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Racismo Ambiental

terça-feira, 31 de maio de 2022

RACISMO ESTRUTURAL

O racismo estrutural é a política institucional que mantém o racismo como um dos fatores estruturantes da sociedade brasileira.
Apesar de passados 130 anos da promulgação da Lei Áurea, que deu fim à escravidão no Brasil, ainda persistem alguns mecanismos que impedem a ascensão social e econômica da população afro-brasileira.
Ao contrário do que deveria acontecer, as estruturas públicas, principalmente as de Saúde e Educação, que atendem majoritariamente o povo negro, são cada vez mais precarizadas e canibalizadas, aliando-se aos fatores estruturantes a degradação do meio ambiente nós territórios de população negra.
Nós territórios negros, a necropolítica continua sendo a principal maneira de relação entre os aparelhos de repressão de estado e as comunidades negras.
O arcabouço legal vigente no país, volta suas baterias contra a população negra com um peso diferenciado em relação a outros contingentes étnicos. Para esses aparelhos de estado o negro sempre será suspeito de cometer ilícitos, assegurando assim, demonstrações inequívocas de racismo e preconceito por parte do estado brasileiro.
A população negra, historicamente habita os territórios mais degradados ambientalmente, para os quais o poder público volta suas costas, criando o que se denomina racismo ambiental.
Essas estruturas sociais assimétricas tendem a se reproduzir exponencialmente, perpetuando e garantindo espaços de poder e privilégios para grupos étnicos não negros.
O racismo não é natural, apesar de estar naturalizado em nossa sociedade. É uma estrutura perversa que se realimenta em motocontínuo, garantindo poder econômico, privilégios e benesses às elites dirigentes do país.
O racismo estrutural organiza-se par a par com o capitalismo. O modelo de organização econômica que tem como primado a acumulação e o consumismo, vai de encontro a ancestralidade do povo negro, onde o modo de viver coletivo e o bem comum solidário são a pedra de toque da organização social africana.
No Brasil nos deparamos com inúmeros mundos invisíveis, onde a elite branca dominante tece incessantemente os destinos da base social da pirâmide.
Assim como nas primeiras cidades da civilização, a organização social ocidental capitalista detém o controle sobre as estruturas institucionais, militares e econômicas do estado. Os tribunais, o alto comando militar, o parlamento e a gestão política do próprio estado são absolutamente servis e diligentes com a elite nacional.
O conjunto de instrumentos da estrutura de Estado que regem direitos e deveres da população brasileira é absolutamente surdo e indiferente aos desassossegos do povo negro. Todo o conjunto de instrumentos funciona para manter a estrutura colonial, por mais que se brade acerca da vocação republicana da nação.
Os negros, com raras exceções, sempre estiveram fora das universidades publicas. Sempre ocuparam os piores postos no mercado de trabalho. Lotam os presídios, penitenciárias e se livres, formam o famigerado 'exército de mão de obra de reserva’.
Ao negar educação pública de qualidade para o povo negro, o estado empurra esse contingente humano para o desemprego e consequentemente para a margem da lei em muitos casos.
O sistema é perverso. Nega educação de qualidade que não acessa nenhuma ou boas colocações no mercado de trabalho, que de maneira perversa e miseravel atira um grande contingente de jovens negros nos braços do crime.
O estado cria os criminosos e ao mesmo tempo ordena que os aparelhos de repressão os prendam ou os matem, gerando o círculo vicioso da corrupção e da morte, onde o poder público se locupleta com dinheiro e garantia de território político enquanto oferece proteção e liberdade de ação para os meliantes, que foram gerados pelo próprio Estado, que negou-lhes uma vida com dignidade ao negar-lhes educação de qualidade e um território cultural decente e desassombrado. O Estado é também responsável em parte pela construção dessa catedral de horrores, tanto por inabilidade política como por sua decantada incapacidade gerencial.

quinta-feira, 26 de maio de 2022

SEMPRE É TEMPO DE PESTE QUANDO SÃO OS LOUCOS QUE GUIAM OS CEGOS (William Shakespeare).

