Postagem em destaque

Racismo Ambiental

sexta-feira, 16 de junho de 2023

Racismo Ambiental

"A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer.Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece” (Antonio Gramsci)

Racismo ambiental é um termo cunhado em 1981 pelo líder estadunidense de direitos civis Dr. Benjamin Franklin Chavis Jr., que foi assessor de Martin Luther King Jr. Chavis. No final da década de 1970, já ordenado pastor, dirigia a Comissão pela Justiça Racial da Igreja Unida de Cristo em Warren County, Carolina do Norte. Em 1987 Chavis publicou o livro “Rejeitos Tóxicos e Raça nos Estados Unidos da América”, no qual evidenciava a amplitude da questão para as comunidades negras de todo o país.

O ativista definiu a expressão racismo ambiental ao pesquisar de perto a o quanto a população negra dos EUA estava sendo exposta a resíduos tóxicos. O conceito adquiriu força nos Estados Unidos dentro do contexto das manifestações raciais contra injustiças ambientais em territórios negros.

Chavis Jr. disse que o racismo ambiental é a discriminação racial na elaboração de políticas ambientais, na aplicação de regulamentos e leis, e no direcionamento deliberado de comunidades negras para espaços contíguos às instalações de lixo tóxico, com risco de vida para as comunidades afrodescendentes e a exclusão de negros da liderança dos movimentos ecológicos.

Ao excluir e afastar os negros da elaboração de políticas e movimentos ambientais, o sistema capitalista faz a opção por privilegiar outros grupos étnicos de raiz caucasiana. Ao aplicar o sistema de seleção dirigida, entende que a etnia negra não compreende um grupo humano que deva ser protegido, como sempre definiu o colonialismo, o capitalismo e a globalização. O sistema precisa que esses contingentes humanos ocupem esses territórios precarizados, pois ali está a mão de obra necessária para trabalhar nas plantas industriais poluentes que operam nos espaços adjacentes às suas residências.

As comunidades impactadas pelo racismo ambiental são compostas majoritariamente por população negra, que historicamente sempre foi preterida nos projetos nacionais de educação. O processo de desemprego em massa trazido pelos ventos da globalização com suas políticas neoliberais e flexibilizadoras, causou um verdadeiro tsunami na organização sindical brasileira a partir dos anos 80. Com o avanço de tecnologias industriais como a automação, por exemplo, as oportunidades de trabalho formal nos parques fabris está rareando cada vez mais e por conseguinte as exigências dos trabalhadores por melhores condições de trabalho também diminuíram, destarte o esforço de suas representações como centrais sindicais e seus sindicatos de base. O movimento sindical desde então vive em constante crise existencial, mergulhado em um profundo declínio temporal, tendo perdido parte da interlocução com as bases devido à dificuldade de comunicação entre os antigos socialistas da era analógica e os novos trabalhadores nativos da novíssima geração digital. Sobrevivendo entre as mais diversas dialéticas contemporâneas e enfraquecido cada vez pela política conservadora do Congresso Nacional, do Judiciário e pelas instituições patronais com suas agressivas pautas de reivindicações, o sindicalismo tornou-se um gigante com pés de barro. 

Com o enfraquecimento dos anseios trabalhistas da massa trabalhadora, encontramos a população negra sofrendo as ações dos vetores poluidores nas plantas industriais instaladas no entorno das comunidades negras.  Essas indústrias poluidoras possuem relação direta com a saúde degredada dos seus trabalhadores e dos seus impactos nessas comunidades. A população negra que sofre sob os impactos do racismo ambiental é tornada duplamente invisível pelo sistema capitalista na medida em que é ocultada enquanto comunidade e como massa trabalhadora.

O sociólogo estadunidense Robert Bullard estendeu o conceito de racismo ambiental ao referir-se a qualquer política, prática ou diretiva, que atue negativamente a diversos grupos ou comunidades baseados em sua origem ou cor da pele. Bullard escreveu um livro muito importante acerca da justiça ambiental denominado “The Legacy of American Apartheid and Environmental Racism (O Legado do Apartheid Americano e do Racismo Ambiental). O racismo ambiental foi e continua sendo objeto de vários estudos, sendo que há uma notada convergência que aponta para situações comuns como territórios localizados onde os vetores ambientais são mais agressivos à vida humana, como lixões, aterros de lixo sanitários e controlados, depósitos de resíduos químicos, ausência de condições sanitárias mínimas como saneamento básico, emissões industriais descontroladas, indústrias químicas poluidoras, falta de ordenamento urbano e paisagístico, drenagem fluvial e controle de doenças contagiosas.

O racismo ambiental expõe de maneira desproporcional uma etnia ou classe social sendo uma forma de discriminação baseada em raça, etnia e classe social a riscos ambientais. Está para além da luta de classes e passou a ser também um problema de castas, como os “dalits” na Índia. No nosso caso podemos apontar as pessoas negras periféricas que são consideradas pela branquitude como casta inferior. Essas pessoas negras são as mais vulneráveis aos impactos ambientais e que realizam os diversos trabalhos infames que a branquitude renega exercer. A população negra desses espaços vive confinada em senzalas contemporâneas ou campos de concentração do capitalismo que são as favelas, território abandonado pelo estado que comparece cotidianamente com a polícia para causar medo e opressão ao moradores. A população negra das favelas é um contingente humano considerado como estoque étnico descartável, para o qual a discriminação e a injustiça ambiental estão irremediavelmente destinadas. O ambiente degradado afeta e adoece as pessoas que habitam esses espaços, caracterizando de maneira definitiva como uma ação racializada negativamente pelo estado.

A história mostra que o surgimento das primeiras favelas no Rio de Janeiro foi provocado pela ocupação das encostas dos morros do Centro do Rio pelos militares que combateram na Campanha de Canudos e pela massa de escravos liberta através da Lei Áurea. Com o fim da Campanha de Canudos (1896-1897) os soldados que retornaram esperavam receber casas para morar que foram prometidas pelo governo. Como a promessa não foi cumprida, os soldados que se abrigavam temporariamente no entorno do Ministério da Guerra ao lado da Central do Brasil não tiveram outra alternativa a não ser juntar madeiras que coletaram pela cidade e construírem seus barracos no Morro da Providência, que já abrigava os que foram defenestrados dos cortiços derrubados pelo Prefeito Pereira Passos.

Os negros e negras recém libertos não possuíam vínculos trabalhistas e tampouco recursos financeiros para adquirir um lote de terra para construir uma casa. A solução encontrada era ocupar um espaço de terra em uma das encostas dos morros da cidade e construir uma habitação frágil e improvisada com madeiras que eram coletadas pelos entulhos de lixo da cidade.

Por um outro lado, o Rio de Janeiro passava por um intenso processo de modernização denominado Bota Abaixo, onde o Prefeito Pereira Passos de maneira arbitrária determinou que mais de 2000 casas e cortiços da população negra e pobre fossem derrubados para dar lugar a construções de avenidas e bulevares modernos que imitavam a cidade de Paris.

Em seu livro “Planeta Favela” (Boitempo, 2006), o californiano Mike Davis apresenta um estudo baseado em dados da ONU que aponta para dados surpreendentes. O principal é que as favelas estão recebendo 25 milhões de novos habitantes por ano, número que passa a engrossar o contingente de pessoas que sofrem com o apartheid urbano. Segundo Davis, a neogentrificação faz parte do novo modelo de desenvolvimento hegemônico do capitalismo, que trata a humanidade como objeto e a utiliza de todas as maneiras possíveis em busca do lucro desenfreado. Enquanto uns são utilizados como peões em um tabuleiro de xadrez, outros são solenemente ignorados na fria qualidade de estoque étnico descartável.

O pesquisador Costa Pinto desenvolveu um estudo na década de 50 no Rio de Janeiro que apontou que em cada 100 habitantes da cidade 27 eram “de cor”, enquanto que nas favelas o indicador era invertido para 71 negros para cada 100 moradores. Costa Pintpo denominou esses dados como segregação étnica.  No ano de 2001 o pesquisador Ney Santos Oliveira utilizando dados da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar – PNAD, do Morro do Estado em Niterói, revela que 27,4% dos moradores da comunidade são brancos enquanto que a população negra representa 72,6% dos moradores. Enquanto que nas áreas nobres de Niterói os dados se invertem com 72% de moradores brancos e 28% de moradores negros.

A elite gosta da favela, não para frequentar, mas por ser um território extremamente precarizado, sem os requisitos mínimos necessários de civilidade e controlado por poderosas facções criminosas que impõem suas próprias leis e submetem à comunidade um regime de terror e violência. É um território onde há submissão total dos moradores ao poder paralelo, que é o principal emulador das normas locais vigentes. Para a burguesia isso é bom, pois, seus serviçais recebem em seus próprios territórios as “lições de servilismo e obediência” necessárias para lidar com o poder enquanto que estabelece uma relação de alteridade social que diz a quem devem obedecer. A subserviência e o conformismo impostos pelo terror, mostra para aquela população de maioria negra que a rebelião não é uma possibilidade. Devem compreender e assimilar que seus destinos estão traçados de maneira inexorável e que não podem tentar se organizar e se rebelar para transformar a situação em que vivem.

A existência das favelas é fundamental para a sobrevivência das elites. A dicotomia civilizatória define para a população pobre daqueles territórios a impossibilidade de qualquer ascensão social que equipare suas vidas as de seus patrões. Por isso a inconformidade das elites com o sistema de cotas, pois o sistema democrático faz com que seus filho frequentem as mesmas salas das universidades que os filhos de seus empregados.

A favela é o marco civilizatório que define o fim da rebelião. Viver em seu seio com a violência cotidiana do narcotráfico e com a guerra cotidiana promovida pelos aparelhos de repressão de estado, ou seja, as polícias, mostra que todos estão entregues à própria sorte, sem amparo ou justiça social. Como se não bastasse o conjunto de assimetrias sociais, agregue-se ainda a discriminação pelo Código de Endereçamento Postal – CEP. O recurso que tem como objetivo facilitar a identificação de logradouros para o endereçamento postal, tornou-se um outro indicador que podemos chamar de Código de Envolvimento Perigoso, que serve como marcador social para os sistemas de avaliação de crédito, risco bancário e contratação pelos setores de RH das empresas e de contratação de trabalhadoras e trabalhadores domésticos por seus patrões. O racismo ambiental faz com que os trabalhadores que habitam territórios negros sejam obrigado a renegá-los  em busca de uma chance no mercado de trabalho. São levados a buscar endereço de parentes que moram em outras áreas da cidade para que possam apresentar um endereço “condizente”.

O filósofo camaronês Achile Mbembé desenvolveu o conceito de necropolítica, onde nesses territórios precarizados o estado através dos seus sistemas de repressão possui licença para matar.

As crianças desses territórios não são expostas somente à violência cotidiana das armas. Vivem ameaçadas pelos mais diversos vetores ambientais negativos que podem afetar aquele agrupamento humano. A convivência em habitações por vezes diminutas e insalubres, que abrigam várias pessoas, propícia a disseminação das mais diversas doenças contagiosas como por exemplo a tuberculose, que em certas comunidades do Rio de Janeiro está em situação alarmante.

A ausência de saneamento básico no Brasil no ano de 2019 sobrecarregou o SUS com quase 280 mil internações com 2.734 óbitos. A incidência de internações foi de 13,01 casos por 10 mil habitantes, gerando um custo adicional ao país de R$ 108 milhões no mesmo ano. O estudo Saneamento e Doenças de Veiculação Hídrica do Instituto Trata Brasil foi realizado a partir de dados públicos do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento – SNIS e DATASUS no portal do Ministério da Saúde. A região Nordeste, que em números gerais registrou mais internações, teve a maior despesa com esse tipo de internação - R$ 42,9 milhões. Na sequência, o Sudeste teve R$ 27,8 milhões com gastos desse tipo, contra R$ 15,2 milhões do Norte, R$ 11,7 milhões do Sul e R$ 10,2 milhões do Centro-Oeste.

