Postagem em destaque

Racismo Ambiental

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Racismo Ambiental


“A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Neste interregno nascem os monstros ” (Antonio Gramsci)

Racismo ambiental é um termo cunhado em 1981 pelo líder estadunidense de direitos civis Dr. Benjamin Franklin Chavis Jr., que foi assessor de Martin Luther King Jr. Chavis. No final da década de 1970, já ordenado pastor, dirigia a Comissão pela Justiça Racial da Igreja Unida de Cristo em Warren County, Carolina do Norte. Em 1987 Chavis publicou o livro “Rejeitos Tóxicos e Raça nos Estados Unidos da América”, no qual evidenciava a amplitude da questão para as comunidades negras de todo o país.

O ativista definiu a expressão racismo ambiental ao pesquisar de perto a o quanto a população negra dos EUA estava sendo exposta a resíduos tóxicos. O conceito adquiriu força nos Estados Unidos dentro do contexto das manifestações raciais contra injustiças ambientais em territórios negros.

Chavis Jr. Disse que o racismo ambiental é a discriminação racial na elaboração de políticas ambientais, na aplicação de regulamentos e leis, e no direcionamento deliberado de comunidades negras para espaços contíguos às instalações de lixo tóxico, com risco de vida para as comunidades afrodescendentes e a exclusão de negros da liderança dos movimentos ecológicos.

Ao excluir e afastar os negros da elaboração de políticas e movimentos ambientais, o sistema capitalista faz a opção por privilegiar outros grupos étnicos de raiz caucasiana. Ao aplicar o sistema de seleção dirigida, entende que a etnia negra não compreende um grupo humano que deva ser protegido, como sempre definiu o colonialismo, o capitalismo e a globalização. O sistema precisa que esses contingentes humanos ocupem esses territórios precarizados, pois ali está a mão de obra necessária para trabalhar nas plantas industriais poluentes que operam nos espaços adjacentes às suas residências.

As comunidades impactadas pelo racismo ambiental são compostas majoritariamente por população negra, que historicamente sempre foi preterida nos projetos nacionais de educação. O processo de desemprego em massa trazido pelos ventos da globalização com suas políticas neoliberais e flexibilizadoras, causou um verdadeiro tsunami na organização sindical brasileira a partir dos anos 80. Com o avanço de tecnologias industriais como a automação, por exemplo, as oportunidades de trabalho formal nos parques fabris está rareando cada vez mais e por conseguinte as exigências dos trabalhadores por melhores condições de trabalho também diminuíram, destarte o esforço de suas representações como centrais sindicais e seus sindicatos de base. O movimento sindical desde então vive em constante crise existencial, mergulhado em um profundo declínio temporal, tendo perdido parte da interlocução com as bases devido à dificuldade de comunicação entre os antigos socialistas da era analógica e os novos trabalhadores nativos da novíssima geração digital. Sobrevivendo entre as mais diversas dialéticas contemporâneas e enfraquecido cada vez pela política conservadora do Congresso Nacional, do Judiciário e pelas instituições patronais com suas agressivas pautas de reivindicações, o sindicalismo tornou-se um gigante com pés de barro.

Com o enfraquecimento dos anseios trabalhistas da massa trabalhadora, encontramos a população negra sofrendo as ações dos vetores poluidores nas plantas industriais instaladas no entorno das comunidades negras.  Essas indústrias poluidoras possuem relação direta com a saúde degredada dos seus trabalhadores e dos seus impactos nessas comunidades. A população negra que sofre sob os impactos do racismo ambiental é tornada duplamente invisível pelo sistema capitalista na medida em que é ocultada enquanto comunidade e como massa trabalhadora.

O sociólogo estadunidense Robert Bullard estendeu o conceito de racismo ambiental ao referir-se a qualquer política, prática ou diretiva, que atue negativamente a diversos grupos ou comunidades baseados em sua origem ou cor da pele. Bullard escreveu um livro muito importante acerca da justiça ambiental denominado “The Legacy of American Apartheid and Environmental Racism (O Legado do Apartheid Americano e do Racismo Ambiental). O racismo ambiental foi e continua sendo objeto de vários estudos, sendo que há uma notada convergência que aponta para situações comuns como territórios localizados onde os vetores ambientais são mais agressivos à vida humana, como lixões, aterros de lixo sanitários e controlados, depósitos de resíduos químicos, ausência de condições sanitárias mínimas como saneamento básico, emissões industriais descontroladas, indústrias químicas poluidoras, falta de ordenamento urbano e paisagístico, drenagem fluvial e controle de doenças contagiosas.

O racismo ambiental expõe de maneira desproporcional uma etnia ou classe social sendo uma forma de discriminação baseada em raça, etnia e classe social a riscos ambientais. Está para além da luta de classes e passou a ser também um problema de castas, como os “dalits” na Índia. No nosso caso podemos apontar as pessoas negras periféricas que são consideradas pela branquitude como casta inferior. Essas pessoas negras são as mais vulneráveis aos impactos ambientais e que realizam os diversos trabalhos infames que a branquitude renega exercer. A população negra desses espaços vive confinada em senzalas contemporâneas ou campos de concentração do capitalismo que são as favelas, território abandonado pelo estado que comparece cotidianamente com a polícia para causar medo e opressão ao moradores. A população negra das favelas é um contingente humano considerado como estoque étnico descartável, para o qual a discriminação e a injustiça ambiental estão irremediavelmente destinadas. O ambiente degradado afeta e adoece as pessoas que habitam esses espaços, caracterizando de maneira definitiva como uma ação racializada negativamente pelo estado.

A história mostra que o surgimento das primeiras favelas no Rio de Janeiro foi provocado pela ocupação das encostas dos morros do Centro do Rio pelos militares que combateram na Campanha de Canudos e pela massa de escravos liberta através da Lei Áurea. Com o fim da Campanha de Canudos (1896-1897) os soldados que retornaram esperavam receber casas para morar que foram prometidas pelo governo. Como a promessa não foi cumprida, os soldados que se abrigavam temporariamente no entorno do Ministério da Guerra ao lado da Central do Brasil não tiveram outra alternativa a não ser juntar madeiras que coletaram pela cidade e construírem seus barracos no Morro da Providência, que já abrigava os que foram defenestrados dos cortiços derrubados pelo Prefeito Pereira Passos.

Os negros e negras recém libertos não possuíam vínculos trabalhistas e tampouco recursos financeiros para adquirir um lote de terra para construir uma casa. A solução encontrada era ocupar um espaço de terra em uma das encostas dos morros da cidade e construir uma habitação frágil e improvisada com madeiras que eram coletadas pelos entulhos de lixo da cidade.

Por um outro lado, o Rio de Janeiro passava por um intenso processo de modernização denominado Bota Abaixo, onde o Prefeito Pereira Passos de maneira arbitrária determinou que mais de 2000 casas e cortiços da população negra e pobre fossem derrubados para dar lugar a construções de avenidas e bulevares modernos que imitavam a cidade de Paris.

Em seu livro “Planeta Favela” (Boitempo, 2006), o californiano Mike Davis apresenta um estudo baseado em dados da ONU que aponta para dados surpreendentes. O principal é que as favelas estão recebendo 25 milhões de novos habitantes por ano, número que passa a engrossar o contingente de pessoas que sofrem com o apartheid urbano. Segundo Davis, a neogentrificação faz parte do novo modelo de desenvolvimento hegemônico do capitalismo, que trata a humanidade como objeto e a utiliza de todas as maneiras possíveis em busca do lucro desenfreado. Enquanto uns são utilizados como peões em um tabuleiro de xadrez, outros são solenemente ignorados na fria qualidade de estoque étnico descartável.