Os militares nazistas lotados nos campos de extermínio do Terceiro Reich foram cruéis e desumanos com nossos irmãos judeus. Deram fim a aproximadamente 6 milhões de vidas, que nada fizeram naquela guerra, a não ser sofrer toda a sorte de indignidade e infortúnios delegados aos povos oprimidos. 
Os fornos crematórios de Auschwitz, Sobibor, entre tantos outros do aparato bélico militar de Hitler, trabalhavam diuturnamente em suas sinfonias de morte, não poupando ninguém, nem mesmo as inocentes criancinhas judias. Não há como não se emocionar e se indignar com a situação a que foram submetidos nossos irmãos judeus naquele terrível conflito. A indignação e a perpetuação da lembrança de tempos tão sombrios nos comove desde sempre.
Porém há uma guerra invisível em curso no Brasil. Apesar das peremptórias negativas por parte do estado brasileiro, há um conflito real que ceifa mais de 50 mil vidas de nossos nacionais todos os anos.
Mata-se anualmente no Brasil, basicamente o mesmo número de militares estadunidenses que morreram durante os dez anos de guerra no Vietnã.
Com a política de flexibilização da venda de armas a tendência é a elevação exponencial desta barbárie.
A criminalidade aumenta a passos largos empurrada pela gigantesca e silenciosa crise econômica, social e moral que assola o Brasil.
Estamos chegando ao fundo do poço, sim, com o parlamento compurscado por negociatas e corrupção, o Executivo comprando o congresso com o orçamento secreto, militar levando cocaína no avião da Presidência da República, aquisições com dinheiro público de Viagra, próteses penianas e gel lubrificante para penetração sexual. Na verdade nem precisavam das tais estripulias eréteis, pois, de uma certa forma fazem isso com o povo há muito tempo.
Agora estão levando à sério a inventividade tupiniquim e resolveram estrear o forno crematório portátil sobre rodas.
A cena dos policiais incinerando dentro da viatura oficial um cidadão com problemas de saúde mental, mostra que estamos em tempo de peste, onde os loucos guiam os cegos, como disse William Shakespeare, famoso bardo inglês.
O período quando os loucos guiam os cegos, surge de tempos em tempos. A história é pródiga em apontar diversos ciclos desse tempo. Podemos citar Hitler levantando a Alemanha, Mussolini na Itália, Stalin na União Soviética, Pol Pot no Camboja e tantos outros exemplos de triste memória.
No Brasil emergiu há pouco o sentimento nazifascista que estava encolhido, hibernando, aguardando a oportunidade para se apresentar nesses novos tempos. E o tempo chegou, trazendo consigo a besta do apocalipse, o anticristo. Vige nas hostes dos cegos o culto às armas de fogo preconizada pelos loucos. O nacionalismo exacerbado, a canonização dos símbolos pátrios, a ojeriza aos direitos humanos, ao social, à organização dos trabalhadores, das mulheres, dos negros, dos LGBTs e principalmente dos povos indígenas. 
A Amazônia tornou-se um capítulo a parte, onde o louco guia os cegos para a implantação de projetos devastadores para a região. Não há respeito por nada, somente pela tabula rasa que rege a caminhada dos loucos.
Pedro Aleixo era civil e Vice Presidente do General Costa e Silva durante a ditadura militar e foi o único membro do Conselho de Segurança Nacional que votou contra o AI5 na famigerada reunião que o sacramentou. Perguntado por Costa e Silva o porquê do voto isolado, Aleixo respondeu que o problema maior não era o presidente e sim o guarda da esquina. Pois é, aqueles policiais de Sergipe são os guardas da esquina do Messias que tem as mãos manchadas com o sangue de Jesus, Genivaldo de Jesus, um negro pobre, trabalhador, casado e pai de dois filhos,  sem antecedentes criminais, portador de esquizofrenia, que cometeu um único erro que lhe custou a vida, não entender que o guarda da esquina agora tem permissão para matar inocentes.
Incinerar um negro em plena luz do dia sob as câmeras de filmagem, se tornou um ato normal, ou seja, há uma naturalização da barbárie, principalmente quando a violência se volta para a população negra. Há uma ponte apocalíptica entre Aracaju e a comunidade da Vila Cruzeiro no Complexo da Penha. Essa ponte metafórica permite que se realize uma incursão policial em uma comunidade de favela, onde são eliminadas 26 pessoas com a intensa participação da Polícia Rodoviária Federal, que em tese não deveria estar ali.
 Para uma boa parcela da população isso também é normal. Mas não é normal. Pior, é assustador saber que o aparato de repressão do estado está saindo das suas prerrogativas institucionais. É assustador porque todas vezes que esta situação aconteceu, a institucionalidade não voltou ao normal. Para os mais alarmistas fica parecendo a preparação operacional para o golpe militar que a cada dia solta mais fumaça.
Não se pode questionar a ação que beira a genocídio, pois os que questionam são acusados de "defender bandidos". A lei e a democracia precisam ser preservadas. Não importa o custo. A democracia às vezes possui raízes amargas, mas seus frutos são sempre doces.
O primado dos direitos humanos nos ensina que a vida, dos dons é o mais importante e sagrado que possuímos. Não importa se estamos dentro, à margem ou fora da lei. Todos são inocentes até que a sentença transite em julgado. A constatação da importância desse recurso judicial foi a inocência declarada pela suprema corte brasileira ao anular as condenações do ex presidente Lula, que amargou quase 600 dias de cárcere, lá colocado por um sistema judicial comprometido com a inobservância da lei e aliado a interesses políticos escusos.
A cena é triste e cruel. O cidadão negro, portador de sofrimento mental, perde a vida incinerado em um veículo oficial do governo brasileiro. Sufocado sem poder respirar, assim como morreram as pessoas em Manaus, no auge da crise da COVID, onde morreram sufocadas, sem oxigênio, devido a leniência do estado, da verve fascista, da política negativista, da incapacidade institucional e política de gerir o estado com amor e solidariedade.
Os loucos seguem guiando os cegos. O Messias continua matando Jesus .

