não é natural, apesar de estar naturalizado em nossa sociedade. É uma estrutura perversa que se realimenta em motocontínuo, garantindo poder econômico, privilégios e benesses às elites dirigentes do país.
O racismo estrutural organiza-se par a par com o capitalismo. O modelo de organização econômica que tem como primado a acumulação e o consumismo, vai de encontro a ancestralidade do povo negro, onde o modo de viver coletivo e o bem comum solidário são a pedra de toque da organização social africana.
No Brasil nos deparamos com inúmeros mundos invisíveis, onde a elite branca dominante tece incessantemente os destinos da base social da pirâmide.
Assim como nas primeiras cidades da civilização, a organização social ocidental capitalista detém o controle sobre as estruturas institucionais, militares e econômicas do estado. Os tribunais, o alto comando militar, o parlamento e a gestão política do próprio estado são absolutamente servis e diligentes com a elite nacional.
O conjunto de instrumentos da estrutura de Estado que regem direitos e deveres da população brasileira é absolutamente surdo e indiferente aos desassossegos do povo negro. Todo o conjunto de instrumentos funciona para manter a estrutura colonial, por mais que se brade acerca da vocação republicana da nação.
Os negros, com raras exceções, sempre estiveram fora das universidades publicas. Sempre ocuparam os piores postos no mercado de trabalho. Lotam os presídios, penitenciárias e se livres, formam o famigerado 'exército de mão de obra de reserva’.
Ao negar educação pública de qualidade para o povo negro, o estado empurra esse contingente humano para o desemprego e consequentemente para a margem da lei em muitos casos.
O sistema é perverso. Nega educação de qualidade que não acessa nenhuma ou boas colocações no mercado de trabalho, que de maneira perversa e miseravel atira um grande contingente de jovens negros nos braços do crime.
O estado cria os criminosos e ao mesmo tempo ordena que os aparelhos de repressão os prendam ou os matem, gerando o círculo vicioso da corrupção e da morte, onde o poder público se locupleta com dinheiro e garantia de território político enquanto oferece proteção e liberdade de ação para os meliantes, que foram gerados pelo próprio Estado, que negou-lhes uma vida com dignidade ao negar-lhes educação de qualidade e um território cultural decente e desassombrado. O Estado é também responsável em parte pela construção dessa catedral de horrores, tanto por inabilidade política como por sua decantada incapacidade gerencial.

quinta-feira, 26 de maio de 2022

SEMPRE É TEMPO DE PESTE QUANDO SÃO OS LOUCOS QUE GUIAM OS CEGOS (William Shakespeare).