O pesquisador Costa Pinto desenvolveu um estudo na década de 50 no Rio de Janeiro que apontou que em cada 100 habitantes da cidade 27 eram “de cor”, enquanto que nas favelas o indicador era invertido para 71 negros para cada 100 moradores. Costa Pintpo denominou esses dados como segregação étnica.  No ano de 2001 o pesquisador Ney Santos Oliveira utilizando dados da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar – PNAD, do Morro do Estado em Niterói, revela que 27,4% dos moradores da comunidade são brancos enquanto que a população negra representa 72,6% dos moradores. Enquanto que nas áreas nobres de Niterói os dados se invertem com 72% de moradores brancos e 28% de moradores negros.

A elite gosta da favela, não para frequentar, mas por ser um território extremamente precarizado, sem os requisitos mínimos necessários de civilidade e controlado por poderosas facções criminosas que impõem suas próprias leis e submetem à comunidade um regime de terror e violência. É um território onde há submissão total dos moradores ao poder paralelo, que é o principal emulador das normas locais vigentes. Para a burguesia isso é bom, pois, seus serviçais recebem em seus próprios territórios as “lições de servilismo e obediência” necessárias para lidar com o poder enquanto que estabelece uma relação de alteridade social que diz a quem devem obedecer. A subserviência e o conformismo impostos pelo terror, mostra para aquela população de maioria negra que a rebelião não é uma possibilidade. Devem compreender e assimilar que seus destinos estão traçados de maneira inexorável e que não podem tentar se organizar e se rebelar para transformar a situação em que vivem.

A existência das favelas é fundamental para a sobrevivência das elites. A dicotomia civilizatória define para a população pobre daqueles territórios a impossibilidade de qualquer ascensão social que equipare suas vidas as de seus patrões. Por isso a inconformidade das elites com o sistema de cotas, pois o sistema democrático faz com que seus filho frequentem as mesmas salas das universidades que os filhos de seus empregados.

A favela é o marco civilizatório que define o fim da rebelião. Viver em seu seio com a violência cotidiana do narcotráfico e com a guerra cotidiana promovida pelos aparelhos de repressão de estado, ou seja, as polícias, mostra que todos estão entregues à própria sorte, sem amparo ou justiça social. Como se não bastasse o conjunto de assimetrias sociais, agregue-se ainda a discriminação pelo Código de Endereçamento Postal – CEP. O recurso que tem como objetivo facilitar a identificação de logradouros para o endereçamento postal, tornou-se um outro indicador que podemos chamar de Código de Envolvimento Perigoso, que serve como marcador social para os sistemas de avaliação de crédito, risco bancário e contratação pelos setores de RH das empresas e de contratação de trabalhadoras e trabalhadores domésticos por seus patrões. O racismo ambiental faz com que os trabalhadores que habitam territórios negros sejam obrigado a renegá-los  em busca de uma chance no mercado de trabalho. São levados a buscar endereço de parentes que moram em outras áreas da cidade para que possam apresentar um endereço “condizente”.O filósofo camaronês Achile Mbembé desenvolveu o conceito de necropolítica, onde nesses territórios precarizados o estado através dos seus sistemas de repressão possui licença para matar.

As crianças desses territórios não são expostas somente à violência cotidiana das armas. Vivem ameaçadas pelos mais diversos vetores ambientais negativos que podem afetar aquele agrupamento humano. A convivência em habitações por vezes diminutas e insalubres, que abrigam várias pessoas, propícia a disseminação das mais diversas doenças contagiosas como por exemplo a tuberculose, que em certas comunidades do Rio de Janeiro está em situação alarmante.

A ausência de saneamento básico no Brasil no ano de 2019 sobrecarregou o SUS com quase 280 mil internações com 2.734 óbitos. A incidência de internações foi de 13,01 casos por 10 mil habitantes, gerando um custo adicional ao país de R$ 108 milhões no mesmo ano. O estudo Saneamento e Doenças de Veiculação Hídrica do Instituto Trata Brasil foi realizado a partir de dados públicos do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento – SNIS e DATASUS no portal do Ministério da Saúde. A região Nordeste, que em números gerais registrou mais internações, teve a maior despesa com esse tipo de internação – R$ 42,9 milhões. Na sequência, o Sudeste teve R$ 27,8 milhões com gastos desse tipo, contra R$ 15,2 milhões do Norte, R$ 11,7 milhões do Sul e R$ 10,2 milhões do Centro-Oeste.

A falta de acesso à água tratada e esgotamento sanitário ocasionou a morte de 907 pessoas no Sudeste, 331 no Sul, 214 no Norte, 213 no Centro-Oeste e mais de mil no Nordeste por doenças de veiculação hídrica, entre elas estão as diarreicas, dengue, leptospirose, esquistossomose e malária.

O estudo do Trata Brasil mostra que quase 35 milhões de pessoas vivem em locais sem acesso à água tratada, 100 milhões de pessoas sem acesso à coleta de esgoto e somente 49% dos esgotos no país são tratados.

Os indicadores do estudo demonstram que há um país partido. De uma lado o Brasil da Bélgica com elevados padrões civilizatórios e de outro o Brasil da Índia, abandonado pelo estado e submetido à crueldade dos seus governantes, que condenam à morte e ao sofrimento milhares de brasileiros todos os anos por conta de sua origem étnica e cor da pele.

Outros fatores concorrem para o aumento das doenças da população que habita essas áreas deletérias. As ruas sem calçamento despertam processos alérgicos em grande parte da comunidade que é obrigada a conviver coma a poeira tóxica cotidianamente durante anos a fio. Esses territórios são escolhidos pelas empresas para abrigarem suas plantas industriais com o falso argumento da geração de empregos. Óbvio que esses empregos gerados pelas plantas industriais alocadas nesses territórios obedecem a uma hierarquia laboral. Os melhores postos de trabalho não são destinados aos moradores dessas comunidades. Pelo contrário, a “inteligência” da empresa e seus cargos de direção está reservada para as pessoas da burguesia, que certamente não moram nessas comunidades. Para os habitantes desses territórios são reservadas as atividades insalubres, expostas a produtos químicos e manipulações perigosas. Outro fator que estimula as empresas a se estabelecerem no entorno das comunidades é a não necessidade de arcar com os custos patronais do auxílio transporte e da vantagem da proximidade. Todas essas espertezas são encobertas pelo manto de uma característica da modernidade empresarial denominada responsabilidade social. Mas como o capitalismo sofistica-se de maneira contínua, o termo mais usado atualmente é responsabilidade socioambiental.

A ironia é que essas empresas não consideram o ser humano como parte do ambiente. Destina-lhe atividades perigosas e insalubres, não colabora com a elevação de sanitização da comunidade, polui o meio ambiente, adoece as famílias e recebe da burguesia e do capitalismo o selo de ambientalmente e socialmente responsável.

Essas empresas costumam despejar seus efluentes tóxicos nós rios e riachos dessas comunidades, contaminando o lençol freático que é utilizado pela comunidade como fonte de abastecimento de água através de poços escavados no solo.

Enquanto sistema, o racismo ambiental opera em todas as direções possíveis e necessárias ao projeto de sofisticação e expansão do capitalismo. Ataca e depaupera o modo de vida dos povos originários com mega projetos de mineração e extração de madeiras. Marisqueiras e pescadores artesanais, quilombolas, ribeirinhos e agricultores familiares. Esses povos são condenados ao exílio em seus próprio país, são desterrados de seus territórios e agregados em reservas de confinamento cada vez menores. Com o tempo são alcançados pelas periferias das cidades e passam a conviver com lixões, fábricas poluidoras e efluentes tóxicos. No Mapa de Conflitos Causados pelo Racismo Ambiental, (http://www.justicaambiental.org.br/_justicaambiental/pagina.php?id=1555) a grande parte das denúncias são referentes a conflitos fora dos centros urbanos, onde a mídia não está presente com sua cobertura jornalística.

Apesar de todos os óbices naturais, o Racismo Ambiental fez parte da pauta da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), em Glasgow, Escócia em 2021. O Movimento Negro Brasileiro participou com uma comitiva bastante representativa. Organizações como a Coalizão Negra por Direitos que representa mais de 250 entidades negras, apresentaram as demandas da população negra que sofre com os impactos gerados pelo Racismo Ambiental. O Brasil possui mais de 3.100 comunidades quilombolas e somente 13% deste total foi regularizada pelo INCRA e órgãos estaduais de terras. O Brasil necessita titular 1490 processos de regularização fundiária de com unidades quilombolas até o ano de 2030.