sábado, 21 de maio de 2022

ÍNDIO NÃO QUER TOKEN

Sou um observador atento da vida amazônica. Observador privilegiado, pois tive o imenso prazer de ter sido um morador da região. Vivi em Porto Trombetas, bem na beirada do Rio Trombetas, entre o Pará e o Amapá, no coração da selva. Ali convivi e me eduquei com a enorme diversidade humana que é composta por nações indígenas, caboclos, populações ribeirinhas, seringueiros, trabalhadores sem terra, quilombolas, posseiros, povos ancestrais e culturas tradicionais.

Religiões e cultos diversos, entre os quais podemos citar o Xamanismo, Santo Daime e União do Vegetal, além dos cultos colonizadores como o cristianismo e outros com menor visibilidade.

A povo amazônico sofre há muito da violência cultural por parte dos alienígenas caucasianos. Tentaram eliminar seus deuses e crenças, seus idiomas, sua liberdade corporal, a noção do naturismo, seus cânticos, sua agricultura e, principalmente, o saber milenar da etnobotânica.

O centro do capitalismo sempre usufruiu dos saberes tradicionais, onde através de seus laboratórios farmacêuticos, sintetizam o conhecimentos dos Pajés, das rezadeiras e benzedeiras, dos caboclos e dos conhecedores das ervas.

Ao se apropriarem da sabedoria afroindígena amazônica, geraram imensas fortunas em seus países com a produção de medicamentos que têm como princípio ativo a flora da hileia brasileira.

Os amazônidas sempre foram relegados a uma subdimensão folclórica aos olhos do ocidente. Lendas como a da Cobra Grande, Caipora, Curupira, Boto Sedutor, caboclos e Iaras encantadas sempre permearam o imaginário fantástico da floresta e seus seres encantados.

Desviando o olhar para a realidade mais contemporânea, podemos constatar péssimos indicadores econômicos e sociais. Àquela população há muito esquecida pelos nossos governantes, restou o de sempre as carcomidas migalhas institucionais, que podemos considerar meros curativos tópicos paliativos em um corpo cada vez mais doente, destarte sua plenitude esplendorosa.

Sem mergulhar nos gráficos e outros demonstrativos, que são avassaladores, sabemos que a região passa por diversas escaladas violentadoras como a ampliação das áreas de garimpo, as eternas queimadas, o genocídio dos povos indígenas e quilombolas e o horror da devastação da floresta virgem para o estabelecimento de pastagens, fazendas e projetos ilegais de retirada de madeira.

A Amazônia se transformou eu um cassino capitalista predatório, onde as fichas são jogadas em prol do lucro de empresários gananciosos, associados a grandes trustes internacionais que não têm nenhum compromisso com a biodiversidade e as populações que através dela subsisistem.

Quando o homem mais rico do planeta vem ao Brasil oferecer tecnologia digital para escolas amazônicas, devemos guardar um olho no peixe e outro no gato. O sulafricano com cidadania estadunidense não é um exemplo de bondade, ninguém ganha 11 mil reais por segundo impunemente. O bilionário que propôs que explodissemos bombas nucleares na Lua, não atravessaria o Atlântico rumo aos trópicos somente para oferecer tecnologia digital para as crianças da Amazônia. Obviamente que isso pode ser realizado, certamente que sim. Porém, o mais sensato e convencional, que fosse através de um projeto discutido com o governo brasileiro, nosso parlamento e atores sociais da sociedade civil amazônica.

Causa profunda estranheza ver o futuro colonizador do planeta Marte surgir repentinamente em seu zepelim prateado no interior de São Paulo, prometendo gratuitamente Tik Tok para geral e de quebra, como brinde, monitorar a imensa região amazônica com sua estranha rede de satélites Starlink agregada a toda tecnologia necessária envolvida.