Os militares nazistas lotados nos campos de extermínio do Terceiro Reich foram cruéis e desumanos com nossos irmãos judeus. Deram fim a aproximadamente 6 milhões de vidas, que nada fizeram naquela guerra, a não ser sofrer toda a sorte de indignidade e infortúnios delegados aos povos oprimidos. 
Os fornos crematórios de Auschwitz, Sobibor, entre tantos outros do aparato bélico militar de Hitler, trabalhavam diuturnamente em suas sinfonias de morte, não poupando ninguém, nem mesmo as inocentes criancinhas judias. Não há como não se emocionar e se indignar com a situação a que foram submetidos nossos irmãos judeus naquele terrível conflito. A indignação e a perpetuação da lembrança de tempos tão sombrios nos comove desde sempre.
Porém há uma guerra invisível em curso no Brasil. Apesar das peremptórias negativas por parte do estado brasileiro, há um conflito real que ceifa mais de 50 mil vidas de nossos nacionais todos os anos.
Mata-se anualmente no Brasil, basicamente o mesmo número de militares estadunidenses que morreram durante os dez anos de guerra no Vietnã.
Com a política de flexibilização da venda de armas a tendência é a elevação exponencial desta barbárie.
A criminalidade aumenta a passos largos empurrada pela gigantesca e silenciosa crise econômica, social e moral que assola o Brasil.
Estamos chegando ao fundo do poço, sim, com o parlamento compurscado por negociatas e corrupção, o Executivo comprando o congresso com o orçamento secreto, militar levando cocaína no avião da Presidência da República, aquisições com dinheiro público de Viagra, próteses penianas e gel lubrificante para penetração sexual. Na verdade nem precisavam das tais estripulias eréteis, pois, de uma certa forma fazem isso com o povo há muito tempo.
Agora estão levando à sério a inventividade tupiniquim e resolveram estrear o forno crematório portátil sobre rodas.
A cena dos policiais incinerando dentro da viatura oficial um cidadão com problemas de saúde mental, mostra que estamos em tempo de peste, onde os loucos guiam os cegos, como disse William Shakespeare, famoso bardo inglês.
O período quando os loucos guiam os cegos, surge de tempos em tempos. A história é pródiga em apontar diversos ciclos desse tempo. Podemos citar Hitler levantando a Alemanha, Mussolini na Itália, Stalin na União Soviética, Pol Pot no Camboja e tantos outros exemplos de triste memória.
No Brasil emergiu há pouco o sentimento nazifascista que estava encolhido, hibernando, aguardando a oportunidade para se apresentar nesses novos tempos. E o tempo chegou, trazendo consigo a besta do apocalipse, o anticristo. Vige nas hostes dos cegos o culto às armas de fogo preconizada pelos loucos. O nacionalismo exacerbado, a canonização dos símbolos pátrios, a ojeriza aos direitos humanos, ao social, à organização dos trabalhadores, das mulheres, dos negros, dos LGBTs e principalmente dos povos indígenas. 
A Amazônia tornou-se um capítulo a parte, onde o louco guia os cegos para a implantação de projetos devastadores para a região. Não há respeito por nada, somente pela tabula rasa que rege a caminhada dos loucos.
Pedro Aleixo era civil e Vice Presidente do General Costa e Silva durante a ditadura militar e foi o único membro do Conselho de Segurança Nacional que votou contra o AI5 na famigerada reunião que o sacramentou. Perguntado por Costa e Silva o porquê do voto isolado, Aleixo respondeu que o problema maior não era o presidente e sim o guarda da esquina. Pois é, aqueles policiais de Sergipe são os guardas da esquina do Messias que tem as mãos manchadas com o sangue de Jesus, Genivaldo de Jesus, um negro pobre, trabalhador, casado e pai de dois filhos,  sem antecedentes criminais, portador de esquizofrenia, que cometeu um único erro que lhe custou a vida, não entender que o guarda da esquina agora tem permissão para matar inocentes.
Incinerar um negro em plena luz do dia sob as câmeras de filmagem, se tornou um ato normal, ou seja, há uma naturalização da barbárie, principalmente quando a violência se volta para a população negra. Há uma ponte apocalíptica entre Aracaju e a comunidade da Vila Cruzeiro no Complexo da Penha. Essa ponte metafórica permite que se realize uma incursão policial em uma comunidade de favela, onde são eliminadas 26 pessoas com a intensa participação da Polícia Rodoviária Federal, que em tese não deveria estar ali.
 Para uma boa parcela da população isso também é normal. Mas não é normal. Pior, é assustador saber que o aparato de repressão do estado está saindo das suas prerrogativas institucionais. É assustador porque todas vezes que esta situação aconteceu, a institucionalidade não voltou ao normal. Para os mais alarmistas fica parecendo a preparação operacional para o golpe militar que a cada dia solta mais fumaça.
Não se pode questionar a ação que beira a genocídio, pois os que questionam são acusados de "defender bandidos". A lei e a democracia precisam ser preservadas. Não importa o custo. A democracia às vezes possui raízes amargas, mas seus frutos são sempre doces.
O primado dos direitos humanos nos ensina que a vida, dos dons é o mais importante e sagrado que possuímos. Não importa se estamos dentro, à margem ou fora da lei. Todos são inocentes até que a sentença transite em julgado. A constatação da importância desse recurso judicial foi a inocência declarada pela suprema corte brasileira ao anular as condenações do ex presidente Lula, que amargou quase 600 dias de cárcere, lá colocado por um sistema judicial comprometido com a inobservância da lei e aliado a interesses políticos escusos.
A cena é triste e cruel. O cidadão negro, portador de sofrimento mental, perde a vida incinerado em um veículo oficial do governo brasileiro. Sufocado sem poder respirar, assim como morreram as pessoas em Manaus, no auge da crise da COVID, onde morreram sufocadas, sem oxigênio, devido a leniência do estado, da verve fascista, da política negativista, da incapacidade institucional e política de gerir o estado com amor e solidariedade.
Os loucos seguem guiando os cegos. O Messias continua matando Jesus .

sábado, 21 de maio de 2022

ÍNDIO NÃO QUER TOKEN

Sou um observador atento da vida amazônica. Observador privilegiado, pois tive o imenso prazer de ter sido um morador da região. Vivi em Porto Trombetas, bem na beirada do Rio Trombetas, entre o Pará e o Amapá, no coração da selva. Ali convivi e me eduquei com a enorme diversidade humana que é composta por nações indígenas, caboclos, populações ribeirinhas, seringueiros, trabalhadores sem terra, quilombolas, posseiros, povos ancestrais e culturas tradicionais.

Religiões e cultos diversos, entre os quais podemos citar o Xamanismo, Santo Daime e União do Vegetal, além dos cultos colonizadores como o cristianismo e outros com menor visibilidade.

A povo amazônico sofre há muito da violência cultural por parte dos alienígenas caucasianos. Tentaram eliminar seus deuses e crenças, seus idiomas, sua liberdade corporal, a noção do naturismo, seus cânticos, sua agricultura e, principalmente, o saber milenar da etnobotânica.