A participação da delegação brasileira na conferência foi bastante expressiva. Na COP 27 em Cairo no Egito o debate foi mais focalizado nas mudanças climáticas, transição energética, desmatamento e frotas de veículos elétricos. De uma maneira geral há uma enorme preocupação com os ecossistemas, biomas e florestas. Porém, no que tange à proteção de populações negras impactadas pelo racismo ambiental o debate ainda é bastante tímido. O grande desafio que há pela frente será transportar para a agenda nacional o que foi acordado nas cúpulas do clima e no Acordo de Paris. As propostas acordadas e aceitas pelo Brasil, de uma maneira ou de outra, impactam positivamente no cotidiano e bem estar das populações negras que habitam os territórios mais precarizados de nosso país.

A sociedade civil organizada enfrenta a questão do racismo ambiental em diferentes frentes de luta e disseminação de informações. Uma dessas referências é o Mapa de Conflitos envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil, projeto da Fiocruz coordenado pela pesquisadora Tânia Pacheco.

No âmbito das Nações Unidas há o “Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos – Habitat. O programa apoia comunidades como Complexo do Alemão, Maré, Chapadão, Pedreira, Vila Kennedy, Lins, Penha, Cidade de Deus, Jacarezinho e Rocinha. Esses territórios são cobertos pelo “Programa Territórios Sociais”. O Fundo da ONU para a Infância, Unicef, também colabora nessa iniciativa que atua em 10 assentamentos informais. Os idosos, incluindo acamados e com problemas cardíacos, receberam cestas básicas, desinfetantes, sabonete líquido, desodorante, xampu e escovas de dentes com o apoio da Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro. A seleção do grupo foi baseada na recolha de dados produzidos pelo Programa Territórios Sociais.

Nesse processo, a ONU-Habitat Brasil ajudou as atividades em comunidades para garantir que a assistência chegasse aos mais pobres e fragilizados.

O panorama do racismo ambiental é um mosaico horroroso que marca de maneira profunda a desigualdade social brasileira. Enquanto os moradores desses espaços precarizados não assumirem o protagonismo político da gestão dos territórios impactados nada mudará. O que podemos assistir é a visita de políticos durante o período eleitoral procurando cooptar as lideranças comunitárias ou celebrar pactos sombrios com o poder paralelo local.

Para que o sol possa brilhar de maneira equânime para todos os habitantes das cidades brasileiras torna-se necessário que todos se envolvam no processo da nova e verdadeira abolição que é nosso devir, nós do povo negro.

Há uma inequívoca vontade por parte dos governos de que tudo deva permanecer como está. São criados mil projetos, ações sociais, intervenções locais mas tudo permanece como sempre esteve. É uma demonstração de anomia governamental misturada com ausência de força anímica, que estabeleça junto com essas comunidades um pacto de governança local e estudos que possam transformar esses espaços arquitetônicos caóticos em exemplos de urbanização e ordenação social.

Não se pode aceitar que essas cidades com tantas universidades e centros de pesquisas não possam ser provocadas pelo poder público para estabelecer parcerias com os habitantes desses territórios na elaboração de projetos de infraestrutura, com novos equipamentos sócias funcionais como escolas, creches, organizações sociais e postos de saúde eficientes. Com ruas amplas e sinalizadas e habitações dignas. Não se pode cobrar e tampouco pensar um mundo melhor quando que o que se oferece àquelas populações é o restolho social do banquete antropológico da branquitude.

*Amauri Queiroz é Escritor e autor dos livros “Racismo Tropical”, “Se a Negritude Fosse um Banco o Racismo Não Existiria”, “Mundos Invisíveis “, “A Revolta dos Blacks”, “Egotrip”, “Fallen Angel”, “Ensaios Sobre o Fascismo Brasileiro” e “Sussurros da Alma Negra”.

terça-feira, 16 de junho de 2026

CHAMADA DE EGUN


Sentado na parte baixa do porto eu ali anjo torto numa vibe de quase morto. Pancadaço de pôr de sol observo ao longe mil carreiras brancas pilotadas por surfistas prateados que deslizam em ondas de ansiedade e nos tubos que aspiram o sal pelos micro pelos de minhas narinas. Tudo é mar, onde cada vela que vai é um sopro de esperança que se apaga. E cada vela que vem é a chegada de alguém que ficou a ver navios, sem ninguém. Sereias tatuadas e perdidas nas madrugadas do porto catam guimbas de vida nas movidas meladas pela boca da noite. No estirão de (in)felicidade há o corvo que repete “nunca mais” nos lupanares sombrios de Poe na beira do cais. E o amor passa arrastado e sufocado pelos sentimentos desesperados dos adictos cativos onde madames consomem picassos e narguilés em zonas de mil vidas naufragadas e desgraçadas pelo poder do patriarcado que gerencia o claustro existencial da virgindade tóxica. Ilusões de artifícios e sacrifícios cercados por orgasmos espetaculares avaliados e certificados por célebres voyeurs onanistas. A vida passa como um filme sem roteiro com tudo acontecendo ligeiro em um falso picadeiro onde a acrobata e a mulher gorila irrompem na bamba corda emitindo urros de tensão e tesão quando repentinamente a plateia acorda pornograficamente indiferente. Ser normal é viver com dores de amores trituradas pelos moinhos de paixões contidas pelo zíper decolonial. Ah! Coração! Que abrasa e delicia meus caminhos!  Na barra do vento do entardecer! É tudo tão morto! A Lacrimosa! Amadeus chora em Viena! Estamos no tempo desta entidade estranha que não olha para trás, o tempo, que segue louco em sua sanha primordial mirando sempre para o fim do futuro no universo escuro. Olho cansado mirando as difusas brumas da eternidade que cobrem as erupções túrgidas de um monte de vênus que lança lavas de lascívia excitando a cidade enlouquecida em gozo. No meio da catástrofe adâmica surge um triste e solitário egun purgando dores e fumando um sob o gélido relento universal. Roto e pobre egun sem seu orum, vendido como um goleiro após tomar um gol de placa, ali meio de saco cheio mas consciente do seu ofício: “Venha! Acabou! Já é hora! É seu tempo! Abandone o tormento da prisão do carbono! O trem para as estrelas não espera! Renasça para mim! 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

