Para muitos está havendo uma overdose de África na Marquês de Sapucaí, a avenida ou sambódromo onde acontecem os desfiles.
Entrando na polêmica, gostaria de pontuar algumas questões: o samba é uma manifestação cultural essencialmente negra. A gênese e as próprias digitais do samba estão impressas nos terreiros da Umbanda Omolokô, ou Umbanda Carioca e do Candomblé, tanto de Nação Ketu como Angola.
Falam tanto de Tia Ciata mas esquecem de aprofundar as narrativas, anunciando que a “casa da Tia Ciata” também era o homônimo de “Terreiro da Tia Ciata”.
O samba é coisa antiga, praticado no Recôncavo Baiano, nas rodas culturais do povo preto, em Cachoeira, Santo Amaro da Purificação e outras bandas daquele território habitado de maneira predominante por africanos escravizados e negros brasileiros nascidos no cativeiro.
No pós abolição houve uma grande movimentação de ex-escravizados do Recôncavo Baiano para o Rio de Janeiro, denominado “Grande Êxodo” ou “Êxodo Baiano”. A grande maioria se estabeleceu no Centro do Rio de Janeiro, entre a Pedra do Sal e o Estácio, em um território denominado “Pequena África”, por Heitor dos Prazeres.
Ali naquele espaço geográfico estavam localizados diversos terceiros de religião de matriz africana, os zungus, que eram casas de angú e ponto de encontro do povo negro e cortiços onde se aboletavam as famílias pobres, sendo que o maior e mais famoso de todos era chamado de “Cabeça de Porco” , pois tinha uma cabeça de porco esculpida na entrada.
Foi nesses espaços negros que o samba carioca deu seus primeiros passos. Foi embalado nos colos das Ialaorixás, Iqequerês e Iaôs. Nos cânticos e atabaques de alabês, cambondos e runtós. Da corruptela bantu “semba”, ou umbigada, talvez tenha saído o batismo do nome samba.
A Pequena África fervia no pós-abolição. O povo negro se reunia em torno rodas de jogo, dos tabuleiros das baianas, em busca de oportunidade de trabalho e nas animadas festanças regadas pelo lundu, tipo de canto e dança de origem africana.
Não havia somente a casa da Tia Ciata. Havia Tia Perciliana, mãe do João da Baiana, Tia Bebiana, Tia Amélia e Tia Carmem do Xibuca, de Oxum, iniciada nos mistérios das Iyamis Oxorongás.
Essas tias possuíam seus terreiros de Candomblé ou de Umbanda Omolokô e eles pariram o samba carioca. Nasceu da cosmovisão africana, da macumba, do baculejo, enfim, da coisa de preto.
Branco não se metia em samba, era coisa de preto, de macumbeiros, de ex-escravos. O samba era proibido, assim como a Capoeira. Os negros não podiam cantar samba, cantar a oralidade africana, suas estórias e ancestralidades, branco tinha medo.
Foram quase 100 anos de clandestinidade, de opressão, repressão e cadeia. A partir dos anos 30 do Século XX a perseguição começa a ter fim e o samba pode finalmente mostrar sua força africana, seu perfume de ébano para toda a sociedade, através das escolas de sambas pioneiras, de alguns ranchos como o Ameno Resedá de Hilário Jovino e de blocos de sujo.
A partir de então foi uma explosão de negritude que uniu o Estácio, Morro da Mangueira com a Serrinha em Madureira, Portela em Oswaldo Cruz, Vila Isabel e Vizinha Faladeira na Zona Portuária.
Do primeiro “Econtro de Escolas de Samba” no Engenho de Dentro em 1928, produzido por Zé Espinguela, passando pelo primeiro desfile oficial em 1932, até os dias atuais, o samba sempre foi africano, sempre organizado pelo povo negro em territórios pretos.
Quando acusam as escolas de samba de exacerbaçao dos enredos “afros”, estão promovendo uma tentativa de epistemicídio, pois tentam apagar, dizimar, a origem africana do samba. Depois de quase um século de perseguição o samba pode finalmente falar de Exu, Pomba Gira, Tranca Rua, Orixás, Caboclos e Inquices.
O racismo estrutural possui uma orientação visceral contra as manifestações da negritude. Primeiro proibiu, depois tolerou, assimilou e agora quer se apropriar em definitivo, determinando o que é aceitável e o que não é. Quando a chibata cantava nas costas dos sambistas não tinha branco se manifestando contra a arbitrariedade, mas sim a favor.
Acho engraçado que ninguém opina sobre a predominância alemã da Oktoberfest. Nunca vi nemhum negro reclamar pelo excesso de cultura alemã no belíssimo evento do Sul do Brasil.
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