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Chamada de Egun

domingo, 20 de agosto de 2023

Guardiões da Humanidade

Segundo dados da ONU, os povos originários, ou indígenas sao 6% da população mundial, ou seja, 370 milhões de habitantes. Esse contingente humano fala 4 mil línguas, sendo que os territórios que ocupam representam 82% de toda a biodiversidade do planeta. Provavelmente sem esses formidáveis guardiões da natureza, a espécie humana não estaria caminhando hoje sobre a Terra.

sábado, 5 de agosto de 2023

Van Gogh Museum


O ambiente do Van Gogh Museum é canônico e grandioso. Um espaço dedicado à glória humana, onde se sente a atmosfera inebriante do espírito de Van Gogh e seu mundo caoticamente brilhante, cravejado por suas luzes que espocam em nossas almas como relâmpagos divinos.

No meu caso, não consegui descortinar um painel artístico definido diante da grandiosidade de sua obra, pois, me vi desconcertado diante daquele mundo salpicado de maravilhas que foram produzidas e até paridas sob sentimentos e momentos de intensa dor.

Talvez a grande arte seja assim, nasce como nascem nossos filhos, que encantam e iluminam nossas vidas , mas que para vir ao mundo rompem um mundo quente e confortável, infligindo uma dor profunda inesquecível e maravilhosa.

Somente o amálgama da dor com a inspiração pode parir luzes tão primordiais como as que vemos na obra de Van Gogh. Talvez seja um fado destinado aos grandes artistas, quando podemos constatar a mesma dor em Beethoven, Tolstoi, Ezra Pound e Ana Cristina Cesar.

O artista deixou mais que o legado artístico. Em sua vida atribulada, financeiramente trágica e mantida pelo irmão Theo, transmitiu um legado  às gerações futuras mostrando que a vida não pode e nem deve ser cativa ao dinheiro. Van Gogh é a mais completa representação da necessidade de se fazer arte por amor, puramente por amor e não por pecúnia. Quando dirijo meu olhar sobre suas obras, nunca esqueço que em seu desespero por afeto e talvez até por amor, retirou uma prostituta com seus filhos das ruas e os levou para morar consigo, construindo um arremedo desesperado de lar e família possível.

Todas as vezes que me detenho sobre sua obra, lágrimas afloram em meus olhos, diante de tanta magnificência construída na mais absoluta simplicidade. Van Gogh no meu entender é o que existe de mais próximo entre o píncaro da arte humana e a energia divina que rege o universo.

Uma Saga Africana

Negras e negros africanos livres
Sequestrados, escravizados, acorrentados
Levados para o Novo Mundo
Aquele novo governado pelo velho
Aquele velho fazendo trabalho imundo
Impuseram os seus deuses
Renegaram nossa fé
Fundamentos de Luanda
Zangbetos do Benin
Amazonas do Daomé
Negros afroinsurreptos
Winnie, Agostinho Neto
Impuseram santos brancos
Novos cantos de louvor
Nosso povo é Rás Tafari
Etiópia, Salvador
Haile Selassié
Lutou contra o opressor
Contra o colonialismo
Contra o dominador
Senegal lanca seu brado
Renegando o invasor
Atacaram a autoestima
O sonho de liberdade
Oprimiram as mulheres
Mas não a sororidade
Mil guerreiras geledés
Africanas de verdade
Colonizadores do mal
Mataram, pilharam, humilharam
Nossa ancestralidade
Mancharam a cosmovisão
Nossa ancestralidade
Restou nosso sentimento
De igualdade e irmandade
Lutamos o bom combate
Na ilha de Madagascar
Togo, Guiné e Mali
Cabo Verde, Zanzibar
Luta pela liberdade
Contra o colonizador
Sankara, Samora, Lumumba
Amilcar, Leopold Senghor
Angola, Benguela, Bahia
Uma só comunidade
Mia Couto, Agualusa, Abdias
Fela, Solano Trindade
Palmares! Soweto! Iansã!
Selma! Ogum! Haiti!
Luther King, Malcolm X
Garvey, Muhammad Ali
Graça Machel, Rosa Parks
Patrice Lumumba, Zumbi
O poder negro não é quebrado
Por nada que há nesse mundo
É guardado pelos orixás
Pelas Três Senhoras no Orum profundo
Pelas pretas benzedeiras
Por Xangõ pelas pedreiras
O grito de guerra se espalha
A rebelião na senzala
O fogo da noite faz dia
Angola Janga, Bahia
Ganga Zumba desce a serra
 Morre pela covardia
Confiou no invasor
Na palavra do traidor
A mulher negra é a mãe da Terra
Em seu olhar a vida brilha
Viajante das estrelas
Onde é mãe e sempre filha
Tem o poder das ervas santas
No Ifá o futuro vê
Sabedoria do astral
Príncipe Logunedê
Canto a glória de Oyá
Senhora do vendaval
Protegei os vossos filhos
Na diáspora global
Que esperam o chamado
Da reparação final
A chama acesa é o sinal
Forca revolucionária
Alma subsahariana
História de liberdade
Uma saga africana
Transformando a humanidade
Consagrando a união
Senegal, Gana, Nigéria
Congo, Angola, Sudão
É o chamado de Mandela
É o poder da favela
Negros heróis libertários
Fanon alma da Martinica
Bob Marley na Jamaica Moçambique terra rica
Steve Biko inquieto
Viva a lua de Luanda
Amor de Agostinho Neto
Lutando contra o racismo
Derrotando o apartheid
Pela ordem da história
Força da diversidade
Pela poder do amor
Pelo bem da humanidade
O destino do povo negro
Está escrito nas estrelas
Na herança dos Dogons
De poder viver e vê-las
Assim caminha nossa história
Nosso povo, nossa gente
É destino de guerreiros
De remar contra a corrente
Aimé Césaire, vive!
Kwane Nkrumah evoé!
Zangbetos do Daomé
Cabo Verde Pedro Pires
Trovoada em São Tomé
A grande África Mãe
Deusa da ancestralidade
A grande África Mãe
Berço da humanidade
Palmares! Soweto! Nanã!
Selma! Ogum! Haiti!
Congo! Sudão! Iansã!
Luther King! Sankara! Zumbi!
Palmares! Soweto! Nanã!
Saladino! Maleico Salam!

