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Racismo Ambiental

terça-feira, 16 de maio de 2023

A Importância do Letramento Racial Para a Construção de Uma Nova Sociedade


 


O conceito de letramento racial é oriundo da expressão inglesa “racial literacy”, criada pela socióloga estadunidense France Winddance Twine em 2003. Segundo Lia Vaine Schucman, doutora em Psicologia pela USP, que traduziu o termo, o letramento racial está relacionado com a necessidade de desconstruir formas de pensar e agir que foram naturalizadas. O letramento propõe a racialização das relações entre brancos e negros, visando a reeducação e o fim do estabelecimento arbitrário de direitos e lugares hierarquicamente diferentes para brancos e não-brancos, que legitima uma pretensa supremacia do branco.”

Nos anos 90 o jornal Folha de São Paulo publicou uma pesquisa que ficou marcada nos debates sobre a temática racial brasileira. A pesquisa apontou que 90% das pessoas entrevistadas afirmaram conhecer pessoas racistas e reconheciam a existência do racismo, afirmando porém enfaticamente que não eram racistas de jeito nenhum. Esse resultado aponta para uma falta de compreensão acerca do que seja o racismo e suas mais nuances mais sutis. O racismo é um sistema perverso que opera diuturnamente para a promoção de um contingente étnico em detrimento a outro. No caso brasileiro toda a estrutura do estado é voltada para a promoção da população branca, secundarizando em todos os aspectos os modos de promoção da população majoritária do Brasil que é a população negra.

A construção do racismo no tecido social brasileiro foi alinhavada na Europa quando tiveram início as grandes navegações do mercantilismo no século XIV e se desenvolveu mais ainda empurrada pelos ventos da Revolução Industrial em suas duas mais importantes versões. Apesar do Iluminismo ter colocado suas lupas estimulando o fim da escravidão, foi inevitável a divisão do mundo em raças, com a contribuição da antropologia física surgida no século XVIII, que focalizou seus estudos em esqueletos humanos. Essa nova perspectiva da ciência visava apresentar o resultado de observações fenomenológicas da evolução e da variabilidade humana. Após inúmeras descobertas de novos territórios e suas populações houve a necessidade de classificação pelos naturalistas desses seres humanos do passado em seus espaços geográficos.

As raças geralmente foram classificadas de acordo com suas localizações geográficas, devido aos fatores climáticos que produziram suas diferenças. Mas os europeus sempre se declararam diferenciados, baseados em sua cultura e em uma pretensa erudição em relação aos povos africanos e asiáticos, onde a escolástica, por exemplo, se referenciava a eles como gentios ou bárbaros, como os romanos se referiam aos povos saxões. Os europeus consideravam os traços africanos brutos e primitivos, e portanto, não atraentes, frutos de uma civilização bárbara e não civilizada. A partir desse ponto foi estabelecida uma hierarquia que privilegiou a ambição do colonialismo gerando teorias científicas que justificavam a invasão de territórios e dominação de populações autóctones.

O estudo morfológico e métrico do crânio através da craniologia, foi iniciado por Blumenbach (1752-1840) onde a morfologia do crânio começou a ser usada sistematicamente como parâmetro para determinar a raça de origem de um indivíduo.

Esse tipo de estudo foi o fator principal para que através de suas concepções, houvesse uma hierarquia social baseada em padrões como “crânio alongado” “globular” entre outras definições, que demonstravam a hipointelectualidade cognitiva dos povos africanos e asiáticos. A partir desse momento foi criada e consolidada pelos europeus a hierarquia social e cultural entre os grupos humanos.

A metodologia de Blumenbach transversalizou as características osteológicas do século XVIII e foi seguida por Franz Joseph Gall (1758-1828) que afirmava que as características cranianas correspondia a certas características cognitivas e intelectuais. A partir de então nasce a Frenologia, uma pseudo ciência que sugeria que a protuberância na cabeça dos seres humanos determinavam seus traços e caráter. Na era vitoriana inclusive, as cabeças eram usadas como modelos de leitura para aferição de personalidade. A Frenologia foi utilizada como forma de racismo científico para consolidar práticas e políticas opressoras contra povos originários.

A Frenologia foi contestada seriamente por grande parte dos pesquisadores da época. A ideia de raça também sofreu críticas devido ao imenso conjunto de parâmetros que combinavam inúmeras características e não somente à seleção ambiental que acentuava certas características fisionômicas como cor da pele, cabelos, olhos e formato do crânio. Em 1994 a Associação Antropológica Americana abandonou o conceito de raça por falta de embasamento científico. Para se afastar da conotação social da palavra "raça", a ciência precisou modificar sua maneira de se referir às populações humanas e aceitar a existência de uma única espécie que passou a ser designada como Homo Sapiens.

A definição biológica de raça passou por intensos estudos e testes no campo da antropologia molecular em 1972 por Richard Lewontin da Universidade de Harvard que fez um exame detalhado das proteínas do sangue de populações diferentes. Os resultados não apresentaram diferenças significativas entre todos os pesquisados. Também foram realizados estudos tendo como base a sequência base do DNA de diversas populações onde o resultado mostrou que 99,9% das amostras são idênticas. Esses resultados colocaram por terra o conceito biológico de raça e soergueram o conceito de ancestralidade que tem uma dimensão mais holística e social.

Com o conceito biológico de raças pulverizado, restou aos movimentos sociais de direitos humanos e de combate ao racismo apontar para as assimetrias sociais que essas teorias científicas eugênicas causaram às populações negras do continente africano e da afro diáspora. Consequências deletérias que proporcionaram terríveis genocídios e perpetuações de opressões durante muitos séculos. Há porém uma armadilha embutida no conceito de não-raças, pois, a assertiva em torno do termo ‘raça humana’ dilui e mascara as construções do racismo estrutural. Para um racista nada melhor que se trabalhar o conceito de raça humana, pois fica eliminado o “fator melanina” que incomoda demais os racistas e absenteístas do tema.

O Letramento Racial é a ferramenta que nos coloca de maneira crítica e empoderada entre o fator biológico e o fator social no que tange à luta antirracista e a promoção de populações negras. Não somente desconstruir o racismo mas também elaborar práticas antirracistas. O Letramento Racial é composto por um conjunto de práticas que propõem a capacitação de pessoas que possam avaliar e contestar as práticas do racismo estrutural e suas derivações contidas no âmbito da discriminação racial e suas manifestações no cotidiano da sociedade.  Apesar de ser um conjunto de práticas de fácil compreensão, o letramento adquire contornos complexos quando se depara com a subjetividade do racismo na sociedade brasileira. Há uma gama de estudos e reflexões sobre os processos históricos que culminaram com a construção social do racismo, a ancestralidade e cosmovisão da população negra, da diversidade étnica, da multiculturalidade africana e da afro diáspora.

O letramento pode ser considerado um processo de reeducação racial, fomentado com o intuito de promover a desconstrução da naturalização do racismo nas suas mais diversas formas de manifestações. Essa desconstrução passa pela clivagem tanto da população branca que opera em seu contexto de se imaginar uma raça superior, como pela população negra na direção de desconstruir a naturalização do cotidiano racista.

Denominou-se chamar branquitude à construção da identidade racial branca. Essas construções acontecem nas sociedades onde o racismo estrutural identifica as pessoas pela cor da pele com o conceito da superioridade da raça branca. Como é considerada superior, pode ser excluída do conceito de raça, pois, por ser superior é humana. Uma pessoa branca não pensa em conceito de raça pois não precisa dele. Nas sociedades contemporâneas ser branco é o paradigma natural e por ser assim podem ‘jogar’ com o axioma de que somos todos iguais. Então os brancos não se deparam com a qualidade de ser branco pois a tensão racial está sempre colocada sobre o contingente negro da população. Uma pessoa branca vive sem pensar em sua condição racial, enquanto que uma pessoa negra não se descobre negra mas é apontada por sê-la. Por isso o letramento torna-se necessário para que tanto pessoas brancas quanto negras saibam como podem conduzir suas ações compreendidas na complexa dialética racial.

O sistema capitalista é pela própria origem opressor e excludente. O sistema nasceu nas fraldas da Frenologia e no campo social não sofreu grandes alterações desde então, onde a etnia branca comanda os meios de produção sendo detentora do capital e do poderio econômico, enquanto negros e negras vendem sua força de trabalho por um valor simbólico, apenas suficiente para que possam sobreviver, sem as mínimas condições de poupança e de qualquer acumulação de bens ou capital. O capitalismo encontra sustentação na configuração patrimonialista do estado brasileiro, onde todo o sistema político é assentado nas bases do colonialismo e ainda comandado pelas mesmas famílias que ocuparam as capitanias hereditárias. O racismo estrutural criou um modelo de desenvolvimento somente voltado para a etnia branca e esse molde se reprograma e se reproduz, garantindo poder político e poder econômico a este contingente humano.

É uma falsa ideia de democracia, onde o pretenso modelo representativo, quer nos convencer que o povo decide os destinos da nação através de seus representantes. Pura ilusão, o poder econômico financia a maioria das campanhas políticas ao parlamento brasileiro e seus parlamentares eleitos são obrigados a seguir a cartilha do seu mecenas e financiador, que obviamente não pensa nos direitos constitucionais da população pobre, quanto menos da negra.

O racismo estrutural não permite que se aponte o racismo em nossas escolas. As aulas de História do Brasil, com raríssimas exceções, são eivadas de datas e vultos históricos, passando ao largo de todo o processo mercantilista europeu e sua invasão dos continentes africano, caribenho e sul americano, assim como a sofisticada tecnologia metodológica empregada no comércio triangular e no tráfico transatlântico de milhões de africanos escravizados. Esses eventos são ocultados e criam um limbo difuso nas cabeças de nossos estudantes acerca da ancestralidade de alguns e da formação da nação brasileira por todos. A negação da história sobre a violência sobre as mulheres negras e a designação dos africanos escravizados como seres sem alma, inclusive pela própria Igreja Católica. Caio Prado Junior em seu livro “Formação do Brasil Contemporâneo”, registra a situação de submissão a que eram submetidas as mulheres negras escravizadas. De acordo com Junior (1961, p .342): “...a outra função da mulher escrava era ser instrumento de satisfação sexual das necessidades sexuais de seus senhores e dominadores, não ultrapassando o nível primário puramente animal do contato sexual. Não se aproximando senão muito remotamente da esfera propriamente humana do amor”. (Junior, 1961, p.342)

A omissão desses fatos reais servem como um biombo antropológico que oculta a verdade histórica e garante a sobrevivência do sistema capitalista com suas opressões.