A falta de acesso à água tratada e esgotamento sanitário ocasionou a morte de 907 pessoas no Sudeste, 331 no Sul, 214 no Norte, 213 no Centro-Oeste e mais de mil no Nordeste por doenças de veiculação hídrica, entre elas estão as diarreicas, dengue, leptospirose, esquistossomose e malária.

O estudo do Trata Brasil mostra que quase 35 milhões de pessoas vivem em locais sem acesso à água tratada, 100 milhões de pessoas sem acesso à coleta de esgoto e somente 49% dos esgotos no país são tratados.

Os indicadores do estudo demonstram que há um país partido. De uma lado o Brasil da Bélgica com elevados padrões civilizatórios e de outro o Brasil da Índia, abandonado pelo estado e submetido à crueldade dos seus governantes, que condenam à morte e ao sofrimento milhares de brasileiros todos os anos por conta de sua origem étnica e cor da pele.

Outros fatores concorrem para o aumento das doenças da população que habita essas áreas deletérias. As ruas sem calçamento despertam processos alérgicos em grande parte da comunidade que é obrigada a conviver coma a poeira tóxica cotidianamente durante anos a fio. Esses territórios são escolhidos pelas empresas para abrigarem suas plantas industriais com o falso argumento da geração de empregos. Óbvio que esses empregos gerados pelas plantas industriais alocadas nesses territórios obedecem a uma hierarquia laboral. Os melhores postos de trabalho não são destinados aos moradores dessas comunidades. Pelo contrário, a “inteligência” da empresa e seus cargos de direção está reservada para as pessoas da burguesia, que certamente não moram nessas comunidades. Para os habitantes desses territórios são reservadas as atividades insalubres, expostas a produtos químicos e manipulações perigosas. Outro fator que estimula as empresas a se estabelecerem no entorno das comunidades é a não necessidade de arcar com os custos patronais do auxílio transporte e da vantagem da proximidade. Todas essas espertezas são encobertas pelo manto de uma característica da modernidade empresarial denominada responsabilidade social. Mas como o capitalismo sofistica-se de maneira contínua, o termo mais usado atualmente é responsabilidade socioambiental.

A ironia é que essas empresas não consideram o ser humano como parte do ambiente. Destina-lhe atividades perigosas e insalubres, não colabora com a elevação de sanitização da comunidade, polui o meio ambiente, adoece as famílias e recebe da burguesia e do capitalismo o selo de ambientalmente e socialmente responsável.

Essas empresas costumam despejar seus efluentes tóxicos nós rios e riachos dessas comunidades, contaminando o lençol freático que é utilizado pela comunidade como fonte de abastecimento de água através de poços escavados no solo.

Enquanto sistema, o racismo ambiental opera em todas as direções possíveis e necessárias ao projeto de sofisticação e expansão do capitalismo. Ataca e depaupera o modo de vida dos povos originários com mega projetos de mineração e extração de madeiras. Marisqueiras e pescadores artesanais, quilombolas, ribeirinhos e agricultores familiares. Esses povos são condenados ao exílio em seus próprio país, são desterrados de seus territórios e agregados em reservas de confinamento cada vez menores. Com o tempo são alcançados pelas periferias das cidades e passam a conviver com lixões, fábricas poluidoras e efluentes tóxicos. No Mapa de Conflitos Causados pelo Racismo Ambiental (http://www.justicaambiental.org.br/_justicaambiental/pagina.php?id=1555) a grande parte das denúncias são referentes a conflitos fora dos centros urbanos, onde a mídia não está presente com sua cobertura jornalística.

Apesar de todos os óbices naturais, o Racismo Ambiental fez parte da pauta da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), em Glasgow, Escócia em 2021. O Movimento Negro Brasileiro participou com uma comitiva bastante representativa. Organizações como a Coalizão Negra por Direitos que representa mais de 250 entidades negras, apresentaram as demandas da população negra que sofre com os impactos gerados pelo Racismo Ambiental. O Brasil possui mais de 3.100 comunidades quilombolas e somente 13% deste total foi regularizada pelo INCRA e órgãos estaduais de terras. O Brasil necessita titular 1490 processos de regularização fundiária de com unidades quilombolas até o ano de 2030.

A participação da delegação brasileira na conferência foi bastante expressiva. Na COP 27 em Cairo no Egito o debate foi mais focalizado nas mudanças climáticas, transição energética, desmatamento e frotas de veículos elétricos. De uma maneira geral há uma enorme preocupação com os ecossistemas, biomas e florestas. Porém, no que tange à proteção de populações negras impactadas pelo racismo ambiental o debate ainda é bastante tímido. O grande desafio que há pela frente será transportar para a agenda nacional o que foi acordado nas cúpulas do clima e no Acordo de Paris. As propostas acordadas e aceitas pelo Brasil, de uma maneira ou de outra, impactam positivamente no cotidiano e bem estar das populações negras que habitam os territórios mais precarizados de nosso país. 

A sociedade civil organizada enfrenta a questão do racismo ambiental em diferentes frentes de luta e disseminação de informações. Uma dessas referências é o Mapa de Conflitos envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil, projeto da Fiocruz coordenado pela pesquisadora Tânia Pacheco.

No âmbito das Nações Unidas há o “Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos – Habitat. O programa apoia comunidades como Complexo do Alemão, Maré, Chapadão, Pedreira, Vila Kennedy, Lins, Penha, Cidade de Deus, Jacarezinho e Rocinha. Esses territórios são cobertos pelo “Programa Territórios Sociais”. O Fundo da ONU para a Infância, Unicef, também colabora nessa iniciativa que atua em 10 assentamentos informais. Os idosos, incluindo acamados e com problemas cardíacos, receberam cestas básicas, desinfetantes, sabonete líquido, desodorante, xampu e escovas de dentes com o apoio da Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro. A seleção do grupo foi baseada na recolha de dados produzidos pelo Programa Territórios Sociais.

Nesse processo, a ONU-Habitat Brasil ajudou as atividades em comunidades para garantir que a assistência chegasse aos mais pobres e fragilizados.

O panorama do racismo ambiental é um mosaico horroroso que marca de maneira profunda a desigualdade social brasileira. Enquanto os moradores desses espaços precarizados não assumirem o protagonismo político da gestão dos territórios impactados nada mudará. O que podemos assistir é a visita de políticos durante o período eleitoral procurando cooptar as lideranças comunitárias ou celebrar pactos sombrios com o poder paralelo local.

Para que o sol possa brilhar de maneira equânime para todos os habitantes das cidades brasileiras torna-se necessário que todos se envolvam no processo da nova e verdadeira abolição que é nosso devir, nós do povo negro.

Há uma inequívoca vontade por parte dos governos de que tudo deva permanecer como está. São criados mil projetos, ações sociais, intervenções locais mas tudo permanece como sempre esteve. É uma demonstração de anomia governamental misturada com ausência de força anímica, que estabeleça junto com essas comunidades um pacto de governança local e estudos que possam transformar esses espaços arquitetônicos caóticos em exemplos de urbanização e ordenação social.

Não se pode aceitar que essas cidades com tantas universidades e centros de pesquisas não possam ser provocadas pelo poder público para estabelecer parcerias com os habitantes desses territórios na elaboração de projetos de infraestrutura, com novos equipamentos sócias funcionais como escolas, creches, organizações sociais e postos de saúde eficientes. Com ruas amplas e sinalizadas e habitações dignas. Não se pode cobrar e tampouco pensar um mundo melhor quando que o que se oferece àquelas populações é o restolho social do banquete antropológico da branquitude.

*Amauri Queiroz é Escritor e autor dos livros “Racismo Tropical”, “Se a Negritude Fosse um Banco o Racismo Não Existiria”, "Mundos Invisíveis ", “A Revolta dos Blacks”, “Egotrip”, “Fallen Angel”, “Ensaios Sobre o Fascismo Brasileiro” e "Sussurros da Alma Negra".

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Ovelhas Negras de Pele Branca


Uma amiga querida de longa data me responde com certa ironia: “... parei de ler sua mensagem na metade do título”. Pensei com meus botões em que mundo eu estou habitando? Enviei o texto esperando uma manifestação positiva sobre uma reflexão que considerei importante e o que recebo de volta é a mais nítida comprovação que vivemos um outro tempo.
Carrego comigo milhares de anos de ancestralidade africana e outras centenas de anos de colonialismo e cativeiro infame. Como me calar? Como reduzir minhas palavras? Minha indignação? Meus gritos de rebelião?
Refletindo sobre ser um ser prolixo, entendo contrariado que a etnocentria venceu de goleada. Não há mais tempo para nossa cosmovisão africana se manifestar através de nossos risos largos e estridentes, nosso caminhar malemolente e antigravitacional, nossa comunicação interminável sobre os segredos do Orum e suas divindades. Sim, o capitalismo eurocêntrico venceu e ao vencer nos reduziu aos arremedos monossilábicos dos brancos. Lenta e silenciosamente o sistema vem construindo nossos arquétipos sob o manto da ordem caucasiana, onde sempre seremos seres periféricos e jamais estaremos participando da mesa principal como protagonistas. A mesa do banquete antropológico é restrita e para ocupá-la há que superar as réguas do gradiente da pigmentocracia. Muitos de nós se esforçam para atingí-la, procurando viver como os brancos, com a naturalidade dos brancos, com a mesma aflição dos brancos, mas sem as benesses e a tranquilidade que a vida oferece aos brancos, até porque o normal é ser branco.
Não devemos constituir um libelo contra os brancos. Mas sim um alerta em favor dos negros: vivam nosso jeito de ser e abandonem um mundo que nunca será de nosso. A cosmovisão eurocêntrica é antagónica à nossa. É radicalmente contra nosso modo de viver, além de ser historicamente opressora e aniquiladora de nossa cosmovisão.
Para o afrodescendente que consegue galgar alguns degraus a mais na pirâmide social é tentador compartilhar o mundo branco, receber algum reconhecimento e ser apontado como “diferente” da “massa negra”. É mais ou menos como ser a “ovelha branca” da imensa família que é nossa comunidade negra.
Adentrar no mundo branco sem marcar o caminho de volta com miolos de pão é uma operação muito arriscada. É um mundo com tecnologia, dinheiro, poder e muita fascinação. Mas ao mesmo tempo é um mundo de ilusão. O capitalismo atira iscas aos incautos que se materializam na forma de promessas de sucesso, riqueza e prosperidade. Engodos sutis que aos poucos vão se revelando inúteis devido a ausência de um sistema que ofereça educação pública de qualidade, assim como saúde pública universalizada que proteja a todos com eficiência. Finalmente para acabar com os sonhos emitidos pelos cantos de sereia do capitalismo que envolvem o povo negro, tem a grande barreira melanínica, que é o acesso às boas oportunidades no mercado de trabalho. Como há o interdito da educação de qualidade, o mercado de trabalho capitalista reage de maneira firme, naturalizando a meritocracia e trazendo para si através de sistemas de seleção endógenos e privilegiados, seus filhos diletos que são as pessoas brancas.
O grande desafio que o povo negro pode ou deve enfrentar será transformar o mundo em crise sem utilizar os nesmos cânones eurocêntricos que sempre permearam os processos ditos civilizatórios. A vocação anímica do eurocentrismo para a guerra, para a conquista, dominação e exploracao de territórios deve ser combatida com a filosofia e o modo de viver africano. A sabedoria africana é aquela que respeita a ancestralidade, preserva o planeta e principalmente o solidarismo através do bem comum, do modo coletivo, do compartilhamento de sonhos e experiências existenciais. Não se render ao caos do modo de viver capitalista deve ser um dos principais objetivos do nosso povo.
 Temos a obrigação de dar continuidade aos pressupostos históricos e ancestrais que nos foram legados pelos mais antigos. Apresentar possibilidades de caminhos para transições virtuosas que pavimentem o solo que será cruzado pelas gerações futuras de negras e negros.
O sistema capitalista eurocêntrico nos exaure cotidianamente para que nossa postura nos espaços criativos de reflexão e lazer nos entreguemos à preguiça e ao apagamento do inconformismo. Assim nos desviam de nossa missão primordial que sempre será a rebelião e a libertação de nosso povo. O apagamento da chama libertadora e do nosso poder palmarino de rebelião é a grande aposta do capitalismo eurocêntrico, que vitoriosa gera mais miséria, opressão, tristeza e dor.
O capitalismo fez a trucagem de trocar a senzala pela favela para não arcar com o custo da manutenção do sistema escravista Na verdade em sua eficiência maquiavélica terceirizou a escravidão dos negros para os próprios negros A verdadeira abolição ainda está por se cumprir e portanto, abolir a escravidão contemporânea que tanto nos oprime e nos mantém cativos em um moto continuo de miséria e doença, faz parte do nosso compromisso com Palmares e todos os que tombaram lutando pela liberdade.
A escravidão moderna nos faz correr insanos, sem parar para pensar, nos ensinou a não-ler, não-ouvir e não-pausar a vida. O correr obrigatório passou a ser motivo de orgulho, com isso deixa-se de refletir sobre o próprio motivo que faz correr, sobre como lutar contra o sistema que noz faz ficar assim. É um modelo de escravização cruel e eficiente, onde o cativo se volta contra seu igual em defesa do primado de seu próprio opressor.
Precisamos voltar o olhar para o continente africano e rever nossas convicções acerca de nossa ancestralidade e nosso modo vida dentro do sistema capitalista. Há tempo para que possamos ressurgir como uma fênix negra alçada das cinzas das piras eurocêntricas e assim celebrar a saga de Palmares, louvar Palmares, eternizar Palmares, ter orgulho e amor por Palmares
Vamos retomar o oceano, não temer o oceano, passar a amar novamente o oceano que tanta tristeza e medo causou aos nossos ancestrais. Vamor retomar o oceano com as velas enfunadas da restauração, porque navegar é preciso. Navegar e mudar o modo de viver no mundo capitalista. A humanidade está destruindo o planeta de todos para fomentar a riqueza de poucos. Estão destruindo mares, rios e floresras em troca de dinheiro, de capital. Os povos negros e indígenas nunca destruíram a mãe natureza como os brancos agora fazem com esta sanha predatória e antiespiritual
Não conseguir ler uma frase de um texto é tudo que o sistema capitalista quer de nós. Não ter paciência para ouvir um áudio de bom dia é uma excrescência que o sistema nos doutrina Estão nos adestrando para que Nossos laços afetivos estejam contidos em emojis e memes e isso basta na sociedade doentia do deus capital. Seremos robôs humanos em um mundo sem face e sem amor. Um mundo onde ler um.livro tornou-se um pecado contemporâneo porque a vida que gera valor agregado e orgulho é a vida corrida, pois a pessoa que corre se orgulha de estar se comportando segundo as regras do mundo adâmico que reprova a quem reflete e transforma em aflições o deleite do usurfruto do tempo do prazer.