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Poeira de Estrelas

Aos jovens é concedido o prazer da experimentação da vida. A existência de um jovem pulsa forte como a energia de uma estrela de nêutrons. Tudo é muito intenso, os hormônios estão ocupadíssimos em seus processos de desenvolvimento químico e orgânico e nada, absolutamente nada, poderá detê-los em seus destinos construtores. Os jovens de Esparta ansiavam e eram preparados para a guerra, os jovens africanos para a caça e os indígenas para os rituais que o permitiam estar e conviver com os mais velhos. Os jovens do presente vivem a quimera da felicidade eletrônica, da justiça social, da igualdade, da democracia, da terra prometida em um mundo ideal e solidário que jamais conhecerão, enquanto que os jovens do futuro serão os defensores da Terra e em alguma escala de de tempo futura estarão aqui soluçando sobre os escombros gerados pelas guerras do capitalismo. Estarão empenhadíssimos na hercúlea tarefa de construir amorosidades e entrelaçamentos em um planeta plúmbeo e mortiço. A saga do renascimento da humanidade descortinará em um futuro próximo jovens expeditos brilhando nas brumas da incompreensão humana, como as flores perfumadas que vicejam em pântanos fétidos que nada mais é que o milagre da Criação nos mostrando o quanto devemos ser resilientes, persistirmos, mesmo que os pântanos da vida sejam os mais assombrosos e inamistosos possíveis.
Nossos jovens nos observam bem de perto, constatam que nós os adultos, estamos destruindo o planeta do futuro que não nos pertence pois não estaremos mais aqui. Sim, enquanto viventes pretéritos, estamos promovendo a destruição do planeta deles, que pertencerá somente a eles. Por isso a tristeza e a incompreensão dos jovens com a irracionalidade dos adultos. Por isso o choque geracional onde a revolta torna-se a face mais acentuada de um grupo humano e vívido, silenciado através do ageísmo cruel emanado pelos espíritos opressores das têmporas gris.
Enquanto fractais da criação, nossos jovens não podem perder o brilho nem a força da similaridade na energia em consonância com o vácuo estelar, da matéria escura que nos envolve, onde o universo repousa e ao mesmo tempo é o tudo e o nada, na qual estamos conectados e emaranhados, onde repousam as soluções de todos os enigmas e mistérios.
Uma única célula humana possui cerca de 220 bilhões de átomos, assim como as galáxias do universo que abrigam mais de 200 bilhões de estrelas cada. São universos em expansão, tanto na relatividade quanto no mundo quântico, jovens e galáxias, os dois rumando céleres para os braços do grande atrator, que não sabemos e ninguém sabe onde está e quando ou se será encontrado, para nos mostrar enfim qual a finalidade do milagroso balé quântico da vida.
A razão da existência de jovens, galáxias, estrelas e tudo que existe nos é inexplicável e não é nós permitido saber. Qual o sentido da exegese do fecundar, nascer, viver e morrer de uma borboleta em tão ínfimo período de tempo? Não há ao menos tempo para entender e muito menos para explicar o quão tudo é tão profundo e inexplicável ao se referir ao milagre da vida. Uma verdade mimética onde ao menos sabemos se estamos vivendo e porquê e para quê, ou se já morremos e estamos em uma outra dimensão paralela ou definitivamente não há explicação para estarmos vivos. A morte não existe no universo, é apenas o fim de um ciclo onde nossa estrutura de carbono, nossa matéria, deixa de existir e retornamos ao estado de energia. A matéria é um arcabouço temporal em escala desprezível perante a infinitude da energia em baixa intensidade que abrigamos. Somos a prisão de carbono dessa energia misteriosa e imortal. Átomos não morrem quando a vida corpórea termina. Na verdade muitos “voltam para casa”, para o insondável primordial do universo, para as estrelas, supernovas, pulsares, nebulosas e buracos negros. Dentro do caldeirão primordial do renascimento formam e se reformam como em uma forja infinita dos poderes da criação. Então a estrutura atómica que constituía os frágeis humanos, se tornam ao se libertarem do jugo do carbono, oceanos, árvores, animais, planetas, estrelas, outros seres humanos e as mais diversas configurações universais, representando o complexo jogral constitutivo, admirável, mimético, multidimensional e impenetrável da vida.
Enquanto que crianças são o graal da Criação, os jovens são os avatares, os dínamos orgânicos de algo superior onde o acaso não encontra abrigo. Espaço contrito onde o mistério da vida nos assombra com a consonância que há entre o farfalhar obsessivo de uma jovem crisálida no afã se tornar imago e o momento da vida dos jovens que como os pulsares agiganta os sentimentos nós corações dos jovens motocontinuamente, pulsando em uníssono como um inimaginável e fiel entrelaçamento quântico.Talvez a maior e mais evidente representação da singularidade do entrelaçamento dessas energias nos humanos seja o amor. Sim, o amor, sentimento inexplicável que acontece por si mesmo, independendo de seu hospedeiro. Como explicar o encontro entre duas pessoas estranhas quando então em uma simples troca de olhares as energias enlouquecidas bagunçam a matéria, fazendo os corações dispararem, criando nós nas gargantas enquanto que o tempo e espaço param o mundo para que os dois que se encontraram energeticamente possam embarcar na fruição prazeroza de endorfinas, serotoninas, dopaminas e oxitocinas.