O conceito de letramento compreende um estágio superior à alfabetização. O Letramento Racial pode contribuir de maneira direta na Educação, promovendo o desenvolvimento cognitivo da comunidade escolar, criando um ambiente rico em assertividade no que concerne aos debates sobre a temática racial.

O Letramento Racial nos mostra como as relações raciais transformam a sociedade e como essas relações são transformadas por ele. Para que possamos estabelecer essa prática na escola é necessário compreender a necessidade de uma (re)educação antirracista. Segundopara tirar essa ideia do papel nas instituições de ensino. Segundo Rodrigues (2017): 

1. É fundamental que as escolas se comprometam com as leis n° 10.639/03 e a 11.645/08, abordando a história e as culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas de forma orgânica e sistemática – para além de datas comemorativas – em todas as esferas da vida escolar; 

2. Os currículos precisam ser discutidos e atualizados para colocar perspectivas pretas em evidência. É preciso incluir autores que representam a perspectiva africana e afro-brasileira em diferentes áreas de conhecimento. Também é urgente ler sobre distribuição de renda, escolaridade e moradia da população preta. Perceber que identidades raciais são construídas e conhecer a História são ações fundamentais para enfrentar o racismo e o preconceito; 

3. Como professores e gestores lidam com manifestações racistas no espaço escolar? Elas são explicitadas? Discutidas? A escola investe na formação dos docentes para abordar relações étnico-raciais? Pesquisas e estudos sobre essa temática precisam ser referenciais para toda ação docente; 

4 . Cabe à escola apresentar aos estudantes a diversidade não apenas de textos, de temas, mas também de concepções de mundo, de modos de fazer e de dizer. Assim, é fundamental que as escolas incluam autores e intelectuais pretos em suas bibliotecas e atividades de sala de aula. Qual o lugar destinado às práticas de oralidade, tão importantes para os povos africanos e para nós, brasileiros?

Os currículos precisam ser discutidos e atualizados para colocar perspectivas pretas em evidência. É preciso incluir autores que representam a perspectiva africana e afro-brasileira em diferentes áreas de conhecimento. Também é urgente ler sobre distribuição de renda, escolaridade e moradia da população preta. Perceber que identidades raciais são construídas e conhecer a História são ações fundamentais para enfrentar o racismo e o preconceito; 

Como professores e gestores lidam com manifestações racistas no espaço escolar? Elas são explicitadas? Discutidas? A escola investe na formação dos docentes para abordar relações étnico-raciais? Pesquisas e estudos sobre essa temática precisam ser referenciais para toda ação docente; 

Cabe à escola apresentar aos estudantes a diversidade não apenas de textos, de temas, mas também de concepções de mundo, de modos de fazer e de dizer. Assim, é fundamental que as escolas incluam autores e intelectuais pretos em suas bibliotecas e atividades de sala de aula. Qual o lugar destinado às práticas de oralidade, tão importantes para os povos africanos e para nós, brasileiros?

O letramento nos auxilia na medida em que demonstra que o racismo não é uma coisa do passado, que não terminou com a Lei Áurea. O sistema de exploração continua só que agora amparado na lei e sob o nome de democracia. A democracia que destinaram aos negros é um engodo, assim como na Caverna de Platão, onde sombras são projetadas nas paredes da caverna e aquelas sombras significam a verdade. Em nossa sociedade funciona mais ou menos assim, eles mudam as leis e os procedimentos para que tudo continue do mesmo jeito que sempre foi. Podemos citar como exemplo algumas leis de inclusão, onde os negros conseguem ocupar certos espaços mas está sob um teto de vidro, onde vê os andares superiores mas não consegue atravessar a barreira de vidro.

As pessoas não nascem racistas elas se tornam racistas. Ou por aprendizado ou por osmose situacional, onde a criança branca acostuma a naturalizar a presença de negros em posições de inferioridade profissional em seus ambientes sociais. Com o tempo torna-se estranho encontrar uma pessoa negra no mesmo patamar de uma pessoa branca e alguns casos, onde seus ambientes sejam mais conflagrados ela passa a odiar as pessoas negras, sem ao menos saber o porquê. Enquanto isso, nesse mesmo universo, a criança negra cresce com a subalternidade gerenciando seus olhares e suas percepções. Aos poucos vai cristalizando em sua personalidade que esta situação é natural, que deve ser sempre dessa maneira. E com o tempo passa a adotar a máxima que diz “eu sei onde é o meu lugar”.

Negros e negras são obrigados a conviver como referência do lado negativo das coisas e se tornarem indicadores negativos à sua própria origem como “caixa preta”, “passado negro”, “lista negra”, enfim, nada que possa elevar sua autoestima. Pelo contrário, ele pode se tornar um “negro de alma branca”, ou seja, uma pessoa negra obediente aos códigos da casa grande e ao sistema. Caso a pessoa negra se insurja contra essas expressões, os códigos racistas entram imediatamente em ação acusando-a de racista ao contrário.

Para organizar o conjunto de ações que podem compor o Letramento Racial é necessário que se faça algumas análises de cunho histórico, principalmente sobre a motivação da empresa colonial portuguesa em caçar africanos livres e trazê-los escravizados para o Novo Mundo. Pesquisadores apontam que o estopim que iniciou o tráfico negreiro em grande escala foi a Bula Papal Dum diversas, emitida em 18 de junho de 1452 pelo Papa Nicolau V, dirigida ao Rei Afonso V de Portugal com o seguinte conteúdo: (…) nós lhe concedemos, por estes presentes documentos, com nossa Autoridade Apostólica, plena e livre permissão de invadir, buscar, capturar e subjugar os sarracenos e pagãos e quaisquer outros incrédulos e inimigos de Cristo, onde quer que estejam, como também seus reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades (…) e reduzir suas pessoas à perpétua escravidão, e apropriar e converter em seu uso e proveito e de seus sucessores, os reis de Portugal, em perpétuo, os supramencionados reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades, possessões e bens semelhantes (…).  A bula autorizava os portugueses a conquistar novos territórios não cristianizados e consignar à escravatura perpétua todos os não-cristãos que fossem encontrados nas navegações lusitanas. Em 8 de janeiro de 1554, estes poderes também foram estendidos aos reis de Espanha.

Levando em consideração que nesse período a Igreja Católica possuía enorme influência sobre os governos, podemos aferir que ela tem grande responsabilidade no genocídio que foi perpetrado contra os povos africanos.

É ilusão acharmos que a simples configuração do letramento irá superar 500 anos de consolidação de um sistema institucional opressor. As raízes do racismos estão solidamente assentadas no seio da sociedade desde quando a igreja católica se uniu às coroas portuguesas e espanholas na escravização de indígenas e africanos na construção e exploração do Novo Mundo.

A luta contra o racismo é cotidiana. Nós o povo negro, somos o povo da migração forçada que constituiu a afrodiáspora. Somos o povo do banimento, quando nos empurram para as facetas mais sombrias da sociedade. Somos os Sísifos de ébano contemporâneos, que todos os dias precisam recomeçar a vida, lutando para encontrarmos nosso espaço, sermos reconhecidos, sermos aceitos, e amados, mas sempre será em vão porque o paredão da branquitude traz em si grafitado o estigma da frenologia, da bula papal Dum diversas, das construções eugenistas de Nina Rodrigues influenciadas pelo ideário do criminólogo italiano Cesare Lombroso. Somos reféns da teoria da democracia racial e da visão enviesada de Gilberto Freyre, que preconizava a interação virtuosa entre a casa grande e a senzala. Nós os negros que lutam somos invisibilizados, porque a casa grande quer o negro que dorme no porão e não e o negro que vive livre no quilombo. Querem que vivamos na Caverna de Platão sendo iludidos pelas chamas do capitalismo e da branquitude, nos querem contritos e de joelhos pedindo perdão por nossos pecados, sendo que os pecadores são eles.

O Letramento Racial não é apenas um conjunto de regras e normas operacionais. É muito mais que isso, é a chama da nossa ancestralidade clamando por justiça. São heróis e heroínas de Palmares e de todos os quilombos gritando por justiça, são os marinheiros de João Cândido mortos no cárcere, é Moa do Katendê e Marielle Franco tombados na urbe, são os malês revolucionários de Luiza Mahin.                                           

O letramento racial tem que viajar nos trens lotados, nas filas dos hospitais públicos, nos becos e vielas das comunidades. Deverá servir como instrumento emancipatório para o negro e civilizatório para o branco. Construirá com seus mecanismos um novo devir histórico, onde a paz, justiça Social e igualdade sejam as mais altas bandeiras de uma nova sociedade brasileira.