quarta-feira, 7 de junho de 2023

A Bolha Luminosa das Crianças Negras

Toda criança negra, como a maioria das crianças, recebe o novelo mágico da vida e passa a tecê-lo amorosamente, transformando seus fios luminosos em brilhantes e esperançosas teias existenciais. Essas crianças não sabem que por um motivo qualquer vieram habitar um mundo perverso e segregador. Não conseguem vê-lo, pois estão envolvidas em seus devaneios fantásticos, tecendo de maneira lúdica e inocente a maravilhosa teia da vida.
Esses fios luminosos são lindos entrelaçamentos espirituais e quânticos, frutos de suas inocências e do ambiente de uma bolha superprotetora criada por suas famílias.
Na medida em que crescem, essas crianças negras vão deixando aos poucos a bolha luminosa que vai perdendo sua luminosidade. Perdem-na lentamente, como o escorrer do tempo na ampulheta, lento, contínuo, inexorável e infinito. A luminosidade da criança negra é como um graal que lhe é transmitido através da herança ancestral. São culturas e modos de vida poderosos que possuem cosmovisão própria e bastante particular. O correto é que deveriam estar sendo envolvidas por esta cosmovisão dentro da bolha luminosa, mas não é o que acontece.
A bolha luminosa flutua em um tecido que funciona como um grande atrator, onde toda sua energia é sugada inexoravelmente, quando nem a luz que a compõe consegue escapar da singularidade.
Ao perder sua luz para o grande atrator, a bolha causa um profundo pesar naquelas crianças negras, que sem a luminosidade ancestral, são impedidas de verem a si próprias, como são seus ancestrais e suas culturas. Todo esse cenário é envolvido por esse mundo difuso e assustador que o grande atrator proporciona.
O mundo que a criança negra consegue ver à sua volta é lastreado pelos dogmas etnocêntricos do eurocentrismo, que impregna e confunde sua cosmovisão, fazendo com que seu universo de desejos e representações lúdicas fique restrito ao imanente mosaico da branquitude.
Enquanto se desenvolvem em seus habituais cotidianos, vai ocorrendo um adensamento do imaginário albínico que compõe o ambiente cognitivo dessas crianças. O mundo de fantasia que vivenciam, passa a ser permeado por referenciais positivados pelo processo da branquitude como anjos brancos, Deus branco, santos brancos, príncipes e princesas nórdicas, reis rainhas eurocêntricos, heróis e heroínas despigmentados, afetos, bondades, ética, compromisso com a verdade e cidadania legitimada, tudo referenciado pela matriz anglo-ibérica.
As crianças negras são introduzidas lentamente no espaço externo periférico da bolha já então não-luminosa e começam a perceber que o mundo não é tão irradiante quanto lhes fizeram parecer. Através de um processo planejado e cruel a sociedade etnocêntrica entranha-se no espírito da criança negra, sussurrando em seus ouvidos que o quanto é lindo é ser branco, lindo é o branco. Os comerciais de TV, os filmes e outras representações e manifestações culturais sempre produzem a catarse anímica do prazer referenciada no caucasianismo. Não existe caixa-branca e sim caixa-preta, a ovelha desgarrada é a ovelha negra, passado triste é passado negro e assim como outras referências deletérias em relação ao grupo étnico ao qual a criança negra faz parte.
Mais que ser submetida aos processos das propostas de branqueamento da pele, pintar e alisar os cabelos, utilizar roupas e acessórios diferentes dos de sua cultura, repudiar e amaldiçoar as práticas e manifestações religiosas, a sofisticação da impregnação do eurocentrismo vai até ao “ser mais profundo” das crianças, ao âmago dessas crianças, retirando-lhes a ancestralidade, a cosmovisão africana, seus referenciais pluriétnicos e multiculturais e sua essência unbuntu.
Ao abandonar o devir unbuntu e o conjunto de valores ancestrais que as orientariam na afrodiáspora, a criança ou jovem negro, segrega ao limbo valores culturais e existenciais africanos como a força comunitária e a vocação coletiva. Deixam de lado o poder e a necessidade do solidarismo ancestral em prol da competição, trocam o espírito da compaixão pelo desejo de vingança, abandonam o fortalecimento do grupo pela solidão egoísta da individualidade, abandonam a chama primordial do “todos serem um” enquanto que ser um significa ser todos, a chama visceral unbubtu onde finalmente trocam o “nosso” pelo “meu” e o “conseguimos juntos” pelo “venci sozinho”, que é o supra sumo do poder capitalista, a política do eu sozinho. Ao propor esta política o capitalismo repete o velho axioma de dividir para controlar, para governar.
Submetidas a esses bombardeios albinos diários, as crianças negras em suas fragilidades cotidianas passam a sentir desamor por si próprias. São tomadas por sentimentos de inferioridade e de negação das belezas de seus estereótipo físicos e de suas interjeições naturais. O sistema é perverso e além de deter o poder da comunicação na sociedade, diz como deve ser o modelo comportamental da juventude através dos meios de comunicação de massa como novelas, minisséries e programas de variedades. Utiliza também os canais de Internet para espelhar o modo de vida pelo qual os jovens devem orientar seus comportamentos. Esses referenciais estarão sempre focados no eurocentrismo e na branquitude, pois fazem parte do conjunto estratégico de dominação do capitalismo. Assim, sem ter referenciais que os posicionem na sociedade em que estão inseridos, as crianças e a juventude negra se tornam ectoplasmas geracionais, onde estão onde não deveriam estar pois são o que não deveriam ser.
O processo de parir esse novo “cidadão cordial” pode ser descrito como a retirada silenciosa da alma, do espírito livre, da iluminação do protagonismo. Um processo que descaracteriza crianças e jovens negros de suas cosmovisões, de suas culturas e de suas ancestralidades. Portanto, podemos considerar que a estratégia de transformar desde sempre gerações de negras e negros genuínos em “falsos meios brancos”, deve ser considerado como um crime de lesa humanidade. Crime sim porque corta violentamente o cordão umbilical epistemológico, que fazia a ligação irrigada com seus mundos, seu atavismo e seu antepassados.
Ao engendrar o frívolo processo de “falso reposicionamento étnico”, com a aquiescência ingênua de grande parte da juventude negra, a branquitude fortalece o pacto capitalista de dominação e opressão, que orienta as relações sociais e econômicas do nefasto poder político, regente das relações sociais e econômicas do país desde o período colonial. O intento nada mais é que a preservação do sistema escravista imperial que mantém acesa a chama da égide do antigo mercantilismo, aperfeiçoado pela sofisticação do capitalismo contemporâneo. Há muito afastados da bolha luminosa perdida resta à juventude negra tentar encontrar sua ressignificação no mundo branco que a envolve, que dela desconfia e que sempre terá um dedo em riste lhe apontando e acusando de alguma conduta inoportuna ou irregular. Impondo-lhe margens e balizas do mundo branco, normas da branquitude, leis feitas para segregar e atitudes de acordo com os modos opressores do sistema capitalista eurocêntrico.
Resta aos jovens negros a saberia de seus gritos. Nas têmporas grisalhas correm os rios de sabedoria onde devem navegar. O conhecimento acumulado na adversidade e na compreensão de viver em um mundo hostil geraram sabedoria e filosofia cotidiana de como sobreviver compartilhando o planeta com seres tão destrutivos. A mensagem será sempre a cultura da paz. O racismo e o preconceito são retrovalores de povos sem cultura, sem espiritualidade e sem amor. A solução para nossa juventude negra é se empoderar no amor, na força da cultura, na ciência da afrodiáspora, no pensamento decolonial africano, em todas as formas de resistência da não-violência.
No Brasil morre um jovem negro a cada 23 minutos. São mortes violentas que não deveriam acontecer. Estamos perdendo milhões de cientistas, pesquisadores, atletas, filósofos para a violência do cotidiano. Essa violência é gerada pelo capitalismo, que estimula cada vez mais a competição, que pretende lucrar cada vez mais com menos investimentos, que coloca máquinas no lugar do ser humano como opção laborativa.
A luta contra o racismo está diretamente ligada à luta contra o capitalismo. Os dois sistemas são siameses e um irriga o outro de maneira contínua. O racismo necessita do poder financeiro do capitalismo para construir o arcabouço jurídico que mantenha a população negra acuada e sem acesso ao poder enquanto que o capitalismo necessita do racismo estrutural para garantir a estrutura do sistema e o fluxo financeira que alimenta seus lucros 1ue irrigam a capilarização institucional que garante sua própria sobrevivência.
As bolhas luminosas continuam nascendo, brilhando, iluminando e fenecendo cotidianamente. Nossas crianças negras continuam sofrendo ao sair das bolhas luminosas e mais ainda, com a decepção do apagamento de suas luzes. As luzes são a igualdade, a felicidade comum, os espaços de todos e a pontificação da democracia na diversidade.
Para que nossas crianças e jovens possam crescer de maneira saudável e consigam ousar existir sem as armaduras internas que das quais são dotadas ao abandonar de vez o refugo de suas bolhas antes luminosas, será necessário um investimento incansável na transmissão do letramento racial, na decolonialidade, na ancestralidade, na cultura e filosofia umbuntu e por fim na desconstrução de uma África deletéria que nos é internalizada que gera baixa auto-estima e a remoção dos óbices que promovem a fuga de referenciais atávicos.
O primeiro grande passo foi dado há 20 anos atrás com a promulgação da Lei 10.639/03 que determina o ensino da história do continente africano, da cultura afro-brasileira e dos grandes vultos negros de nossa história. Porém não é suficiente, apesar de ser importante. Há que se fazer um vigoroso investimento na formação de docentes no que tange ao cumprimento do marco jurídico da Lei 10.639/03 para além de sua aplicação pura e simples. Caminhado par e passo com a capacitação de docentes, urge o fortalecimento dos Núcleos de Estudos Afro-brasileira e Indígenas – NEABI, no ámboro dos estabelecimentos de ensino.
Outro ponto de inflexão no pensamento da metodologia de educação racializada no ambiente escolar é construir o debate sobre a produção do livro didático no país, que ocorre através do programa governamenral denominado Programa Nacional do Livro e Material Didático, que anualmente distribui 170 milhões de livros didáticos para cerca de 50 milhões de alunos de todas as escolas públicas do país.
A produção dos materiais e livros didáticos que servem de suporte aos alunos das escolas brasileiras foi entregue pelo Ministério da Educação a um conjunto de editoras privadas que são responsáveis pela contratação dos autores e da produção de todo o material. Para que a transmissão do conhecimento requerido pela Lei 10 639/03 possa ser efetivamente assegurado, seria necessário uma ampla consulta nacional nas redes da educação básica do país. Talvez a partir de então as bolhas luminosas possam voltar a iluminar a consciência de nossas crianças negras, nossos jovens negros, que merecem respeito a ter uma educação digna e verdadeira da qual possam se orgulhar.