O casal apaixonado ama-se loucamente e se for confirmado o entrelaçamento quântico que muitos chamam de encontro de almas, partem para dividir a vida sob o mesmo teto, gerando filhos que são o ápice e a consolidação do processo bioquímico e energético que completa a saga humana na grande jornada da vida.
A vida, ah! Esse sabor da vida! Ajustado na dimensão do espaço/tempo, avançando sem ousar ou temer recuar, pois a grande determinação não permite que aconteça. Avante Vida! Nas crisálidas, na natureza, nos jovens e no cosmos. Vida regida pelo tempo, sempre avançando inexorável rumo ao inexpugnável grande atrator, onde não o habitam nem o tudo e nem o nada. Existimos então para quê se nós é concedido viver em tão brevíssimo espaço de tempo ou agradecer por nos ser permitido viver essa tão espetacular experiência que é o milagre da vida?
Somos educados para não nos conhecermos. Sócrates morreu também por afirmar convicto que o ser humano deve conhecer a si mesmo antes de qualquer coisa. Sim, primeiro deveríamos ser instruídos a nos conhecer desde os primórdios, analisar nossas capacidades, nossa maneira de enfrentar a vida. Mas não, nós enfiam em crenças e religiões onde um Deus vingativo e cruel deve ser temido ao invés de amado.
Viver assim é estabelecer conssonância com qual objetivo existencial que não seja formação de mão de obra para o mercado de trabalho? O que deveria ser uma vida livre, feliz, serena e integrada com a natureza torna-se um martírio enfadonho onde passa-se a metade do dia nos apertos do transporte públicos, outro tanto no ambiente de trabalho, outro pedaço do tempo dormindo e praticamente nada para a fruição do lazer, da poesia, do teatro, da literatura e das artes e esportes de uma maneira geral. A Revolução Industrial foi uma adaga com dois gumes que decepou a convivência dos trabalhadores com a casa e a família ao construir os grandes espaços fabris. A partir de então fomos perdendo a essência e o brilho. A promessa de um mundo de luzes exarada pelo Iluminismo não se concretizou senão para poucos. A grande massa trabalhadora ao abandonar a manufatura manual e caseira assinou a pena capital de sua liberdade, tornando-se escrava do tempo Edo dinheiro.
Com a saída do lar para as fábricas, os individualismos e as solidões aumentaram e a humanidade ao viver e conhecer o capitalismo passou a conhecer a competição desumana e então passou a ser triste e melancólica, violenta, intolerante, desagregadora, punitiva e cruel.
A modernidade trouxe satisfação para os que fizeram fortuna explorando os trabalhadores. Não há um grande empreendimento sequer que não tenha em algum momento de sua história se beneficiado ou da escravidão ou da exploração análoga à escravidão de seres humanos. A pobreza, a fome, a desigualdade e a injustiça não vieram das estrelas onde tudo é ordenado para que tudo possa coexistir da melhor forma possível, comoa Terra e a Lua, eternamente enamoradas e sem nunca se acariciarem.
Ao negar aos jovens a reflexão sobre sua verdadeira origem e a complexidade que os constituem, a cátedra comete um desvio na jornada do conhecimento. Trocam o esforço e o método da ciência que caminha tecendo as redes de conhecimento por narrativas metafísicas de cobaras que falam e de uma humanidade gerada a partir de seres constituídos por homens-tijolos e mulheres-costelas. Maria Montessori dizia que nossas crianças são educadas para a competição e esse é o princípio das guerras. Precisam ser educadas para a cooperação, para a solidariedade e para o amor, que são os sentimentos basilares da paz.
A fé e as crenças pertencem ao âmago de cada um e devem ser solenemente respeitadas. Porém negar aos jovens o conhecimento da criação primordial continua ser a velha trucagem de trocar a mecânica quântica, a astronomia e a astrofísica pela metafísica, a evolução pela criaçao, empilhando crenças onde o mêtodo científico está consolidado. Perdidos dentro desse labirinto antropológico nossos jovens crescem sem saber nada de si, que são poeira de estrelas e que podem e devem brilhar hoje e para todo o sempre.

domingo, 16 de julho de 2023

O Presidente sem Diploma e o Trapalhão do SBT

A elite brasileira não cansa de passar vergonha. Recentemente o humorista ou apresentador de humor Carlos da Nóbrega do SBT, onde comanda um programa denominado “A Praça é Nossa”, atacou o presidente Lula ao dizer que não tinha cabimento uma pessoa ser Presidente da República sem possuir diploma universitário.