sábado, 13 de maio de 2023

O Colorismo Racial Brasileiro

O colorismo racial refere-se à discriminação e à preferência por pessoas com base em sua tonalidade de pele, geralmente dentro da mesma raça ou etnia. O colorismo pode ser percebido em diferentes contextos sociais, desde as relações interpessoais até as políticas públicas e as mídias. A preferência por pessoas mais claras de um mesmo grupo racial. Em outras palavras, a discriminação não é baseada na raça em si, mas na cor da pele dentro dessa raça. É comum que as pessoas mais claras de um grupo racial sejam valorizadas no sentido de terem mais oportunidades e serem vistas como mais atraentes e inteligentes, enquanto as pessoas mais escuras sofrem discriminação e são vistas como menos atraentes e menos inteligentes. Esse fenômeno é comum em todo o mundo e pode ser observado em diferentes culturas e grupos raciais. O colorismo racial é uma forma insidiosa de preconceito que pode contribuir para a desigualdade social e prejudicar a autoestima e o bem-estar emocional das pessoas que são alvo dessa discriminação.
O colorismo no âmbito da população negra funciona como um instrumento ideológico de assimilação, controle, cooptação e anti insurrecional. O capitalismo utiliza esse mecanismo diuturnamente contra a organização da população negra, visando seu controle e consolidando sua política de opressão.
E o sábio griot africano disse: “Os brancos chegaram em seus barcos que traziam a cruz de Cristo nas velas. Também trouxeram a Bíblia Sagrada e nos ensinaram a rezar de olhos fechados.
Nós tínhamos a terra, toda a terra, uma imensidão de terras. E então começamos a rezar com os olhos fechados. Quando finalmente abrimos os olhos, tínhamos então a Bíblia Sagrada e os brancos a terra.”
Assim começa a história do colorismo. Com os brancos convencendo os negros que o Filho de Deus é branco e sacrificou a própria vida para salvar a humanidade. Todos os santos mártires eram brancos e finalmente Deus também é branco. A ideia da divindade branca não considerou ao menos o sincretismo. O continente africano possuía sua própria cultura, sua própria religiosidade, seus deuses, seus orixás e o culto aos orixás.
Os brancos chegaram em suas embarcações trazendo um livro que diziam conter a salvação e através dele e em nome dele se apoderou de nossas terras com todas as riquezas contidas nelas e escravizou nosso povo.
Os brancos trouxeram tristezas e desgraças. Levou nosso povo embora em seus barcos, acorrentados nos porões de seus barcos, os pérfidos navios negreiros, transportadores de carga humana negra, escravizada até a morte para construir outras nações para os brancos que nos convenceram que aquele livro que contava a estória de um carpinteiro crucificado era a nossa salvação. Nós éramos 90% e eles 10% mas mesmo assim nos controlaram e nos dividiram em 10 partes de 9% e aos poucos, lentamente, os 10% passaram a controlar e comandar todos os 9%, fazendo-os inimigos uns dos outros, estimulando a sedição, as guerras tribais, o ódio e a morte.
Então o continente africano foi dividido pelos brancos entre eles próprios, que nós considerava bárbaros, povos bárbaros e selvagens. Através da Bíblia Sagrada e do Cristianismo, em nome deles, nos impuseram outras culturas, outros deuses, outras religiões e até outro jeito de amar.
Os brancos trouxeram em seus barcos o egoísmo. A propriedade privada individual, o fim do coletivo, pulverizando o umbuntu, onde tudo é de todos e todos somos um. Os brancos também transformaram nossa relação com a mãe natureza. Passou a destruí-la e levá-la embora em suas embarcações. A terra, nossa mãe terra, era violada, revolvida, escavada na busca insana por metais e pedras que constituíam riqueza e poder no mundo dos brancos, do outro lado do oceano.
Eles nos dividiram para que pudessem reinar, comandar e nos escravizar. Com a Bíblia Sagrada e outro modo de vida transformou a alegria em tristeza, o coletivo em individual, o compartilhamento em egoísmo e a liberdade em escravidão.
Os brancos nos aprisionaram em suas masmorras. Nos impuseram os mais duros castigos e violentaram nossas mulheres.Aprisionaram e venderam nossos filhos como escravos, pulverizaram nossa ancestralidade e sempre com a Bíblia Sagrada à frente, em nome do Filho de Deus branco, nos ensinou a nos dividir, a lutar entre nós mesmos, nos separar por pequenas diferenças, nos transformar em mensageiros das tormentas para então poder nos oprimir e nos escravizar em paz.
O branco considera o negro da pele preta, retinta, um fruto dileto e legítimo do amor mais puro entre duas pessoas negras. Enquanto que para o branco, o pardo é a mais direta representação do pecado, o fruto do pecado gerado pela lascívia da carne e do hedonismo sensorial que compõem o imaginário coletivo do universo afetivo entre brancos e negros.
O pardo é o fruto do pecado moral oriundo da cópula entre duas dimensões raciais e sexuais inconciliáveis. Os negros para os brancos são os filhos de Cam, os renegados por Deus e portanto não devem copular com brancos, pois assim causam a degeneração da raça adâmica. Nascer pardo é uma condição estranha de estar emparedado entre dois mundos que não o aceitam. Um pela degeneração racial e outro pela subjetividade existencial. Sim, subjetividade, pois, para o negro retinto o pardo pode ser um oportunista racial por conter componentes ibéricos em sua constituição racial.
O pardo se mantém atirado nos paredões do destino desses dois mundos, mesmo que amando os dois, nunca será reconhecido como parte dos dois. Ao nascer portando sangue negro já traz consigo o estigma da rejeição e por trazer sangue branco desperta entre os prováveis seus o alerta da competição desigual entre os desiguais.
O estigma da rejeição é o sinal que a civilização emite para o pardo invasor de etnias. Se a mulher é branca e o homem é negro o pardo é fruto de uma relação sodomizada e se o homem é branco e a mulher é negra o pardo é o resultado de uma relação de cama e mesa. Então se torna uma existência pária, de merda, onde não há o peito amigo de irmão de raça que ofereça acolhimento. O pardo na verdade é considerado um trânsfuga interétnico, uma falha atávica ou um processo natural de albinismo enviesado.
O capitalismo no intuito de controlar a maioria através de sua minoria, propõe uma parceria subjetiva através da construção de um espaço de tolerância subrreptício entre seus mecanismos de controle e opressão e os negros mais miscigenados. Esse contingente de pardos, que são mais de 40% de nossa composição demográfica, ou seja, 90 milhões de seres humanos, constituem o ponto de inflexão necessário para o estabelecimento da aliança interracial que estabelece a política da pigmentocracia, onde quanto menos retinta a pele mais benefícios podem ser alcançados por esse contingente étnico construído.
Ao consolidar a aliança com os pardos, o capitalismo opera intensamente através do materialismo dialético, gerando campos de progressão social antes sempre vedados aos negros retintos, enquanto que ao mesmo tempo despeja água fria no caldeirão racial que ameaçava entrar em ebulição.
 Não existe um meio branco mas existe o meio negro. Aquela estória do copo meio cheio ou meio vazio. No nosso caso o corpo meio cheio ou meio vazio de melanina define a alteridade social que a pessoa irá viver.
A pigmentocracia é mais conhecida como colorismo racial, ou simplesmente colorismo. Foi um termo cunhado em 1982 pela escritora norte-americana Alice Walker, em seu livro “In Search of Our Mothers’ Gardens”. O termo se refere à discriminação ou preferência no benefício ou preterimento de indivíduos referenciada na cor da pele. O colorismo é um tipo de racismo refinado onde negros de pele mais clara, fruto da miscigenação com a etnia branca, ou pardos, como são chamados, se tornam beneficiários dos restolhos sociais e econômicos que os brancos atiram no chão a partir do banquete antropológico da branquitude.
O processo é perverso, pois cria um cenário de transformação fenotipica com a utilização de processos químicos para alisamento de cabelos, cirurgias para afilamento de varizes e lábios e talvez o mais cruel que é o abandono da ancestralidade africana em detrimento de uma descendência europeia amaldiçoada e rejeitada pelos caucasianos. Os pardos beneficiados pelo colorismo se contentam com as migalhas que lhes são atiradas pela burguesia branca. O contentamento precisa ser visível, para que assim possam comprovar, que através de um machado epistemológico, cortaram para sempre as raízes de suas ancestralidades africanas.
Obviamente que a raça negra é o centro da autofagia colorista, pois é o grande centro emulador da rebelião. O processo ideológico do colorismo visa além dos cabelos alisados e lentes de contato verdes, a adoção de comportamentos culturaus alienígenas, onde a rejeição aos seus iguais passa a constituir um mosaico difuso, caótico e desagregador. Dessa maneira o capitalismo reproduz a mesma ideologia do colonialismo com os requintes das características diaspóricas.
No continente africano as mulheres utilizam cremes clareadores de pele, destarte a carga cancerígena que carregam. Na diáspora as mulheres negras beneficiadas pelo colorismo já possuem a pele mais clara, mas repetindo, se submetem a procedimentos cirúrgicos estéticos para se aproximarem ainda mais dos ideais da branquitude.
Talvez a face mais eficiente do racismo seja aquela que faz o negro não se amar. Além de eficiente é perversa pois causa tristeza e dor. É um remédio amargo que adoece em vez de curar nossas feridas ancestrais.
Ao não se amar por estar se referenciando em matrizes caucasuanas o negro destrói através dos tempos seu próprio ethos constitutivo, desamando a si e à sua comunidade negra.
É um processo violento pois passa por duas grandes calamidades antropológicas. A primeira é o corte epistemológico que ocorreu na sua ancestralidade genealógica, quando suas origens foram perdidas pela escravidão. O negro não sabe onde está a aldeia dos seus antepassados, não pode cantar as canções de glória e vitórias de seus antepassados. É um filho do nada, de uma África gigante com 54 países e centenas ou milhares de etnias, línguas e culturas. O negro jamais saberá de onde vieram seus ancestrais, é um ser sem passado ancestral definido. Por isso todos se referem ao continente africano de uma maneira geral, pois não conhecem a aldeia de onde seus ancestrais são originários. Está é a primeira violência, a retirada da origem, o apagamento do passado. Os italianos, alemães e japoneses, por exemplo, comemoram suas datas especiais, com canções e culinárias de suas aldeias. Comemoram seus ancestrais pioneiros e dançam alegres em homenagem ao passado. Ao negro não foi permitido esse tipo de comemoração. Restou-lhe uma África multifaceada para cultuar, é isso ou nada.
A segunda violência que o negro sofre é seu enquadramento em um modelo social onde ele sempre será a possibilidade de um crime, de uma ilicitude ou então de subcidadania. O negro ao nascer traz no verso da certidão de nascimento o carimbo de incapaz selado pela branquitude. Passará o resto da vida sendo vigiado pelos olhares sempre atentos dos brancos. Pode ser um menino negro no sinal, um pedinte nas ruas, um negro em situação de miserabilidade, sempre serão olhados com desconfiança. Mesmo os negros integrados social e economicamente ao modelo social vigente, sofrem discriminação nas portas de entradas dos bancos, nos embarques de aeroportos e nas blitzes policiais nas ruas das cidades.
O sistema capitalista e o racismo estrutural são cruéis com o povo negro. Por isso a grande maioria não quer ser parte desse drama existencial. Preferem aderir à branquitude mesmo que de maneira canhestra e às vezes até caricata quando alisam e pintam os cabelos de loiros e usam lentes de contato verdes ou azuis.
A utilização de terno e gravata é uma forma de capitulação ao modelo amalgamado pela branquitude. A negação às raízes culturais africanas em prol de um modo de cultura europeu, demonstra que a branquitude é mais forte que a ancestralidade. Óbvio que existem bolsões de resistência geralmente ligados ao movimento social negro organizado. Porém não refletem a grande maioria da população negra nacional.
Essas violações que o negro sofre desde o útero de sua mãe, fará com que se torne um ser inquieto e só mesmo tempo soturno, pois sabe muito bem que a sociedade não lhe ama, pelo contrário, a sociedade vigia seus movimentos.
O colorismo trabalha com essa inconsistência emocional do negro e procura se aproveitar da situação, tanto na continuação da opressão sobre os negros retintos como na cooptação dos pardos em um movimento ideológico de constituição de maioria demográfica voltado para a consolidação do poder político e também como construção de uma força contrarrevolucionária de opressão à minoria retinta.
O movimento ideológico do colorismo visa a fragmentação do povo negro. A branquitude repete o mesmo modelo colonial empregado em África e nas colônias onde eram minoria e para controlar a maioria precisavam dividir para reinar.
O colorismo é um grande malefício engendrado no seio da comunidade negra. Assim como foi feito na comunidade negra dos Estados Unidos quando o movimento dos Panteras Negras teve seu apogeu. A branquitude injetou drogas na comunidade negra visando seu enfraquecimento e por conseguinte conseguir atingir o controle absoluto que os Panteras Negras tinham da vida comunitária do povo negro.
Os negros precisam se organizar como não brancos, independente da cor da pele. Se não é branco, branco não é, então é negro. Negro faz luta de negro, pois o branco não precisa fazer luta racial na medida em que se tornou o padrão, o paradigma civilizatório de ser humano. Querendo ou não ainda sofremos os efeitos da bula papal “Dum diversas” de 1452, que nos considerou seres sem alma, brutos, bárbaros, gentios, pagãos e inimigos de Cristo.
Precisamos lutar juntos como fazemos todos os dias. O branco acorda e vai viver sua vida, enquanto que o negro acorda e precisa lutar contra o racismo todos os dias. Se não é uma condenação é uma expiação, pois a luta é eterna, até o fim da vida.
Vamos varrer de nossas vidas de negros e negras esse embuste denominado colorismo. Junto com outros grupos humanos como indígenas e asiáticos, coexistem brancos e negros. Branco é branco e negro é negro, o resto é pura imaginação capitalista.

