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terça-feira, 16 de junho de 2026

 

Chamada de Egun 

Sentado na parte baixa do porto eu ali anjo torto numa vibe de quase morto. Pancadaço de pôr de sol observo ao longe mil carreiras brancas pilotadas por surfistas prateados que deslizam em ondas de ansiedade e nos tubos que aspiram o sal pelos micro pelos de minhas narinas. Tudo é mar, onde cada vela que vai é um sopro de esperança que se apaga. E cada vela que vem é a chegada de alguém que ficou a ver navios, sem ninguém. Sereias tatuadas e perdidas nas madrugadas do porto catam guimbas de vida nas movidas meladas pela boca da noite. No estirão de (in)felicidade há o corvo que repete “nunca mais” nos lupanares sombrios de Poe na beira do cais. E o amor passa arrastado e sufocado pelos sentimentos desesperados dos adictos cativos onde madames consomem picassos e narguilés em zonas de mil vidas naufragadas e desgraçadas pelo poder do patriarcado que gerencia o claustro existencial da virgindade tóxica. Ilusões de artifícios e sacrifícios cercados por orgasmos espetaculares avaliados e certificados por célebres voyeurs onanistas. A vida passa como um filme sem roteiro com tudo acontecendo ligeiro em um falso picadeiro onde a acrobata e a mulher gorila irrompem na bamba corda emitindo urros de tensão e tesão quando repentinamente a plateia acorda pornograficamente indiferente. Ser normal é viver com dores de amores trituradas pelos moinhos de paixões contidas pelo zíper decolonial. Ah! Coração! Que abrasa e delicia meus caminhos!  Na barra do vento do entardecer! É tudo tão morto! A Lacrimosa! Amadeus chora em Viena! Estamos no tempo desta entidade estranha que não olha para trás, o tempo, que segue louco em sua sanha primordial mirando sempre para o fim do futuro no universo escuro. Olho cansado mirando as difusas brumas da eternidade que cobrem as erupções túrgidas de um monte de vênus que lança lavas de lascívia excitando a cidade enlouquecida em gozo. No meio da catástrofe adâmica surge um triste e solitário egun purgando dores e fumando um sob o gélido relento universal. Roto e pobre egun sem seu orum, vendido como um goleiro após tomar um gol de placa, ali meio de saco cheio mas consciente do seu ofício: “Venha! Acabou! Já é hora! É seu tempo! Abandone o tormento da prisão do carbono! O trem para as estrelas não espera! Renasça para mim! 

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