É uma declaração que escancara o mais puro preconceito de classe, pois,  vincula competência política e administrativa ao saber do diploma acadêmico. O homem que subiu na vida sem esforço, sentando no banco de praça herdado do pai Manoel da Nóbrega, não tem mínimo cuidado em suas declarações, pois, seu patrão e dono do SBT, Silvio Santos, também não possui diploma universitário.

O período de maior pujança da economia brasileira aconteceu quando o Brasil foi governado por dois “sem diplomas”: Lula e José Alencar. Lula oriundo do chão de fábrica que criou o maior partido de esquerda e a maior central sindical do ocidente, respectivamente PT e CUT, enquanto que Zé Alencar construiu com trabalho duroa maior empresa de tecelagem do país, a Coteminas.

A infeliz declaração do homem que ganha a vida sentado em um banco de praça na TV, conversando com humoristas, demonstra que o Brasil ainda repousa sobre a ignorância colonial e imperialista, onde os filhos de algo, ou de alguém, herdam todos os direitos e privilégios da nação brasileira.

Carlos da Nóbrega é um indigente intelectual. Lula possui 27 diplomas de Doutor Honoris Causa das principais universidades de todo o planeta. Nóbrega é um ilustre desconhecidobo jogo político nacional e no tabuleiro da geopolítica global, enquanto que Lula é incensado por reis, rainhas e chefes de estado das atuais potências planetárias.

Triste Brasil, que abre os sistemas de comunicação para dar voz a um analfabeto político, pois se não o fosse, deveria refletir o porquê do Brasil ter criado sua primeira universidade em 1920 enquanto que no Peru a primeira universidade foi criada em 1551, no Chile em 1842,na Argentina em 1613 sem falar na de Bolonha, Itália em 1088.

Dados das Nações Unidas constaram que no Cone Sul o Equador desponta como protagonista universitário ao possuir em suas instituições de ensino superior cerca de 27% da população mais pobre do país, enquanto que o Chile tem 20% e  a Argentina 19%. O Brasil que é a maior potência econômica da região, nos envergonha com míseros 3% apresentados pelo Censo da Educação Superior em 2022. Os indicadores apresentados demonstram que o professor Darcy Ribeiro estava correto em afirmar que a tragédia da Educação brasileira não era um acaso e sim um projeto das elites. O Presidente Fernando Henrique Cardoso, intelectual proeminente, com dezenas de livros publicados, não construiu uma universidade pública sequer em seus 8 anos de mandato, sendo que Lula construiu 18 universidades federais e 171 campi universitários, amém de duas centenas de institutos federais. Se cada presidente brasileiro investisse e se dedicasse à Educação como fez Lula o país certamente seria outro.

A ignorância do povo serve aos interesses pecuniária da elite brasileira, que amealhou sua fortuna através do sangue jorrado das costas do povo negro. Elite grosseira, mal educada, sem cultura e conspiradora.

Como parte dessa elite econômica defasada e beócia, que vive entregue às frivolidades do consumismo e da “filosofia de whatsapp“, o humorista do banco da praça deveria continuar sentado em sua monumenral ignorância política e se dedicar a fazer humor para o público que enriqueceu seu patrão que não possui diploma universitário.

 

 