O centro do capitalismo sempre usufruiu dos saberes tradicionais, onde através de seus laboratórios farmacêuticos, sintetizam o conhecimentos dos Pajés, das rezadeiras e benzedeiras, dos caboclos e dos conhecedores das ervas.

Ao se apropriarem da sabedoria afroindígena amazônica, geraram imensas fortunas em seus países com a produção de medicamentos que têm como princípio ativo a flora da hileia brasileira.

Os amazônidas sempre foram relegados a uma subdimensão folclórica aos olhos do ocidente. Lendas como a da Cobra Grande, Caipora, Curupira, Boto Sedutor, caboclos e Iaras encantadas sempre permearam o imaginário fantástico da floresta e seus seres encantados.

Desviando o olhar para a realidade mais contemporânea, podemos constatar péssimos indicadores econômicos e sociais. Àquela população há muito esquecida pelos nossos governantes, restou o de sempre as carcomidas migalhas institucionais, que podemos considerar meros curativos tópicos paliativos em um corpo cada vez mais doente, destarte sua plenitude esplendorosa.

Sem mergulhar nos gráficos e outros demonstrativos, que são avassaladores, sabemos que a região passa por diversas escaladas violentadoras como a ampliação das áreas de garimpo, as eternas queimadas, o genocídio dos povos indígenas e quilombolas e o horror da devastação da floresta virgem para o estabelecimento de pastagens, fazendas e projetos ilegais de retirada de madeira.

A Amazônia se transformou eu um cassino capitalista predatório, onde as fichas são jogadas em prol do lucro de empresários gananciosos, associados a grandes trustes internacionais que não têm nenhum compromisso com a biodiversidade e as populações que através dela subsisistem.

Quando o homem mais rico do planeta vem ao Brasil oferecer tecnologia digital para escolas amazônicas, devemos guardar um olho no peixe e outro no gato. O sulafricano com cidadania estadunidense não é um exemplo de bondade, ninguém ganha 11 mil reais por segundo impunemente. O bilionário que propôs que explodissemos bombas nucleares na Lua, não atravessaria o Atlântico rumo aos trópicos somente para oferecer tecnologia digital para as crianças da Amazônia. Obviamente que isso pode ser realizado, certamente que sim. Porém, o mais sensato e convencional, que fosse através de um projeto discutido com o governo brasileiro, nosso parlamento e atores sociais da sociedade civil amazônica.

Causa profunda estranheza ver o futuro colonizador do planeta Marte surgir repentinamente em seu zepelim prateado no interior de São Paulo, prometendo gratuitamente Tik Tok para geral e de quebra, como brinde, monitorar a imensa região amazônica com sua estranha rede de satélites Starlink agregada a toda tecnologia necessária envolvida.

É um projeto realmente sedutor, que fez o arrogante presidente brasileiro largar o batente em Brasília e se jogar humildemente aos pés de Musk, no convescote em homenagem ao bilionário, onde só foram convidados com a nata do empresariado nacional bolsonarista. Os próceres da Faria Lima estão em cólicas, loucos para bater a carteira do bilionário gringo pop star e fazer selfies com Musk que ostentarãobem suas salas de visitas e escritórios.

O projeto pode ser interessante, mas será que é mesmo? Talvez possa ser, desde que sejam postos à mesa os indicadores sociais da região. Se querem falar de escolas e Educação, precisam analisar seriamente as condições de trabalhos dos profissionais da Educação local e sua respectiva estrutura física, aliadas ao poder de acolhimento das unidades de ensino. Será necessário verificar a qualidade da formação dos docentes e dirigentes escolares. Avaliar o currículo a ser implantado levando em conta as especificidades regionais e o nível de aprendizado de jovens e crianças das comunidades beneficiadas.

Além do arcabouço social local, há que se debater no Congresso Nacional, inclusive com audiências públicas, a pertinência e o mérito do projeto, além da realização de fóruns locais, fóruns amazônicos, para saber se a população deseja o tal projeto ou não.

A experiência secular mostra que projetos de grande amplitude que são empurrados goela abaixo, vindos de cima, nada mais são que malandragens eleitoreiras, que duram somente até a próxima eleição. Também pode ser uma suave penetração no assunto proibido que são as reservas de lítio que podem produzir as baterias dos carros da Tesla, nióbio que o Brasil possue 90% da reserva mundial e urânio com o qual o Brasil detém 9% da reserva mundial que quiçá impulsionarão os foguetes nucleares de Musk na futura aventura marciana. Os foguetes químicos atuais levariam de 9 meses a 1 ano na viagem de ida ao planeta vermelho, expondo a tripulação e a própria missão a vários riscos. Com a propulsão nuclear a viagem duraria apenas 2 meses, poupando a missão, a equipe e os custos. Musk está de olho no desenvolvimento desta  desenvolvida pela empresa USNC-TECH.