segunda-feira, 1 de maio de 2023

O Quartinho de Empregada e o Sonho de Laudelina

A mulher negra passou a vida no quartinho de empregada. Chegou ainda jovem na família abastada para prestar serviços de doméstica. Durante quarenta anos viveu no confinamento do quartinho de empregada. Pelo menos três gerações daquela família receberam seus cuidados. Ela sabia dos seus desejos, das manias, das malcriações, dos amores, dos casamentos e dos filhos e filhas que surgiram em profusão com o passar do tempo. Nunca se casou, não tinha tempo para namorar e nem se animava para se enfeitar, quanto mais ter um homem para engravidar e deixa-la sozinha com uma criança de colo. Sua vida sempre foi servir com eficiência ao núcleo familiar que a contratara e exigia sua atenção diuturnamente.
A rotina era intensa, fritava com cuidado os pasteizinhos de camarão do patrão, cuidava com atenção dos vestidos de madame e divertia as crianças participando de suas estripulias. Quando não estava dedicada no fogão era vista cuidando da limpeza dos banheiros e dos cômodos da casa. Se não estava passando a roupa na área de serviço corria com as crianças para embarcá-las na condução do colégio, para logo depois fazer compras no supermercado, assim era sua vida.
Nasceu em uma família paupérrima, numa distante e violenta periferia abandonada pelo poder público. Cresceu sentindo as carências e necessidades básicas de uma família negra pobre dos subúrbios. A cada dois meses costumava deixar a rica zona sul da cidade, onde trabalhava, para visitar sua família. Quando anunciava que ia passar o fim de semana com os seus era um deus nos acuda. Madame fechava a cara e falava poucas palavras, o patrão se desesperava pois ficaria sem seus pasteizinhos e as crianças sabiam que pelos menos durante esse fim de semana não ouviriam canções de ninar ou estórias fantásticas de um distante passado entranhado pelas maravilhas da cosmovisão africana. As crianças adoravam as estórias da mula sem cabeça, do padre voador, da loura atrás do poste e do cachorro de olhos de fogo que surgia no meio da noite. Pelo contrário, a petizada ouviria os gritos de desespero de madame por ter queimado as torradas e lamentos do patrão por não poder sair com sua camisa preferida que não estava passada e madame jamais ousaria ligar um ferro de passar roupa.
Nas férias escolares de fim de ano da criançada, a família viajava para as região serrana fora da cidade. Nesse período dedicado ao lazer ela não iria ter com seus familiares, pois viajava junto com madame e a família para as montanhas. Na casa de veraneio também tinha seu quartinho de empregada, para onde se recolhia depois de tirar a mesa do jantar, ter lavado a louça e contado estórias de ninar para a petizada. As jornadas eram duras e extenuantes, para ela não significavam férias e sim mais trabalho, jornadas dobradas com a mesma remuneração. Seu parco salário mínimo era economizado para ajudar sua família paupérrima nas agruras da vida de sofrimentos e carências cotidianas. Essa mulher negra passou sua vida servindo a uma família branca, vivendo na solidão do seu quartinho, sem reclamar, sempre solícita, amorosa e obediente. Esse é o destino de toda mulher negra que decide trabalhar como empregada doméstica e viver num quartinho de empregada de uma família burguesa.
O quarto de empregada enquanto dependência voltada às trabalhadoras da família é uma prática comum na sociedade burguesa brasileira. Na verdade é uma prática quase que exclusiva da elite brasileira. Praticamente não existe esse tipo de construção nas sociedades evoluídas do mundo moderno. Não há nada parecido com apartamentos dotados de quarto de empregada e prédios com elevador de serviço. Esse cômodo segregador faz parte de um microcosmo simbólico que oprime e demonstra à usuária sua limitação social. É uma fronteira demarcada entre a riqueza e a pobreza, um espaço diminuto que é construído como uma proto-representação da antiga senzala do tempo da escravidão.
O quarto de empregada é minúsculo, escuro, abafado, não tem janelas e possui uma pequena latrina em seu interior. Não é construído dentro dos princípios da arquitetura atual, que é tornar a vida do ser humano mais agradável e confortável. Pelo contrário, é construído para humilhar, para ser habitado pelas mulheres geralmente negras, que são obrigadas a dividir o exíguo espaço com diversas bugigangas guardadas pelos patrões. O quartinho é oferecido como um prêmio para mulheres pobres e periféricas que necessitam desesperadamente de trabalho. A burguesia brasileira é uma das mais cafonas e atrasadas do mundo. Ainda uniformiza seus empregados e obrigam seus motoristas a abrirem as portas dos carros para que usuários possam entrar e sair dos veículos. A relação das empregadas domésticas com seus patrões e patroas são humilhantes e chegam a beirar o ridículo, quando são proibidas de utilizar as dependências “sociais” da casa. Fora do horário de trabalho são relegadas ao confinamento dos seus cubículos, a viver no silêncio e purgar a solidão entre quatro paredes, carpindo a vida sofrida da senzala contemporânea.
O quarto de empregada é parte de uma barganha esperta e cruel que a burguesia oferece à frágil e precarizada mulher negra. Disponibilizam o quarto para a trabalhadora em troca do fim do incômodo do vai e vem diário rumo a seu lar e sua família nas periferias distantes. O sufocante quartinho é a garantia que os patrões oferecem para que suas empregadas não gastem até seis horas diárias dentro de transportes coletivos insalubres e abarrotados. Ao optarem em conviver cotidianamente com suas famílias, essas trabalhadoras se obrigam a chegar em casa por volta das 22h, exaustas, para acordarem às 5h da madrugada e chegar ao trabalho em tempo de servir o café da manhã da família e colocar as crianças na condução da escola. É uma rotina penosa que estressa e adoece essas mulheres negras.
Muitas dessas trabalhadoras fazem a opção de "morar" no quartinho de empregada para ter mais paz e descanso, mais "qualidade de vida" e consequentemente mais saúde. Preferem a singularidade do confinamento forçado, da solidão programada ao sacrifício da logística cotidiana dos transportes públicos. No quartinho podem ver o mundo através de uma TV jurássica e ouvir notícias através de um rádio despertador. Quando o sono chega têm à disposição uma velha caminha de solteiro, herdada dos patrões há muitos anos. A chantagem patronal faz parte do jogo que elas são obrigadas a jogar. Para não ter que se despencarem pelas ruas escuras e perigosas das noites e madrugadas das periferias, existe a opção cruel do quartinho. Várias assim preferem pois mesmo que inadequado, viver no quartinho compensa evitar passar pela cansativa maratona diária, que além de drenar sua saúde também afeta sua segurança e seu orçamento.
Os patrões por outro lado aproveitam a precarização da situação dessas mulheres e malandramente transformam a jornada diária das trabalhadoras domésticas em um processo de exploração continua. Além da pesada jornada diária que um grande apartamento exige das domésticas, a mulher refém dos patrões fica responsável pela guarda das crianças, para que os pais possam cumprir suas concorridas agendas sociais. Acrescentando que as domésticas cuidam das crianças quando o casal decide viajar ao exterior sozinhos. A pessoa de confiança que sempre estará à disposição para o cuidar das crianças será a empregada doméstica, eternamente cativa em seu quartinho de dormir. É pessoa de confiança sempre disponível com quem os pais podem deixa-las em confiança. 
O quarto de empregada é uma troca injusta, uma forma de corrupção social, onde os patrões oferecem o quartinho como moeda de troca, garantindo o uso do chuveiro elétrico, o restolho da comida da família e um afago ou outro de vez em quando, como se faz com os cães da casa. Os apartamentos geralmente são muito bem localizados, em áreas nobres e seguras. Falando em cães, a trabalhadora também costuma sair à noite e dar um passeio com o cachorro de madame pelo bairro chique, para que ele possa espairecer e fazer suas necessidades fisiológicas. Muitas trabalhadoras domésticas aceitam e gostam de viver assim, por conta de uma história de vida precarizada a que historicamente foram submetidas. Outras não, passam por todas essas humilhações por ter filhos para criar que dependem da sua proteção. Filhos que são criados por vizinhas, irmãs, tias e avós para que suas mães negras possam servir e atender as necessidades cotidianas de famílias brancas da elite.
A sociedade brasileira é tolerante com o racismo. Para ela a situação da população negra está posta, é uma realidade e nada pode ser feito para modificá-la. Que os negros encontrem trabalho no subemprego, que estudem em escolas públicas precarizadas, que utilizem o sistema de saúde criminoso que o estado brasileiro oferece aos mais vulneráveis. A burguesia é a reprodutora de todos esses males ao trazer para si o imenso cabedal de privilégios que o capitalismo pode oferecer. Para ela, a burguesia, poder comer caviar e manter a trabalhadora negra confinada no quartinho faz parte do jogo antropológico da vida. E mais, a elite se sente benemérita por estar gerando um emprego para aquela figura quase ectoplasmática, que sofre a invisível solidão de sua senzala moderna que é o quartinho de empregada.
Mas a mulher negra não está mais entre nós. Após consumir sua vida se dedicando ao bem estar de uma família que nunca foi sua, morreu solitária, silenciosamente, na cama de uma enfermaria coletiva de um hospital público. Morreu onde morrem os pobres, os desvalidos, os deserdados da Terra como disse Fanon. Morta em uma enfermaria coletiva de um hospital público, longe da família, entre estranhos, na solidão dos miseráveis.
Depois de servir a três gerações daquela família como empregada. Depois de cuidar tão bem de tantas pessoas, crianças, jovens e adultos, jaz imóvel no caixão de terceira categoria. Imóvel e honesta por ter cumprido tão bem sua missão de se dedicar a cuidar daquela família com todo o amor desse mundo. É o fim silencioso de mais uma mulher negra trabalhadora em um país racista e segregador. Das dezenas de pessoas brancas de quem cuidou, apenas duas estão ao seu lado para a despedida final. Um final triste e melancólico onde seu destino foi a cova rasa do cemitério da distante periferia. Agora deve estar no céu das empregadas, longe dos sufocantes quartinhos, feliz e recompensada em belíssimos ambientes, onde nenhuma delas trabalha e gozam de todos os privilégios e mordomias que nunca puderam ter aqui na Terra.
O Brasil possui 6 milhões de trabalhadores e trabalhadoras domésticas. A luta pelo reconhecimento da atividade profissional das trabalhadoras domésticas é marcada pela intolerância e invisibilidade do racismo estrutural. Mesmo 80 anos depois da criação do movimento sindical que luta pela categoria, somente 3 em cada 10 domésticas possuem carteira profissional assinada por seus patrões. Se por um lado romantizaram a trajetória sofrida de Carolina de Jesus, para esconder o racismo e os efeitos deletérios do capitalismo sobre as mulheres negras, por outro lado invisibilizam uma mulher negra admirável, que deveria sua trajetória política debatida na academia e na sociedade com mais ênfase. Seu nome é Laudelina de Campos Melo, chamada pela ditadura militar de “O terror das patroas”. Laudelina dedicou toda sua vida à política, sendo militante da Frente Negra Brasileira e do Partido Comunista Brasileiro. Foi através de sua visão de mundo que criou em 1936 na cidade de Santos, em São Paulo, o movimento sindical que passou a exigir melhores condições de trabalho para todas as pessoas que exercessem atividades domésticas remuneradas.
Mineira como Carolina de Jesus, Laudelina nasceu 6 anos após a promulgação da Lei Áurea, em Poços de Caldas, Minas Gerais. Como quase todas as meninas negras daquele período, começou a trabalhar aos sete anos de idade e foi obrigada a abandonar os estudos para ajudar a mãe na criação dos de seus irmãos. Aos 16 anos passou a participar de reuniões do movimento negro. O sociólogo Joaze Bernardino-Costa, em sua tese de doutoramento, narra que no período mais próximo do fim da escravidão, o serviço doméstico era mencionado nas leis sanitárias para proteger os patrões de suas empregadas, que eram vistas como ameaças às famílias empregadoras. De acordo com Laudelina em entrevista à educadora Elisabete Pinto, publicada em sua dissertação de mestrado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp):
:
"A situação da empregada doméstica era muito ruim. A maioria daquelas antigas trabalharam 23 anos e morria na rua pedindo esmola. Lá em Santos, a gente andou cuidando, tratou delas até a morte. Era um resíduo da escravidão, porque era tudo descendente de escravo".