O samba pede passagem


A escola de samba e o samba sempre foram os principais espaços de socialização da comunidade negra no Brasil. Desde os primórdios da história do samba que o povo negro se empenhou em manter um espaço comunitário, onde pudesse compartilhar com sua família atividades sociais e de lazer. A indústria do entretenimento na sociedade burguesa sempre foi voltada para as pessoas da classe média, com razoável poder aquisitivo. Nesses espaços, os negros com raríssimas exceções, podiam frequentar e participar dos eventos como convidados. O apartheid social e econômico pelo qual a população negra foi submetida, após o fim da escravidão, levou os negros a se organizar em torno dos principais processos onde mantinham algum tipo de domínio, protagonismo e poder, o Candomblé e o samba. A escola de samba é o templo profano do povo negro. Nela as famílias se reúnem e se desenvolvem no aprendizado de suas diversas características artísticas e culturais.
A cosmovisão do samba está entre as coisas mais deliciosas dessa vida. Não há nada mais gratificante que desfrutar de um bom momento, cantando e relaxando em uma boa roda de samba, ou então nos ensaios de quadra das escolas de samba que alegram os fins de semana de parte da sociedade em todo o país. A sensação é divina, e nada melhor que soltar o corpo, se entregar ao deleite do ritmo pagão, cantando e alegrando-se em animados arrasta-pés, regados a uma boa cachaça de alambique, aquela que “matou o guarda”, acompanhada de uma boa cervejinha gelada com um pratinho de tira-gosto como acompanhamento.
Quem nunca deu aquela sambadinha gostosa, ao ouvir um samba malandreado, dolente e gostoso? Bem devagar, devagarinho, como canta o Martinho da Vila. O samba sempre foi a cadência da batida do coração do povo brasileiro. É o principal alimento cultural que nos nutre e o maior legado que a população negra delegou para nossa sociedade. Suas origens são ligadas ao continente africano, aos tambores, ao Candomblé e aos folguedos da cultura negra além-mar.
João Gilberto cantava que o samba veio da Bahia e estava correto. Pois esse menino dengoso, o samba, veio aconchegado no colo ancestral das Mães de Santo do Recôncavo Baiano, principalmente de Santo Amaro da Purificação e Cachoeira, que após a abolição da escravidão foram viver no Rio de Janeiro, para onde partiram em um movimento denominado “Diáspora Baiana” ou “Êxodo Baiano”. Partiram levando na bagagem essa joia cultural fantástica que encanta o planeta. O samba é filho dileto do Jongo, do samba de roda do Recôncavo, possuindo uma relação direta com o culto aos Orixás, Inquices e Voduns, do Omolokô e daquilo que Cartola chamava de Umbanda Carioca, da qual era cambono. O samba também bebeu na fonte das tradições culturais e religiosas da África Subsaariana. Nasceu como representante de uma representação cultural que servia como momento de lazer e ao mesmo tempo como o bálsamo que amenizava o terrível sofrimento pelo qual passava o povo negro escravizado, tanto no eito de trabalho como na senzala, nos tempos do Brasil Colônia e Brasil Império.
O parto do samba carioca ocorreu com certeza nos terreiros de Candomblé e Centros de Umbanda Omolokô da Pequena África e também nas rodas de Jongo como dizem alguns historiadores. Havia uma grande concentração desses terreiros na região que abrangia um imenso território no Centro da cidade do Rio de Janeiro denominado Pequena África que ia dá Gamboa/Pedra do Sal até a Praça XI.
A certidão de nascimento do samba contém algumas lacunas, mas com certeza no formato que conhecemos hoje, surgiu entre o fim do século XIX e o início do século XX. Veio ao mundo abençoado pelos sons dos atabaques e dos tambores tocados com dedicação e amor por ogãs e alabês das casas de santo. Nasceu no instante compreendido entre o cansaço e a preguiça. Cansaço porque depois de um trabalho puxado de axé no terreiro, era necessário dar descanso ao corpo, que há pouco estava entregue ao poder espiritual, para que assim recobrasse as forças. Preguiça porque era necessário preparar o terreiro para o ritual agora profano, com comidas, tambores e outros apetrechos essenciais.
O batizado com o nome “Samba” pode ser oriundo do termo angolano “Semba”, que significa umbigada. É um tipo de dança profana do povo bantu, mas não sagrada como são as umbigadas do Jongo, como afirmam alguns pesquisadores.
Foram as tias baianas que assistiram e abençoaram o nascimento do samba, forrando seu berço com carinho e tradição. O samba em seu berço foi ninado com canções do samba de roda do Recôncavo entremeadas com batuques, lundus, polcas, maxixes e jongo. Essas tias baianas eram em sua grande maioria Ialorixás renomadas e poderosas, exerciam grande influência sobre a comunidade negra no Centro do Rio de Janeiro.
O início do século XX foi um momento de intensa felicidade para a população negra, que vivia sob os efeitos idílicos do fim da escravidão. Os negros comemoravam e agradeciam principalmente à princesa Isabel pela promulgação lda Lei Áurea, que lhes libertou definitivamente do cativeiro do branco opressor, depois de intermináveis 350 anos de sofrimentos. Apesar de tantas agruras e dificuldades, a alegria havia voltado aos corações da população negra tão sofrida e vilipendiada pelo cruel regime recém-extinto. Eram livres, mas nunca deixaram de ser vigiados pelo sistema de repressão e controlados pelo sistema jurídico, que sempre exarou leis em defesa da elite branca e sistematicamente contra a população negra.
Apesar da vigilância constante da polícia, os negros e negras se reuniam em diversos lugares denominados “zungus” para comemorar a liberdade, comer comidas típicas, buscar trabalho, praticar religiosidade e como não podia deixar de ser, utilizavam o samba de roda, o jongo, o maxixe a polca e o lundu como fundo musical para suas comemorações. A certidão de nascimento do samba foi lavrada nos terreiros das tias baianas, com destaque para as tias Ciata, Amélia e Perciliana.
Os sambistas consideram Tia Ciata como a grande parteira e mãe amamentadora do samba carioca. Nascida em 1854, em Santo Amaro da Purificação, terra de Caetano Veloso, Assis Valente e Maria Bethânia, chegou ao Rio de Janeiro em 1876 aos 22 anos de idade, onde casou e constituiu família, tendo sido mãe de 14 filhos.
Ciata além de grande doceira e festeira, era uma Mãe de Santo respeitada pelo povo negro. Ficou mais famosa ainda após ter curado com suas ervas e unguentos uma ferida renitente na perna do à época Presidente do Brasil, Wenceslau Brás. Sua proximidade com o Presidente da República, que lhe garantiu que a polícia não interromperia e encerrasse sob catatau as suas obrigações religiosas nem as animadas festas embaladas principalmente pelo imberbe samba.
Além da própria riqueza musical reinante, naquela época não havia transportes durante a madrugada. Os frequentadores dos terreiros aproveitavam que deveriam aguardar o dia amanhecer para retornar aos seus afazeres cotidianos. A madrugada era consumida então em animadas rodas de batuque, já que a designação “samba” ainda não havia sido cunhada. Geralmente o arrasta-pé virava a noite e a partir daí pode ter surgido o termo “sambar até o sol raiar”.
Pela casa de Tia Ciata passaram grandes nomes da música popular e do samba como Ataulfo Alves, Paulo da Portela, Cartola, Carlos Cachaça, Natal da Portela, Zé com Fome, Silas de Oliveira, Pixinguinha, Hilário Jovino e Donga. Sinhô, Ismael Silva, Bide, Marçal que eram frequentadores assíduos formavam a Turma do Estácio. Essa turma de bambas do Estácio foi a que mudou o ritmo do samba para uma versão mais cadenciada, fugindo do maxixe, como o que se toca até os dias de hoje nas baterias das escolas de samba. Essa mesma turma também cunhou o nome “escola de samba”, pois ensaiavam defronte a uma Escola de Formação de Professores no bairro do Estácio.
Antes do samba que conhecemos o que se dançava era um ritmo maxixado, como podemos constatar no fonograma do primeiro samba gravado no Brasil por Donga, o famoso “Pelo Telefone”. Muitos sambistas torcem o nariz para esse samba, dizendo que o fonograma é um maxixe. Outros sambistas alegam que Pelo Telefone não foi o primeiro samba, pois havia duas gravações anteriores que eram samba como Casa de Baiana em 1913 e Urubu Malandro em 1914. Pelo Telefone foi uma composição coletiva com participação de vários frequentadores da casa da Tia Ciata, mas foi registrada na Biblioteca Nacional por Donga somente, como sendo dele. Mais tarde incluiu também Mauro de Almeida como seu parceiro na composição. Um dos maiores defensores da tese de criação coletiva foi o baiano Hilário Jovino que alegava ser um dos compositores. Hilário Jovino era pai do malandro Saturnino da Praça 11 e primo de Heitor dos Prazeres. Precursor dos ranchos e do Carnaval do Rio de Janeiro, Jovino fundou inúmeros ranchos, que seriam os blocos e escolas de samba de hoje, sendo que um dos mais famosos que se tem notícia llfoi o Ameno Resedá, que tinha entre seus admiradores mais destacados o escritor Coelho Neto. O Ameno Resedá é lembrado até hoje nos desfiles das escolas de samba.
Os sambistas pioneiros não eram vistos com bons olhos pela sociedade. João da Baiana contava que seu pandeiro tinha a assinatura de um senador da república, pois, somente assim poderia transitar livremente com o instrumento pela cidade. Os sambistas eram perseguidos e geralmente vinculados pela polícia a marginais, malandros e capoeiristas, grupo também perseguido e para quem havia sido criada a lei no Código Penal de 1890 que punia quem praticava a capoeira, a Lei da Capoeiragem, cujo texto era o seguinte: "Fazer nas ruas e praças públicas exercício de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação de capoeiragem: pena de prisão celular por dois a seis meses".
