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quarta-feira, 21 de abril de 2021

O JEITINHO BRASILEIRO DE FABRICAR HERÓIS DA PÁTRIA

 


O JEITINHO BRASILEIRO 

DE FABRICAR HERÓIS DA PÁTRIA



Nosso herói nacional é Tiradentes. Mas vamos lá, o que fez efetivamente o alferes para ser herói da pátria? Quantas batalhas revolucionárias comandou país afora. Nesse quesito os líderes do Quilombo dos Palmares merecem mais créditos, pois, enfrentaram cerca de 20 expedições imperiais e dezenas de ataques de bandeirantes (os milicianos da época) entre 1595 e 1695.

Palmares, um enclave republicano negro, foi chamado de A Tróia Negra, possuindo cerca de 30 mil habitantes em seu apogeu, no século XVI. Resistiu durante cem anos aos impérios holandês e português, tendo inclusive celebrado um acordo de paz com o governo de Pernambuco com a aquiescência do rei de Portugal.

Ganga Zumba o líder maior de Palmares aceitou o acordo e desceu a Serra da Barriga com um grande contingente quilombola para viver em uma reserva delimitada pelo governador de Pernambuco. Zumbi e outro guerreiros optaram por permanecer em Palmares, pois não confiavam nos políticos pernambucanos nem na coroa portuguesa.

Pouco tempo após se fixar com seus pares na planície, Ganga Zumba foi envenenado e seus seguidores capturados e devolvidos aos antigos escravizadores ou vendidos novamente como escravos para novos senhores. Zumbi permaneceu em Palmares guerreando e usufruindo a liberdade. Foi vítima de uma traição, morrendo encurralado em Palmares, com sua morte causando a derrocada do quilombo.

O que fez Tiradentes em nome da liberdade? Absolutamente nada. Tiradentes e os sediciosos de Vila Rica lutavam pela criação de uma república em Minas Gerais, separada do resto do Brasil, pelo simples fato de não concordarem com a Derrama, um sistema de imposto criado pela coroa portuguesa que diminuía o lucros dos proprietários de sítios de extração de ouro e pedras preciosas. Vila Rica no final do século XVIII era a maior e mais rica cidade da América portuguesa, com uma elite local próspera, proprietária de centenas de escravos.

A Inconfidência Mineira foi um movimento iniciado por ricos proprietários de minas e sítios de exploração de jazidas, que hipocritamente lutavam por liberdade mas não defendiam o fim da escravidão.  Ao contrário de Simon Bolívar que libertou os escravos em todas as guerras de independência que venceu. A nova república que se instalaria em caso de sucesso do movimento de secessão mineiro, manteria seus escravos e a vil exploração do homem pelo homem.

O final do movimento todos sabem, assim como em Palmares, houve um traidor que revelou os planos sediciosos à coroa portuguesa em troca de perdão de suas dívidas com Portugal. O rei decretou que todos fossem presos imediatamente, tendo a grande maioria dos conspiradores, condenando os principais à morte. Mas como aqui já era Brasil, somente o único pobre do grupo foi executado, o Alferes Tiradentes. O restante foi perdoado e alguns cumpriram um breve degredo em África e outros até recuperaram o prestígio político que gozavam anteriormente.

Não houve guerra, batalhas, confrontos ou ao menos pequenas escaramuças militares que justificassem a honraria de ser nomeado herói da pátria. Foram simplesmente algumas reuniões e elaboração de panfletos, como na Revolta dos Malês em Salvador. Aliás, ambos os movimentos com caráter iluminista.

O governo republicano brasileiro, recém estabelecido à época, necessitava de heróis em sua extrema vocação positivista. Foram buscar na sedição mineira o mote para a criação de um mito nacional que confrontava o império português e Tiradentes caiu como uma luva nessa esperteza histórica, pois, sua execução, ensejava a sordidez e o despotismo do sistema imperial. Não existe a mínima comparação entre a sublevação de Palmares e a Inconfidência Mineira. Palmares durante cem anos enfrentou 20 batalhas contra dois impérios além de inúmeras expedições de bandeirantes mercenários, enquanto em Vila Rica não foi dado um único tiro.

Qual a diferença fundamental entre a Inconfidência Mineira e Palmares? Palmares, a Tróia Negra, foi um enclave negro, uma república negra que durou cem anos. O exemplo de Palmares não poderia ser passado às gerações futuras, pois mostra que os oprimidos podem transformar a realidade. Assim como João Cândido na Revolta da Chibata, onde marinheiros negros tomaram os navios da Marinha de Guerra, levaram-nos à Baía de Guanabara e apontaram seus canhões para o palácio do governo, exigindo o fim dos castigos físicos promovidos pelo oficialato branco da época. Interessante lembrar que em 1910 a marinha brasileira era uma das maiores do mundo. A dupla João Bosco/Aldir Blanc imortalizou o movimento com a música ‘O Mestre Sala dos Mares’.

Os verdadeiros heróis então sempre foram tornados invisíveis pelo estado brasileiro? Claro que sim e isso é só o começo. Talvez esteja aí a explicação para o Brasil sempre ter virado as costas para a América Espanhola, digamos assim.