É um projeto realmente sedutor, que fez o arrogante presidente brasileiro largar o batente em Brasília e se jogar humildemente aos pés de Musk, no convescote em homenagem ao bilionário, onde só foram convidados com a nata do empresariado nacional bolsonarista. Os próceres da Faria Lima estão em cólicas, loucos para bater a carteira do bilionário gringo pop star e fazer selfies com Musk que ostentarãobem suas salas de visitas e escritórios.

O projeto pode ser interessante, mas será que é mesmo? Talvez possa ser, desde que sejam postos à mesa os indicadores sociais da região. Se querem falar de escolas e Educação, precisam analisar seriamente as condições de trabalhos dos profissionais da Educação local e sua respectiva estrutura física, aliadas ao poder de acolhimento das unidades de ensino. Será necessário verificar a qualidade da formação dos docentes e dirigentes escolares. Avaliar o currículo a ser implantado levando em conta as especificidades regionais e o nível de aprendizado de jovens e crianças das comunidades beneficiadas.

Além do arcabouço social local, há que se debater no Congresso Nacional, inclusive com audiências públicas, a pertinência e o mérito do projeto, além da realização de fóruns locais, fóruns amazônicos, para saber se a população deseja o tal projeto ou não.

A experiência secular mostra que projetos de grande amplitude que são empurrados goela abaixo, vindos de cima, nada mais são que malandragens eleitoreiras, que duram somente até a próxima eleição. Também pode ser uma suave penetração no assunto proibido que são as reservas de lítio que podem produzir as baterias dos carros da Tesla, nióbio que o Brasil possue 90% da reserva mundial e urânio com o qual o Brasil detém 9% da reserva mundial que quiçá impulsionarão os foguetes nucleares de Musk na futura aventura marciana. Os foguetes químicos atuais levariam de 9 meses a 1 ano na viagem de ida ao planeta vermelho, expondo a tripulação e a própria missão a vários riscos. Com a propulsão nuclear a viagem duraria apenas 2 meses, poupando a missão, a equipe e os custos. Musk está de olho no desenvolvimento desta  desenvolvida pela empresa USNC-TECH.

Para que não seja rotulado como uma pantomina, um embuste, torna-se necessário que os atores amazônicos sejam consultados. Podemos citar por exemplo a FASE NACIONAL, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a Coordenação das Articulações Indígenas da Amazônia Brasileira – COIAB, a Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos – CONAC, a Cáritas Nacional, o Conselho Indigenista Missionário – CIMI, Instituto Sócio Ambiental – ISA, SOS Amazônia, CEDEMPA, entre tantas outras.

A principal fonte de consulta, a fonte primária, ainda continua a ser as nações ou povos indígenas. Na verdade é uma enorme pretensão e ousadia divulgar um projeto dessa monta, até agora totalmente desconhecido da população brasileira, que impactará uma região enorme, correspondente a 41% do território da Europa. Fica parecendo uma divertida jogada de marketing político engendrada por Steve Bannon e comandada por Donald Trump, com o intuito em manter o clã Bolsonaro no poder. Trump precisa de bons aliados em seu projeto de retorno à Casa Branca.
Podemos incluir no pacote de surrealidades a presença do ministro Dias  Toffoli do STF? O que lá foi fazer o magistrado, sabendo que era no mínimo um estranho evento da campanha Bolsonaro? De novo "com Supremo, com tudo"?

Finalizando, não há nada de novo no que Elon Musk anunciou. Nada que não seja da capacidade do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, nosso produtivo e tecnológico INPE, agora relegado ao degredo científico pelo atual governo. Além do INPE temos também o Sistema de Vigilância da Amazônia - SIVAM, que produz resultado similar de monitoramento. Estão na verdade oferecendo 'Ar de Musk' da mesma maneira que os europeus ofereciam espelhos e contas coloridas ao povo autóctone quando aqui aportaram no século XVI.

Deveríamos sentar na mesa com Elon Musk e fazer a célebre pergunta que Garrincha fez ao treinador Vicente Feola, da seleção brasileira campeã de 1962. Durante a preleção, antes do confronto com a então poderosa seleção da União Soviética, o técnico reuniu os jogadores para apresentar as estratégias que levariam o Brasil a vencer o jogo. Ao fim da preleção, instados pelo treinador se havia alguma dúvida, Garrincha levantou a mão e proferiu a seguinte pérola que foi eternizada pela crônica esportiva tupiniquim: “Dr. Feola! O senhor combinou tudo isso com os russos?

terça-feira, 17 de maio de 2022

RAP ELITE E FAVELA


É a velha estória da elite oprimindo a favela

É o povo pobre da perifa se lascando nas vielas

E na peleja desigual do capital contra o povão

O culpado por sofrer é o coitado do irmão

A justiça matou no peito e devolveu de canela

É a velha estória da elite oprimindo a favela

 

A injustiça dói! A injustiça dói!