terça-feira, 23 de maio de 2023

Somos todos primatas: negros, brancos e todas as cores, por toda a eternidade


Somos todos macacos, porque 98,7% do nosso DNA é exatamente igual ao dos chimpanzés. Mas mesmo assim som3nte o negro acorda com o terrível despertar de carregar o fardo de sua existência desvalida, que o faz inferior aos brancos em uma sociedade racista. Uma sociedade onde ser branco é o paradigma factual que detém a pena da história e o poder. O negro sabe que assim que bater a porta e sair de seu lar estará entregue aos leões, aos dragões da maldade. O racismo lhe espera e estará à espreita em cada quarteirão, em cada loja, no metrô, na lanchonete, na farmácia e em todos os lugares por onde ele passe. O racismo é parte de sua existência. É um protoestado de destruição de almas, de demolição de edpíritos e de dissipador de alegrias, afetos e amores.
O racismo não é obra de Deus. É uma contrução do humano que reverbera o desumano. No racismo a bondade divina fenece e há a assunção do pérfido, do mau, do abjeto. O racismo é como o narciso ao contrário, onde os seus agentes, os racistas, repelem a si mesmo ao se verem confrontados com seu ethos diferenciado, sua representação transformada por adaptações climáticas. O racista não consegue suportar seus eus gritando por outras vidas, outras culturas e outros mundos. Ele não tem força para compreender que não consegue compreender o mínimo do básico da constituição humana na ocupação do planeta. Sente-se superior ompulsionado pela igignorânciq, pela inabilidade social com o diverso e pela capacidade de amar o próximo como o Cristo nos ensinou.
Cavalgando em sua enorme ignorância e tendo às mãos arreios beócios e inescrupulosos, gera óbices existenciais e com fervor disciplina sua reduzida capacidade de compreensão para a sedição antropológica. O racista é por natureza um ignorante, pois, repele a só mesmo quando comete atos racistas. Ao chamar o negro de macaco enquanto gesto de pretensa degradação humana, abre a caixa de Pandora do preconceito contra si próprio, pois de maneira inequívoca também é descendente dos símios.
Nós aforismos de “Humano Demasiadamente Humano”, Nietzsche nos traz à reflexão da prática do mundo, sem um Deus imanente, onde tudo, a vida e a cultura se resumem à simplicidade de simplesmente viver. O racista não consegue viver desse modo, ele precisa se emaranhar em complexidades existenciais toscas lastreada por signos inexistentes.
Quando uma platéia enfurecida através de um transe psicótico passa a ganir impropérios contra um jovem negro que é protagonista do espetáculo pelo simples fato de ser negro é porque ela é morta. Sim é uma platéia morta, morta e composta por ectoplasmas redivivos que se recusam celebrar a vida com todos os seus encantos, pois só conhecem a escuridão e o pavor das tumbas.
A platéia racista não pode permitir o brilho da vida, a celebração, a dança e o sucesso daquele jovem negro. Ela não consegue se enxergar nele, também pudera! Tão cheio de vida, músculos fortes e elásticos como de uma pantera begra, Rico, muito rico, vitorioso e usufruindo o sucesso e a admiração de todo o mundo devido ao que faz de melhor que é jogar futebol. Aquele jovem negro é como Michelangelo criando o teto da Capela Sistina, como Da Vinci pintando a Gioconda e Gaudí em sua interminável catedral.
Porém o jovem negro impiedosamente atacado pela turba racista responde como Picasso construindo Guernica. Constrói sua obra nos gramados de maneira impecável e ao mesmo tempo a destrói em pedaços para mostrar ao mundo a fragilidade humana representada pela violência.
O cientista senegalês Cheik Anta Diop, para inconformismo e fúria dos racistas comprovou através de estudos científicos consolidados que a espécie humana surgiu no continente africano. Sua tese de doutorado aprovada pela Universidade de Paris, foi transformada no livro “The African Origin of Civilization: Mith or Reality”, comprova que os egípcios eram um povo negro.
No livro “Os Condenados da Terra”, o Psiquiatra martiniano Frantz Fanon descreve um panorama devastador sobre os efeitos que o racismo causa na psiquê humana do negro. Fanon jamais ousaria imaginar que um jovem negro pudesse sofrer ataques racistas oriundos de uma multidão ensandecida nas arquibancadas do estádio. Se as ações sutis do racismo causam danos mentais, imaginem uma gigantesca plateia em um estádio em furia, o que não está ocasionando em um indefeso e imberbe jovem negro, que somente precisa exercer sua profissão que é jogar futebol.
Os europeus sempre trabalharam incansavelmente na consolidação de sua superioridade em relação a outros povos. Atuaram em todas as direções possíveis para garantir a comprovação de teorias do eugenismo. Lançaram mão de pseudo ciências como a Frenologia e a Craniologia, por exemplo, que vaticinavam a superioridade caucasiana baseada em diâmetros e volumes de crânios das diversas raças.
No campo da economia, houve a potencialização do Mercantilismo ou expansão do Capitalismo através das grandes navegações. Essas empreitadas coloniais visavam a expansão dos impérios português, inglês e espanhol, que para que pudessem dominar, explorar e escravizar os povos originários receberam da Igreja Católica a permissão para essas ignomínias, através da Bula Papal Dun diversas, emitida pelo Papa Nicolau V em 1452. A bula autorizava as expedições ultramarinas a invadir, dominar, tomar os territórios e escravizar até à morte todos os povos sarracenos e não cristãos. Obviamente que estavam mirando nos continentes africano, americano e asiático. A Dum diversas foi o documento da Igreja Católica que forneceu as chaves que abriram as portas do inferno para os povos africanos e americanos para sempre.
A partir de então as religiões de matriz africanas passaram a ser demonizadas, judeus e ciganos perseguidos pela “Santa Inquisição” e inaugurou o pior dos crimes que a humanidade já sentenciou que foi o colonialismo e a escravidão em massa de indígenas e africanos. São cerca de 100 milhões de vidas envolvidas nesses massacres, desde a Idade Média até o Holocausto Judeu na Segunda Guerra Mundial cometido pelo nazifascismo.
Bertold Brech disse em metáforas que quando a cadela do fascismo entra no cio sua sede de vingança e poder é incontrolável. A Europa não é racista mas os nazifascistas europeus são. Eles não admitem, baseados em suas teorias etnocentristas e eugenistas, que um jovem negro brasileiro de origem humilde se torne milionário e mais do que isso, uma estrela nos esportes de alto rendimento como é o caso do futebol. Não admitem a superioridade do negro. Nunca engoliram Pelé mas reverenciam Cristiano Ronaldo, desdenham Lewis Hamilton mas endeusam Michael Schumacher e assim por diante
O caso Vinícius Júnior mostra que a ferida continua latente sob as cicatrizes históricas do processo de descolonização e extinção da escravidão de seres humanos. Esse processo preconceituoso somente chegou a esse ponto porque as Nações Unidas e as grandes potências estão voltadas para a circulação de capital e não para o bem estar da humanidade. Albert Einstein disse que é mais fácil quebrar o átomo que quebrar um preconceito. A ONU criou e incluiu em seu organograma o “Fórum de Afrodescendentes”, que pode ser um bom caminho para que se possa iniciar um processo global de educação antirracista e penalização dos atos de racismo.
Esse modelo neofascista europeu que nos assusta é o mesmo que erigiu o Terceiro Reich e a ascensão de Hitler ao poder. Ele também está aqui no Brasil, onde políticos se referem ao peso de negros em arrobas, como gado. Quando negros e negras são retirados de aviões sem um causa específica, quando um músico e sua família são metralhados por 80 tiros em uma tarde de domingo e quando um menino negro perde a vida ao cair do nono andar de um prédio, porque a madame que era responsável por sua segurança estava fazendo as unhas.
A tarefa para enviar os ratos de volta ao esgoto de onde vieram é enorme. Deve começar em cada casa, depois em casa esquina, bairros, cidades e países. Apesar do conceito biológico de raças ter caído por terra, o conceito social e político ainda é mantido. Precisamos nos organizar cada cada vez mais para que as futuras gerações negras não passem e não sofram a dor desse crime hediondo que é o racismo.

terça-feira, 16 de maio de 2023

A Importância do Letramento Racial Para a Construção de Uma Nova Sociedade


 


O conceito de letramento racial é oriundo da expressão inglesa “racial literacy”, criada pela socióloga estadunidense France Winddance Twine em 2003. Segundo Lia Vaine Schucman, doutora em Psicologia pela USP, que traduziu o termo, o letramento racial está relacionado com a necessidade de desconstruir formas de pensar e agir que foram naturalizadas. O letramento propõe a racialização das relações entre brancos e negros, visando a reeducação e o fim do estabelecimento arbitrário de direitos e lugares hierarquicamente diferentes para brancos e não-brancos, que legitima uma pretensa supremacia do branco.”

Nos anos 90 o jornal Folha de São Paulo publicou uma pesquisa que ficou marcada nos debates sobre a temática racial brasileira. A pesquisa apontou que 90% das pessoas entrevistadas afirmaram conhecer pessoas racistas e reconheciam a existência do racismo, afirmando porém enfaticamente que não eram racistas de jeito nenhum. Esse resultado aponta para uma falta de compreensão acerca do que seja o racismo e suas mais nuances mais sutis. O racismo é um sistema perverso que opera diuturnamente para a promoção de um contingente étnico em detrimento a outro. No caso brasileiro toda a estrutura do estado é voltada para a promoção da população branca, secundarizando em todos os aspectos os modos de promoção da população majoritária do Brasil que é a população negra.