É inacreditável que em nossas instituições de ensino não se trabalhe com os movimentos de libertação dos países da América do Sul e Caribe. É menos crível ainda que não se escreva uma linha sequer sobre o Haiti, que conseguiu sua independência através de uma revolução popular conduzida por escravos. Talvez por este motivo aquele país sofra tanto, devido ao ‘castigo’ imposto pelos colonizadores europeus. Na mente dos escravizadores e colonizadores o Haiti não pode prosperar, pois cometeu um erro imperdoável que foi lutar e ter conseguido sua liberdade através da rebelião popular.

Cuba é outro exemplo de resistência no Caribe. A revolução cubana devolveu ao povo oprimido o orgulho de poder respirar liberdade. Durante o período do ditador Fulgêncio Batista, a ilha caribenha era praticamente um bordel dos Estados Unidos, onde os estadunidenses da Flórida alugavam voos charters para alugarem meninas a partir de 10 anos de idade, com as quais passavam o dia, cometendo suas imundícies hedonistas. A máfia transformou a ilha em um cassino onde jogo, drogas e prostituição foi a tônica daquele território até a chegada vitoriosa da revolução. Cuba paga um alto preço civilizatório devido ao bloqueio econômico imposto pelos EUA há 60 anos. Porém, o povo cubano é orgulhoso, pois, na ilha não há medicina ou educação privada. Todos os cubanos frequentam as mesmas instituições, por isso os filhos dos operários e camponeses se formam em universidades de excelência, que inclusive exportam médicos para todo o planeta, principalmente para a África, em missões humanitárias.

Porém o mais impressionante é a figura histórica de Simon Bolívar. Chamado de O Libertador, Bolívar nasceu em Caracas no ano de 1783, onde foi educado por um seguidor do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau que lhe transmitiu as ideias do Iluminismo.

Bolívar dedicou sua vida a um projeto utópico de expulsar de América e Caribe toda a presença da coroa espanhola, sendo a Espanha um dos maiores impérios à época. Em sua cruzada libertadora, derrotou e expulsou os espanhóis em diversos países, libertando do jugo colonial espanhol Venezuela, Colômbia, Panamá, Equador e Peru. Simon Bolívar criou a Grâ-Colômbia (embrião distante do Mercosul), que foi a união dessas nações libertadas e da qual foi presidente por dez anos.

Essas histórias de libertação nos são ocultadas pelo estado brasileiro para que pensemos não ser possível libertar nosso país do colonialismo cultural e econômico a que somos submetidos. Então nos enfiam goela abaixo um falso herói que foi Tiradentes, para que possamos cultuar valores libertários mais amenos. O positivismo da época apresenta um mártir cabeludo e barbudo, à imagem de Jesus Cristo, para causar comoção popular. Quando na verdade sabemos que os enforcados tinham a cabeça e a barba raspados antes da execução da pena. Tiradentes estava careca e sem barba quando foi enforcado.

Dizem que a história se repete. Atualmente estamos assistindo a derrocada de um outro herói nacional chamado Sergio Moro. Alçado à condição de paladino da justiça, está assistindo atônito, seu império ruir dia após dia. Moro cometeu o pecado capital de embarcar na aventura de outro mito fabricado, Jair Bolsonaro, onde sua recompensa pelo trabalho de tirar o campeão das pesquisas do páreo foi o Ministério da Justiça. Para que isso acontecesse, tirou do certame o principal adversário do candidato Bolsonaro, o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva. Utilizando-se de métodos pouco ortodoxos na doutrina do Direito, mandou grampear os telefones do escritório de advocacia que defende o ex-presidente, além de ter permitido o uso de uma condução coercitiva sem que o acusado houvesse ao menos ter sido convidado a depor. Porém o mais grave no meu entender foi a relação promíscua que estabeleceu com o Ministério Público Federal, recebendo inclusive, com antecedência, textos das denúncias que seriam exaradas pelo ministério público e a discussão de sentenças.

Foi mais um caso de construção de mito para atender interesses da classe dominante. Como o ex-presidente estava à frente das pesquisas, vencendo ainda no primeiro turno, era necessário tirá-lo do páreo e o melhor caminho seria sua prisão. Ao ser condenado o ex-presidente perdia a condição de "ficha-limpa" para poder concorrer e o caminho ficou livre para o segundo melhor colocado Jair Bolsonaro. Ao fim do certame eleitoral Moro foi cobrar "fatura", ou seja o Ministério da Justiça. Recebeu o que foi devido e rapidamente foi defenestrado pelo déspota, que o atirou em uma masmorra política invisível. Sem um partido político que o sustentasse e com o aparato governamental agindo sub-repticiamente contra ele, viu seus sonhos desfazerem-se no ar. Os advogados do ex-presidente conseguiram provar no STF que o juiz foi parcial, reduzindo a pó o pouco de credibilidade que lhe restara. Moro hoje se assemelha a um ectoplasma político, onde todos ao vê-lo fogem do seu contato, está isolado e periga ser preso.