Capitalismo não rima com igualdade

A injustiça dói! A injustiça dói!

O genocídio da negrada é crime contra a humanidade

 

O sangue do negão tá convocando lá do chão

Tá lá desafiando a consciência do povão

Tá lá nos intimando a fazer revolução

O povo vai fazer a verdadeira abolição

 Palmares é aqui Canudos guerrilheiro

Somos filhos de Zumbi e Antônio Conselheiro

Somos cangaço e herdeiros de Lampião

Somos Malês fazendo a revolução

Aqui o povo luta o povo não amarela

Quando a força da cultura é o comando da favela

No baile funk, no jongo, na passarela

Na beleza da passista

Nos artistas das vielas

Seres brilhantes diamantes cintilantes

Personagens fascinantes que a elite atropela

 Viva Cartola, Mano Décio da Viola, Dona Zica, Dona Neuma, Babaú, Zé Espinguela;

Carlos Cachaça, Dona Ivone, Zé com Fome, Lecy, Geraldo Pereira, Bid e Paulo da Portela;

Zé Criolinho, grande Nelson Cavaquinho, Padeirinho, Molequinho, Dona Eulália e o povo dela;

Coluna Prestes, Araguaia, Abdias, Apolônio, Santo Dias, Chico Mendes, Marighella; 

Tibete livre, África reparação, Palestina pátria livre o bom cubano é meu irmão;

O povo negro no Haiti fez gol de placa e a elite deu carrinho e até hoje contra ataca;

No USA (uesseêi) do Mississipi ao Alabama Luther King e Malcoln X prepararam pro Obama;

Falei e disse, já mandei o meu recado

Seja pobre ou seja rico é cada um no seu quadrado

Aqui o povo luta o povo não amarela

Mas no ônibus da vida o rico anda na janela

Aqui o povo luta o povo não amarela

Eu sou mais é João Cândido e Teresa de Benguela.

 

sexta-feira, 13 de maio de 2022

A ALMA NEGRA É ESSENCIALMENTE REVOLUCIONÁRIA

 Para ser negro, basta nascer negro. Para tornar-se negro, somente abraçando sonhos revolucionários.

Para abraçar sonhos revolucionários é necessário a chama do devir, a iluminação social, o renascimento para uma nova vida, onde as cascas amorfas do passado complacente dão lugar à chama da insurreição.
Um negro não pode não ser insurrepto, não ser revolucionário, sem deixar de constituir uma dívida ancestral enorme. De Palmares, a Tróia Negra até João Cândido e seus marinheiros. De Teresa do Quariterê ou Teresa de Benguela, a Oswaldão e seus combatentes no Araguaia, foi muito sangue jorrado.
O negro pode passar a vida sem lutar, sem se importar ou mesmo sem se rebelar. Mas será sempre um meio negro, um negro conformado com a situação, um aliado da opressão.
Para deixar de ser simplesmente negro e tornar-se verdadeiramente negro, terá que sentir o suor das trincheiras, não temer o enfrentamento, bater-se contra o mal, contra a injustiça, contra o racismo.
Após a venda retirada dos olhos, até mesmo os antolhos, o novo negro surgirá em ébano orgulhoso, forte, cabeça erguida e invencível.Pronto para lutar até a morte por um futuro melhor para nossas crianças negras. Lutando por um descanso digno para nossos idosos negros. Também estará ombreado com nossas irmãs negras em defesa da agenda feminista das mulheres negras.
O novo negro estará na linha de frente por uma educação pública de qualidade, pois é na escola pública que estão as crianças negras. Estará no front por saúde pública de qualidade, pela defesa do SUS, por políticas abrangentes no tratamento da anemia falciforme, mioma uterino, humanização da obstetrícia e nutrição de qualidade.
O negro do devir revolucionário não seguirá os despóticos, não marchará com conservadores e em tempo algum com fascistas. Estará sempre ao lado de seus irmãos e irmãs negras conscientes, trabalhando junto aos inconscientes, para aumentar o exército revolucionário, o exército do povo negro que recusa firmemente sua rendição à opressão.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

MUNDOS INVISÍVEIS

O útero negro é a preparação da passagem de uma criança negra para um mundo invisível que a acompanhará para sempre, pelos restos de seus dias.