A Intolerância da Elite Nacional

O Brasil carrega um grave problema que é a sua elite. Guardando as devidas proporções, nossa elite é uma das mais cafonas e incultas do mundo. Geralmente branca e frequentadora dia espaços privilegiados da sociedade, acha que o dinheiro é o passe necessário para controlar a vida cotidiana do país.
Desde as Capitanias Hereditárias que essa gente se utiliza dos privilégios da branquitude endinheirada. A branquitude é o lado ruim da moeda racial, a banda podre da laranja antropológica do tabuleiro social. Ela não somente tem preconceito contra negros mas também contra brancos pobres. Faz as leis do país, dirige os parlamentos, controla o sistema financeiro, o poder das indústrias e do aparato militar.
A pretensa elite brasileira estuda mas não lê. Frequenta os espaços culturais mundo agora para postar no Instagram. Desconhece os pilares da democracia, da sustentabilidade, dia direitos econômicos e sociais. 
Com a ascensão do fascismo organizado politicamente a partir de 2018 no país, passou a se manifestar das maneiras mais exdrúxulas possíveis. Desde rezar para pneus, cercar hospitais para impedir interrupções de gravidezes de meninas estupradas, convocar seres extraterrestres para interferirem nas eleições,  promoveram um circo de horrores no país que culminou com a invasão de depredação das sedes dos principais poderes em Brasília, visando a derrubada de um governo legitimamente eleito.
Agora nossa “elite”, não satisfeita com as pantomimas peculiares de uma república bananeira, passou a atacar publicamente autoridades e suas famílias, tanto no Brasil quanto no exterior. Falam do direito à liberdade de expressão aviltando um dos direitos mais sagrados da humanidade que é o de ir e vir.
A democracia é o espaço fundamental que abriga o debate entre as ideias divergentes, entre campos ideológicos antagônicos. É um espaço sagrado onde o confronto se dá sempre através de ideias e pontos de vista, nunca nada além disso, que possa alterar o equilíbrio dia pratos da balança da justiça e da democracia plena.
A intolerância nos mostra através da história que as mulheres eram queimadas nas fogueiras da Inquisição Religiosa e tanto o fascismo de Mussolini na Itália como o Nazismo de Hitler na Alemanha tiveram seus recrudescimentos em atitudes e manifestações antidemocráticas similares, que exaravam uma visão canhestra de nacionalismo enviesado travestido de patriotismo. O resultado todos conhecem o que foi o ventre de ignomínias gestadas durante a Segunda Guerra Mundial, com a execução sumária de 6 milhões de judeus civis indefesos nos campos de concentração do Terceiro Reich e milhões de africanos escravizados no Novo Mundo através da empresa colonial europeia.
A elite brasileira é perversa e conspiradora, não admitindo a convivência com os mais pobres e vulneráveis, principalmente no comando da política nacional, a eterna fonte que abastece seus mananciais de privilégios.
O Brasil é uma nação ainda imberbe no cenário da geopolítica global. Os óbices que surgem cotidianamente são originários do nosso projeto de nação fundamentado na escravidão e no colonialismo extrativista. 
Vivemos em uma metafísica lisérgica que permite a uma senadora da república afirmar conversar com Jesus Cristo sob uma frondosa goiabeira. Outros contrariam a ciência e a astronomia ao defendem bravamente que o planeta Terra não é uma esfera e sim um planeta plano com bordas limitadas pelo infinito.
Por outro lado líderes religiosos prevaricam escancaradamente, lesando o povo pobre e humilde, do qual arrancam suas parcas economias para sustentar suas vidas de nababos ungidos pelo demônio, cruzando os céus do país em aeronaves que custam milhões de dólares, enquanto seus fiéis vivem na mais absoluta miséria com seus parcos tostões. Essas congregações neopentecostais se colocaram à disposição do projeto fascista no país, em troca de isenções fiscais e outras benesses governamentais, enfurecendo certamente Nosso Senhor Jesus Cristo.
O caminho não é outro a não ser através da Educação, que cumprirá um dia a relevante tarefa de retirar a venda dos olhos dessa nossa combalida nação que pede encarecidamente uma ideologia para viver em paz.