Após a Lei Áurea em 1888, o governo brasileiro iniciou um gigantesco processo de embranquecimento de sua população, estimulando a imigração de europeus, primeiramente com alemães e italianos e depois do Japão, quando em 1908 atracou no Porto de Santos o navio Kasato Maru com a primeira leva de 781 imigrantes japoneses que vieram contratados para trabalhar nas fazendas do interior paulista.
Enquanto o país passava pelo processo de embranquecimento ou eugenia como muitos alegam, no Rio de Janeiro era iniciado um imenso processo de gentrificação por parte do governo.
O Rio de Janeiro era a capital do Brasil no início do século XX. O país recém-saído da escravidão era a maior cidade afroatlântica da época, mas ainda com vestígios de vocação rural. Com os novos tempos passou a sofrer mudanças que visavam sua inserção entre as grandes capitais do mundo moderno, reivindicando sua nova vocação urbana incipiente e engatinhando na industrialização. O Centro do Rio era composto por muitos cortiços, alguns com até 2 mil pessoas como o “Cortiço Cabeça de Porco”, daí o nome de cabeça de porco para qualquer tipo de ajuntamento de habitações pobres do mesmo formato. As epidemias sanitárias se sucediam na capital e a classe burguesa clamava por higienização e modernização do centro da cidade.
O Presidente Rodrigues Alves deu plenos poderes ao Prefeito Pereira Passos, que governou a cidade entre 1902 e 1906. Passos foi inspirado pela modernização da cidade de Paris, dando início ao período conhecido como Belle Époque, onde um dos principais exemplos é o Teatro Municipal no Centro do Rio de Janeiro, uma obra prima da arquitetura da época, desenhado por Francisco Pereira Passos, filho do Prefeito, que optou em desenhar uma cópia fiel da Ópera de Paris. Apesar dos esforços de Pereira Passos a inauguração do Teatro Municipal aconteceu somente em 1909 sob a gestão do Prefeito Souza Aguiar, seu sucessor.
O processo de gentrificação da capital foi avassalador e violento, com foco no centro da cidade, onde cortiços foram derrubados à revelia para dar lugar a grandes edifícios, e modernas avenidas. Essas intervenções de Pereira Passos foram consideradas autoritárias, quando grande parte da população pobre foi expulsa desses cortiços sem indenização, tendo que se deslocar para as encostas dos morros da cidade, originando um incremento no número das poucas favelas que existiam naquele período.
A modernização transformou a imagem da cidade com a inauguração da moderna e ampla Avenida Central, no estilo dos boulevares parisienses, com suas lojas e cafés de luxo. Também foi inaugurada a impressionante à época iluminação pública, a reforma do Porto do Rio de Janeiro, o primeiro sistema de saneamento básico eficiente e a vacinação forçada da população sob o comando do sanitarista Oswaldo Cruz. A vacinação compulsória levou a deflagração da insurgência negra denominada “Revolta da Vacina”. A partir da Bélle Epoque, com a modernização da capital do país, o Rio de Janeiro entrou definitivamente para o clube das grandes e modernas cidades do planeta.
A população negra foi a que mais sofreu com os impactos da gentrificação. Primeiro tendo que abandonar o local de moradia de forma compulsória, contra sua própria vontade. Segundo dentro do contexto cultural, onde as manifestações populares como o samba e a capoeira foram perseguidas e proibidas, devido ao forte recorte racial de seus praticantes, motivada pela intenção das elites da capital de europeizar o cenário das artes e da cultura da cidade, banindo a crescente cultura negra do cenário urbano. Para tanto passaram a prender sambistas que portavam instrumentos musicais e verificavam se seus dedos possuíam calos adquiridos com a arte de tocar percussão. Todo esse contexto de gentrificação originou a criação de uma forte burguesia carioca, que repudiava qualquer manifestação de origem africana ou afrodescendente.
Com o passar dos anos, o samba foi se organizando e aos poucos e cada vez mais passando a fazer parte da vida cultural da cidade. No início dos anos 1920 o carnaval de rua organizado era alegrado pelos ranchos carnavalescos da burguesia. Os desfiles aconteciam na moderna Avenida Central e eram um feudo exclusivo da elite e da classe média. Os pobres não podiam desfilar nos ranchos e corsos da Avenida Central, devido ao alto custo exigido na confecção das fantasias, e também por não pertencerem ao mesmo estrato social dos foliões. O primeiro rancho popular a desfilar foi o “Reis de Ouro” de Hilário Jovino, que criou as figuras do Mestre Sala e Porta Bandeira e também o conceito de enredo, depois absorvidos pelas escolas de samba. Os pobres também desfilavam em blocos e cordões compostos por maioria negra que vivia na região da Pequena África. Esses blocos mantinham a tradição de usar atabaques e tambores que marcavam o ritmo das batucadas africanas mescladas com elementos do Candomblé. As primeiras licenças para desfiles de blocos emitidas pela polícia datam de 1889 para os blocos “Grupo Carnavalesco São Cristóvão”, “Teimosos do Catete”, “Corações de Ouro” e “Piratas do Amor”, entre outros.
Havia ainda os “blocos de sujo”, que assim eram denominados porque eram compostos por trabalhadores que saíam do trabalho diretamente para o carnaval, sem tomar banho. Esses trabalhadores-foliões compravam máscaras de Clóvis ou de Velhos e saíam na frente dos cordões, abrindo o desfile dos blocos. Marchavam sempre em grupo, abrindo os desfiles, criando então o embrião das atuais Comissões de Frente das escolas de samba.
Nos anos 1920 a contribuição da Turma do Estácio foi fundamental para compreendermos o samba como é tocado hoje. Os sambistas do Estácio eram famosos e também participavam dos saraus da casa da Tia Ciata, com destaque para Ismael Silva, Bide, Marça e Brancura. Bide foi o criador do surdo de marcação, quando utilizou pela primeira vez uma lata de banha de 20 quilos vazia, colocou papel de saco de cimento molhado amarrou nas extremidades com barbante e arame, aquecendo o instrumento na fogueira. A marcação do surdo criado pela Turma do Estácio retirou o ritmo maxixado do samba e manteve sua característica cadenciada que é utilizada até os dias atuais. Bide também alterou a estrutura de apresentação dos sambas das escolas que eram cantados de maneira improvisada, passando então a ser compostos e ensaiados antecipadamente.
Em 1929, Zé Espinguela ou Pai Olufá, Pai de Santo do Morro da Mangueira e o sambista Paulo da Portela, realizaram o primeiro encontro de escolas de samba, defronte à casa de Zé Espinguela no bairro do Engenho de Dentro. Juntos definiram critérios como Mestre Sala e Porta Bandeira, Samba de Enredo, Ala das Baianas em homenagem a Tia Ciata e a Bateria no que seria a gênese do que assistimos hoje nos sambódromos de todo o país.
Nos anos 1930 os desfiles das escolas de samba eram desorganizados. Não havia uma metodologia definida e a única obrigação das escolas era passar defronte à casa de Tia Ciata, na Praça 11, para reverenciá-la e receber sua aprovação. Não havia um local pré-definido e nem premiação. Nos anos 40 passa a ter início a organização “profissional” das escolas de samba. Alguns sambistas eram muito respeitados pelo mundo do samba e poderiam ser chamados de Embaixadores do Samba, autênticos líderes de ébano, entre os quais se destacava Paulo da Portela e Zé Espinguela. Através das gestões de Paulo da Portela e outros sambistas, o Presidente Getúlio Vargas, empenhado em demonstrar apreço pelo nacionalismo e pela cultura nacional, promulgou finalmente a descriminalização do samba durante o Estado Novo.
A partir desse momento, livres juridicamente para atuar, as escolas de samba se proliferaram com força total, reunindo principalmente nos subúrbios inúmeras agremiações como o Império Serrano, dissidência do Prazer da Serrinha no Morro do São José Operário em Madureira, Conjunto Oswaldo Cruz que depois se tornou Vai Como Pode e finalmente Portela também de Madureira/Oswaldo Cruz, Salgueiro na Tijuca que foi o resultado da fusão de duas escolas do Morro do Salgueiro as “Depois Eu Digo” e “Azul e Branco”. A Imperatriz Leopoldinense na Zona da Leopoldina originária da Recreio de Ramos, tendo como base o Complexo do Alemão, Mocidade Independente de Padre Miguel da Zona Oeste que surgiu a partir do time de várzea local “Independente Futebol Clube”, Unidos Vila Isabel fundada por seu China inspirado não bloco “Acadêmicos da Vila”, bloco da “Dona Maria Tataia” e dos clubes “Unidos da Vila” e “Vila Futebol Clube”. Vila Isabel é um bairro conhecido pelo talento de seus compositores, sendo que os dois mais conhecidos são Noel Rosa e Martinho da Vila, a Deixa Falar sempre carregou sua enorme tradição, que depois se tornou Estácio de Sá, no Centro do Rio de Janeiro, a Vizinha Faladeira reivindica ser a primeira escola de samba e foi a agremiação que introduziu o luxo nos desfiles. A Beija Flor de Nilópolis, da Baixada Fluminense é uma das grandes forças atuais do samba e investe em enredos voltados para a negritude, tendo em Joãosinho Trinta, Neguinho da Beija Flor, Selminha Sorriso e Pinah seus grandes destaques. A nova geração é composta pela União da Ilha do Governador , Unidos do Viradouro, Porto da Pedra, ambas do lado de lá da Baía de Guanabara, Grande Rio, Unidos da Tijuca e São Clemente, União da Ilha, Caprichosos de Pilares, Acadêmicos de Santa Cruz, Unidos de Lucas, entre muitas outras.
As escolas de samba seguem uma antiga tradição de se organizarem por famílias. Tirando a Mangueira como exemplo, podemos ver o poder da escola distribuído entre as famílias. Entre os principais clãs da negritude daquele território estão as famílias da Dona Neuma/Saturnino/Chininha e Guesinha, Geraldo da Pedra, Zé Criolinho, Zé Ramos, Cartola e Zica, Dória, Tia Fé/Gilda/Roberto Firmino e Guanaira, Nelson Sargento, Tinguinha/Elmo, Carlos Cachaça, Zé Criolinho,  Tantinho, Hélio Turco, Alvinho e Padeirinho. Todas famílias importantes na genealogia mangueirense, que sempre mantiveram o poder entre si, excetuando um ou outro pequeno hiato.
A Mangueira surgiu da união de diversos blocos e ranchos da comunidade. No morro já existia o rancho da de Tia Fé denominado Pérolas 