O mundo de uma criança negra começa antes da concepção, há milhares de anos que se perdem nas brumas do tempo.

Seus genitores geralmente desprovidos de poder financeiro, vivem nas periferias, em habitações precárias, sem estruturas mínimas de saneamento e em espaços ambientalmente degradados, onde o estado só comparece com a polícia em cotidianas ações violentas e perigosas.

A mãe negra daquela criança não possui condições financeiras de adquirir um plano de saúde que garantiria a ela o conforto, a tranquilidade e a presteza dos hospitais da rede privada, sempre bem equipada e com equipamentos e exames em perfeito estado de funcionamento.

Todo o acompanhamento da gestação será em hospitais públicos, depauperados, geralmente sem profissionais à disposição, sem medicamentos gratuitos e com instalações em péssimo estado, oferecendo inclusive sério risco à parturiente através da violência obstétrica.

Ao nascer a criança negra produz uma redoma de amor e carinho, portadora que é de esperanças renovadas para seus pais e família. Porém, seu mundo começa se tornar estranho e diferente, pois, sobre seu berço, não existem móbiles com anjinhos negros. A decoração de seu quarto, se houver um quarto, é sempre eurocêntrica, com personagens de outra etnia que não a sua.

Aquela criança negra vai crescendo feliz, pois em sua inocência não percebe que seu mundo real será precedido por um mundo invisível, que a manterá presa em um campo de retenção indetectável durante grande parte de sua vida. Porém, em seus primeiros anos de vida, esse campo será tão aceito e sutil e que para ela esse é o mundo real, enquanto, que na verdade, esse é o mundo invisível, o mundo de Nárnia ao contrário, onde para se adentrar nele a criança tem que sair da proteção do armário e se atirar em um mundo tenebroso e cruel, onde sua vida será massacrada lentamente desde o nascimento até a morte.

Aquela criança negra vai se desenvolvendo, já tendo então deixado de lado a ausência de anjinhos negros para trás. Aprende em suas igrejas que os deuses e santos são brancos de barbas brancas e que nas aulas de formação religiosa nas manhãs de domingo, não há negros em sua ancestralidade. Apresentam-lhe um Deus que castiga, flutuando entre as nuvens com longos cabelos brancos e barbas brancas, cercados por anjinhos brancos de asas brancas. Para aquela criança, o sagrado é uma deferência que Deus escolheu para as crianças brancas, pois, elas estarão livres de seus pecados e poderão ascender aos céus.

O desenvolvimento daquela criança negra será um corolário de inconformismos e sofrimentos em um país de matriz multirracial. Nos livros de contos de fadas ela não encontrará nenhum rei, rainha, príncipe ou princesa negros. Aprenderá que a bondade, a generosidade e a realização espiritual se dá em valores caucasianos. Nas histórias em quadrinhos o personagem negro de maior destaque é Cascão da Turma da Mônica que não toma banho de jeito nenhum e o Pelezinho que tem suas virtudes circunspectas às habilidades futebolísticas.

A criança negra vai crescendo e chega o momento de iniciar sua vida escolar. Momento de grande alegria e expectativa por parte dela e toda sua família. Não sabe em sua pura ingenuidade o mundo invisível que a aguarda. Seu ingresso no mundo real se dá geralmente através das escolas públicas onde seus profissionais lutam bravamente para oferecer ensino de qualidade, que possibilitem àquela criança competir em igualdade de condições com as caríssimas escolas privadas da burguesia. Aquela criança está sob a coordenação cognitiva do mundo invisível, onde lhe é passado que através de seu esforço e dedicação, poderá realizar todos os seus sonhos, através do aprendizado no ambiente acadêmico. A criança parte feliz para uma jornada que lhe invariavelmente lhe será adversa por quase toda a sua vida.

A partir desse momento terá início a luta titânica do mundo invisível com o mundo visível. O mundo invisível, em seus mais puros requintes de perversidade, lhe mostrará um mundo maravilhoso, que poderá ser conquistado caso ela tenha disciplina e obediência aos valores impostos pela sociedade eurocêntrica. É como aquela imagem do burro com uma vara amarrada ao pescoço e com uma cenoura na extremidade da vara à sua frente. O burro caminha eternamente tentando alcançar a cenoura sem nunca porém consegui-lo.

Aquela criança negra passará grande parte de sua vida buscando a cenoura dourada dos seus sonhos sem contanto poder consegui-la, pois, o prêmio por uma formação de qualidade reconhecida pelo mercado profissional é oferecido somente aos caucasianos da classe média, que nascem em vantagem competitiva em diversos itens como nutrição, ambiente familiar moderado, habitações de acordo com suas necessidades e acesso à engenhos de comunicação eficientes, cultura e bens materiais.