Jair Bolsonaro é um caso à parte. Chamado de mito por seus seguidores, possui um currículo bastante peculiar. Tenente do Exército Brasileiro, foi enviado para a reforma com o posto de Capitão sem nunca ter cursado a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais – ESAO, que forma os capitães da força. Após tentativas contínuas de insubordinação, ameaçou bombardear quartéis por conta dos baixos salários, medida extrema que MST e CUT jamais pensaram. Afastado e posto na reserva entrou para a vida política como vereador em 1988, abraçando definitivamente a carreira política, se tornando deputado federal por vários mandatos e eleito presidente da república em 2018. Suas bandeiras políticas e declarações públicas sempre foram extremadas e polêmicas. Tornou-se um mito ao dizer que nenhum filho seu casaria com uma mulher negra pois tinham sido bem educados. Ou quando falou para a deputada federal Maria do Rosário do PT que não a estupraria porque ela era muito feia. Ou pior, que utilizava o apartamento funcional que possuía em Brasília para “comer gente”. Confessou praticar zoofilia quando jovem e sempre discriminou gays e lésbicas. Mas se tonou um mito, como muitos outros que o Brasil teima em criar.

Nossa história é repleta de mentiras históricas. Só um povo muito ingênuo pode acreditar na nossa independência. Enquanto nossos irmãos latino-americanos lutaram bravamente para expulsar os colonizadores e conquistarem suas liberdades, aqui o nosso libertador foi o herdeiro do trono português, do império colonizador. Sim, libertou e não fez a república, libertou e manteve o império e a escravidão. Talvez seja esse o motivo do povo brasileiro ser tão despido de passado. Por isso é tão fácil enrolá-lo na bandeira nacional, cantar o hino e apresentar os novos mitos. Não há orgulho por se tronar livre. Nossos antepassados nunca lutaram para expulsar o império português, obviamente aconteceram alguns movimentos mas todos fracassaram. Somente através do militares com a república foi que nos livramos do jugo imperial. Porém fica a dica: os militares gostaram e de tempos em tempos procuram intervir no rito democrático brasileiro. Assim repetiram a façanha em 1964, quando tomaram o poder através de um golpe militar que fechou o congresso nacional e mandou para o exílio os políticos de oposição.

A ditadura militar que manteve o país nas trevas durante duas décadas, fez o povo acreditar que o Brasil precisava se livrar da “ameaça comunista”, assim como aconteceu com a eleição de Jair Bolsonaro, onde além da ameaça do “ouro de Moscou”, surgiram as novas “fake news”, que preconizavam novas gerações de bissexuais convertidas através do “Kit Gay” e da “Mamadeira de Piroca”, “fake news” sempre entremeadas com a ameaça comunista de um comunismo que não existe mais e a preservação da família através até da castidade.

Ao virarmos as costas para nossos irmãos latino-americanos e insistir em lamber as botas do Hemisfério Norte, nos recusamos a conhecer as verdadeiras lutas de libertação realizadas por grandes revolucionários e por um povo guerreiro.

A história é riquíssima de exemplos de grandes libertadores, verdadeiros heróis nacionais além de Simon Bolívar, onde podemos citar Pancho Villa e Emiliano Zapata no México, San Martim que libertou do jugo espanhol a Argentina e o Chile. Tivemos também Augusto Sandino na Nicarágua, Jose Martí em Cuba e culminando com George Washington, denominado o Pai da Pátria pelo povo dos EUA, por ter comandado a guerra de independência dos Estados Unidos contra o império inglês colonizador.

Mesmo em contextos diferentes podemos citar Gandhi que libertou a Índia de mais de 200 anos de jugo do império inglês e Nelson Mandela, cujo incansável trabalho pela liberdade e igualdade, libertou seu povo do apartheid na África do Sul dominada por holandeses e ingleses entre 1488 e 1994, dando fim a décadas de dominação holandesa em seu país. Mandela foi o primeiro presidente negro eleito do país, sendo condecorado com o Prêmio Nobel da Paz entre outras 250 condecorações internacionais. Nelson Mandela é considerado o Pai da Democracia Racial da África do Sul. Para que conseguisse o intento de libertar seu povo, amargou 27 anos de encarceramento na Ilha de Robben, de onde saiu para ser eleito presidente e promover grandes transformações naquele país.

Não podemos deixar de citar as resistências dos povos originais como Astecas, Incas e Maias. As resistências dos povos originários do Brasil e dos Estados Unidos tornam-se um capítulo a parte de tão fabulosa que foram e ao mesmo tempo terrivelmente melancólicas, levando-se em conta o resultado dos crimes que foram perpetrados contra esses povos. O extermínio de uma nação indígena tem o mesmo efeito de se incendiar uma grande biblioteca.

A história é sempre escrita pelos vencedores e assim sendo a historiografia oficial optou em criar o mito do “bravo bandeirante”, do valente desbravador, mito assassino que foi responsável pela escravização e morte de milhões de indígenas e quilombolas.

Outros mitos ainda surgirão, dependendo da necessidade política do momento. E assim, com efeitos especiais e truques, a história brasileira e a de seus heróis vai sendo construída, sempre de acordo com a necessidade do seu principal freguês que é o sistema capitalista.

 

 


 

DEPOIS DO GURUFIM EXISTE UM CÉU SÓ DE SAMBISTAS LÁ NO FUNDO DO NOSSO QUINTAL


Sambista não tem velório, tem mesmo é gurufim. Gurufim é um ritual de celebração dos povos de origem africana, que celebram em corpo presente a morte do representante de suas comunidades. O termo gurufim, segundo Luis da Câmara Cascudo, é uma corruptela de ‘golfinho’, cetáceo que em diversas culturas, conduz, faz a passagem dos espíritos dos mortos para uma outra vida.