As entidades em que Laudelina militava à época, o PCB e a Frente Negra Brasileira, foram fechadas e colocadas na clandestinidade pela ditadura de Getúlio Vargas com a instalação do Estado Novo entre os anos de 1937 e 1946. A discriminação se tornou mais evidente quando a Consolidação das Leis do Trabalho que unificou as leis trabalhistas que existiam naquele período, não incluiu a categoria das domésticas em seu escopo de proteção. Laudelina se alistou na Força Expedicionária Brasileira e se juntou ao esforço de guerra para combater as tropas do Eixo, comandadas por Adolph Hitler. De acordo com Laudelina: 
"Hitler foi o maior carrasco que existia naquela época. Dizia no Livro Azul que ele eliminaria todas as raças que não fossem arianas, principalmente a raça negra seria eliminada. Então aquilo me levou, me trouxe uma revolta dentro de mim. Então resolvi me alistar para servir a pátria"

Laudelina trabalhou como empregada doméstica até meados dos anos 50 e vivia de uma pensão e da venda de salgadinhos no bairro em que morava.
Com o fim do Estado Novo sua associação voltou a funcionar mas continuou a ser perseguida pela ditadura militar com o golpe de 64, quando sua entidade, para não encerrar as atividades, se abrigou na União Democrática Nacional – UDN, que tinha como líder máximo o governador Carlos Lacerda.
Chegando aos 70 anos Laudelina afastou-se da entidade por motivos de saúde e após pedidos insistentes de suas companheiras voltou ao batente e após a promulgação da Constituição Cidadã de 1988 a associação finalmente se tornou um sindicato. Laudelina morreu em 1991 aos 86 anos de idade e não pode assistir a vitória da categoria que fundou ver aprovada a Emenda Constitucional nº 72 de 02/04/2013, a PEC das Domésticas. A PEC das Domésticas estabeleceu igualdade dos direitos como: Jornada de trabalho de oito horas diárias e 44 semanais; Pagamento de horas extras; Adicional noturno; Descanso de no mínimo de 1 hora e máximo de 2 horas; Obrigatoriedade do recolhimento do FGTS por parte do empregador; Seguro-desemprego; Salário-família; Auxílio-creche e pré-escola; Seguro contra acidentes de trabalho; Indenização em caso de demissão sem justa causa. Vale à pena registrar que somente dois congressistas votaram contra a PEC das Domésticas e um desses dois foi o Deputado Federal à época Jair Bolsonaro.
A atuação política dessa mulher negra e pobre foi fundamental para que essa enorme categoria conquistasse seus direitos a nível nacional. Laudelina também deixou seu nome registrado na luta contra o racismo e contra a discriminação das mulheres, já que sempre carregou consigo o estigma da cor e da origem. Uma mulher admirável que se rebelou contra o sistema e mesmo com sua luta invisibilizada pela sociedade e pelo racismo estrutural nunca abriu mão de seus princípios revolucionários.

*Amauri Queiroz é Escritor.