domingo, 2 de julho de 2023

Os que decidem por nós


O povo negro desde o século XVI, quando aportaram aqui os primeiros navios negreiros, sempre esteve à deriva no inóspito mar da branquitude segregadora e eurocêntrica.
Durante os mais de 350 longos anos pelos quais perdurou a escravidão no Brasil, a população negra nunca recebeu por parte do estado brasileiro, qualquer aceno positivo referente à intenção de reparação pelo crime de lesa humanidade cometido contra o povo negro.
A barbárie teve seu início com o sequestro e a escravização de seres humanos no continente africano para trabalhar nas Américas e Caribe. O segundo momento de horror pelo qual os africanos passavam era a separação das famílias, que eram “capturadas” nas aldeias em horrendos safáris humanos. A empresa colonial separava as famílias para evitar conflitos entre eles e pela possibilidade de sedições ou por atos extremados por conta de violações. A mãe vinha para o Brasil, o pai para os Estados Unidos e os filhos para o Caribe, em uma dolorosa separação perpétua. A metodologia escravista avaliava que agindo assim seria a melhor maneira de retirar do escravo qualquer possibilidade de estímulo anímico para a rebelião ou organização social.
Depois havia o terceiro momento de terror que era a travessia transatlântica. Somente por si assustadora, em condições normais, a situação piorava para os africanos já na condição de cativos, quando viajavam entre 2 e 3 meses cruzando o Oceano Atlântico, acorrentados em porões fétidos e insalubres. Durante a viagem eram ameaçados e humilhados, relegados às piores e degradantes condições humanas, que antecipavam como seriam suas vidas até a morte.
A captura do futuro escravo em solo africano, era geralmente precedida de ataques fomentados pelo europeu entre várias etnias do continente. O colonizador fornecia armas, pólvora e rum, uma combinação explosiva que convulsionava a normalidade do cotidiano dos povos africanos.
Dados empíricos mostram que durante esse período deixavam o Continente Africano em torno de um a tres navios, praticamente todos os dias. Essas embarcações possuíam as mais diversas configurações e traziam em seus porões cerca de 200 a 1 mil cativos por viagem, isso durante mais de 350 anos.
O tráfico negreiro era de longe o mais lucrativo empreendimento colonial das metrópoles e através dele foi possível a consolidação da estrutura produtiva no Novo Mundo pelos europeus. A empresa colonial exercia o que designou-se chamar de Comércio Triangular, que consistia em trazer os escravos para o Novo Mundo, levar açúcar e pau-brasil para a Europa e de lá armas, pólvora, rum, e equipamentos para o continente africano.
Muitos dos cativos se atiravam ao mar quando tinham oportunidade, cometendo suicídio. Apelavam para ato extremado diante da perspectiva do futuro de sofrimentos que os aguardavam, preferiam morrer, interrompendo a triste sina que estavam vivendo.
 Outros cativos eram atirados ao mar pela tripulação por motivo de doença, motim ou mesmo para garantir a subsistência do coletivo, quando a embarcação se deparava com longos períodos de calmaria. Nesse caso, a ração e a água que alimentavam o contingente do navio deveriam ser preservadas. Eram calculadas para o tempo normal da travessia e quando encontravam um período de calmaria no mar os alimentos e a água potável começavam a rarear com o navio parado. Os longos períodos estacionados no mar sem vento para impulsionar as velas, eram inversamente proporcionais ao planejamento do volume de água e alimentos necessários para a longa travessia. Caso o cenário de calmaria persistisse por mais tempo que o normal tolerado, alguns escravos eram selecionados por prioridade econômica e atirados vivos ao mar, para garantir que as provisões e a água potável fossem suficientes até a chegada aos portos de destino.
Os escravos escolhidos eram lançados pela borda da embarcação nas águas profundas do Oceano Atlântico. O ato bárbaro também servia como demonstração de castigo para que os mais rebeldes não estimulassem possíveis motins ou rebeliões.
Calcula-se que durante esses 350 anos, foram trazidos de África para Américas e Caribe um contingente que orbita entre 10 e 20 milhões de africanos escravizados, onde pelo menos 10% desses seres humanos perderam a vida nessas jornadas de horrores que foram as travessias transatlânticas. A quantidade de corpos atirados ao mar era tamanha que chegou a alterar a rota migratória milenar dos tubarões, que passaram a seguir os navios negreiros aguardando o “descarte” de carne humana fresca.
O custo humano pelo trabalho de construção das sociedades coloniais do Novo Mundo será sempre impagável. O negro contemporâneo traz a marca visível da tragédia humana que se abateu sobre sua história e ancestralidade. As dores físicas não são mais sentidas, pois foram se desvanecendo nas brumas do tempo. Porém o sentimento de degredado permanece, enquanto que a sensação de não pertencimento é presente e o prazer de ser amado por seus concidadãos não existe. O negro herdou o pior que a escravidão poderia lhe oferecer, a repulsa, a desconfiança permanente do branco, além da invisibilidade perpetrada pelo racismo estrutural. O legado recebido como compensação pelo holocausto de seus ancestrais foi o instituto do racismo, a condenação eterna pelo racismo e o lugar que o capitalismo lhe reservou depois que a escravidão teve seu fim, as periferias e favelas onde oferece péssimos sistemas de saúde e educacionais. Para o negro que sobrevive ao genocídio cotidiano restam-lhes os piores postos de trabalho e sobreviver em locais inseguros e ambientalmente deteriorados. Também lhe foi vedado a isonomia para exercer o poder político que é um espaço privilegiado que pode transformar realidades.
O povo negro não foi convidado para sentar à mesa do banquete da festejada república recém proclamada após a Lei Áurea. Não foi convidado a compartilhar do evento e nem pode sentir o doce sabor da democracia que foi servida somente para as pessoas brancas em um lauto e eterno banquete antropológico.
O Brasil é governador desde então como uma república presidencialista, mas na verdade é quase parlamentarista, pois, o Congresso Nacional é quem decide os rumos do país, tendo poder inclusive para interromper o mandato do presidente eleito através de um processo de impeachment. Os negros (pretos e pardos) brasileiros representam em torno de 60% da população e no parlamento são apenas 30% do total de parlamentares. A política no parlamento brasileiro é comandada pelos representantes das grandes corporações econômicas, do agronegócio, da indústria de armas, dos grandes conglomerados pecuaristas, grupos de educação e saúde privados, sindicalismo patronal e representantes conservadores das religiões neopentecostais. Nenhuma desses segmentos tem o povo negro como referência em suas demandas políticas. Pelo contrário, lutam aguerridamente contra as cotas raciais nas universidades, perseguem de maneira tenaz as religiões afro-brasileiras, criminalizam o funk, o samba e os ritmos negros, olhando o povo negro como bárbaros selvagens e até criminosos.