A construção do racismo no tecido social brasileiro foi alinhavada na Europa quando tiveram início as grandes navegações do mercantilismo no século XIV e se desenvolveu mais ainda empurrada pelos ventos da Revolução Industrial em suas duas mais importantes versões. Apesar do Iluminismo ter colocado suas lupas estimulando o fim da escravidão, foi inevitável a divisão do mundo em raças, com a contribuição da antropologia física surgida no século XVIII, que focalizou seus estudos em esqueletos humanos. Essa nova perspectiva da ciência visava apresentar o resultado de observações fenomenológicas da evolução e da variabilidade humana. Após inúmeras descobertas de novos territórios e suas populações houve a necessidade de classificação pelos naturalistas desses seres humanos do passado em seus espaços geográficos.

As raças geralmente foram classificadas de acordo com suas localizações geográficas, devido aos fatores climáticos que produziram suas diferenças. Mas os europeus sempre se declararam diferenciados, baseados em sua cultura e em uma pretensa erudição em relação aos povos africanos e asiáticos, onde a escolástica, por exemplo, se referenciava a eles como gentios ou bárbaros, como os romanos se referiam aos povos saxões. Os europeus consideravam os traços africanos brutos e primitivos, e portanto, não atraentes, frutos de uma civilização bárbara e não civilizada. A partir desse ponto foi estabelecida uma hierarquia que privilegiou a ambição do colonialismo gerando teorias científicas que justificavam a invasão de territórios e dominação de populações autóctones.

O estudo morfológico e métrico do crânio através da craniologia, foi iniciado por Blumenbach (1752-1840) onde a morfologia do crânio começou a ser usada sistematicamente como parâmetro para determinar a raça de origem de um indivíduo.

Esse tipo de estudo foi o fator principal para que através de suas concepções, houvesse uma hierarquia social baseada em padrões como “crânio alongado” “globular” entre outras definições, que demonstravam a hipointelectualidade cognitiva dos povos africanos e asiáticos. A partir desse momento foi criada e consolidada pelos europeus a hierarquia social e cultural entre os grupos humanos.

A metodologia de Blumenbach transversalizou as características osteológicas do século XVIII e foi seguida por Franz Joseph Gall (1758-1828) que afirmava que as características cranianas correspondia a certas características cognitivas e intelectuais. A partir de então nasce a Frenologia, uma pseudo ciência que sugeria que a protuberância na cabeça dos seres humanos determinavam seus traços e caráter. Na era vitoriana inclusive, as cabeças eram usadas como modelos de leitura para aferição de personalidade. A Frenologia foi utilizada como forma de racismo científico para consolidar práticas e políticas opressoras contra povos originários.

A Frenologia foi contestada seriamente por grande parte dos pesquisadores da época. A ideia de raça também sofreu críticas devido ao imenso conjunto de parâmetros que combinavam inúmeras características e não somente à seleção ambiental que acentuava certas características fisionômicas como cor da pele, cabelos, olhos e formato do crânio. Em 1994 a Associação Antropológica Americana abandonou o conceito de raça por falta de embasamento científico. Para se afastar da conotação social da palavra "raça", a ciência precisou modificar sua maneira de se referir às populações humanas e aceitar a existência de uma única espécie que passou a ser designada como Homo Sapiens.

A definição biológica de raça passou por intensos estudos e testes no campo da antropologia molecular em 1972 por Richard Lewontin da Universidade de Harvard que fez um exame detalhado das proteínas do sangue de populações diferentes. Os resultados não apresentaram diferenças significativas entre todos os pesquisados. Também foram realizados estudos tendo como base a sequência base do DNA de diversas populações onde o resultado mostrou que 99,9% das amostras são idênticas. Esses resultados colocaram por terra o conceito biológico de raça e soergueram o conceito de ancestralidade que tem uma dimensão mais holística e social.

Com o conceito biológico de raças pulverizado, restou aos movimentos sociais de direitos humanos e de combate ao racismo apontar para as assimetrias sociais que essas teorias científicas eugênicas causaram às populações negras do continente africano e da afro diáspora. Consequências deletérias que proporcionaram terríveis genocídios e perpetuações de opressões durante muitos séculos. Há porém uma armadilha embutida no conceito de não-raças, pois, a assertiva em torno do termo ‘raça humana’ dilui e mascara as construções do racismo estrutural. Para um racista nada melhor que se trabalhar o conceito de raça humana, pois fica eliminado o “fator melanina” que incomoda demais os racistas e absenteístas do tema.

O Letramento Racial é a ferramenta que nos coloca de maneira crítica e empoderada entre o fator biológico e o fator social no que tange à luta antirracista e a promoção de populações negras. Não somente desconstruir o racismo mas também elaborar práticas antirracistas. O Letramento Racial é composto por um conjunto de práticas que propõem a capacitação de pessoas que possam avaliar e contestar as práticas do racismo estrutural e suas derivações contidas no âmbito da discriminação racial e suas manifestações no cotidiano da sociedade.  Apesar de ser um conjunto de práticas de fácil compreensão, o letramento adquire contornos complexos quando se depara com a subjetividade do racismo na sociedade brasileira. Há uma gama de estudos e reflexões sobre os processos históricos que culminaram com a construção social do racismo, a ancestralidade e cosmovisão da população negra, da diversidade étnica, da multiculturalidade africana e da afro diáspora.

O letramento pode ser considerado um processo de reeducação racial, fomentado com o intuito de promover a desconstrução da naturalização do racismo nas suas mais diversas formas de manifestações. Essa desconstrução passa pela clivagem tanto da população branca que opera em seu contexto de se imaginar uma raça superior, como pela população negra na direção de desconstruir a naturalização do cotidiano racista.

Denominou-se chamar branquitude à construção da identidade racial branca. Essas construções acontecem nas sociedades onde o racismo estrutural identifica as pessoas pela cor da pele com o conceito da superioridade da raça branca. Como é considerada superior, pode ser excluída do conceito de raça, pois, por ser superior é humana. Uma pessoa branca não pensa em conceito de raça pois não precisa dele. Nas sociedades contemporâneas ser branco é o paradigma natural e por ser assim podem ‘jogar’ com o axioma de que somos todos iguais. Então os brancos não se deparam com a qualidade de ser branco pois a tensão racial está sempre colocada sobre o contingente negro da população. Uma pessoa branca vive sem pensar em sua condição racial, enquanto que uma pessoa negra não se descobre negra mas é apontada por sê-la. Por isso o letramento torna-se necessário para que tanto pessoas brancas quanto negras saibam como podem conduzir suas ações compreendidas na complexa dialética racial.

O sistema capitalista é pela própria origem opressor e excludente. O sistema nasceu nas fraldas da Frenologia e no campo social não sofreu grandes alterações desde então, onde a etnia branca comanda os meios de produção sendo detentora do capital e do poderio econômico, enquanto negros e negras vendem sua força de trabalho por um valor simbólico, apenas suficiente para que possam sobreviver, sem as mínimas condições de poupança e de qualquer acumulação de bens ou capital. O capitalismo encontra sustentação na configuração patrimonialista do estado brasileiro, onde todo o sistema político é assentado nas bases do colonialismo e ainda comandado pelas mesmas famílias que ocuparam as capitanias hereditárias. O racismo estrutural criou um modelo de desenvolvimento somente voltado para a etnia branca e esse molde se reprograma e se reproduz, garantindo poder político e poder econômico a este contingente humano.

É uma falsa ideia de democracia, onde o pretenso modelo representativo, quer nos convencer que o povo decide os destinos da nação através de seus representantes. Pura ilusão, o poder econômico financia a maioria das campanhas políticas ao parlamento brasileiro e seus parlamentares eleitos são obrigados a seguir a cartilha do seu mecenas e financiador, que obviamente não pensa nos direitos constitucionais da população pobre, quanto menos da negra.

O racismo estrutural não permite que se aponte o racismo em nossas escolas. As aulas de História do Brasil, com raríssimas exceções, são eivadas de datas e vultos históricos, passando ao largo de todo o processo mercantilista europeu e sua invasão dos continentes africano, caribenho e sul americano, assim como a sofisticada tecnologia metodológica empregada no comércio triangular e no tráfico transatlântico de milhões de africanos escravizados. Esses eventos são ocultados e criam um limbo difuso nas cabeças de nossos estudantes acerca da ancestralidade de alguns e da formação da nação brasileira por todos. A negação da história sobre a violência sobre as mulheres negras e a designação dos africanos escravizados como seres sem alma, inclusive pela própria Igreja Católica. Caio Prado Junior em seu livro “Formação do Brasil Contemporâneo”, registra a situação de submissão a que eram submetidas as mulheres negras escravizadas. De acordo com Junior (1961, p .342): “...a outra função da mulher escrava era ser instrumento de satisfação sexual das necessidades sexuais de seus senhores e dominadores, não ultrapassando o nível primário puramente animal do contato sexual. Não se aproximando senão muito remotamente da esfera propriamente humana do amor”. (Junior, 1961, p.342)

A omissão desses fatos reais servem como um biombo antropológico que oculta a verdade histórica e garante a sobrevivência do sistema capitalista com suas opressões.

O conceito de letramento compreende um estágio superior à alfabetização. O Letramento Racial pode contribuir de maneira direta na Educação, promovendo o desenvolvimento cognitivo da comunidade escolar, criando um ambiente rico em assertividade no que concerne aos debates sobre a temática racial.

O Letramento Racial nos mostra como as relações raciais transformam a sociedade e como essas relações são transformadas por ele. Para que possamos estabelecer essa prática na escola é necessário compreender a necessidade de uma (re)educação antirracista. Segundopara tirar essa ideia do papel nas instituições de ensino. Segundo Rodrigues (2017): 

1. É fundamental que as escolas se comprometam com as leis n° 10.639/03 e a 11.645/08, abordando a história e as culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas de forma orgânica e sistemática – para além de datas comemorativas – em todas as esferas da vida escolar; 

2. Os currículos precisam ser discutidos e atualizados para colocar perspectivas pretas em evidência. É preciso incluir autores que representam a perspectiva africana e afro-brasileira em diferentes áreas de conhecimento. Também é urgente ler sobre distribuição de renda, escolaridade e moradia da população preta. Perceber que identidades raciais são construídas e conhecer a História são ações fundamentais para enfrentar o racismo e o preconceito; 

3. Como professores e gestores lidam com manifestações racistas no espaço escolar? Elas são explicitadas? Discutidas? A escola investe na formação dos docentes para abordar relações étnico-raciais? Pesquisas e estudos sobre essa temática precisam ser referenciais para toda ação docente; 

4 . Cabe à escola apresentar aos estudantes a diversidade não apenas de textos, de temas, mas também de concepções de mundo, de modos de fazer e de dizer. Assim, é fundamental que as escolas incluam autores e intelectuais pretos em suas bibliotecas e atividades de sala de aula. Qual o lugar destinado às práticas de oralidade, tão importantes para os povos africanos e para nós, brasileiros?

Os currículos precisam ser discutidos e atualizados para colocar perspectivas pretas em evidência. É preciso incluir autores que representam a perspectiva africana e afro-brasileira em diferentes áreas de conhecimento. Também é urgente ler sobre distribuição de renda, escolaridade e moradia da população preta. Perceber que identidades raciais são construídas e conhecer a História são ações fundamentais para enfrentar o racismo e o preconceito; 

Como professores e gestores lidam com manifestações racistas no espaço escolar? Elas são explicitadas? Discutidas? A escola investe na formação dos docentes para abordar relações étnico-raciais? Pesquisas e estudos sobre essa temática precisam ser referenciais para toda ação docente; 

Cabe à escola apresentar aos estudantes a diversidade não apenas de textos, de temas, mas também de concepções de mundo, de modos de fazer e de dizer. Assim, é fundamental que as escolas incluam autores e intelectuais pretos em suas bibliotecas e atividades de sala de aula. Qual o lugar destinado às práticas de oralidade, tão importantes para os povos africanos e para nós, brasileiros?

