Tupamaro era o rei do boteco, sempre foi. Ninguém nunca
soube seu verdadeiro nome, aquele que recebeu na pia de batismo. Era inquieto
de nascença e meio esquisito de espírito. Carioca da gema, nasceu na parte mais
alta do Pendura Saia, um cantinho pobre do Morro de Mangueira. Bom de bola e de samba, cresceu voando nas
asas da malandragem, trabalhando pouco, um biscate aqui e outro ali e namorando
muito, principalmente as belas cabrochas da escola de samba, com as quais
revelava seu talento de dançarino, cultivado desde a adolescência quando deslizava
feliz no chão de barro da comunidade.
Aposentado precocemente em um golpe bem sucedido no INPS,
arranjado por um advogado da Baixada Fluminense, passava o dia na preguiça, tomando
umas cervas geladas, beliscando uns torresminhos e ouvindo sambas do seu tempo
na vitrola de ficha do botequim.
Parecia um despachante-geral. Em sua mesa cativa do bar atendia
e aconselhava o povo como se aquele espaço fosse um oráculo dos aflitos. Para
ele a sabedoria da vida era orientada por provérbios, obviamente pertinentes e
bem selecionados. Havia sempre um para cada ocasião, quando fazia vez de conselheiro
e griot do espaço comunitário que revelava a vida de infortúnios e precariedades
de tanta gente sofrida.
Quando via descer a comadre Filó ainda no nascer do
dizia: “Tenha um excelente dia! Deus ajuda a quem cedo madruga!”, recebendo de
volta um sorriso de cumplicidade e compreensão pelo triste fado de cada dia, de
uma vida eivada por tantos sacrifícios e turbulências.
Aquela mesa, naquele bar, era o confessionário profano do
cotidiano de toda a gente humilde do território de despossuídos. Elas se encontravam
nos provérbios do Tupamaro, um combustível a mais para seguir em frente na longa
e tortuosa estrada da vida. Nem tudo é dinheiro, muitas vezes as pessoas queriam
apenas um cantinho de acolhimento, um colo e uma palavra de conforto. E isso
Tupamaro sabia fazer como ninguém.
Nego Ró sentou na mesa e discorreu sobre seu problema sem
antes mandar descer uma bem gelada. Falou da filha que não era muito boa da
cabeça e que estava começado a andar com gente ruim. Recebeu na lata a
profecia: “passarinho que acompanha morcego amanhece de cabeça pra baixo”.
Quanto mais o dia ia passando mais pessoas passavam na
mesa de Tupamaro para receber uma gota de carinho. Assim foi com Zefa do Cuscuz
que se chegou para falar sobre seu filho que era um bom menino, estudioso, mas
que não conseguia trabalhar em um bom emprego. Ouviu curto e grosso: “Pato novo
não dá mergulho fundo” e, “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Já
com Antônio Sineiro que reclamava das péssimas condições financeiras que o seu
empregador, o vigário, lhe proporcionava ouviu: “De grão em grão a galinha
enche o papo”.
Na favela eram comuns as desavenças
depois de se exagerar nas doses daquela “que matou o guarda” ou “água que
passarinho não bebe “. Tupamaro estava sempre ali, na malemolência da
existência, observando e burilando o cotidiano do povo como se fosse um ourives
existencial. Nas brigas da comunidade vaticinava: “um dia é da caça e outro do
caçador”. Se viesse alguém chorar um amor perdido, aconselhava: “águas passadas
não movem moinho”. Quando a mãe vinha reclamar do filho que estava copiando os
maus modos do pai, declarava: “filho de peixe, peixinho é”. Muitas vezes vinham
chorar pitangas pois não acertavam a milhar do jogo de bicho e ouviam: “quem
arrisca não petisca”. Se acusavam uma vizinha de ser mentirosa, falava:
“mentira tem perna curta”.
Se a mulher reclamava do carro usado
que sempre quebrava, um presente do marido infiel acalentava: “cavalo dado não
se olha os dentes”. Muitas vezes era provocado por alguma dona por viver
sozinho e viver uma vida solitária na mesa do bar, respondia então: “antes só
que mal acompanhado”. Se falavam alguma coisa repetidamente de alguém acusava:
“onde há fumaça, há fogo”. Mas sem provas não podiam formalizar e então ouviam:
“o seguro morreu de velho”. Se ameaçassem dizia: “cão que ladra não morde” e se
começava a juntar gente em torno da mesa dizia: “cada macaco no seu galho” ou
“cada um no seu quadrado”, sugerindo que procurassem outras mesas.
Quando passava a porta-bandeira e
trocavam sorrisos costumava dizer: “esse ovo tá querendo sal” ou “para bom
entendedor, meia palavra basta”. Mas ao mesmo não queria perder sua paz no seu
cantinho e pensava que a mulher estava querendo mesmo é se encostar em sua casa
e pensava: “quem casa, quer casa”. Quando lhe exortavam a ir de encontro a
mulher dizia: “a pressa é inimiga da perfeição”. Mas se outros a diziam de
pouca aparência ele retrucava: “as aparências enganam” e “quem vê cara não vê
coração” e “nem tudo que reluz é ouro”.
Tupamaro não costumava sair com
pessoas estranhas. Quando convidado respondia: “passarinho que acompanha
joão-de-barro vira servente de pedreiro” ou então “diga-me com quem andas e te
direi quem és”. Se alguém pagasse uma cerveja por conta de um bom conselho
afirmava: “é dando que se recebe”. Quando elogiado por sua sabedoria costumava
se gabar: “em terra de cego quem tem olho é rei”. Mas se uma mulher traída
pedisse seu conselho em relação a um novo amor, frisava: “cachorro mordido de
cobra foge quando vê linguiça”. Se alguma alma necessitada lhe perguntasse se
era crime fazer gato na luz, respondia: “ladrão que rouba ladrão tem cem anos
de perdão”. Se um viúvo lhe perguntasse
sobre uma possível companheira que lhe olhava de rabo de olho, mas que já
estava de olho em outra, ouvia: “mais vale um pássaro na mão que dois voando”
ou “seguro morreu de velho”.
Tupamaro passava os dias ali envelhecendo
naquela mesa. Os cabelos com o tempo lhe caíam gris às têmporas e as pernas já
não lhe permitiam participar das rodas de samba como passista. Ficava ali na mesa batucando seus sambas e
balançando o corpo, mesmo que sentado. Lamentando cantava: “Quem pode, pode.
Quem não pode se sacode”. Ao fim do dia pagava sua conta e rumava para seu
descanso ao entardecer onde faria sua refeição reforçada sobre a qual dizia:
“saco vazio não para em pé”. Se lhe ofereciam carona para sua casa na parte
baixa da rua recusava dizendo: não precisa, “para baixo todo santo ajuda”.
Um certo dia parou de frequentar o
bar. A cidade preocupada dirigiu-se a sua residência onde foi encontrado morto,
sentado na cadeira de balanço. O corpo inerte mantinha um cartaz em seu colo
onde lia-se: “santo de casa não faz milagre, cantei prá subir”.

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