Segundo Luis Antônio Simas, aqui no Brasil é comum na religiosidade dos bantos e iorubás a cerimônia do axexê, que é um rito, uma comemoração, uma festa para a morte. Simas explica que a crendice popular diz que a morte nunca leva somente uma pessoa. Na verdade gosta de levar três. “Então o povo canta, bebe e brinca para enganar a morte”. É uma malandragem, para que a morte não perceba que tem um morto sendo velado naquele local. Então a morte ao observar a festa, não percebe o engodo, vai embora sem levar outras pessoas.

A maior pesquisadora viva do samba, Marília Trindade Barboza, diz que o maior gurufim que sem tem notícia foi o do sambista Paulo da Portela, fundador da escola de samba cujo nome incorporou. As exéquias aconteceram no ano de 1949 e infelizmente não puderam ser realizadas na sede da escola de samba, pois, segundo Marília Barboza, a recém viúva não permitiu que o corpo fosse velado na quadra da agremiação por conta de quizilas entre a escola e seu falecido marido, fundador da instituição, coisas do samba. A imprensa da época noticiou que 15 mil pessoas lotaram as ruas de Madureira para acompanhar a passagem do funeral.

O gurufim foi na rua mesmo. O comércio cerrou as portas em respeito e homenagem ao ilustre sambista. O povo cantava e bebia enquanto caminhava acompanhando. Segundo Marília Barboza muita gente ganhou um bom dinheiro no bicho ao apostar no milhar da sepultura, que por incrível que por mais incrível que possa parecer, deu na cabeça. Mas gurufim que isto impossível, ser encerrado com o milhar da sepultura dando na cabeça.

O memorável sambista Padeirinho da Mangueira também se referiu ao gurufim em um de seus sambas, especificamente o “Linguagem do Morro”: Briga de uns e outros/Dizem que é burburim/Velório no morro é gurufim”.

Dona Neuma a grande dama do samba de Mangueira narrava que também fazia parte do gurufim algumas brincadeiras: “A gente tirava a porta da sala principal e deitava sobre os caixotes. Colocava o morto ali em cima rodeado de gente sentada em bancos. Quando a cachaça comia solta, nego dormia e os outros pintavam a cara dele com uma rolha queimada”

Luiz Antônio Simas diz que essas brincadeiras costumavam ter o mar e os peixes como tema, pois os golfinhos carregam a tradição de transportar as pessoas para outros mundos. Em uma delas o capitão perguntava: “Gurufim veio?” e em coro todos respondiam: “não, não veio” e perguntava novamente: “Baleia veio? “Não, não veio” respondiam, e então quem veio? E o grupo apontando para alguém: “olha a sardinha aqui”...e cada um era apelidado pelo nome de um animal marinho.  A pessoa que era a sardinha então tinha que responder, e passar adiante. Quem não respondesse ao chamado, tinha que pagar uma prenda, como levar um tapa na mão, conhecido como “bolo”, explica Simas. 

Velório no Morro” (Raul Marques e Tancredo Silva)

 Lá no morro quando morre um sambista

É um dia de festa e ninguém protesta
As águas rolam a noite inteira
Pois sem brincadeira o velório não presta
Tem também um gurufim
Que no fim acaba sempre em sururu
Mas é gozado pra chuchu (…)
(...) Já encomendaram ao anjo Gabriel 
Um novo céu para dar abrigo a sua gente 
Que morre assim constantemente, de repente.

 

A morte está presente no cotidiano dos poetas do samba. Nelson Cavaquinho cantava:...Depois que eu me chamar saudade/Não preciso de vaidade/Quero preces e nada mais”, e Quando eu passo/Perto das flores/Quase elas dizem assim: Vai que amanhã enfeitaremos o seu fim”.

Então o poeta traz essa epistemologia de um novo céu para abrigar a sua gente, os sambistas, o céu dos sambistas. Não basta o gurufim, há que haver um céu especial.

Pois é amigos e amigas, o samba sempre foi o coração cultural do povo. O samba hoje ficou menor com a partida de Ubirany do Fundo de Quintal.

A trajetória do Fundo de Quintal se mistura com a história do samba. Por ele passaram Almir Guineto, Arlindo Cruz, Sombrinha, Walter 7 Cordas e Jorge Aragão entre outros bambas. E vou dizer uma coisa, se falar em samba tem que falar neles e com muito respeito. O samba não tinha tantã de mão e um dia Ubirany chegou com a novidade. Os partideiros tomaram gosto pela peça e hoje é praticamente impossível não ter o instrumento em uma boa roda de samba.

Ubirany sempre foi joia rara, amigo leal, sambista de boa cepa, sorriso malandro, não dava bom dia a cavalo nem entrava em bola dividida.

Unanimidade no mundo do samba, deixa um vazio danado onde antes era só companheirismo, talento e alegria.

A essa hora já chegou no Céu dos Sambistas. Duvido que São Pedro não tenha criado um. Se não houvesse criado, São Pedro certamente receberia a demanda de Paulo da Portela que com certeza protocolou um requerimento solicitando a criação do espaço.

No Céu dos Sambistas é diferente. A rapaziada fica de boas nas nuvens, tirando uns acordes para mostrar pro São Cartola e realizando exercícios vocais.

No Céu dos Sambistas a coisa toda não é tão rigorosa, Noel Rosa sempre fuma um escondido e Geraldo Pereira sempre dá um jeito de tomar umas e outras com Nelson Cavaquinho, Padeirinho só acompanha mas já parou.