quinta-feira, 27 de abril de 2023

África Berço da Humanidade

O magnífico continente africano é chamado de Berço da Humanidade e Berço da Civilização. Através de sua formidável diversidade étnica e cultural, pode contar toda a história do desenvolvimento da humanidade. O planeta Terra possui 6 continentes, sendo que o africano é o terceiro maior, com uma área de cerca de 30 milhões de quilômetros quadrados. A área do continente corresponde a mais de 20% da área total do globo terrestre. No continente habitam em torno de 1 bilhão de habitantes, tornando-o o segundo mais populoso do planeta. Muitos pensam equivocadamente que a África é um país, mas é um imponente continente composto por 54 países, sendo 48 continentais e 6 insulares, tendo como exemplo as ilhas de Cabo Verde e Madagascar.
São creditadas ao continente africano algumas das invenções mais importantes da civilização, onde podemos destacar o elevado conhecimento do povo egípcio, que nos surpreende até os dias atuais com seus insondáveis mistérios, muitos que se mantêm indecifráveis por mais de 5 mil anos.
Os povos africanos da antiguidade sempre se destacaram pela navegação, conhecimento da astronomia, domínio do ferro, construções, medicina e literatura. São famosos os périplos dos filósofos gregos ao continente para beber da fonte do conhecimento de suas diversas etnias. Pablo Picasso confessou que as artes africanas o influenciaram diretamente para a criação do Cubismo.
O Programa Origens Humanas do Museu de História Natural Smithsonian dos Estados Unidos avalia que, entre 1 e 2 milhões de anos atrás iniciou-se o processo evolutivo que há 200 mil anos atrás no continente africano surgiu o homo sapiens, o primeiro hominídeo que deixou o continente africano e se espalhou pelo planeta, propiciando o surgimento de novas etnias. Com o passar do tempo, esses grupos humanos continuaram com o processo migratório e espalharam-se mais ainda mundo afora. Ao se estabelecerem nas mais diversas regiões do globo terrestre, esses grupos humanos foram adquirindo naturalmente as características necessárias para sobreviver nas referidas condições climáticas locais. Na medida em que foram se estabelecendo nos diferentes territórios, as características locais necessárias foram se acentuando e quanto mais se distribuíam pelo planeta, as diferenças se acentuavam mais ainda. Os grupos humanos que hoje habitam o planeta Terra são originários daqueles distantes ancestrais africanos. Em tese, todos os seres humanos do planeta são afrodescendentes, independentemente de suas características atuais. As diferenças que hoje perpassam todos os seres humanos não passam de meras adaptações climáticas.
A melanina por exemplo é uma proteína que está presente em nossa pele, olhos e cabelo. Nos povos negros, sua coloração escura serve como filtro para que haja proteção contra as altas exposições de raios UV, ou seja, da radiação solar. Esse mecanismo evolutivo da natureza permite que seres humanos possam habitar locais de grande aridez e com alto grau de exposição solar, como é o caso do continente africano. A melanina é o filtro protetor natural que evita a deterioração do corpo humano pelo excesso de radiação no DNA das células. Portanto, quanto mais sol, mais melanina e, consequentemente, quanto mais melanina, mais o filtro aumenta, mais a pele requer proteção, escurecendo a superfície da pele. Podemos afirmar que a melanina é um mega protetor solar gratuito e necessário que os africanos receberam da natureza. Os povos dos países escandinavos possuem pouca melanina porque a incidência solar naquela região do planeta é bastante reduzida, portanto possuem pouca melanina na pele para que possam receber a quantidade necessária de vitamina D no corpo e assim possuem a pele bastante branca, quase um caso de albinismo. Seus cabelos não necessitam da proteção que os cabelos crespos africanos oferecem à população negra devido as altas temperaturas. Nesse caso, o cabelo crespo cria uma camada de ar entre o couro cabeludo e a superfície da cabeça para proteção da calota craniana. Nas regiões frias, de pouca incidência solar, essa proteção não se faz necessária e os cabelos perdem o poder de proteção que os cabelos africanos possuem, tornando-os lisos e caídos. Os olhos da população escandinava também são diferentes dos povos africanos, geralmente são claros nas cores azul ou verde. São mais claros devido à necessidade de maior absorção de luz, que é mais reduzida nos países frios que no continente africano, onde os olhos são profundamente negros para protege-los da intensa luz solar. Excetuando um detalhe aqui e outro ali, não existem diferenças cruciais, até pelo fato de que todos os habitantes do planeta serem praticamente iguais no interior do corpo humano, onde o sangue é vermelho e todos os órgãos são semelhantes, o que evidencia de maneira inexorável que todas as diferenças existentes entre os seres humanos são meras adaptações climáticas. No campo cognitivo todos amam igualmente, choram suas perdas, sorriem com as conquistas, constituem suas famílias, criam seus filhos, trabalham, vivem e morrem como habitantes do planeta Terra, sem diferenças que não sejam as culturais.
O Mercantilismo, as Grandes Navegações e a Chegada ao Continente Africano
Com o advento das grandes navegações do mercantilismo que se revelaram como um movimento expansionista que antecedeu ao capitalismo, os povos europeus passaram a procurar novos territórios em busca de matéria prima para suas manufaturas e ao mesmo tempo novos mercados para comercialização de seus excedentes. Portugal e Espanha iniciaram o ciclo das grandes navegações enquanto estados nacionais e desembarcaram na América e no continente africano, transformando para sempre aqueles territórios.
O brutal processo de conquista dos novos territórios através de invasões e guerras de conquista, causou um verdadeiro genocídio nos povos africanos e nas populações ameríndias. Os povos africanos, principalmente da África Subsaariana, em sua grande maioria, viviam sob o regime tribal, onde a oralidade era a forma de transmissão principal de suas ancestralidades, cosmovisões, ciência e cultura. Os europeus aproveitaram muito bem o conhecimento apreendido em África, transportando-o para a Europa, criando e sistematizando suas respectivas narrativas. Esse conhecimento foi apresentado como uma nova matriz civilizatória planetária, que vai da Filosofia à Astronomia, passando pela Medicina, Engenharia e Arquitetura.
A Grécia e o Império Romano, o Renascimento e o Iluminismo, já na modernidade, foram os grandes beneficiários do conhecimento africano adquirido. As grandes invenções europeias, os grandes avanços da ciência, quase todos, em sua maioria, possuem as digitais da cultura africana. A maneira que a Europa encontrou para se assenhorar desse conhecimento foi a conquista territorial, o colonialismo e a escravidão.
A colonização do continente africano pelos países europeus tem seu início no século XV quando Portugal passou a controlar algumas terras da costa atlântica africana. A obsessão por encontrar um caminho marítimo para a Índia levou a frota lusitana a encontrar o continente africano, rico em possibilidades para o atendimento demandado pela atividade mercantil.
Os portugueses enfrentaram no continente africano as duras condições impostas pelo clima inclemente e também amargaram pesadas perdas decorrentes tanto pelos naufrágios como por conflitos com tribos guerreiras africanas.
O novo território mostrou-se rico em recursos naturais e os portugueses após conseguirem conquistar por guerra ou por parcerias os novos espaços, passaram a explorar metais, pedras preciosas, agricultura e marfim.
A exploração do continente africano pelos europeus se manteve restrita ao litoral até meados do século XVIII, pois as investidas econômicas dos colonizadores eram mais frequentes nas Américas que na África. Com a guerra de Independência dos Estados Unidos e a Revolução Industrial, os europeus passaram a buscar cada vez mais matérias primas e possibilidades de comercialização em outros territórios.
A partir de então houve uma explosão de expedições exploratórias ao interior do continente africano por parte de aventureiros e missionários cristãos que investiam na conversão daqueles povos ao cristianismo e ao mesmo tempo forneciam informações sobre as possibilidades econômicas e comerciais dos novos espaços encontrados.
As expedições exploratórias traçaram novos mapas e rotas comerciais para os diversos países europeus, que eram protagonistas de disputas ferrenhas por novos territórios no continente africano, em um processo denominado neocolonialismo.
Os europeus passaram a investir em metodologias sofisticadas de dominação com a implantação de poderosos sistemas de repressão com unidades militares e também por um severo rigor administrativo. A metodologia garantia o perfeito funcionamento da empresa colonial que gerava grandes lucros para o crescente sistema protocapitalista. No século XIX não existia mais a figura do monarca absolutista do século XVI, mas sim a presença dos poderosos grupos econômicos capitalistas. Foi a partir desse momento que se passa a ouvir o termo imperialismo, pois, a dominação territorial é centrada no campo político, militar e mercantil, sem a arquitetura institucional do absolutismo.
O neocolonialismo do século XIX está diretamente ligado aos ventos da Segunda Revolução Industrial, que chegou com as novidades tecnológicas ancoradas nos transportes, comunicações, agricultura e manufaturas. Esses avanços exigiam novos mercados na medida em que a produção era cada vez maior e portanto exigia cada vez mais matéria prima e energia.
A fundamentação ideológica do racismo na colonização do continente africano foram baseadas em interpretações equivocadas da obra de Charles Darwin, onde, segundo os europeus, a superioridade europeia sobre os outros grupos étnicos do planeta estaria comprovada através do “darwinismo social”. Os avanços tecnológicos e a produção intelectual e científica da época, o poder do Cristianismo com a Escolástica e principalmente com o Renascimento e a lufada luminosa do Iluminismo. Esses aspectos evolutivos da Europa, em tese justificavam a validação da superioridade dos brancos sobre os povos “negros” e “amarelos”.
Os europeus estavam realmente convictos de sua superioridade sobre as populações do continente africano. Tomando como princípio basilar cristianizar e civilizar esses povos, passaram a investir na proposta de colonização desses países encontrados no continente africano, trabalhando para que esses novos territórios se adequassem ao modelo mercantilista europeu.
O controle espiritual dos povos africanos pelos missionários cristãos da Europa causou um grande estremecimento na crença do sagrado e da cosmovisão africana. O Presidente do Quênia Jomo Kenyatta declarou: “Quando os brancos chegaram, nós tínhamos as terras e eles a Bíblia. Depois eles nos ensinaram a rezar e quando abrimos os olhos nós tínhamos a Bíblia e eles a terra”.
O neocolonialismo levou os países europeus a uma competição cerrada entre eles próprios. Por conta disso as nações europeias incentivavam ataques de grupos tribais aliados contra entre outros grupos tribais aliados de outros países.
A tentativa de solucionar esses conflitos veio através da Conferência de Berlim, proposta por Portugal e realizada na Alemanha durante os anos de 1884/1885. O encontro foi presidido pelo Chanceler Prussiano Otto Von Bismarck, conhecido como Chanceler de Ferro.
A conferência tinha como objetivo pacificar e pactuar entre os países participantes a ocupação do continente africano. A conferência reuniu catorze potências imperialistas do século XIX como Império Otomano, Império Austro-Húngaro, Império Alemão, Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, Dinamarca, Portugal, Espanha, França, Bélgica, Holanda, Itália, Suécia e Noruega.
O novo desenho geopolítico do continente africano pós conferência criou inúmeros conflitos tribais com guerras sanguinárias entre os diversos grupos étnicos, que devido ao novo desenho passaram a conviver dentro das mesmas fronteiras que seus inimigos.
A conferência redesenhou o mapa geopolítico da África, passando por cima de milhares de anos de tradições e cosmovisões existentes. O sistema colonial europeu possuía uma força avassaladora diante do povo africano. As principais transformações começavam pela destruição da cosmovisão africana e da matriz religiosa dos colonizados. A proibição da utilização da língua mãe era um dos primeiros atos do colonialismo, e a educação formal era ofertada somente na língua do colonizador, que impunha à força o idioma europeu próprio da nação colonizadora. Os valores europeus eram passados gradualmente e cobrados no médio prazo. O cristianismo era a principal transformação cultural imposta aos colonizados, que possuíam sua religiosidade milenar do sagrado africano passada através de inúmeras gerações.
A Escravização de Africanos e o Tráfico Transatlântico
Portugal percebeu que poderia lucrar de maneira exponencial se investisse no tráfico de africanos escravizados, que seriam trocados por mercadorias vindas da Europa, principalmente bebidas alcoólicas, tabaco e diversos manufaturados.
Os escravos eram comercializados inicialmente no próprio continente A partir do século XVI a atividade escravagista se intensificou e o tráfico negreiro se tronou uma atividade fundamental para a assentação das bases do Novo Mundo pelos europeus.
A busca insaciável por cada vez mais escravos para as Américas e Caribe causou um enorme prejuízo a diversas etnias africanas. Inúmeros grupos tribais deixaram de trabalhar nas atividades econômicas das rotas comerciais e passaram a se especializar na capturas de seres humanos para serem comercializados com os europeus.
Novos territórios colonizados eram vistos pelas metrópoles como meros fornecedores de matéria prima e mão de obra escrava. A sofisticação da empresa colonial era tamanha que arquitetou o que denominou-se chamar de ‘comércio triangular’, que consistia na estratégia de logística marítima onde quando o navio chegava da Europa com aguardente, rum e outras bebidas alcoólicas, tabaco, manufaturas, armas e pólvora, já havia uma carga humana, ou seja, africanos escravizados que eram destinados ao Novo Mundo. Chegando nas Américas ou Caribe os escravizados eram desembarcados e os navios eram novamente carregados com matéria prima, rumando novamente para a metrópole, onde eram carregados novamente com manufaturas, armas, pólvora, aguardente e tabaco para rumarem incontinente ao continente africano, completando a triangulação.
O sequestro e o tráfico transatlântico de africanos escravizados para as Américas e Caribe constituiu o maior crime de lesa humanidade que a Europa cometeu em toda sua história. As estimativas históricas calculam que entre 10 e 15 milhões de africanos escravizados foram trazidos para o continente americano.
Durante mais de 300 anos, saíam quase que diariamente 1 ou 2 navios repletos de africanos sequestrados para serem escravizados no Novo Mundo. Foram milhares de viagens que cruzaram o Atlântico rumo ao Caribe e as Américas. Sendo que essas travessias atingiram a dolorosa cifra de 2 milhões de seres humanos atirados ao mar pelos mais diversos e pérfidos motivos.
A maioria dos sequestrados era trazida do interior, em uma caminhada apressada e desumana. Chegando ao litoral, eram despidos de todas as suas roupas e entregues nus ao traficante europeu, que organizava o embarque nos navios negreiros.
O interior do navio negreiro era minúsculo e insalubre. Para otimizar o lucro, os traficantes amontoavam até cerca de 400 escravos por navio, homens, mulheres e crianças despidos e acorrentados, respirando um ar fétido e sufocante pelo cheiro de vômito, urina e excrementos que eram feitos no próprio local em que estavam acorrentados. O choque de realidade desses seres humanos era abissal, pois há pouco estavam em suas aldeias em suas rotinas cotidianas com suas famílias, vivendo a vida em paz e repentinamente essas pessoas se viram caçadas como animais, amarradas e trazidas para os navios que rumavam para uma terra distante, de onde nunca mais retornariam. Não veriam mais a África, suas aldeias e suas famílias, passando o resto da vida em uma melancolia sem fim.