O letramento nos auxilia na medida em que demonstra que o racismo não é uma coisa do passado, que não terminou com a Lei Áurea. O sistema de exploração continua só que agora amparado na lei e sob o nome de democracia. A democracia que destinaram aos negros é um engodo, assim como na Caverna de Platão, onde sombras são projetadas nas paredes da caverna e aquelas sombras significam a verdade. Em nossa sociedade funciona mais ou menos assim, eles mudam as leis e os procedimentos para que tudo continue do mesmo jeito que sempre foi. Podemos citar como exemplo algumas leis de inclusão, onde os negros conseguem ocupar certos espaços mas está sob um teto de vidro, onde vê os andares superiores mas não consegue atravessar a barreira de vidro.

As pessoas não nascem racistas elas se tornam racistas. Ou por aprendizado ou por osmose situacional, onde a criança branca acostuma a naturalizar a presença de negros em posições de inferioridade profissional em seus ambientes sociais. Com o tempo torna-se estranho encontrar uma pessoa negra no mesmo patamar de uma pessoa branca e alguns casos, onde seus ambientes sejam mais conflagrados ela passa a odiar as pessoas negras, sem ao menos saber o porquê. Enquanto isso, nesse mesmo universo, a criança negra cresce com a subalternidade gerenciando seus olhares e suas percepções. Aos poucos vai cristalizando em sua personalidade que esta situação é natural, que deve ser sempre dessa maneira. E com o tempo passa a adotar a máxima que diz “eu sei onde é o meu lugar”.

Negros e negras são obrigados a conviver como referência do lado negativo das coisas e se tornarem indicadores negativos à sua própria origem como “caixa preta”, “passado negro”, “lista negra”, enfim, nada que possa elevar sua autoestima. Pelo contrário, ele pode se tornar um “negro de alma branca”, ou seja, uma pessoa negra obediente aos códigos da casa grande e ao sistema. Caso a pessoa negra se insurja contra essas expressões, os códigos racistas entram imediatamente em ação acusando-a de racista ao contrário.

Para organizar o conjunto de ações que podem compor o Letramento Racial é necessário que se faça algumas análises de cunho histórico, principalmente sobre a motivação da empresa colonial portuguesa em caçar africanos livres e trazê-los escravizados para o Novo Mundo. Pesquisadores apontam que o estopim que iniciou o tráfico negreiro em grande escala foi a Bula Papal Dum diversas, emitida em 18 de junho de 1452 pelo Papa Nicolau V, dirigida ao Rei Afonso V de Portugal com o seguinte conteúdo: (…) nós lhe concedemos, por estes presentes documentos, com nossa Autoridade Apostólica, plena e livre permissão de invadir, buscar, capturar e subjugar os sarracenos e pagãos e quaisquer outros incrédulos e inimigos de Cristo, onde quer que estejam, como também seus reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades (…) e reduzir suas pessoas à perpétua escravidão, e apropriar e converter em seu uso e proveito e de seus sucessores, os reis de Portugal, em perpétuo, os supramencionados reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades, possessões e bens semelhantes (…).  A bula autorizava os portugueses a conquistar novos territórios não cristianizados e consignar à escravatura perpétua todos os não-cristãos que fossem encontrados nas navegações lusitanas. Em 8 de janeiro de 1554, estes poderes também foram estendidos aos reis de Espanha.

Levando em consideração que nesse período a Igreja Católica possuía enorme influência sobre os governos, podemos aferir que ela tem grande responsabilidade no genocídio que foi perpetrado contra os povos africanos.

É ilusão acharmos que a simples configuração do letramento irá superar 500 anos de consolidação de um sistema institucional opressor. As raízes do racismos estão solidamente assentadas no seio da sociedade desde quando a igreja católica se uniu às coroas portuguesas e espanholas na escravização de indígenas e africanos na construção e exploração do Novo Mundo.

A luta contra o racismo é cotidiana. Nós o povo negro, somos o povo da migração forçada que constituiu a afrodiáspora. Somos o povo do banimento, quando nos empurram para as facetas mais sombrias da sociedade. Somos os Sísifos de ébano contemporâneos, que todos os dias precisam recomeçar a vida, lutando para encontrarmos nosso espaço, sermos reconhecidos, sermos aceitos, e amados, mas sempre será em vão porque o paredão da branquitude traz em si grafitado o estigma da frenologia, da bula papal Dum diversas, das construções eugenistas de Nina Rodrigues influenciadas pelo ideário do criminólogo italiano Cesare Lombroso. Somos reféns da teoria da democracia racial e da visão enviesada de Gilberto Freyre, que preconizava a interação virtuosa entre a casa grande e a senzala. Nós os negros que lutam somos invisibilizados, porque a casa grande quer o negro que dorme no porão e não e o negro que vive livre no quilombo. Querem que vivamos na Caverna de Platão sendo iludidos pelas chamas do capitalismo e da branquitude, nos querem contritos e de joelhos pedindo perdão por nossos pecados, sendo que os pecadores são eles.

O Letramento Racial não é apenas um conjunto de regras e normas operacionais. É muito mais que isso, é a chama da nossa ancestralidade clamando por justiça. São heróis e heroínas de Palmares e de todos os quilombos gritando por justiça, são os marinheiros de João Cândido mortos no cárcere, é Moa do Katendê e Marielle Franco tombados na urbe, são os malês revolucionários de Luiza Mahin.                                           

O letramento racial tem que viajar nos trens lotados, nas filas dos hospitais públicos, nos becos e vielas das comunidades. Deverá servir como instrumento emancipatório para o negro e civilizatório para o branco. Construirá com seus mecanismos um novo devir histórico, onde a paz, justiça Social e igualdade sejam as mais altas bandeiras de uma nova sociedade brasileira.