Dona Neuma organiza tudo e é quem manda de verdade no Céu dos Sambistas. Paga esporro pra geral e enquadra todo mundo no fundo da quadra. Dona Zica também tem grande poder e dá uma moral na feijoada de sábado que o Natal da Portela adora. O medo do pecado da gula passa longe do Céu dos Sambistas. Lá rola Tripa Lombeira, Barriga de Porco, Sarapatel, Rabada, Mocotó, Buchada de Bode e como ninguém é de ferro sempre rola um prato leve como Angu à Baiana com chouriço.

No Céu dos Sambistas não há como ter tristeza. Isso é com os ‘zé ruela’ que ficaram lá embaixo reclamando da vida. Aquela coisa né, de vida eterna, não andar duro, tudo suave nos conformes, chapéu panamá, sapato bicolor, camisa de seda, mulheres no salto, não tem como não sair samba bom. Aí depois que os sambas ficam prontos eles mandam os anjos do samba colocarem nas cabeças dos compositores e compositoras da Terra, aqueles sambas danados de bom.

Se for um anjo sambista meio preguiçoso, ele entrega o samba durante o sono do compositor, dá menos trabalho assim. Se for uma anja daquelas guerreiras, sagazes, ela é como uma luz que chega de repente com a rapidez de uma estrela cadente e zumpt! Enfia o samba na criatura que tem que se arvorar em encontrar caneta e papel nos lugares mais esdrúxulos e inimagináveis.

Ubirany já chegou no Céu dos Sambistas. Imagine a alegria de Almir Guineto, que conseguiu segurar em tempo, pelas asas, quem desceria para buscar o Arlindo Cruz, ainda não era hora! Anjo apressado. Na verdade era um anjo estagiário. Mas conseguiram reverter em parte o ‘mico’ do anjo. Tá uma alegria danada na turma do Cacique de Ramos no Céu dos Sambistas. Beth Carvalho, a eterna Madrinha, Beto Sem Braço, Guilherme de Brito e o povo das redondezas como Luisinho Drummond da Imperatriz.

Ubirany sempre foi considerado, pedra 90, ás de ouros, gente fina da melhor qualidade, fina estampa. Nem precisou passar pela entrevista de acesso para saber se podia entrar e ficar no Céu dos Sambistas, entrou direto, pois no ônibus do samba Ubirany sempre andou na janela.

Está de boas no Céu dos Sambistas. Luis Carlos da Vila acabou de compor um belo samba para sua chegada. Quem está cantando é o Tantinho acompanhado por Mijinha e Elizeth Cardoso.

Todos estão perfilados, em trajes de gala, com as bandeiras e estandartes das agremiações. Só o Jamelão que está resmungando da falação do povo. Mas está tudo muito bonito, esmerado, preparado com carinho pela Dodô da Portela que acabou de ralhar com o Delegado que estava conversando com Candeia e João Nogueira sobre samba e futebol.

Todos engalanados para receber Ubirany sob as bênçãos do Comandante em Chefe do Céu dos Sambistas, Paulo da Portela. O samba está triste na Terra e há festa no Céu dos Sambistas.

 

NAVIOS NEGREIROS CONTEMPORÂNEOS

 

 

“O poder de alienação advém dessa fragilidade dos indivíduos,

 quando só conseguem identificar o que os diferencia

 e não o que os une”.
(Milton Santos)



O racismo não é um fenômeno natural, pelo contrário, é um mecanismo global criado pelo homem, pela espécie humana. Também não é inato, porque bebês brancos, convivem pacificamente com bebês negros, sem qualquer tipo de rejeição ou estranhamento

A divisão da humanidade em raças, fato desconhecido até então pelos seres humanos, criou escalas de subalternidades, gerando uma casta pérfida de europeus que almejava o controle das riquezas e a conquista de novos territórios em um mundo até então desconhecido.

Os governos que foram estabelecidos nas novas terras distantes e inóspitas para os europeus, alcançadas através das grandes navegações, criaram códigos jurídicos que deram legalidade às suas bárbaras invasões aos territórios habitados pelas respectivas populações autóctones. A chegada aos novos espaços territoriais foi combinada com a aplicação de leis contidas em um frágil e oportunista marco legal que se misturava com os cânones religiosos da Santa Inquisição. As populações originais não entendiam o objetivo das leis e muito menos seus significados.

A chegada dos europeus ao Novo Mundo, trouxe consigo o que havia de pior que poderia ser feito a um ser humano, o cativeiro e a escravidão dos povos indígenas além do sequestro e escravidão vitalícia dos negros africanos e negros nascidos no Brasil.

A chegada dos primeiros navios negreiros às Américas deu-se entre os anos 1538 e 1542. A partir desse momento, iniciou-se a construção de um quadro jurídico que justificou tal crime hediondo no então hipócrita acordo entre as coroas portuguesas e espanholas, Igreja Católica e alguns governos africanos. Portanto, há uma genealogia secular que contém em sua gênese uma natureza criminosa e perversa. 

O poder político pode ser muito perigoso. Em sua gênese de natureza despótica, organiza em torno de si, para sua conveniência, dois guardiões famintos e invisíveis, que estão sempre à sua disposição para o que for necessário: o bem e o mal. Sobreviverá o que for alimentado, o que o poder político julgar conveniente saciar e fortalecer.