segunda-feira, 23 de março de 2026

O Oráculo dos Aflitos


O Oráculo dos Aflitos

Tupamaro era o rei do boteco, sempre foi. Ninguém nunca soube seu verdadeiro nome, aquele que recebeu na pia de batismo. Era inquieto de nascença e meio esquisito de espírito. Carioca da gema, nasceu na parte mais alta do Pendura Saia, um cantinho pobre do Morro de Mangueira.  Bom de bola e de samba, cresceu voando nas asas da malandragem, trabalhando pouco, um biscate aqui e outro ali e namorando muito, principalmente as belas cabrochas da escola de samba, com as quais revelava seu talento de dançarino, cultivado desde a adolescência quando deslizava feliz no chão de barro da comunidade.

Aposentado precocemente em um golpe bem sucedido no INPS, arranjado por um advogado da Baixada Fluminense, passava o dia na preguiça, tomando umas cervas geladas, beliscando uns torresminhos e ouvindo sambas do seu tempo na vitrola de ficha do botequim.

Parecia um despachante-geral. Em sua mesa cativa do bar atendia e aconselhava o povo como se aquele espaço fosse um oráculo dos aflitos. Para ele a sabedoria da vida era orientada por provérbios, obviamente pertinentes e bem selecionados. Havia sempre um para cada ocasião, quando fazia vez de conselheiro e griot do espaço comunitário que revelava a vida de infortúnios e precariedades de tanta gente sofrida.

Quando via descer a comadre Filó ainda no nascer do dizia: “Tenha um excelente dia! Deus ajuda a quem cedo madruga!”, recebendo de volta um sorriso de cumplicidade e compreensão pelo triste fado de cada dia, de uma vida eivada por tantos sacrifícios e turbulências.

Aquela mesa, naquele bar, era o confessionário profano do cotidiano de toda a gente humilde do território de despossuídos. Encontravam nos provérbios do Tupamaro, um combustível a mais para seguir em frente na longa e tortuosa estrada da vida. Nem tudo é dinheiro, muitas vezes as pessoas queriam apenas um cantinho de acolhimento, um colo e uma palavra de conforto. E isso Tupamaro sabia fazer como ninguém.

Nego Ró sentou na mesa e discorreu sobre seu problema sem antes mandar descer uma bem gelada. Falou da filha dizendo que ela não era muito boa da cabeça e que estava começado a andar com gente ruim. Recebeu na lata a profecia: “passarinho que acompanha morcego amanhece de cabeça pra baixo”.

Quanto mais o dia ia passando mais pessoas passavam na mesa de Tupamaro para receber uma gota de carinho. Assim foi com Zefa do Cuscuz que se chegou para falar sobre seu filho que era um bom menino, estudioso, mas que não conseguia trabalhar em um bom emprego. Ouviu curto e grosso: “Pato novo não dá mergulho fundo” e, “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Já com Antônio Sineiro que reclamava das péssimas condições financeiras que o seu empregador, o vigário, lhe proporcionava ouviu: “De grão em grão a galinha enche o papo”.

Na favela eram comuns as desavenças depois de se exagerar nas doses daquela “que matou o guarda” ou “água que passarinho não bebe “. Tupamaro estava sempre ali, na malemolência da existência, observando e burilando o cotidiano do povo como se fosse um ourives existencial. Nas brigas da comunidade vaticinava: “um dia é da caça e outro do caçador”. Se viesse alguém chorar um amor perdido, aconselhava: “águas passadas não movem moinho”. Quando a mãe vinha reclamar do filho que estava copiando os maus modos do pai, declarava: “filho de peixe, peixinho é”. Muitas vezes vinham chorar pitangas pois não acertavam a milhar do jogo de bicho e ouviam: “quem arrisca não petisca”. Se acusavam uma vizinha de ser mentirosa, falava: “mentira tem perna curta”.

Se a mulher reclamava do carro usado que sempre quebrava, um presente do marido infiel acalentava: “cavalo dado não se olha os dentes”. Muitas vezes era provocado por alguma dona por viver sozinho em uma vida solitária na mesa do bar, respondia então: “antes só que mal acompanhado”. Se falavam alguma coisa repetidamente de alguém acusava: “onde há fumaça, há fogo”. Se ameaçassem dizia: “cão que ladra não morde” e se começava a juntar gente em torno da mesa dizia: “cada macaco no seu galho” ou “cada um no seu quadrado”, sugerindo que procurassem outras mesas.

Quando passava a porta-bandeira e trocavam sorrisos costumava dizer: “esse ovo tá querendo sal” ou “para bom entendedor, meia palavra basta”. Mas ao mesmo não queria perder sua paz no seu cantinho e pensava que a mulher estava querendo mesmo é se encostar em sua casa e pensava: “quem casa, quer casa”. Quando lhe exortavam a ir de encontro a mulher dizia: “a pressa é inimiga da perfeição”. Mas se outros a diziam de pouca aparência ele retrucava: “as aparências enganam” e “quem vê cara não vê coração” e “nem tudo que reluz é ouro”.