Algumas daquelas crianças negras desistem no meio do caminho. Muitas delas não conseguem suportar a transição da escola de primeiro segmento para o ensino médio e partem para o sub emprego no mercado de trabalho, pois sua família não consegue suportar um membro não produtivo que necessite de alimentação, roupas, remédios e afins.

O mundo invisível em sua perversidade inicia a formação do exército de mão de obra disponível que propicia ao capital oferecer baixos salários em suas corporações econômicas, para uma massa de desempregados que anseiam por uma vaga no mercado de trabalho, ou um lugar ao sol como costumam dizer. Mais uma vez o mundo invisível se manifesta em sua necropolítica ao gerar uma imensa competição entre os que nada possuem, evitando assim a sedição e o movimento popular organizado por justiça e igualdade social. Com esse mecanismo sórdido, o mundo invisível mantem o “rebanho” ocupado em se colocar no mercado de trabalho e não em lutar por melhores condições de vida ou de sobrevivência até.

O mundo invisível é muito atuante no período escolar e acadêmico da população negra. Ele em seu pérfido refinamento, prepara os filhos da burguesia branca para ocupar os espaços de poder na sociedade. As escolas da elite são caríssimas e sempre se constituíram no principal óbice para que jovens negros pudessem acessar educação de qualidade. Ao construir esse muro de bloqueio ao acesso invisível, o mundo invisível garante a perpetuação de sua existência. É o modo de racismo mais sutil que existe, pois, leva a sociedade acreditar que os meios de acesso são justos e meritocráticos.

O sistema demolidor da autoestima do mundo invisível tem seu início nas primeiras séries das escolas, onde as crianças negras são alcunhadas das piores designações possíveis, destruindo suas autoestimas e gerando um sentimento de inferioridade que em muitos casos as acompanhará pelos restos de suas vidas.

O sistema do mundo invisível é cruel no ambiente escolar. Apesar de esforços tímidos, nada é capaz de deter a força do projeto do mundo invisível. A formação do professorado não compreende com lucidez a desconstrução do racismo e a decolonização cultural eurocêntrica. A cultura não é somente eventos e entretenimentos. cultura é a forma de viver de um povo, seus legados, seus costumes, sua constituição enquanto nação. Por conta da formação muitas vezes incompleta, o corpo docente das instituições de ensino pode repetir os valores tradicionais da sociedade aristocrática burguesa, causando assim um dano irreparável na formação e no desenvolvimento de seus alunos, brancos ou negros.

Os jovens negros crescem tentando superar o racismo que povoa seus cotidianos. Ao romper a barreira da infância e entrar na pré-adolescência eles têm contato com a maior dor que podem sentir enquanto seres humanos que é a rejeição do amor de uma paixão. Envolvidos pelas tramas do mundo invisível, não atentam que a cor, a melanina, a epiderme, será uma barreira decisiva em suas relações afetivas dali por diante. As meninas se encantam e se apaixonam pelo menino loiro de olhos azuis, de poder aquisitivo maior, com família economicamente estabilizada. Em muitos casos são estimuladas pelos genitores a ensaiarem uma relação afetiva com os meninos detentores desses atributos. Os jovens negros não são opção preferencial das meninas brancas e como foram criados envolvidos pela doutrinação eurocêntrica, passam a cobiçar essas meninas, em detrimento às meninas negras da escola ou da comunidade. Então o mundo invisível se torna mais poderoso ainda, pois, faz o negro rejeitar, recusar o outro negro, desejando viver com uma pessoa diferente de sua etnia, que em certos aspectos está renegando. Por um outro lado as meninas negras sofrem racismo por diferentes vias e tristemente pelos seus iguais. Cria-se então a desordem na compreensão afetiva dessas pessoas tão jovens e já tendo que administrar a dor da rejeição por conta de suas características étnicas. Mais uma etapa vencida pelo mundo invisível, onde ele massacra a autoestima e a força de representatividade da juventude negra. Essa juventude talvez carregue até o túmulo os dissabores da rejeição de amores tão imberbes e inocentes, O resultado poderá ser visto anos depois nos casamentos e nas relações maduras, onde sempre surgem fagulhas das cinzas da adolescência e dos amores platônicos.

Algumas daquelas crianças negras conseguem chegar aos cursos de graduação superior, onde o funil de recepção é muito estreito e alguns mecanismos de ação afirmativa são necessários para garantir o ingresso de negros nas universidades públicas, onde há uma luta fenomenal por vagas em seus cursos, todos de excelência.