Na conquista do Novo Mundo pelos europeus, os povos indígenas foram praticamente aniquilados. A sanha insaciável pela busca de riquezas abundantes nos novos territórios, como ouro, prata e pedras preciosas, além de recursos da floresta tropical, como as riquíssimas madeiras de lei, dentre elas a principal solicitada pelo mercado europeu que era o Pau Brasil. Esta madeira servia para produzir o corante vermelho, muito ambicionado à época pelo hemisfério norte.

A saga da construção de engenhos e a cultura da cana para a produção de açúcar, forçava a necessidade de centenas de trabalhadores escravizados. A busca por mão de obra indígena nos ‘sertões’ ou florestas, para trabalhar nas plantações de cana de açúcar, foi responsável por milhares de indígenas mortos, dando fim a saberes milenares, transmitidos através da oralidade por milhares de anos. Cada velho xamã, pajé ou preto velho que morreu no cativeiro colonial, significou uma biblioteca que foi incendiada, perdida para sempre. 

Durante o período colonial, as leis tornaram-se cada vez mais rígidas em relação à população negra, pois havia a necessidade de manter o plantel escravo sob controle. Além do mais, havia o medo de rebeliões, já que eles eram apenas em torno de 9% da população branca desses novos territórios. Para manter o enorme contingente negro sob seu controle, castigos horrendos eram perpetrados em praça pública, para que servissem de exemplo.

 

A herança pós-colonial que caiu sobre a população negra foram a continuidade da relações escravistas, chanceladas por um sistema político/jurídico que sempre legislou para a promoção da população branca, perpetuando assim a transmissão de poder e construção e fortalecimento da elite branca brasileira.

Não existe um conjunto de leis em nenhum país das Américas que garanta oportunidades iguais para negros e brancos que porventura habitem esses territórios. Como na época colonial, os brancos fartam-se à mesa, atirando as sobras para os negros, que orbitam a mesa como se fossem cães famintos, que em estado de miséria absoluta, concordam em cumprir o humilhante papel de ser grato ao seu escravizador.

Os indicadores sociais mostram, de forma didática, que existe um enorme fosso entre a população branca e a negra. Essa lacuna impede que negros entrem no castelo da promoção social, da cidadania, da justiça e do conhecimento. No castelo da boa aventura, há um fosso onde a ponte levadiça só desce para os brancos, só os brancos podem ter acesso ao interior desse castelo.

O interior desse reino é uma maravilha, nele estão os melhores empregos, as melhores instituições de ensino, belas viagens, a cultura e o lazer com todo o esplendor. Não existem problemas como fome, miséria, saúde pública deteriorada e desemprego. No castelo da bem-aventurança, todos se beneficiam dos benefícios econômicos e sociais exclusivos que a população branca herdou da escravidão.

Sim, os habitantes desse reino de fantasia, foram e são beneficiados por quase 400 anos de trabalho escravo do povo negro. Assim dessa maneira, houve a promoção socioeconômico e cultural de um contingente humano em detrimento a outro, que manteve-se estagnado, sem acesso à Educação, Cultura e outros instrumentos civilizatórios. O povo negro sustentava com seu trabalho cotidiano, árduo e gratuito a matriz primordial que mantinha esse tipo de privilégio.

A ganância dos detentores do poder, todos brancos, parece interminável. Embebidos na idolatria capitalista, desenvolvem cada vez mais mecanismos de controle socioeconômico, que aprofundam a desigualdade e o sofrimento do povo negro. Os comandantes das grandes corporações econômicas, controlam os governos através de suas doações financeiras para as campanhas políticas. Em troca recebem a garantia de que nada diferente acontecerá. Que as regras do jogo continuem sempre como está, para que o futuro de seus filhos esteja garantido e a estabilidade seja mantida. Por um outro lado, os políticos corruptos, eleitos com o dinheiro do grande capital, garantem através de votações suspeitas que a democracia brasileira esteja sempre sob o controle das grandes corporações.

O parlamento brasileiro pode corrigir as assimetrias sociais? Sim, pode. Basta que haja um conjunto de ações políticas estruturantes que garantam o acesso dos negros aos espaços que lhes são vedados. A justiça aconteceria se os negros pudessem acessar todos os cursos nas melhores universidades públicas do país. Que pudessem lhes abrir as portas do poder para que pudessem ter acesso a bons empregos, com os quais pudessem constituir suas famílias, colocando seus filhos em boas escolas, para que assim conseguissem um dia alcançar a tão sonhada igualdade.

Um dos maiores desafios de nossa nação é garantir a verdadeira abolição através da paridade de desenvolvimento humano entre os contingentes negros e brancos, efetivada através de políticas públicas robustas e estruturantes.

Mas não é isso o que acontece atualmente. Para que o controle da riqueza permaneça entre os seus, políticos e brancos poderosos mantêm os negros em uma dimensão difusa e vulnerável, para ​​que eles jamais tenham forças para lutar. A necessidade de trabalhar duro para sustentar suas famílias, os impede de lutar. O medo de perder o emprego e de não poder levar o pão de cada dia para os filhos os desencoraja a lutar. É um projeto criminoso, na medida em que reduzem os direitos dos trabalhadores, a carga horária aumenta e o período de descanso diminui. Como as empresas utilizam cada vez mais a tecnologia, as demissões de trabalhadores crescem sem parar. Com as demissões aumenta o tamanho do exército de reserva de mão de obra e assim os salários são achatados. Forma-se um círculo vicioso onde a legislação capitalista e patronal promove a desagregação do tecido social laboral através de ataques sistemáticos ao ‘welfare state’.