Tupamaro não costumava sair com pessoas estranhas. Quando convidado respondia: “passarinho que acompanha joão-de-barro acaba virando servente de pedreiro” ou então “diga-me com quem andas e te direi quem és”. Se alguém pagasse uma cerveja por conta de um bom conselho afirmava: “é dando que se recebe”. Quando elogiado por sua sabedoria costumava se gabar: “em terra de cego quem tem olho é rei”. Mas se uma mulher traída pedisse seu conselho em relação a um novo amor, frisava: “cachorro mordido de cobra foge quando vê linguiça”. Se alguma alma necessitada lhe perguntasse se era crime fazer gato na luz, respondia: “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”.  Se um viúvo lhe perguntasse sobre uma possível companheira que lhe olhava de rabo de olho, mas que já estava de olho em outra, ouvia: “mais vale um pássaro na mão que dois voando” ou “seguro morreu de velho”.

Tupamaro passava os dias ali envelhecendo naquela mesa. Os cabelos com o tempo lhe caíam gris às têmporas e as pernas já não lhe permitiam participar das rodas de samba como passista.  Ficava ali na mesa batucando seus sambas e balançando o corpo, mesmo que sentado. Lamentando cantava: “Quem pode, pode. Quem não pode se sacode”. Ao fim do dia pagava sua conta e rumava para seu descanso ao entardecer onde faria sua refeição reforçada sobre a qual dizia: “saco vazio não para em pé”. Se lhe ofereciam carona para sua casa na parte baixa da rua recusava dizendo: não precisa, “para baixo todo santo ajuda”.

Um certo dia parou de frequentar o bar. A cidade preocupada dirigiu-se a sua residência onde foi encontrado morto, sentado na cadeira de balanço. O corpo inerte mantinha um cartaz em seu colo onde lia-se: “santo de casa não faz milagre, cantei prá subir”.

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Gaza é aqui





O momento na crise da segurança pública na Cidade do Rio de Janeiro exige profunda reflexão sobre a ação policial que aconteceu nos complexos da Penha e Alemão. A matança ocorrida em pleno século XXI repete o modelo de invasão militar ocorrido no passado em Palmares e Canudos, onde o estado brasileiro cobriu de sangue o chão de nossa nação.  A reprodução da necropolítica contra a população negra, pobre e periférica demonstra que a democracia e os Direitos Humanos em nosso pais ainda engatinham como um bebê.

O eurocentrismo definiu através de inúmeras pseudo ciências que o povo negro era inferior, bárbaro e a base de uma pirâmide racial engendrada pelo racismo que decretava que o ser humano negro não possuía alma. 

Ao não possuir alma o ser humano negro não era humano, e assim sendo desumanizado era, passando a ser tratado como animal com todas as ressalvss aos animais. A religião africana se tornou superstição, a língua virou dialeto e a cultura passou s ser folclore. Para agravar o panorama o Papa Nicolau V emitiu duas bulas papais "Dum diversas (1452)" e "Romanus Pontifex (1455)", que autorizavam a invasão, conquista dos territórios não cristãos e a consequente escravização de todos os seus habitantes até a morte. Como no Continente Africano praticamente não havia cristianismo, o mercantilismo/capitalismo viu a oportunidade de conquistar novos territórios e estabelecer mercados consumidores. Para que isso acontecesse decidiu que seria uma medida lucrativa trazer africanos escravizados visando a construção do Novo Mundo.

Imaginemos a curiosidade e alegria da população local quando em 1532 aportou aqui oficialmente o primeiro navio negreiro vindo de África trazendo centenas de africanos acorrentados. Curiosidade étnica pois só viviam por aqui portugueses e indígenas e alegria para os europeus por saberem que não precisariam mais se esforçar em trabalhar, pois a partir daquele momento os negros escravizados seriam a grande força de trabalho na construção da imberbe nação. 

Foram 350 anos contínuos de escravidão comercial intensa, onde o Rio de Janeiro se transformou na maior cidade negra das Américas e até hoje, após 137 anos do fim da escravidão decretada pela Lei Áurea em 1888, a escravidão se perpetua dentro maneira insidiosa dentro de uma liberdade hipócrita definida pelos racistas como "democracia racial".

O Brasil desde 1500 até os dias atuais, passou mais tempo sob escravidão do que sob liberdade. Foram 358 anos sob escravidão e da abolição até os dias de hoje são somente 137 anos de "liberdade". Nosso país viveu a maior parte do tempo sob ditaduras, governos golpistas conservadores e racistas, que nunca priorizaram amenizar os tristes fados do povo negro. A cidade negra continua negra mas sempre governada pelos brancos e tampouco livre da escravidão, do destino ontológico imposto pelo capitalismo excludente e opressor. O espírito escravocrata permanece desfilando nas passarelas antropológicas do país de maneira vívida e incólume.

No dia 14 de maio de 1888 o país assistiu ao maior projeto de gentrificação de sua história. Em um cenário surreal, centenas de milhares de negras e negros vagavam pelas estradas e periferias das cidades, sem um destino definido. Surpresos com a liberdade e assustados com a dura realidade, saíram de um cativeiro para outro. Os negros e negras compunham uma legião de analfabetos famélicos, discriminados e enxotados pela população branca que comemorava a novidade das chegadas de incontáveis levas de imigrantes europeus e asiáticos, parte do projeto governamental de embranquecimento da população brasileira. O país desprezava a população negra recém liberta, que passou a ser considerada como um entulho étnico incômodo e descartável.

Desprezada pela população branca e renegada pelo poder público, a população negra foi entregue à própria sorte, ao contrário dos imigrantes que recebiam apoio como terras e subsídios governamentais para que pudessem se estabelecer com suas famílias.

Sem dinheiro para adquirir terras ou casa própria e sem acesso à educação formal,  o negro viu seu futuro e de seus descendentes mergulharem na pobreza e na longevidade da sub cidadania.

Lentamente e de maneira humilde, foram ocupando as áreas periféricas das cidades, subiram os morros e invadiram os mangues, de onde nunca saíram, se consolidando com suas famílias em um novo modo de viver que desafiava retirar felicidade da adversidade. Seguiram em frente construindo maravilhas como o samba e a capoeira e cultuando as religiões de matriz africanas, tríade cultural extremamente perseguida pelo estado brasileiro, mas que chegaram com triunfo e glória até os dias atuais.

Ser negro é passar a viver sob o olhar vigilante e inquisidor dos órgãos de repressão e principalmente da Polícia Militar, fundada em 1809 para proteger a corte imperial da maioria negra que compunha a maioria étnica da nação. Assim com o destino carimbado o povo negro seguiu tentando viver sob o estigma da desconfiança e das mazelas do racismo estrutural.

No Brasil em todo período pré-eleitoral são tradicionais as incursões punitivas nas comunidades do Rio de Janeiro.  A elite que financia as campanhas eleitorais adora assistir os corpos negros metralhados e ensanguentados no chão das vielas, expostos pelos órgãos de repressão como necrotroféus que simbolizam a vitória e o predomínio da raça branca sobre os pretos e pobres.

Antes negros e miseráveis eram designados malandros e capoeiras, hoje são chamados narcoterroristas, mas na verdade, independentemente do que façam, a pergunta que não pode calar é quem os produziu e os colocou ali naquele território estéril, coberto de pobreza, tristezas e desesperanças.

Os negros carregam a sina de degredados em seu próprio país. O abandono e o preconceito permanecem como ectoplasmas epistemológicos que constituem óbices renitentes no cotidiano do povo negro. Óbices que através de um moto contínuo inexorável, insiste em repetir o 14 de maio de 1888 em seus mais mínimos detalhes, transformando as comunidades em algo que nada mais são que senzalas contemporâneas.