sábado, 13 de maio de 2023

O Colorismo Racial Brasileiro

O colorismo racial refere-se à discriminação e à preferência por pessoas com base em sua tonalidade de pele, geralmente dentro da mesma raça ou etnia. O colorismo pode ser percebido em diferentes contextos sociais, desde as relações interpessoais até as políticas públicas e as mídias. A preferência por pessoas mais claras de um mesmo grupo racial. Em outras palavras, a discriminação não é baseada na raça em si, mas na cor da pele dentro dessa raça. É comum que as pessoas mais claras de um grupo racial sejam valorizadas no sentido de terem mais oportunidades e serem vistas como mais atraentes e inteligentes, enquanto as pessoas mais escuras sofrem discriminação e são vistas como menos atraentes e menos inteligentes. Esse fenômeno é comum em todo o mundo e pode ser observado em diferentes culturas e grupos raciais. O colorismo racial é uma forma insidiosa de preconceito que pode contribuir para a desigualdade social e prejudicar a autoestima e o bem-estar emocional das pessoas que são alvo dessa discriminação.
O colorismo no âmbito da população negra funciona como um instrumento ideológico de assimilação, controle, cooptação e anti insurrecional. O capitalismo utiliza esse mecanismo diuturnamente contra a organização da população negra, visando seu controle e consolidando sua política de opressão.
E o sábio griot africano disse: “Os brancos chegaram em seus barcos que traziam a cruz de Cristo nas velas. Também trouxeram a Bíblia Sagrada e nos ensinaram a rezar de olhos fechados.
Nós tínhamos a terra, toda a terra, uma imensidão de terras. E então começamos a rezar com os olhos fechados. Quando finalmente abrimos os olhos, tínhamos então a Bíblia Sagrada e os brancos a terra.”
Assim começa a história do colorismo. Com os brancos convencendo os negros que o Filho de Deus é branco e sacrificou a própria vida para salvar a humanidade. Todos os santos mártires eram brancos e finalmente Deus também é branco. A ideia da divindade branca não considerou ao menos o sincretismo. O continente africano possuía sua própria cultura, sua própria religiosidade, seus deuses, seus orixás e o culto aos orixás.
Os brancos chegaram em suas embarcações trazendo um livro que diziam conter a salvação e através dele e em nome dele se apoderou de nossas terras com todas as riquezas contidas nelas e escravizou nosso povo.
Os brancos trouxeram tristezas e desgraças. Levou nosso povo embora em seus barcos, acorrentados nos porões de seus barcos, os pérfidos navios negreiros, transportadores de carga humana negra, escravizada até a morte para construir outras nações para os brancos que nos convenceram que aquele livro que contava a estória de um carpinteiro crucificado era a nossa salvação. Nós éramos 90% e eles 10% mas mesmo assim nos controlaram e nos dividiram em 10 partes de 9% e aos poucos, lentamente, os 10% passaram a controlar e comandar todos os 9%, fazendo-os inimigos uns dos outros, estimulando a sedição, as guerras tribais, o ódio e a morte.
Então o continente africano foi dividido pelos brancos entre eles próprios, que nós considerava bárbaros, povos bárbaros e selvagens. Através da Bíblia Sagrada e do Cristianismo, em nome deles, nos impuseram outras culturas, outros deuses, outras religiões e até outro jeito de amar.
Os brancos trouxeram em seus barcos o egoísmo. A propriedade privada individual, o fim do coletivo, pulverizando o umbuntu, onde tudo é de todos e todos somos um. Os brancos também transformaram nossa relação com a mãe natureza. Passou a destruí-la e levá-la embora em suas embarcações. A terra, nossa mãe terra, era violada, revolvida, escavada na busca insana por metais e pedras que constituíam riqueza e poder no mundo dos brancos, do outro lado do oceano.
Eles nos dividiram para que pudessem reinar, comandar e nos escravizar. Com a Bíblia Sagrada e outro modo de vida transformou a alegria em tristeza, o coletivo em individual, o compartilhamento em egoísmo e a liberdade em escravidão.
Os brancos nos aprisionaram em suas masmorras. Nos impuseram os mais duros castigos e violentaram nossas mulheres.Aprisionaram e venderam nossos filhos como escravos, pulverizaram nossa ancestralidade e sempre com a Bíblia Sagrada à frente, em nome do Filho de Deus branco, nos ensinou a nos dividir, a lutar entre nós mesmos, nos separar por pequenas diferenças, nos transformar em mensageiros das tormentas para então poder nos oprimir e nos escravizar em paz.
O branco considera o negro da pele preta, retinta, um fruto dileto e legítimo do amor mais puro entre duas pessoas negras. Enquanto que para o branco, o pardo é a mais direta representação do pecado, o fruto do pecado gerado pela lascívia da carne e do hedonismo sensorial que compõem o imaginário coletivo do universo afetivo entre brancos e negros.
O pardo é o fruto do pecado moral oriundo da cópula entre duas dimensões raciais e sexuais inconciliáveis. Os negros para os brancos são os filhos de Cam, os renegados por Deus e portanto não devem copular com brancos, pois assim causam a degeneração da raça adâmica. Nascer pardo é uma condição estranha de estar emparedado entre dois mundos que não o aceitam. Um pela degeneração racial e outro pela subjetividade existencial. Sim, subjetividade, pois, para o negro retinto o pardo pode ser um oportunista racial por conter componentes ibéricos em sua constituição racial.
O pardo se mantém atirado nos paredões do destino desses dois mundos, mesmo que amando os dois, nunca será reconhecido como parte dos dois. Ao nascer portando sangue negro já traz consigo o estigma da rejeição e por trazer sangue branco desperta entre os prováveis seus o alerta da competição desigual entre os desiguais.
O estigma da rejeição é o sinal que a civilização emite para o pardo invasor de etnias. Se a mulher é branca e o homem é negro o pardo é fruto de uma relação sodomizada e se o homem é branco e a mulher é negra o pardo é o resultado de uma relação de cama e mesa. Então se torna uma existência pária, de merda, onde não há o peito amigo de irmão de raça que ofereça acolhimento. O pardo na verdade é considerado um trânsfuga interétnico, uma falha atávica ou um processo natural de albinismo enviesado.
O capitalismo no intuito de controlar a maioria através de sua minoria, propõe uma parceria subjetiva através da construção de um espaço de tolerância subrreptício entre seus mecanismos de controle e opressão e os negros mais miscigenados. Esse contingente de pardos, que são mais de 40% de nossa composição demográfica, ou seja, 90 milhões de seres humanos, constituem o ponto de inflexão necessário para o estabelecimento da aliança interracial que estabelece a política da pigmentocracia, onde quanto menos retinta a pele mais benefícios podem ser alcançados por esse contingente étnico construído.
Ao consolidar a aliança com os pardos, o capitalismo opera intensamente através do materialismo dialético, gerando campos de progressão social antes sempre vedados aos negros retintos, enquanto que ao mesmo tempo despeja água fria no caldeirão racial que ameaçava entrar em ebulição.
 Não existe um meio branco mas existe o meio negro. Aquela estória do copo meio cheio ou meio vazio. No nosso caso o corpo meio cheio ou meio vazio de melanina define a alteridade social que a pessoa irá viver.
A pigmentocracia é mais conhecida como colorismo racial, ou simplesmente colorismo. Foi um termo cunhado em 1982 pela escritora norte-americana Alice Walker, em seu livro “In Search of Our Mothers’ Gardens”. O termo se refere à discriminação ou preferência no benefício ou preterimento de indivíduos referenciada na cor da pele. O colorismo é um tipo de racismo refinado onde negros de pele mais clara, fruto da miscigenação com a etnia branca, ou pardos, como são chamados, se tornam beneficiários dos restolhos sociais e econômicos que os brancos atiram no chão a partir do banquete antropológico da branquitude.
O processo é perverso, pois cria um cenário de transformação fenotipica com a utilização de processos químicos para alisamento de cabelos, cirurgias para afilamento de varizes e lábios e talvez o mais cruel que é o abandono da ancestralidade africana em detrimento de uma descendência europeia amaldiçoada e rejeitada pelos caucasianos. Os pardos beneficiados pelo colorismo se contentam com as migalhas que lhes são atiradas pela burguesia branca. O contentamento precisa ser visível, para que assim possam comprovar, que através de um machado epistemológico, cortaram para sempre as raízes de suas ancestralidades africanas.
Obviamente que a raça negra é o centro da autofagia colorista, pois é o grande centro emulador da rebelião. O processo ideológico do colorismo visa além dos cabelos alisados e lentes de contato verdes, a adoção de comportamentos culturaus alienígenas, onde a rejeição aos seus iguais passa a constituir um mosaico difuso, caótico e desagregador. Dessa maneira o capitalismo reproduz a mesma ideologia do colonialismo com os requintes das características diaspóricas.
No continente africano as mulheres utilizam cremes clareadores de pele, destarte a carga cancerígena que carregam. Na diáspora as mulheres negras beneficiadas pelo colorismo já possuem a pele mais clara, mas repetindo, se submetem a procedimentos cirúrgicos estéticos para se aproximarem ainda mais dos ideais da branquitude.
Talvez a face mais eficiente do racismo seja aquela que faz o negro não se amar. Além de eficiente é perversa pois causa tristeza e dor. É um remédio amargo que adoece em vez de curar nossas feridas ancestrais.
Ao não se amar por estar se referenciando em matrizes caucasuanas o negro destrói através dos tempos seu próprio ethos constitutivo, desamando a si e à sua comunidade negra.
É um processo violento pois passa por duas grandes calamidades antropológicas. A primeira é o corte epistemológico que ocorreu na sua ancestralidade genealógica, quando suas origens foram perdidas pela escravidão. O negro não sabe onde está a aldeia dos seus antepassados, não pode cantar as canções de glória e vitórias de seus antepassados. É um filho do nada, de uma África gigante com 54 países e centenas ou milhares de etnias, línguas e culturas. O negro jamais saberá de onde vieram seus ancestrais, é um ser sem passado ancestral definido. Por isso todos se referem ao continente africano de uma maneira geral, pois não conhecem a aldeia de onde seus ancestrais são originários. Está é a primeira violência, a retirada da origem, o apagamento do passado. Os italianos, alemães e japoneses, por exemplo, comemoram suas datas especiais, com canções e culinárias de suas aldeias. Comemoram seus ancestrais pioneiros e dançam alegres em homenagem ao passado. Ao negro não foi permitido esse tipo de comemoração. Restou-lhe uma África multifaceada para cultuar, é isso ou nada.
A segunda violência que o negro sofre é seu enquadramento em um modelo social onde ele sempre será a possibilidade de um crime, de uma ilicitude ou então de subcidadania. O negro ao nascer traz no verso da certidão de nascimento o carimbo de incapaz selado pela branquitude. Passará o resto da vida sendo vigiado pelos olhares sempre atentos dos brancos. Pode ser um menino negro no sinal, um pedinte nas ruas, um negro em situação de miserabilidade, sempre serão olhados com desconfiança. Mesmo os negros integrados social e economicamente ao modelo social vigente, sofrem discriminação nas portas de entradas dos bancos, nos embarques de aeroportos e nas blitzes policiais nas ruas das cidades.
O sistema capitalista e o racismo estrutural são cruéis com o povo negro. Por isso a grande maioria não quer ser parte desse drama existencial. Preferem aderir à branquitude mesmo que de maneira canhestra e às vezes até caricata quando alisam e pintam os cabelos de loiros e usam lentes de contato verdes ou azuis.
A utilização de terno e gravata é uma forma de capitulação ao modelo amalgamado pela branquitude. A negação às raízes culturais africanas em prol de um modo de cultura europeu, demonstra que a branquitude é mais forte que a ancestralidade. Óbvio que existem bolsões de resistência geralmente ligados ao movimento social negro organizado. Porém não refletem a grande maioria da população negra nacional.
Essas violações que o negro sofre desde o útero de sua mãe, fará com que se torne um ser inquieto e só mesmo tempo soturno, pois sabe muito bem que a sociedade não lhe ama, pelo contrário, a sociedade vigia seus movimentos.
O colorismo trabalha com essa inconsistência emocional do negro e procura se aproveitar da situação, tanto na continuação da opressão sobre os negros retintos como na cooptação dos pardos em um movimento ideológico de constituição de maioria demográfica voltado para a consolidação do poder político e também como construção de uma força contrarrevolucionária de opressão à minoria retinta.
O movimento ideológico do colorismo visa a fragmentação do povo negro. A branquitude repete o mesmo modelo colonial empregado em África e nas colônias onde eram minoria e para controlar a maioria precisavam dividir para reinar.
O colorismo é um grande malefício engendrado no seio da comunidade negra. Assim como foi feito na comunidade negra dos Estados Unidos quando o movimento dos Panteras Negras teve seu apogeu. A branquitude injetou drogas na comunidade negra visando seu enfraquecimento e por conseguinte conseguir atingir o controle absoluto que os Panteras Negras tinham da vida comunitária do povo negro.
Os negros precisam se organizar como não brancos, independente da cor da pele. Se não é branco, branco não é, então é negro. Negro faz luta de negro, pois o branco não precisa fazer luta racial na medida em que se tornou o padrão, o paradigma civilizatório de ser humano. Querendo ou não ainda sofremos os efeitos da bula papal “Dum diversas” de 1452, que nos considerou seres sem alma, brutos, bárbaros, gentios, pagãos e inimigos de Cristo.
Precisamos lutar juntos como fazemos todos os dias. O branco acorda e vai viver sua vida, enquanto que o negro acorda e precisa lutar contra o racismo todos os dias. Se não é uma condenação é uma expiação, pois a luta é eterna, até o fim da vida.
Vamos varrer de nossas vidas de negros e negras esse embuste denominado colorismo. Junto com outros grupos humanos como indígenas e asiáticos, coexistem brancos e negros. Branco é branco e negro é negro, o resto é pura imaginação capitalista.