O país enquanto modelo de gestão política, segue a mesma metodologias das democracias ocidentais, onde a população escolhe seus representantes políticos através do escrutínio popular.
O modelo de organização do Estado moderno prevê a separação e autonomia entre os poderes da república, sendo que as leis são debatidas, criadas e aprovadas pelo Congresso Nacional, enquanto que a função de garantir o cumprimento dessas leis cabe ao Poder Judiciário.
O parlamento deve trabalhar e legislar para que cada vez mais haja o aprimoramento da democracia através de mecanismos de gestão pública possam ser criados e aperfeiçoados para que a sociedade possa evoluir cada vez mais na direção do conhecimento, do desenvolvimento, dos Direitos Humanos, do bem estar e da paz. O grande óbice que se apresenta perante esse avanço civilizatório é a qualidade intelectual da maioria das candidaturas aos cargos eletivos em todo o país.
A miríade de partidos políticos e candidatos apresentam ao eleitor plataformas eleitorais recheadas de proposições surreais e esdrúxulas, demonstrando profundo desconhecimento da gestão pública. Comprovam que o futuro projetado e previsto dentro dos limites da democracia será absolutamente discutível, caso dependa dos conhecimentos agregados pelos representantes eleitos.
A administração pública, destarte possuir conhecimento acumulado em algumas ilhas de excelência, apresenta uma complexidade enorme ineficiência no que concerne à governabilidade.
A elaboração e aprovação de leis pelo Legislativo, exige um profundo debate que depende do conhecimento histórico das mobilidades sociais, da legislação vigente e da articulação política das organizações sociais que colaboram com a estruturação da caminhada da sociedade na direção do futuro.
O entendimento dos primados da administração pública, prevê o domínio do funcionamento da máquina do estado, que se mostra cada vez mais moderna e estruturada. Gerir a máquina pública exige um mínimo de compreensão da separação dos poderes e da interação com a sociedade civil organizada. Essa construção deve ser o ponto de partida para a estruturação de políticas públicas que irão propiciar o bem estar da comunidade.
Um dos mecanismos de observação, mensuração e controle do bem estar da população é a Estatística. Através dela e de seus resultados, o estado promove e corrige os rumos necessários para o bom funcionamento da sociedade. Através dela podemos traçar panoramas, estabelecer movimentos de pesos e contrapesos e elaborar políticas que possibilitem a harmonia social e a execução da biopolítica.
Segundo Michel Foucault a biopolítica elabora e controla as políticas voltadas aos cidadãos e cidadãs que têm suas vidas compreendidas dentro de um determinado espaço geográfico. A leitura e análise de indicadores permite intervenções no sentido da correção de assimetrias sociais e econômicas que possam gerar impedimentos na vida daquela população.
Os principais óbices encontrados pela maioria dos parlamentares quando chegam ao poder é o absoluto desconhecimento do funcionamento do estado, da máquina pública, do império da lei, da independência entre os poderes e do ato de legislar na abrangência dos limites federativos estabelecido pela Constituição Federal. O conhecimento deve orientar o parlamentar ou o gestor público na direção correta, sem ferir legislações nas outras esferas como Estado e Municípios, sempre dentro do escopo das leis infraconstitucionais.
A diversidade e a força da sociedade civil através de seus movimentos sociais e mecanismos de controle pode e deve participar da elaboração, implantação e monitoramento das políticas que impactam a sociedade.
A compreensão das técnicas de tratamento da Estatística e a consequente construção de indicadores sólidos podem e devem servir de subsídios para a elaboração de políticas públicas consistentes, baseadas no método científico e não somente no senso comum.
A arte de legislar sem a compreensão da realidade e das técnicas administrativas torna-se um fatigante ato de enxugar gelo. Administrar a complexidade de um território vivo com sua população pulsante, exige conhecimentos teóricos e práticos multidisciplinares e transversais, que necessitam estar aliados à metodologias eficazes, criatividade e inovação tecnológica.
Ao analisarmos as campanhas políticas, observamos que as mesmas usam o velho e batido bordão “Tem que Mudar!”. Certamente nos últimos 50 anos aconteceram na maioria dos municípios algumas mudanças estruturais. Porém com raríssimas exceções promoveram mudanças significativas na realidade daquela comunidade. Vejam como as velhas elites locais se revezam e se perpetuam na carcomida instituição do poder paroquial. Pouco importa se possuem capacidade de gestão que possa garantir o bem estar para a população. Proporcionar bem estar para o povo é uma empreitada política gigantesca. São compromissos que devem ser e estar eivados pela democracia, assentados sobre o primado dos Direitos Humanos, Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais, voltados para a promoção da cidadania e distribuição de renda.
O entendimento principal que deveria permear a gestão pública seria passar por uma reflexão sobre a necessidade de uma profunda transformação social, que exige vigorosos investimentos em diversidade, cultura, tecnologia, educação, saúde, meio-ambiente, trabalho e renda e inclusão social. Quando falamos em inclusão é mister frisar a importância da elaboração de políticas voltadas para mulheres, jovens, negros, deficientes e população LGBTQIA+. Essas políticas não devem ser implementadas como assistência social e sim como fator de desenvolvimento e geração de novos patamares civilizatórios. A miríade de candidaturas em todo território nacional traz sucessivas ondas de desesperanças, devido à indigência intelectual e política dos novos candidatos, que esperam enriquecer no poder, gerando decepção e infortúnio nos que lhes legaram seus votos.