Os transportes se transformaram nos novos navios negreiros. Parece ironia, mas se compararmos com os negros que vieram da África sob grilhões nos porões dos navios, para cumprir o triste destino da escravidão no novo mundo, com os de agora, podemos constatar que os modelos se perpetuam sendo que na escravidão moderna criada pelo neocolonialismo.

As algemas são invisíveis, mas ainda nos acorrentam aos pelourinhos contemporâneos. As bolas de ferro ainda estão amarradas aos nossos tornozelos, na medida que perdemos o direito de ir e vir pelo fato econômico. Nossas comunidades são senzalas modernas, onde não há saneamento básico, pouca água potável, eletrificação decente, saúde de qualidade e transporte cada vez mais precário. O estado só comparece com o aparato policial. Esta é a triste realidade do povo negro no Brasil.

Então, irmãos, o que os governos, os estados-nações do Novo Mundo fizeram além de enriquecer, para trazer paz, justiça e liberdade? Nada, absolutamente nada! A única medida tomada no pós-abolição da escravatura foi a organização da polícia militar enquanto órgão de controle populacional, visando também o controle da população negra que agora livre perambulava pela cidade em busca de oportunidade profissional. A polícia, o judiciário e os governos em geral são constituídos com a premissa de defender quem tem de quem não tem. Os países latino-americanos são exemplares no cumprimento do ditado popular que diz ser a justiça um cobra que só morde os que estão de pés descalços.

Com as políticas neoliberais em vigor nas Américas, a população negra se distancia cada vez mais do que se pode chamar de bem-estar social. Há cada vez menos hospitais públicos e cada vez mais planos privados de saúde e remédios. As escolas públicas são canibalizadas intencionalmente para que o sonho de todos os pais afrodescendentes seja matricular seus filhos em uma boa escola particular. Além de ter um plano de saúde da família e uma boa escola particular voltada para o bem-estar da família, os negros são obrigados a trabalhar por longas jornadas de horas. Viajam longas distâncias em transportes de péssima qualidade, sujeitos a quebras mecânicas e assaltos por parte de malfeitores. O sonho de luxo de um trabalhador negro é poder dormir. Envolvidos pelo moto contínuo da ciranda cotidiana avassaladora, vive com pressa como o coelhinho de Alice no País das Maravilhas: sempre com muita pressa. A necessidade de cumprir todos os seus compromissos financeiros no final do mês, ele nem pensa em lutar contra este sistema que o oprime. Procura o melhor enquadramento no sistema para manter sua família em estabilidade financeira e emocional.

Existe um mundo invisível, um lugar entre o nada e lugar nenhum onde são pensadas essas políticas genocidas. Os atores que conduzem o espetáculo não possuem faces. São números nas telas das corretoras de valores. São anônimos nos pregões das bolsas de valores. Eles que põem os negros em marcha contínua para que não parem para pensar nem protestar.

O capitalismo está automatizando cada vez mais a sociedade. Em 20 anos, a profissão bancária não existirá mais, assim como inúmeras outras não mais existirão. A população negra está cada vez mais onde sempre esteve, alijada do mercado de trabalho, ameaçada pelo desemprego, assolada pela fome e ignorância. É um projeto de perpetuação da elite caucasiana. Nós, negros, estamos retornando aos navios negreiros contemporâneos. Eles tiram nossos empregos, e nos seduzem com a falácia do empreendedorismo, uma jogada brilhante para abafar rebeliões, jogar água fria na panela de pressão que está prestes a explodir.

A ideia de empreendedorismo é um capítulo à parte no debate racial em que estamos inseridos. A proposta de ter seu próprio negócio e ficar rico é a ilusão construída e tábua de salvação dos desempregados e dos negros desesperados. O orgulho de ser empresário, de construir fortuna, é o principal sinal de que o negro engoliu a isca capitalista. Mal sabe que o sistema o fará se endividar para abrir um novo negócio, que infelizmente não terá capital para seguir em frente. Após um breve período de encantamento, sentirá o duro golpe da realidade. Os bancos não emprestam dinheiro e nosso herói empreendedor totalmente endividado retorna à fila do desemprego depois de vender tudo o que tinha para construir seu castelo de areia oferecido pelo capitalismo.

São mundos invisíveis que se constroem e reconstroem diariamente para que os negros possam acreditar que é possível vencer, mas não é. Digo que não é porque os indicadores sociais nos afirmam isso. A miséria está aumentando cada vez mais e dentro dela estão os negros majoritariamente. O sistema capitalista torna os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. Quanto mais desempregado, mais aumenta a competição por uma vaga de emprego e os salários diminuem junto com a eficácia das leis trabalhistas que praticamente não existem mais. Os mundos invisíveis criam a ilusão de que as oportunidades são iguais para todos e atacam a ação afirmativa, os sistemas de cotas raciais, nos chamando de incapazes e tecendo loas à meritocracia. A grande ironia é que os que se beneficiam de 400 anos de trabalho escravo produzido por negros, dizem que os negros querem viver sob benefícios, que o mérito é que vale.