Para que não seja rotulado como uma pantomina, um embuste, torna-se necessário que os atores amazônicos sejam consultados. Podemos citar por exemplo a FASE NACIONAL, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a Coordenação das Articulações Indígenas da Amazônia Brasileira – COIAB, a Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos – CONAC, a Cáritas Nacional, o Conselho Indigenista Missionário – CIMI, Instituto Sócio Ambiental – ISA, SOS Amazônia, CEDEMPA, entre tantas outras.

A principal fonte de consulta, a fonte primária, ainda continua a ser as nações ou povos indígenas. Na verdade é uma enorme pretensão e ousadia divulgar um projeto dessa monta, até agora totalmente desconhecido da população brasileira, que impactará uma região enorme, correspondente a 41% do território da Europa. Fica parecendo uma divertida jogada de marketing político engendrada por Steve Bannon e comandada por Donald Trump, com o intuito em manter o clã Bolsonaro no poder. Trump precisa de bons aliados em seu projeto de retorno à Casa Branca.
Podemos incluir no pacote de surrealidades a presença do ministro Dias  Toffoli do STF? O que lá foi fazer o magistrado, sabendo que era no mínimo um estranho evento da campanha Bolsonaro? De novo "com Supremo, com tudo"?

Finalizando, não há nada de novo no que Elon Musk anunciou. Nada que não seja da capacidade do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, nosso produtivo e tecnológico INPE, agora relegado ao degredo científico pelo atual governo. Além do INPE temos também o Sistema de Vigilância da Amazônia - SIVAM, que produz resultado similar de monitoramento. Estão na verdade oferecendo 'Ar de Musk' da mesma maneira que os europeus ofereciam espelhos e contas coloridas ao povo autóctone quando aqui aportaram no século XVI.

Deveríamos sentar na mesa com Elon Musk e fazer a célebre pergunta que Garrincha fez ao treinador Vicente Feola, da seleção brasileira campeã de 1962. Durante a preleção, antes do confronto com a então poderosa seleção da União Soviética, o técnico reuniu os jogadores para apresentar as estratégias que levariam o Brasil a vencer o jogo. Ao fim da preleção, instados pelo treinador se havia alguma dúvida, Garrincha levantou a mão e proferiu a seguinte pérola que foi eternizada pela crônica esportiva tupiniquim: “Dr. Feola! O senhor combinou tudo isso com os russos?

terça-feira, 17 de maio de 2022

RAP ELITE E FAVELA


É a velha estória da elite oprimindo a favela

É o povo pobre da perifa se lascando nas vielas

E na peleja desigual do capital contra o povão

O culpado por sofrer é o coitado do irmão

A justiça matou no peito e devolveu de canela

É a velha estória da elite oprimindo a favela

 

A injustiça dói! A injustiça dói!

Capitalismo não rima com igualdade

A injustiça dói! A injustiça dói!

O genocídio da negrada é crime contra a humanidade

 

O sangue do negão tá convocando lá do chão

Tá lá desafiando a consciência do povão

Tá lá nos intimando a fazer revolução

O povo vai fazer a verdadeira abolição

 Palmares é aqui Canudos guerrilheiro

Somos filhos de Zumbi e Antônio Conselheiro

Somos cangaço e herdeiros de Lampião

Somos Malês fazendo a revolução

Aqui o povo luta o povo não amarela

Quando a força da cultura é o comando da favela

No baile funk, no jongo, na passarela

Na beleza da passista

Nos artistas das vielas

Seres brilhantes diamantes cintilantes

Personagens fascinantes que a elite atropela

 Viva Cartola, Mano Décio da Viola, Dona Zica, Dona Neuma, Babaú, Zé Espinguela;

Carlos Cachaça, Dona Ivone, Zé com Fome, Lecy, Geraldo Pereira, Bid e Paulo da Portela;

Zé Criolinho, grande Nelson Cavaquinho, Padeirinho, Molequinho, Dona Eulália e o povo dela;

Coluna Prestes, Araguaia, Abdias, Apolônio, Santo Dias, Chico Mendes, Marighella; 

Tibete livre, África reparação, Palestina pátria livre o bom cubano é meu irmão;

O povo negro no Haiti fez gol de placa e a elite deu carrinho e até hoje contra ataca;

No USA (uesseêi) do Mississipi ao Alabama Luther King e Malcoln X prepararam pro Obama;

Falei e disse, já mandei o meu recado

Seja pobre ou seja rico é cada um no seu quadrado

Aqui o povo luta o povo não amarela

Mas no ônibus da vida o rico anda na janela

Aqui o povo luta o povo não amarela

Eu sou mais é João Cândido e Teresa de Benguela.