No caso da população afrodescendente, a política que é controlada pelos brancos, não está preparada e nem mesmo deseja compreender e conhecer os mecanismos históricos de correção, comumente chamados de Ação Afirmativa. Ao nos debruçarmos sobre o conjunto de leis do Brasil voltadas para a população negra, desde a chegada dos primeiros colonizadores até os dias atuais, não se observa uma linha sequer que vise a promoção da população negra enquanto política de reparação histórica. Pelo contrário, as leis que comumente fizeram parte do cotidiano do povo negro sempre foram voltadas para a repressão, castigo e encarceramento. Por isso os negros respondem a cerca de 70% dos apenados do país e também por isso o Brasil possui a terceira maior população carcerária do planeta.
Mesmo nos tempos atuais os brancos lutam contra a lei que permite a adoção das cotas para negros nas universidades públicas. Não permitiram que os negros estudassem durante 350 anos e agora tentam impedir instrumentos de correções visando reparações históricas, que possam reduzir a vergonhosa desigualdade ocasionada pelos 350 anos de escravidão.
A elite brasileira é avessa ao conhecimento. Pelo contrário, é cafona e ignorante. A prova disso é que insistem no equívoco da meritocracia. Está equivocada, pois, em nossa primeira constituição, a de 1824, o negro foi proibido de estudar e de votar. Por conta dessa perversidade, o estado brasileiro, promoveu mobilidade social para o contingente branco, enquanto o negro permaneceu estacionado de maneira compulsória na escravidão durante centenas de anos, sem poder avançar e estabelecer qualquer tipo de isonomia com outros grupos raciais de nossa sociedade.
Quando um político ocupa a tribuna para ofender o instituto das cotas nas universidades, está demonstrando ignorância histórica e absoluta ausência de compreensão da gestão do estado, pois, as cotas raciais, constam no documento final, no Plano de Ação da Conferência Mundial contra o Racismo das Nações Unidas, realizada em 2001, na cidade de Durban, na África do Sul. A conferência, foi um marco importante para estabelecer marcos civilizatórios nas relações raciais no planeta. Foram construídas inúmeras pontes virtuosas que propiciam viabilizar a elaboração de ações viáveis e concretas, que orientem a caminhada dos países membros da ONU no que tange às políticas de inclusão de africanos e afrodescendentes da diáspora global em ações eficazes de combate ao racismo.
Ao ser signatário do plano de ação da conferência, cuja relatoria ficou a cargo da brasileira Edna Roland, os termos assentados no documento final se tornaram compromissos assumidos pelo Brasil. Conforme decisão das Nações Unidas, esses termos tomam força de lei dentro do país após ele ser signatário do Plano de Ação. Por força desse marco jurídico, além de outros dados censitários históricos e humanitários, o Supremo Tribunal Federal – STF, julgou as cotas raciais para o acesso às universidades como matéria constitucional, para desgosto e derrota dos falsos meritocratas.
Apesar de todo o horror que a ancestralidade negra foi submetida para que fosse possível a construção da nação brasileira, a quase totalidade da população não negra não se levanta contra o racismo estrutural que insiste em perpetuar a desigualdade e o preconceito contra o povo negro no país. Mesmo depois de 120 anos da promulgação da Lei Áurea, que extinguiu a escravidão no país, ainda podemos assistir cenas cotidianas de racismo e movimentos neonazistas, destilando ódio aos negros. O racismo estrutural também atua através dos aparelhos de repressão de estado, promovendo um verdadeiro genocídio da juventude negra nas comunidades periferias e comunidades vulneráveis.
Onde estão os que decidem por nós? Não estão em lugar algum, pois os negros, desde 1525 aqui no Brasil sempre estiveram por sua própria conta. Todas as políticas de bem estar e de promoção social e econômica são destinadas aos brancos. Aos negros é destinado desde sempre o quartinho dos fundos das empregadas e os serviços degradantes e mal pagos para os homens. A responsabilidade sobre a precariedade do contingente negro é sempre apontada como falha meritocrática antropológica e não como mecanismo projetado e estabelecido pelo racismo estrutural.
Aqueles que decidem através do voto popular quais os candidatos que serão alçados ao parlamento para legislar para todos, no fundo apenas perpetuam e aprofundam o racismo estrutural e a desigualdade que toma conta do nosso país. Muitos dos que se elegem não projetam seus olhares sobre as vulnerabilidades do povo negro por puro desconhecimento histórico e outros porque são racistas consolidados e se utilizam do instituto da imunidade parlamentar para desfilar seu racismo e ampliar o fosso da desigualdade.
É importante lembrar que a naturalização da precariedade do povo negro também é uma forma de racismo. Quando a polícia mata um jovem negro, matou porque era um bandido, então matou certo, dizem. Mas por que ele se transformou em um bandido? Quais as políticas que o falecido jovem negro recebeu por parte do estado para que pudesse ao menos ter uma chance de possuir uma vida normal? É muito mais cômodo julgar e matar um negro que pensar e desenvolver políticas que lhe garantam segurança desde a vida uterina, onde a começa a sentir a desigualdade ainda na violência obstétrica, comum no serviço público de saúde. É o primeiro sinal que a criança negra recebe, do mundo exterior que a aguarda após seu nascimento.
Os que decidem por nós não estão no cotidiano das áreas conflagradas onde vive o povo negro. Estão nas mansões e apartamentos de frente para o mar, no ar condicionado, cercados de serviçais que lhes acenam continuamente com humilhantes rapapés. Em seus ambientes de trabalho, cercam-se de benesses pagas com o dinheiro do povo sofrido, para legislar sempre em favor dos bem nascidos, dos que possuem e controlam o poder. Em seus espaços materiais e espirituais não cabem o sofrimento do povo negro. Desses só lhes interessam os votos, que geralmente são calçados em falsas promessas e abraços constrangedores. Os que decidem por nós negros, não estão nem aí para as nossas agruras e nossos sofrimentos. Não estão nem aí para o holocausto dos nossos ancestrais, na verdade estão sim, perpetuando o racismo estrutural que nos oprime cada vez mais e os enriquece mais ainda.
Pesquisas das agências da ONU mostram que entre 100 países o Brasil está entre as 5 mais desiguais nações do planeta. Segundo dados da Câmara dos Deputados, a configuração do parlamento brasileiro nas eleições de 2022 mostra a grande assimetria racial brasileira, quando os negros são 60% da população brasileira e compõem somente 26% do Congresso Nacional. Ampliando nossa observação para os estados, nenhum estado brasileiro é governado por negros ou negras e nas capitais brasileiras nenhum prefeito é negro ou negra.
Somos uma nação composta majoritariamente por pretos e pardos mas governados por uma minoria branca, mostrando que as marcas do colonialismo e escravidão ainda estão latentes em nosso DNA sociológico.