Naquele tempo, as grandes navegações padeciam de problemas crônicos, como escorbuto, disenteria, varíola, entre outras doenças. A capacidade de disseminação do vetor era enorme, pois os africanos sequestrados navegavam em grupos e acorrentados, terrivelmente próximos uns aos outros, onde o contágio era praticamente imediato. Pelos diários dos navios negreiros da época, os dados indicam essas cifras, uma vez que cada sequestrado doente que era jogado ao mar para não contagiar o coletivo era contabilizado no Livro dos Mortos como prejuízo diante do investimento aportado na operação de aquisição de cativos.
O investimento na compra de africanos sequestrados na África e o seu respectivo transporte para o Novo Mundo significavam o que se pode chamar de “investimento de alto risco”, devido a diversas ocorrências como as descritas acima, às quais podemos somar suicídios, depressão, ataque de piratas, motim, naufrágios, fuga de sequestrados entre outros. A empresa colonial que comercializava esses seres humanos contabilizava criteriosamente cada africano doente que era jogado ao mar e seus preços seriam diluídos nos preços dos outros cativos que chegavam ao continente, para compensar o prejuízo com a perda daquela vida.
O porão do navio era um lugar de horror. Para evitar motins e sublevações, muitas vezes os traficantes colocavam nos porões dos navios etnias inimigas que, mesmo acorrentadas, tentavam se matar uns aos outros e passavam a viagem inteira se vigiando. Os escravistas seguiam a velha premissa do “dividir para reinar”. Como os grupos de africanos inimigos passavam a viagem inteira acorrentados mas tentando se trucidar, os traficantes não precisavam se preocupar com tentativas de fugas ou rebeliões.
Não havia uma rotina de alimentação. Os alimentos, uma mistura horrível de restos de carne e farelo, era atirada nos porões, e a divisão era realizada pelos próprios cativos, que priorizavam os homens e os grupos dominantes.
O medo maior era a calmaria do mar, fator muito comum de acontecer. Quando o barco entrava em uma calmaria, ficava parado, aguardando a chegada dos ventos, o que, às vezes, levava vários dias. Na medida em que os dias passavam e o navio mantinha-se parado, o capitão mandava jogar africanos doentes ao mar para compensar o tempo perdido na calmaria e equilibrar a quantidade de ração que seria necessária para se chegar ao porto de origem. Os cálculos eram diários, e os mais doentes eram descartados ao mar com um peso amarrado nas pernas para irem diretamente ao fundo do oceano. Foram tantos africanos atirados ao mar que os tubarões mudaram suas rotas migratórias milenares durante o tempo do tráfico transatlântico para seguirem os navios negreiros com seus descartes humanos ainda vivos. Era uma rota de sangue e horror e o festival de barbaridades dos tubarões devorando homens, mulheres e crianças servia de diversão para as tripulações brancas dos navios. Além de todo esse cenário dantesco, as mulheres negras escravizadas que eram embarcadas nesses navios, sofriam as mais bárbaras práticas por parte das tripulações dessas embarcações.
O Fim do Tráfico Transatlântico
Em meados do século XIX, a atividade criminosa do tráfico transatlântico estava entrando em seu ocaso e agonizava em seus últimos momentos. Embora a resistência pelo fim do tráfico negreiro fosse muito grande em razão da dependência do trabalho escravo. O envolvimento da Inglaterra foi fundamental para que esse ciclo perverso tivesse fim.
Após a declaração da independência do Brasil, o governo inglês condicionou seu apoio e reconhecimento ao novo país com a condição de que a escravidão fosse extinta.
O reconhecimento da Inglaterra aconteceu em 1825 com o compromisso que a abolição ocorresse até 1830. Com a concordância do governo brasileiro o Brasil oficializou seu compromisso aprovando em 1831 a Lei Feijó, que decretava a proibição do tráfico negreiro definitivamente, o que jamais aconteceu.
O fim do tráfico transatlântico e posteriormente da escravidão seguiu um roteiro que começou com os ventos do Iluminismo e da Revolução Industrial. As novas relações de produção impostas pela Revolução Industrial faziam parte da consolidação do sistema capitalista, onde o consumo que geraria lucro e riquezas necessitaria de um grande mercado consumidor. A Inglaterra necessitava ampliar seus mercados e com a mão de obra escrava predominando nesses territórios ela passou a encontrar dois grandes óbices que foram ao ausência de mercado consumidor de alto impacto e o desinteresse por esses territórios pela aquisição dos novíssimos engenhos à vapor e outros equipamentos mecânicos, já que a mão de obra escrava cumpria com todas asa demandas exigidas pelo mercado.
Nesse contexto, a Inglaterra, com o intuito de vender máquinas a vapor para substituir o trabalho braçal e fazer florescer um promissor mercado consumidor, proibiu o tráfico transatlântico de africanos escravizados através da Lei Bill Aberdeen em 1845, proibindo o tráfico de escravos africanos. A lei previa que a marinha inglesa, tinha poder para interceptar, perseguir e aprisionar os navios negreiros que transportassem escravos. Com a Lei Bill Aberdeen houve um intenso movimento do tráfico transatlântico, para logo após sofrer uma grande redução e finalmente o arrefecimento do horroroso empreendimento colonial transatlântico, que oficialmente teve fim. Os ingleses patrulhavam o Oceano Atlântico e os portos do Brasil. Os navios negreiros que conseguiam burlar o bloqueio em alto mar, desembarcavam os africanos sequestrados em praias distantes das capitais para somente depois atracar sem cativos nos portos oficiais brasileiros. Por isso, a expressão “para inglês ver”, onde durante as fiscalizações portuárias dos navios oriundos do continente africano pelos militares ingleses, nenhum africano escravizado era encontrado.
No âmbito interno, no ano de 1850, foi promulgada a Lei Eusébio de Queirós que proibia o tráfico de africanos escravizados para o Brasil. A lei foi aprovada muito a contragosto pelos parlamento brasileiro escravista e foi apenas uma resposta às demandas diplomáticas por parte dos britânicos para que essa prática tivesse fim.
O comércio hediondo de escravização de seres humanos é uma ferida que dificilmente será cicatrizada e marca o grau de perversidade do período colonial. O que ocorreu durante todo esse processo foi uma tragédia humanitária sem precedentes com milhões de mortos e escravizados. Deixando o continente africano sem seus melhores corpos e mentes que foram retirados durante 350 anos com navios negreiros saindo diariamente do continente todos as dias, levando africanos escravizados para a construção do projeto capitalista no Novo Mundo.
As Colônias Europeias no Continente Africano
A posição social dos africanos nos países colonizados era apontada de acordo com o grau de adaptação aos valores culturais europeus. Na pirâmide social do sistema colonial o europeu era o topo da pirâmide sempre. Os nativos que compreendiam o idioma alienígena e conheciam bem os costumes europeus ocupavam posições intermediárias e eram encarregados de funções administrativas que incluíam o trato com a massa de colonizados que não falavam o idioma da metrópole. A base da pirâmide era composta por aqueles que não se comunicavam na língua do colonizador e eram destinados ao trabalho árduo e análogo à escravidão.
O sistema colonial não impôs pacificamente sua dominação e cultura. Aconteceram incontáveis rebeliões e revoltas, principalmente no norte do continente onde encontramos o Egito, Argélia, Tunísia e Marrocos, que além da perda de soberania, lutaram contra a imposição de outra religião e contra o trabalho obrigatório que era imposto pelos colonizadores. O neocolonialismo praticamente destruiu o tecido social africano, sua força de trabalho, sua organização social milenar e seu imenso estoque étnico intelectualizado, ao transportar criminosamente para o Novo Mundo mais de 10 milhões de seres humanos que foram sequestrados e escravizados durante 350 anos.
A posse do corpo do outro, o poder de violá-lo, espancá-lo, a destruição de sua psiquê e o arrefecimento de sua autoestima transformaram o africano escravizado em “objetos”, seres sem alma, instrumentos falantes.
A partir da espoliação e da destruição do tecido social africano, cresce mais ainda a tese da subalternidade de raças, onde a etnia negra foi considerada inferior e não civilizada. Ao ser considerada inferior, não civilizada e herege, a população do continente africano passou a ser objeto de cobiça enquanto mão de obra não remunerada, ou seja, escravizada. Pois a conquista do território, sua exploração e a escravização de seus habitantes eram justificadas pela igreja e pelos impérios como necessária para que aquelas almas fossem salvas do pecado.
A história comprova que houve um grande salto epistemológico no processo civilizatório europeu, após o contato com os povos africanos. O mesmo não pode se dizer do contrário, onde o continente africano após ter contato com os europeus sofreu um terrível processo de espoliação e controle de seus territórios por parte dos europeus.
O Neocolonialismo
A ocupação do continente africano sofreu um grande impulso com o que se convencionou chamar de neocolonialismo. Esse movimento se deu a partir de meados do século XIX, quando a Europa vivia os efeitos da Segunda Revolução Industrial. As transformações que o capitalismo sofreu através desse impulso tecnológico, gerou a necessidade de buscar mais matérias primas e outros mercados para comercialização das manufaturas. A ambição das nações europeias se voltou para a Ásia e África, territórios onde passaram a empreender expedições exploratórias e de conquista.
O neocolonialismo africano promoveu verdadeiros genocídios naquele continente. O Congo, por exemplo, que foi colonizado pelo Rei Leopoldo II da Bélgica perdeu mais de 10 milhões de habitantes, mortos sob tortura pelo regime do monarca belga. O projeto belga no Congo foi um dos primeiros passos que motivou o neocolonialismo, seguido do projeto de Portugal em Angola, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe, e pelo projeto francês no continente que colonizou a Argélia, Senegal, Tunísia, Alto Volta, Costa do Marfim, Mali, Níger, Congo, Gabão, Chade, Camarões e República Centro Africana.
O sistema colonial no continente africano começou a ruir devido a diversos fatores previsíveis e imprevisíveis. O principal que poderia ser previsto foi a formação de uma burguesia africana formada nas melhores instituições ensino da Europa. Esses filhos dos antigos chefes tribais e de funcionários africanos com posições de destaque na empresa colonial veio a formar a classe média africana e passou a desenvolver o pensamento emancipacionista de descolonização. Por outro lado, os ventos da Revolução de 1917 na Rússia varriam o planeta e se tornaram uma bandeira concreta de luta contra o capitalismo opressor. A união desses e de outros fatores propiciou a preparação do terreno para que as sementes da liberdade fossem plantadas.
O Movimento Anticolonialista e o Fim das Colônias
O processo de descolonização do continente africano foi marcado por um período de efervescência política intensa violência. Os países europeus deixaram um triste legado às futuras gerações africanas, ao modificar de maneira radical o modo de vida daquela população através de um modelo administrativo arbitrário e opressor, que alterou significativamente o modo de vida de milhões de pessoas, não respeitando a religiosidade, a organização política e a cultura daqueles territórios. O modelo de desenvolvimento que foi implementado era alicerçado na exploração intensiva das reservas minerais, agrícolas e energéticas.
Após a Segunda Guerra Mundial o movimento de descolonização do continente africano sofreu novo impulso, com a criação das Nações Unidas em 1948, que através de sua carta de fundação garantia a autodeterminação dos povos. A partir de então o movimento anticolonialista. As potências europeias saíram da guerra com suas economias exauridas e sem condições de enfrentar as guerras de libertação em curso no continente africano. Os Estados Unidos e a Rússia entraram no período chamado de Guerra Fria e ambos passaram a apoiar as guerras anticoloniais africanas, disputando agressivamente através de apoio logístico e militar os movimentos emancipacionistas africanos, visando estabelecer parcerias econômicas que lhes seriam fundamentais na manutenção de seus regimes, tanto capitalista como socialista. A guerra civil de Angola foi um dos grandes exemplos, onde os Estados Unidos apoiavam o grupo guerrilheiro UNITA e a União Soviética apoiava o outro grupo guerrilheiro denominado MPLA.
Em muitos países africanos a independência ocorreu de maneira pacífica, onde a metrópole transmitiu o poder político progressivamente e garantiu a manutenção do poder econômico em mãos de grupos ligados à metrópole. O último país colonial a deixar o continente africano foi Portugal que abandonou definitivamente suas aspirações imperialistas na África em 1974, após a Revolução dos Cravos.
Após a conquista da independência por todos os países do continente africano, as imensas instabilidades sociais e políticas controladas e represadas afloraram ao mesmo instante, explodindo em incontáveis conflitos étnicos separatistas, que desaguaram em horrorosos genocídios como o de Ruanda em 1994, onde 800 mil pessoas pertencentes à etnia tutsi, foram massacradas e mortas pelas milícias da etnia hutus. O conflito étnico foi o resultado da administração colonial europeia, que governou o país com mão de ferro em parceria com a etnia tutsi, minoritária mas considerada como superior no país. Quando a guerra de libertação explodiu os hutus que eram a grande maioria da população iniciaram uma dolorosa vendeta, massacrando os tutsi de maneira implacável, que não conseguiram resistir pois foram abandonados pelas forças militares coloniais e entregues à própria sorte.
A população do continente africano atualmente ainda sofre com os restolhos políticos deixados pelo colonialismo. As enormes dificuldades econômicas e sociais são cicatrizes de um período que naturalizou a violência e o escravismo como prática cotidiana, deixando de lado os principais primados humanitários.
A imagem que é disseminada pela mídia através dos tempos é de um povo sem cultura, enfraquecido, doente e desorganizado politicamente. Em momento nenhum se coloca que toda essa situação advém de um processo desumano exploratório sanguinário e opressor. Que as nações europeias enriqueceram através desse processo, que podemos comparar metaforicamente a uma transfusão de sangue ao contrário, onde o doente fornece initerruptamente seu sangue para a manutenção e desenvolvimento do corpo do sadio.
Apesar da independência política, os países africanos ainda não se libertaram do jugo econômico das metrópoles. Muitos dos grandes grupos econômicos que iniciaram o período colonial ainda exercem um grande poder sobre as administrações dessas nações, interferindo nos destinos políticos através de corrupção ou financiamento de grupos paramilitares que defendem seus interesses.
As Nações Unidas necessitam empreender com mais efetividades movimento na direção de reparações através do Fórum de Afrodescendentes criado para estabelecer políticas de promoção para a população afrodescendente e avançar no cumprimento das deliberações assentadas no Plano de Ação da Conferência de Durban de 2001. As nações que enriqueceram com a dilapidação das riquezas africanas, principalmente aquelas da Conferência de Berlim, deveriam criar um grande fundo internacional para reparações voltado ao continente africano e aos afrodescendentes da diáspora, objetivando construir um quadro de políticas de ações afirmativas que promovam projetos de inclusão de povos africanos e afrodescendentes nas nações que compõem a ONU.
*Jornalista, Escritor, Palestrante, Consultor
em Direitos Humanos e Combate ao Racismo.