Realizando um retrospecto sobre a desigualdade social e racial na educação superior, podemos constatar que o sistema de cotas sempre existiu na universidade públicas desde sua fundação. O percentual de brancos nas universidades públicas sempre girou em torno de 97%, cota praticamente irremovível até a década de 60. Com o crescimento do ensino técnico no país, uma leva de negros e pardos passaram a sonhar com o acesso nas universidades públicas e assim foram construindo lentamente os patamares inferiores da densidade social e racial naquelas instituições. Com o advento das cotas raciais inicia-se uma verdadeira revolução nas universidades públicas, com debates acalorados entre cotistas, calcados nas centenas de anos de escravidão e da negação de acesso ao ensino, e dos meritocratas, que defendiam o acesso através do mérito somente, onde deveria ser jogar com as regras do jogo estabelecidas por eles. O debate chegou ao Supremo Tribunal Federal – STF, que garantiu o tratamento desigual para os que foram desigualmente tratados pelo estado brasileiro.

O sistema de cotas garantiu um incremento de jovens negros nas universidades nunca visto antes. Porém, a burguesia ainda manteve alguns nichos intactos como os cursos de Medicina, Engenharia, Direito e Administração, entre outros. Os negros em sua maioria optaram pelas ciências sociais, onde a competição não é tão acirrada e o conjunto de seres humanos com conteúdo étnico mais diversificado.

O mundo invisível continua operando com intensidade nas universidades. Primeiro, seleciona para os melhores postos de trabalho os candidatos oriundos das universidades de excelência, detentores de coeficientes de rendimento elevadíssimos. Depois passam a exigir outros dotes como domínio de idiomas, habilidades específicas diversas e redes de relacionamento comprovadas. Ao fim priorizam a pós graduação em universidades estrangeiras do hemisfério norte, inviabilizando assim a possibilidade de um jovem negro e pobre, oriundo das camadas populares da população conseguir uma vaga de trabalho em uma empresa de ponta.

Aquelas crianças negras que não conseguiram superar o ensino médio, serão a força de trabalho do país, o exército de reserva, a peãozada como costuma se dizer no chão de fábrica. Os que conseguirem superar o ensino médio estarão em postos intermediários nas cadeias produtivas e alguns através de muito esforço conseguirão concluir o curso superior nos cursos noturnos de alguma universidade privada ou então através da nova modalidade EAD, que cada vez cresce mais no país.

Os negros que concluíram a graduação superior lutarão bravamente por um espaço no mercado de trabalho, que sempre optará prioritariamente pelo fenótipo caucasiano masculino. Muitos desses negros egressos das universidades, tendo tomado percepção da realidade do mundo invisível, serão obrigados a assumir a pecha de “empreendedores”, que significa dispor de seu conhecimento adquirido à duras penas e imenso sacrifício em atividades não remuneradas, onde sua produção é que lhe garantirá o ganha pão. O mundo invisível também opera em nível governamental e criou o SEBRAE, que nada mais é que uma válvula de escape da panela de pressão que é o elevado índice de desemprego no país. A ilusão do empreendedorismo em um país de miseráveis é a mais tosca visão do fracasso de um projeto de nação que deveria incluir sua população negra no acesso à riqueza e ao desenvolvimento.

O Mundo Invisível trabalha diuturnamente para que as escolas sejam cada vez mais precarizadas, pois assim, faz a população se revoltar contra o sistema público e valorizar as redes privadas de ensino. Lentamente faz a sociedade migrar para o ensino pago, e os que não podem pagar são obrigados a deixar os filhos em instituições que poderiam ser de excelência, mas infelizmente não são. Dizia o educador Darcy Ribeiro que a destruição da educação pública brasileira não é um acaso e sim um projeto. Torna-se comum encontrarmos pessoas negras talentosíssimas que foram obrigadas a abandonar a escola pelos mais diversos óbices e problemas. Grandes Pesquisadores, Médicos, Advogados, Engenheiros, Sociólogos, Administradores e toda uma gama de profissões perdem anualmente milhares de negros e negras talentosos, que tiveram seus sonhos interrompidos pelo poder da força do capital que é a energia motriz do Mundo Invisível.

Por fim, aquela criança negra que veio ao mundo cheia de sonhos e alegrias, chega ao final da vida sem ter realizado suas metas de prosperidade, ancorado que foi, profissionalmente, em vendas de cotas de pirâmides financeiras, ou então no serviço público, o último refúgio de conforto de um negro antes de se despedir desta vida, provavelmente sepultado em cova rasa, acomodado em um caixão de terceira.