A invisibilidade não nos é imposta. Faz parte do projeto de perpetuação do poder das elites. Como pensar o Quilombo dos Palmares no Brasil que durou 100 anos e enfrentou 18 expedições imperiais. Sim, nos longínquos 1595 negros e negros em rebelião fugiram de seu cativeiro e fundaram a primeira república socialista livre das Américas. No fundo, é até vergonhoso que em pleno século XXI a nossa capacidade de reagir é próxima de zero. Que nossos ancestrais nos perdoem.

 

 

 

 

Vapores Baratos

Salve os erês! Salve os erês! Salve os erês!

Dá um salve aê!

Salve os erês! Salve os erês! Salve os erês!

Dá um salve aê!

 

Tua estrada da vida é salgada

Tua vida uma amarga ilusão

E aquele corpo estendido no chão

É prá bancar a vida boa do patrão

 

São pretos, são pardos, mulatos

São pobres vapores baratos

E todo corpo estendido no chão

É prá bancar a vida boa do patrão

 

A mãe chora o filho no quarto

O filho que não vai voltar

Não dormem nem deixam dormir

São sonhos rasgados no ar

 

Salve os erês! Salve os erês! Salve os erês!

Dá um salve aê!

Salve os erês! Salve os erês! Salve os erês!

Dá um salve aê!

 

É vida carimbada no útero da mãe

A morte é o peito amigo que encerra o futuro

E a sociedade fica sempre atrás do muro

Fingindo que se importa

Mas carrega o mal me quer

De noites são ervas daninhas

De dia são o bem me quer

Ninguém quer meter a colher

Ninguém quer meter a colher

De noite são ervas daninhas

De dia são o bem me quer

De noite pecado e luxúria

De dia marido e mulher

 

Os becos na madruga são pedreira meu irmão

Eu vejo que São Jorge está perdendo pro dragão

As balas são perdidas sempre achando quem não quer

E a sociedade não quer meter a colher

Ninguém quer meter a colher

Ninguém quer meter a colher

Salve-se quem puder!

Salve-se quem puder!

 

A pátria varonil que te pariu faliu

Matar mais um negro é normal

Cortando a linha da vida

Dos que avançaram o sinal

Cortando os sonhos na marra

Carrasco institucional

 

São pretos, são pardos, mulatos

São pobres vapores baratos

E todo corpo estendido no chão

É pra bancar a vida boa do patrão

Ogum salve os erês!

Ogum salve os erês!

Salve os erês! Salve os erês! Salve os erês!

Dá um salve aê!

 

Há guerras no mundo dos homens

Orgasmos dos anjos do mal

Metendo o louco nos manos

Que um dia avançaram o sinal

 

São pretos, são pardos, mulatos

São pobres vapores baratos

E todo corpo estendido no chão

É pra bancar a vida boa do patrão

E todo corpo estendido no chão

É pra bancar a vida boa do patrão

Ogun Salve os erês!

Salve os erês! Salve os erês! Salve os erês!

Dá um salve aê!

 

TEMPO DE OUTONO

 

Teu cheiro invade minha alma como o frescor de outono

Cores intensas, densas e tensas é o graal da estação

Frágil, pobre e insano coração brasileiro...

Tropical, lona rota, silencioso picadeiro

O amor passa na vida como um circo surreal

O palhaço chora as dores da plateia no final

Foucault, Freud e Lacan sangram o respeitável público

Entregando à tua praia seixos vindos do passado

Silenciosos e carentes em presente obscuro

Com os seixos construímos paredões em nossa alma

Formamos enormes diques que represam nossos desejos

Me afago com bourbon em estranhas noites frias

Beijo bocas diferentes e indiferentes bar em bar

Me embriago e sigo triste em minha dor e solidão

Ouço ao longe o vazio da existência na canção

Sou embriagado e tomado pelas luzes da cidade

Que iluminam o neon da algoz e dura realidade

Cidade cor de neon é prazer tempo de outono

Sob um manto de obsessões quando tudo era carmim

 

E o brilho que se perdeu no olhar não se percebe

Que o deus que me habita é meio grávido de ti

É tanta hipocrisia que rola no picadeiro

Que o palhaço dobra a lona e envergonhado devolve o dinheiro

Pensando que cairia muito bem um bom licor

É fastio de amor é estio de torpor

No meio do vale da vida encontrei a arca perdida

Nas encostas de um monte onde está o deus amor

 

Meu sonho de vida, meu farol, meu guia na noite escura

Desviando dos rochedos, da terrível criatura

Fico a navegar desviando dos meus medos

As delícias, hedonismos, doces ilhas de pecado

Se jogar de peito aberto sem ter coração fechado

Patuás e cicatrizes nos protegem de emoções

Natureza, cio dos deuses, gloriosa criação

Essa lua fica estranha quando a gente ama calado

O meu corpo arde em chamas quando me chamas pro teu lado

Te obedeço mas você busca outras terras, mundos distantes

Sou as cinzas de um vulcão que morreu jorrando amor

Destruindo as cidades no caminho que corria

Numa trilha nua e crua chamada melancolia

 

Me entrego à lua branca ao prazer da tua lembrança

Ilusão por ter perdido o amor de eternidade

Esperando a vela branca que não vem no horizonte

Trazendo as gaivotas e o amor de uma saudade

E assim se foi presente é passado sem futuro

É o êxodo do afeto novamente erguendo muros

Prometi um carnaval, de paixão, sol e folia

Mas a perda de calor incinerou a fantasia.