quinta-feira, 6 de abril de 2023

O PORTAL DO TEMPO

O negro sabe muito bem onde o calo aperta. Um desses locais é a porta do banco. As portas e seus alpendres sempre foram locais de humilhação para o povo negro. Na época do império, nós alpendres das igrejas, havia uma pequena estrutura de ferro em forma de “T” cravada no chão. Nessa peça de metal os negros tiravam o barro dos pés para poder entrar na igreja. Daí então surgiu a expressão “pé rapado”, que é uma tradução popular para quem é despossuído de bens materiais, ou seja paupérrimo.
Na porta do céu tem São Miguel, anjo guerreiro que porta uma espada , cuja missão celestial é impedir a entrada nos campos do Senhor daqueles que não professam o catolicismo. Novamente grande parte dos negros também está fora do jogo, pois as religiões de matriz africana não possuem o cristianismo como referência espiritual.
Mas mesmo estando nos tempos modernos algumas portas são a representação viva da discriminação racial. Podemos citar como exemplo as portas das boates famosas, onde reina de maneira impávido um personagem que pode ser feminino ou masculino, que determina através da observação analítica de fenótipo quem pode entrar ou não no estabelecimento. Obviamente que os negros que não são famosos não passam por esta régua, não importando como estejam vestidos ou o quanto carregam de dinheiro em suas carteiras. Nesses ambientes, o que vale é a representação caucasiana, eurocêntrica, pele branca, onde os negros não têm vez.
A porta mais cruel que interfere mais diretamente na auto estima do povo negro é a porta dos bancos. Aquela porta giratória que parece ser aleatória e democrática mas não é. Pelo contrário, a porta de entrada dos bancos é a maior representação visível do racusmo estrutural que podemos constatar atualmente.
Enquanto o mundo gira e a civilização avança em seus primados de direitos humanos e diversidade, a porta giratória dos bancos insiste em girar no sentido contrário, na direção do passado, onde a população negra raspava os pés antes de entrar na igreja, onde os negros escravizados eram obrigados por lei a andarem descalços, para serem diferenciados das pessoas livres. 
A porta giratória dos bancos é como uma máquina do tempo, que gira no sentido contrário da história e remete o povo negro ao tempo da escravidão, à humilhação do tempo triste da senzala e da escravidão. Há uma dura e autêntica aula de história das civilizações no girar preconceituoso das portas dos bancos. Aquele movimento giratório demonstra o tempo histórico onde o capitalismo estruturou a política de dominação e segregação do povo negro, primeiro no continente africano e depois no Novo Mundo, para onde foram trazidos como seres escravizados. 
Não existem escravos, ninguém nasce na horrível condição de escravo. Todos os seres humanos nascem naturalmente livres, de acordo com a ordem primordial do universo. As pessoas também não se tornam escravas e sim são escravizadas. A ambição humana por acumulação de capital fez com que os brancos europeus empreendessem navegações exploratórias e dominadoras ao continente africano, em busca de poder e riquezas em novos territórios.
A dominação e partilha do continente africano entre as principais nações européias deu início ao olhar crítico e consequente desconstrução de uma cosmovisão milenar, que sempre viveu de acordo com suas tradições culturais, sem interferir na cultura de outros povos. Os europeus levaram ao continente africano culturas incompreensíveis como casas com muros, propriedade privada e acumulação obsessiva de capital. Levaram também o álcool como fator de impulsão anímica e a pólvora como componente irrefreável de conquista e morte.
Do século XVI em diante o que pudemos assistir foi uma barbárie incomensurável, onde a matança, conquista e escravização levou a humanidade a um patamar assombroso de irrealidade e crueldade. Nesse movimento histórico perverso o continente africano sofreu a espoliação contínua de suas riquezas inesgotáveis, transformando simples países europeus em grandes potências econômicas internacionais, além de retirar desse mesmo continente, durante 400 anos, seus melhores corpos e mentes, levados sob os grilhões dos navios negreiros através do Oceano Atlântico para a empreitada de construção do Novo Mundo.
Aquele povo livre, feliz e orgulhoso, outrora vivendo em nações livres, foram transformados em restolhos humanos pela insaciável ganância capitalista. A mancha histórica do colonialismo e da escravidão estará sempre manchando as bandeiras democráticas do chamado mundo livre. O deletério desmonte humanitário causado pelo colonialismo e por extensão pela escravidão, por mais que se promovam ações pontuais de reparações, jamais poderá ser compensado e esquecido.
A crueldade perpetrada contra o povo negro tanto no continente africano como na gigantesca afrodiáspora, permanece na sociedade contemporânea imanente e indissociável do tempo histórico. Por isso a porta giratória dos bancos apita quando um ser humano negro tenta atravessá-la. Ele não consegue pois está em uma dimensão diferente da dela. Ele está no futuro e ela está no passado. Ela ainda é a porta senhorial, colonial, imperial. Para a porta ele é o mesmo negro, da pele preta, do cabelo crespo, dos olhos de medo do passado.
Por mais que a civilização avance célere na direção do futuro, sempre existirão esses portais transdimensionais que sugarão a alma negra para o passado, para o tempo do colonialismo e da escravidão. O capitalismo possui conhecimentos sistematizados e avanços tecnológicos formidáveis, mas ainda mantém em seu id antropológico as digitais indeléveis da perversão. 
O povo negro tem sabedoria e organização suficientes para criar um mecanismo temporal que feche para sempre esse portal transdimensional das portas giratórias que crudelizam sua existência, que perpetua o racismo e a dominação. O conhecimento e a sensibilidade estão na alma negra, sempre estiveram na alma negra. O espírito e a ancestralidade desse povo histórico irão pavimentar através da diversidade um novo futuro, onde os sorrisos e abraços negros serão os autênticos portais da felicidade, onde a roda a girar será a da fortuna.