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segunda-feira, 23 de março de 2026


O Oráculo dos Aflitos

Tupamaro era o rei do boteco, sempre foi. Ninguém nunca soube seu verdadeiro nome, aquele que recebeu na pia de batismo. Era inquieto de nascença e meio esquisito de espírito. Carioca da gema, nasceu na parte mais alta do Pendura Saia, um cantinho pobre do Morro de Mangueira.  Bom de bola e de samba, cresceu voando nas asas da malandragem, trabalhando pouco, um biscate aqui e outro ali e namorando muito, principalmente as belas cabrochas da escola de samba, com as quais revelava seu talento de dançarino, cultivado desde a adolescência quando deslizava feliz no chão de barro da comunidade.

Aposentado precocemente em um golpe bem sucedido no INPS, arranjado por um advogado da Baixada Fluminense, passava o dia na preguiça, tomando umas cervas geladas, beliscando uns torresminhos e ouvindo sambas do seu tempo na vitrola de ficha do botequim.

Parecia um despachante-geral. Em sua mesa cativa do bar atendia e aconselhava o povo como se aquele espaço fosse um oráculo dos aflitos. Para ele a sabedoria da vida era orientada por provérbios, obviamente pertinentes e bem selecionados. Havia sempre um para cada ocasião, quando fazia vez de conselheiro e griot do espaço comunitário que revelava a vida de infortúnios e precariedades de tanta gente sofrida.

Quando via descer a comadre Filó ainda no nascer do dizia: “Tenha um excelente dia! Deus ajuda a quem cedo madruga!”, recebendo de volta um sorriso de cumplicidade e compreensão pelo triste fado de cada dia, de uma vida eivada por tantos sacrifícios e turbulências.

Aquela mesa, naquele bar, era o confessionário profano do cotidiano de toda a gente humilde do território de despossuídos. Elas se encontravam nos provérbios do Tupamaro, um combustível a mais para seguir em frente na longa e tortuosa estrada da vida. Nem tudo é dinheiro, muitas vezes as pessoas queriam apenas um cantinho de acolhimento, um colo e uma palavra de conforto. E isso Tupamaro sabia fazer como ninguém.

Nego Ró sentou na mesa e discorreu sobre seu problema sem antes mandar descer uma bem gelada. Falou da filha que não era muito boa da cabeça e que estava começado a andar com gente ruim. Recebeu na lata a profecia: “passarinho que acompanha morcego amanhece de cabeça pra baixo”.

Quanto mais o dia ia passando mais pessoas passavam na mesa de Tupamaro para receber uma gota de carinho. Assim foi com Zefa do Cuscuz que se chegou para falar sobre seu filho que era um bom menino, estudioso, mas que não conseguia trabalhar em um bom emprego. Ouviu curto e grosso: “Pato novo não dá mergulho fundo” e, “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Já com Antônio Sineiro que reclamava das péssimas condições financeiras que o seu empregador, o vigário, lhe proporcionava ouviu: “De grão em grão a galinha enche o papo”.

Na favela eram comuns as desavenças depois de se exagerar nas doses daquela “que matou o guarda” ou “água que passarinho não bebe “. Tupamaro estava sempre ali, na malemolência da existência, observando e burilando o cotidiano do povo como se fosse um ourives existencial. Nas brigas da comunidade vaticinava: “um dia é da caça e outro do caçador”. Se viesse alguém chorar um amor perdido, aconselhava: “águas passadas não movem moinho”. Quando a mãe vinha reclamar do filho que estava copiando os maus modos do pai, declarava: “filho de peixe, peixinho é”. Muitas vezes vinham chorar pitangas pois não acertavam a milhar do jogo de bicho e ouviam: “quem arrisca não petisca”. Se acusavam uma vizinha de ser mentirosa, falava: “mentira tem perna curta”.

Se a mulher reclamava do carro usado que sempre quebrava, um presente do marido infiel acalentava: “cavalo dado não se olha os dentes”. Muitas vezes era provocado por alguma dona por viver sozinho e viver uma vida solitária na mesa do bar, respondia então: “antes só que mal acompanhado”. Se falavam alguma coisa repetidamente de alguém acusava: “onde há fumaça, há fogo”. Mas sem provas não podiam formalizar e então ouviam: “o seguro morreu de velho”. Se ameaçassem dizia: “cão que ladra não morde” e se começava a juntar gente em torno da mesa dizia: “cada macaco no seu galho” ou “cada um no seu quadrado”, sugerindo que procurassem outras mesas.

Quando passava a porta-bandeira e trocavam sorrisos costumava dizer: “esse ovo tá querendo sal” ou “para bom entendedor, meia palavra basta”. Mas ao mesmo não queria perder sua paz no seu cantinho e pensava que a mulher estava querendo mesmo é se encostar em sua casa e pensava: “quem casa, quer casa”. Quando lhe exortavam a ir de encontro a mulher dizia: “a pressa é inimiga da perfeição”. Mas se outros a diziam de pouca aparência ele retrucava: “as aparências enganam” e “quem vê cara não vê coração” e “nem tudo que reluz é ouro”.

Tupamaro não costumava sair com pessoas estranhas. Quando convidado respondia: “passarinho que acompanha joão-de-barro vira servente de pedreiro” ou então “diga-me com quem andas e te direi quem és”. Se alguém pagasse uma cerveja por conta de um bom conselho afirmava: “é dando que se recebe”. Quando elogiado por sua sabedoria costumava se gabar: “em terra de cego quem tem olho é rei”. Mas se uma mulher traída pedisse seu conselho em relação a um novo amor, frisava: “cachorro mordido de cobra foge quando vê linguiça”. Se alguma alma necessitada lhe perguntasse se era crime fazer gato na luz, respondia: “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”.  Se um viúvo lhe perguntasse sobre uma possível companheira que lhe olhava de rabo de olho, mas que já estava de olho em outra, ouvia: “mais vale um pássaro na mão que dois voando” ou “seguro morreu de velho”.

Tupamaro passava os dias ali envelhecendo naquela mesa. Os cabelos com o tempo lhe caíam gris às têmporas e as pernas já não lhe permitiam participar das rodas de samba como passista.  Ficava ali na mesa batucando seus sambas e balançando o corpo, mesmo que sentado. Lamentando cantava: “Quem pode, pode. Quem não pode se sacode”. Ao fim do dia pagava sua conta e rumava para seu descanso ao entardecer onde faria sua refeição reforçada sobre a qual dizia: “saco vazio não para em pé”. Se lhe ofereciam carona para sua casa na parte baixa da rua recusava dizendo: não precisa, “para baixo todo santo ajuda”.

Um certo dia parou de frequentar o bar. A cidade preocupada dirigiu-se a sua residência onde foi encontrado morto, sentado na cadeira de balanço. O corpo inerte mantinha um cartaz em seu colo onde lia-se: “santo de casa não faz milagre, cantei prá subir”.

 

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