segunda-feira, 1 de maio de 2023

O Quartinho de Empregada e o Sonho de Laudelina

A mulher negra passou a vida no quartinho de empregada. Chegou ainda jovem na família abastada para prestar serviços de doméstica. Durante quarenta anos viveu no confinamento do quartinho de empregada. Pelo menos três gerações daquela família receberam seus cuidados. Ela sabia dos seus desejos, das manias, das malcriações, dos amores, dos casamentos e dos filhos e filhas que surgiram em profusão com o passar do tempo. Nunca se casou, não tinha tempo para namorar e nem se animava para se enfeitar, quanto mais ter um homem para engravidar e deixa-la sozinha com uma criança de colo. Sua vida sempre foi servir com eficiência ao núcleo familiar que a contratara e exigia sua atenção diuturnamente.
A rotina era intensa, fritava com cuidado os pasteizinhos de camarão do patrão, cuidava com atenção dos vestidos de madame e divertia as crianças participando de suas estripulias. Quando não estava dedicada no fogão era vista cuidando da limpeza dos banheiros e dos cômodos da casa. Se não estava passando a roupa na área de serviço corria com as crianças para embarcá-las na condução do colégio, para logo depois fazer compras no supermercado, assim era sua vida.
Nasceu em uma família paupérrima, numa distante e violenta periferia abandonada pelo poder público. Cresceu sentindo as carências e necessidades básicas de uma família negra pobre dos subúrbios. A cada dois meses costumava deixar a rica zona sul da cidade, onde trabalhava, para visitar sua família. Quando anunciava que ia passar o fim de semana com os seus era um deus nos acuda. Madame fechava a cara e falava poucas palavras, o patrão se desesperava pois ficaria sem seus pasteizinhos e as crianças sabiam que pelos menos durante esse fim de semana não ouviriam canções de ninar ou estórias fantásticas de um distante passado entranhado pelas maravilhas da cosmovisão africana. As crianças adoravam as estórias da mula sem cabeça, do padre voador, da loura atrás do poste e do cachorro de olhos de fogo que surgia no meio da noite. Pelo contrário, a petizada ouviria os gritos de desespero de madame por ter queimado as torradas e lamentos do patrão por não poder sair com sua camisa preferida que não estava passada e madame jamais ousaria ligar um ferro de passar roupa.
Nas férias escolares de fim de ano da criançada, a família viajava para as região serrana fora da cidade. Nesse período dedicado ao lazer ela não iria ter com seus familiares, pois viajava junto com madame e a família para as montanhas. Na casa de veraneio também tinha seu quartinho de empregada, para onde se recolhia depois de tirar a mesa do jantar, ter lavado a louça e contado estórias de ninar para a petizada. As jornadas eram duras e extenuantes, para ela não significavam férias e sim mais trabalho, jornadas dobradas com a mesma remuneração. Seu parco salário mínimo era economizado para ajudar sua família paupérrima nas agruras da vida de sofrimentos e carências cotidianas. Essa mulher negra passou sua vida servindo a uma família branca, vivendo na solidão do seu quartinho, sem reclamar, sempre solícita, amorosa e obediente. Esse é o destino de toda mulher negra que decide trabalhar como empregada doméstica e viver num quartinho de empregada de uma família burguesa.
O quarto de empregada enquanto dependência voltada às trabalhadoras da família é uma prática comum na sociedade burguesa brasileira. Na verdade é uma prática quase que exclusiva da elite brasileira. Praticamente não existe esse tipo de construção nas sociedades evoluídas do mundo moderno. Não há nada parecido com apartamentos dotados de quarto de empregada e prédios com elevador de serviço. Esse cômodo segregador faz parte de um microcosmo simbólico que oprime e demonstra à usuária sua limitação social. É uma fronteira demarcada entre a riqueza e a pobreza, um espaço diminuto que é construído como uma proto-representação da antiga senzala do tempo da escravidão.
O quarto de empregada é minúsculo, escuro, abafado, não tem janelas e possui uma pequena latrina em seu interior. Não é construído dentro dos princípios da arquitetura atual, que é tornar a vida do ser humano mais agradável e confortável. Pelo contrário, é construído para humilhar, para ser habitado pelas mulheres geralmente negras, que são obrigadas a dividir o exíguo espaço com diversas bugigangas guardadas pelos patrões. O quartinho é oferecido como um prêmio para mulheres pobres e periféricas que necessitam desesperadamente de trabalho. A burguesia brasileira é uma das mais cafonas e atrasadas do mundo. Ainda uniformiza seus empregados e obrigam seus motoristas a abrirem as portas dos carros para que usuários possam entrar e sair dos veículos. A relação das empregadas domésticas com seus patrões e patroas são humilhantes e chegam a beirar o ridículo, quando são proibidas de utilizar as dependências “sociais” da casa. Fora do horário de trabalho são relegadas ao confinamento dos seus cubículos, a viver no silêncio e purgar a solidão entre quatro paredes, carpindo a vida sofrida da senzala contemporânea.
O quarto de empregada é parte de uma barganha esperta e cruel que a burguesia oferece à frágil e precarizada mulher negra. Disponibilizam o quarto para a trabalhadora em troca do fim do incômodo do vai e vem diário rumo a seu lar e sua família nas periferias distantes. O sufocante quartinho é a garantia que os patrões oferecem para que suas empregadas não gastem até seis horas diárias dentro de transportes coletivos insalubres e abarrotados. Ao optarem em conviver cotidianamente com suas famílias, essas trabalhadoras se obrigam a chegar em casa por volta das 22h, exaustas, para acordarem às 5h da madrugada e chegar ao trabalho em tempo de servir o café da manhã da família e colocar as crianças na condução da escola. É uma rotina penosa que estressa e adoece essas mulheres negras.
Muitas dessas trabalhadoras fazem a opção de "morar" no quartinho de empregada para ter mais paz e descanso, mais "qualidade de vida" e consequentemente mais saúde. Preferem a singularidade do confinamento forçado, da solidão programada ao sacrifício da logística cotidiana dos transportes públicos. No quartinho podem ver o mundo através de uma TV jurássica e ouvir notícias através de um rádio despertador. Quando o sono chega têm à disposição uma velha caminha de solteiro, herdada dos patrões há muitos anos. A chantagem patronal faz parte do jogo que elas são obrigadas a jogar. Para não ter que se despencarem pelas ruas escuras e perigosas das noites e madrugadas das periferias, existe a opção cruel do quartinho. Várias assim preferem pois mesmo que inadequado, viver no quartinho compensa evitar passar pela cansativa maratona diária, que além de drenar sua saúde também afeta sua segurança e seu orçamento.
Os patrões por outro lado aproveitam a precarização da situação dessas mulheres e malandramente transformam a jornada diária das trabalhadoras domésticas em um processo de exploração continua. Além da pesada jornada diária que um grande apartamento exige das domésticas, a mulher refém dos patrões fica responsável pela guarda das crianças, para que os pais possam cumprir suas concorridas agendas sociais. Acrescentando que as domésticas cuidam das crianças quando o casal decide viajar ao exterior sozinhos. A pessoa de confiança que sempre estará à disposição para o cuidar das crianças será a empregada doméstica, eternamente cativa em seu quartinho de dormir. É pessoa de confiança sempre disponível com quem os pais podem deixa-las em confiança. 
O quarto de empregada é uma troca injusta, uma forma de corrupção social, onde os patrões oferecem o quartinho como moeda de troca, garantindo o uso do chuveiro elétrico, o restolho da comida da família e um afago ou outro de vez em quando, como se faz com os cães da casa. Os apartamentos geralmente são muito bem localizados, em áreas nobres e seguras. Falando em cães, a trabalhadora também costuma sair à noite e dar um passeio com o cachorro de madame pelo bairro chique, para que ele possa espairecer e fazer suas necessidades fisiológicas. Muitas trabalhadoras domésticas aceitam e gostam de viver assim, por conta de uma história de vida precarizada a que historicamente foram submetidas. Outras não, passam por todas essas humilhações por ter filhos para criar que dependem da sua proteção. Filhos que são criados por vizinhas, irmãs, tias e avós para que suas mães negras possam servir e atender as necessidades cotidianas de famílias brancas da elite.
A sociedade brasileira é tolerante com o racismo. Para ela a situação da população negra está posta, é uma realidade e nada pode ser feito para modificá-la. Que os negros encontrem trabalho no subemprego, que estudem em escolas públicas precarizadas, que utilizem o sistema de saúde criminoso que o estado brasileiro oferece aos mais vulneráveis. A burguesia é a reprodutora de todos esses males ao trazer para si o imenso cabedal de privilégios que o capitalismo pode oferecer. Para ela, a burguesia, poder comer caviar e manter a trabalhadora negra confinada no quartinho faz parte do jogo antropológico da vida. E mais, a elite se sente benemérita por estar gerando um emprego para aquela figura quase ectoplasmática, que sofre a invisível solidão de sua senzala moderna que é o quartinho de empregada.
Mas a mulher negra não está mais entre nós. Após consumir sua vida se dedicando ao bem estar de uma família que nunca foi sua, morreu solitária, silenciosamente, na cama de uma enfermaria coletiva de um hospital público. Morreu onde morrem os pobres, os desvalidos, os deserdados da Terra como disse Fanon. Morta em uma enfermaria coletiva de um hospital público, longe da família, entre estranhos, na solidão dos miseráveis.
Depois de servir a três gerações daquela família como empregada. Depois de cuidar tão bem de tantas pessoas, crianças, jovens e adultos, jaz imóvel no caixão de terceira categoria. Imóvel e honesta por ter cumprido tão bem sua missão de se dedicar a cuidar daquela família com todo o amor desse mundo. É o fim silencioso de mais uma mulher negra trabalhadora em um país racista e segregador. Das dezenas de pessoas brancas de quem cuidou, apenas duas estão ao seu lado para a despedida final. Um final triste e melancólico onde seu destino foi a cova rasa do cemitério da distante periferia. Agora deve estar no céu das empregadas, longe dos sufocantes quartinhos, feliz e recompensada em belíssimos ambientes, onde nenhuma delas trabalha e gozam de todos os privilégios e mordomias que nunca puderam ter aqui na Terra.
O Brasil possui 6 milhões de trabalhadores e trabalhadoras domésticas. A luta pelo reconhecimento da atividade profissional das trabalhadoras domésticas é marcada pela intolerância e invisibilidade do racismo estrutural. Mesmo 80 anos depois da criação do movimento sindical que luta pela categoria, somente 3 em cada 10 domésticas possuem carteira profissional assinada por seus patrões. Se por um lado romantizaram a trajetória sofrida de Carolina de Jesus, para esconder o racismo e os efeitos deletérios do capitalismo sobre as mulheres negras, por outro lado invisibilizam uma mulher negra admirável, que deveria sua trajetória política debatida na academia e na sociedade com mais ênfase. Seu nome é Laudelina de Campos Melo, chamada pela ditadura militar de “O terror das patroas”. Laudelina dedicou toda sua vida à política, sendo militante da Frente Negra Brasileira e do Partido Comunista Brasileiro. Foi através de sua visão de mundo que criou em 1936 na cidade de Santos, em São Paulo, o movimento sindical que passou a exigir melhores condições de trabalho para todas as pessoas que exercessem atividades domésticas remuneradas.
Mineira como Carolina de Jesus, Laudelina nasceu 6 anos após a promulgação da Lei Áurea, em Poços de Caldas, Minas Gerais. Como quase todas as meninas negras daquele período, começou a trabalhar aos sete anos de idade e foi obrigada a abandonar os estudos para ajudar a mãe na criação dos de seus irmãos. Aos 16 anos passou a participar de reuniões do movimento negro. O sociólogo Joaze Bernardino-Costa, em sua tese de doutoramento, narra que no período mais próximo do fim da escravidão, o serviço doméstico era mencionado nas leis sanitárias para proteger os patrões de suas empregadas, que eram vistas como ameaças às famílias empregadoras. De acordo com Laudelina em entrevista à educadora Elisabete Pinto, publicada em sua dissertação de mestrado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp):
:
"A situação da empregada doméstica era muito ruim. A maioria daquelas antigas trabalharam 23 anos e morria na rua pedindo esmola. Lá em Santos, a gente andou cuidando, tratou delas até a morte. Era um resíduo da escravidão, porque era tudo descendente de escravo".

As entidades em que Laudelina militava à época, o PCB e a Frente Negra Brasileira, foram fechadas e colocadas na clandestinidade pela ditadura de Getúlio Vargas com a instalação do Estado Novo entre os anos de 1937 e 1946. A discriminação se tornou mais evidente quando a Consolidação das Leis do Trabalho que unificou as leis trabalhistas que existiam naquele período, não incluiu a categoria das domésticas em seu escopo de proteção. Laudelina se alistou na Força Expedicionária Brasileira e se juntou ao esforço de guerra para combater as tropas do Eixo, comandadas por Adolph Hitler. De acordo com Laudelina: 
"Hitler foi o maior carrasco que existia naquela época. Dizia no Livro Azul que ele eliminaria todas as raças que não fossem arianas, principalmente a raça negra seria eliminada. Então aquilo me levou, me trouxe uma revolta dentro de mim. Então resolvi me alistar para servir a pátria"

Laudelina trabalhou como empregada doméstica até meados dos anos 50 e vivia de uma pensão e da venda de salgadinhos no bairro em que morava.
Com o fim do Estado Novo sua associação voltou a funcionar mas continuou a ser perseguida pela ditadura militar com o golpe de 64, quando sua entidade, para não encerrar as atividades, se abrigou na União Democrática Nacional – UDN, que tinha como líder máximo o governador Carlos Lacerda.
Chegando aos 70 anos Laudelina afastou-se da entidade por motivos de saúde e após pedidos insistentes de suas companheiras voltou ao batente e após a promulgação da Constituição Cidadã de 1988 a associação finalmente se tornou um sindicato. Laudelina morreu em 1991 aos 86 anos de idade e não pode assistir a vitória da categoria que fundou ver aprovada a Emenda Constitucional nº 72 de 02/04/2013, a PEC das Domésticas. A PEC das Domésticas estabeleceu igualdade dos direitos como: Jornada de trabalho de oito horas diárias e 44 semanais; Pagamento de horas extras; Adicional noturno; Descanso de no mínimo de 1 hora e máximo de 2 horas; Obrigatoriedade do recolhimento do FGTS por parte do empregador; Seguro-desemprego; Salário-família; Auxílio-creche e pré-escola; Seguro contra acidentes de trabalho; Indenização em caso de demissão sem justa causa. Vale à pena registrar que somente dois congressistas votaram contra a PEC das Domésticas e um desses dois foi o Deputado Federal à época Jair Bolsonaro.
A atuação política dessa mulher negra e pobre foi fundamental para que essa enorme categoria conquistasse seus direitos a nível nacional. Laudelina também deixou seu nome registrado na luta contra o racismo e contra a discriminação das mulheres, já que sempre carregou consigo o estigma da cor e da origem. Uma mulher admirável que se rebelou contra o sistema e mesmo com sua luta invisibilizada pela sociedade e pelo racismo estrutural nunca abriu mão de seus princípios revolucionários.

*Amauri Queiroz é Escritor.