O Estado falhou miseravelmente ao não conseguir suplantar o racismo estrutural em nossa nação. Abriu mão da reparação histórica através de um vigoroso programa de inclusão pelo mecanismo das políticas públicas. Em lugar de ações locais de reparação e promoção das populações em vulnerabilidade, envia seus aparelhos de repressão para operar a necropolítica que transforma as comunidades e suas populações vulnerabilizadas em “disneylândias da morte”, sob aplausos da elite e de grande parte da classe média.

A morte de 120 cidadãos brasileiros em um único dia, em espantosas batalhas sangrentas, salvo engano aponta para um estado débil e fracassado no que concerne a uma eficaz política de segurança pública. Essas 120 pessoas que morreram crivadas de balas, talvez nunca tenham tido a chance de serem acolhidas em uma escola de qualidade, possuir uma família estruturada e oportunidades reais de possibilidades de acesso à cidadania.

Essas pessoas mortas talvez nunca tenham tido uma única chance para que pudessem usufruir de uma vida digna e assim poder modificar suas existências. Escolheram viver e morrer à margem da lei, em conflito com a lei, sem ao menos supor que a lei historicamente sempre esteve em conflito com elas.

As comunidades vulneráveis são máquinas de moer futuro devido ao abandono programado pelo estado brasileiro. O narcotráfico rendeu fortunas aos barões das drogas que em sua grande maioria vive fora do Brasil, deixando uma grande maioria negra e caricata defendendo seus interesses com a própria vida se for necessário.

A reflexão que podemos fazer no momento é até onde o estado brasileiro realmente se empenha em produzir cidadania e bem estar para os moradores de comunidades. As incursões punitivas que os aparelhos de repressão fazem nas comunidades são como enxugar gelo ou manipular a opinião pública em períodos anteriores aos certames eleitorais. Aqueles que morreram foram substituídos imediatamente após a morte do titular pois o território precisa ser resguardado. Nada mudou a não ser os novos apelidos dos novos "funcionários" da "firma".

A cidade voltou ao normal deixando um enorme rastro de sangue para trás. Ficará para sempre na lembrança a eliminação de uma centena de pessoas, que embarcaram em uma canoa onde o canoeiro que nesse caso é o estado brasileiro não faz questão nenhuma que o barco se mantenha na superfície. Enquanto o estado não tomar para si um vigoroso programa de políticas públicas de inclusão de populações vulneráveis, que aguardamos desde 14 de maio de 1888, tudo o que for feito será como "enxugar gelo" ou então para "inglês ver".

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Racismo Estrutural - Retrato Falado.

Uma mulher e nenhum negro: Imagem que revela a naturalização do racismo estrutural em nossa sociedade. A população afrodescendente é composta por cerca de 130 milhões de pessoas, que de acordo com a composição da Suprema Corte, não está ali representada, principalmente pelas mulheres negras, as maiores vítimas do crime de lesa humanidade que foi a escravidão.

domingo, 8 de junho de 2025

Quando rir torna-se um remédio amargo.

O arlequim é o símbolo da comédia e seu lema em latin é "ridendo castigate mores", ou seja, rindo castiga-se os costumes". A ideia da comédia aristotélica é punir os mais costumes. O não deve servir para oprimir e ridiculatizar oprimidos. O dano que esta espetacularização da condição social subalterna causa não é mensurável, tamanho a sua extensão. O humor alivia bastante o peso que se carrega pela existência difícil, que precisamos cumprir dentro do modelo de capitalismo predador sob o qual vivemos atualmente. “Sorrir é o melhor remédio”, desde criança sempre vi e ouvi esta frase. Ela é genial na medida em que nos sugere o ato de sorrir como um unguento que amenizará nossas dores oriundas de nossa existência.

São dores do existir que provém de perdas das pessoas que amamos, de sonhos não realizados, de amizades que se foram pelo mundo, de famílias infelizes e dos dissabores do cotidiano de uma nação distópica e alucinada.

Então o humor nos transporta para uma dimensão de esquecimento ou então desprovida de realidades duras e cruas, que costumam ser incineradas pelo fogo da genialidade do humor, que transforma lágrimas e apreensões em risos revigorantes que nos fazem levitar.

Então em tempos de liberdade e democracia nos deparamos com fazedores de humor da contemporaneidade. Novos humoristas com novos conceitos e abordagens. Esses novos profissionais do riso operam dentro de uma ótica onde tudo é válido, tudo mesmo, desde que se possa fazer rir. Aí então o encantamento desmorona, pois, fazer rir pressupõe ser inteligente o suficiente para não gerar desconforto ou sofrimento mental em grupos de maioria minorizadas como mulheres, negras e negros, deficientes, idosos, jovens e crianças.

O labor do fazer rir é louvável e necessário, desde que não se utilize do estupro de crianças e adolescentes. Desde que não remeta os negros aos tempos abjetos da escravidão, desde que não se acene com as bandeiras do capacitismo, etarismo, machismo e homofobia.

O que estamos assistindo atualmente é um show de horrores em alguns palcos brasileiros. Negros foram citados por peso em arrobas, assim como que durante a escravidão não havia desemprego e outras citações sobre pedofilia me reservo não comentar.

A legislação brasileira, que não foi redigida nem votada pelo PT, diz que essas aberrações chamadas de comédia, são crimes e como tal devem ser punidas. A civilização, destarte o suave retorno à barbárie que estamos passando, não pode permitir que pessoas grupos sociais sejam aviltados e machucados por qualquer tipo de profissional pervertido e desumano, que em prol de aplausos e dinheiro promove desgraças no âmago de seus “semelhantes”.

O debate está pegando fogo nas redes sociais quando a partir da sentença de uma juíza o “comediante” Léo Lins foi condenado a 8 anos de prisão e o pagamento de pesadas multas reparatórias.

Há um imenso levante por parte dos humoristas brasileiros contra a sentença proferida. Embarcando no bonde do oportunismo, a extrema-direita da política nacional levantou seus estandartes contra o Judiciário (como sempre faz quando é do seu interesse) alegando a defesa da liberdade de expressão.

O conceito de liberdade de expressão passa de boca em boca como um mantra libertário. Porém provém de lábios que entoam cânticos de louvor à ditadura militar e à volta dos militares ao poder com o consequente fechamento do Congresso Nacional. Pessoas que defendem a tortura e a execução sumária de nacionais em conflito com a lei, defendendo a promoção de um golpe militar com a instalação de um estado de sítio com total restrição de liberdade. São essas pessoas que agora falam em liberdade! Falam em democracia e pasmem, clamam por justiça.

A impressão que se tem é que o Brasil está passando por um período lisérgico onde o surrealismo social está suplantando a lógica do normal. Em seu livro Genealogia da Moral Nietzsche fala da “Moral dos Senhores” e a “ Moral dos Escravos”, onde os dois contingentes defendem seus valores em uma dialética por vezes piegas mas que contém o substrato do ideário judaico-cristão com seu colossal arcabouço de culpas e penalizações.

Em meu espírito vaga uma interrogação de maneira constante, que me instiga e ao mesmo tempo incomoda, quando inutilmente tentar desvendar o porquê das plateias sorrirem. Sim, as pessoas sorriem com vontade ao ouvir tamanhas monstruosidades perpetradas pelo "monstro da lagoa"? Que coisa abjeta! Que feio! Como seres humanos se dispõem a pagar para assistir esse circo de horrores?

O futuro do Brasil? Hoje parece difuso, pois as camadas ultraliberais que controlam o Congresso Nacional e o Presidente da República, permanecem impávidas, como nuvens temerosas e sombrias, em nosso horizonte político, impedindo a assunção do sol da verdadeira liberdade.

Léo Lins, MC Poze e Zambelli – Quando a versão do caçador sempre prevalece sobre a da caça

O Brasil funciona de acordo com as versões da mídia hegemônica. Estamos atravessando uma tempestade de versões sobre três casos que ocupam parte da atenção nacional. São dois semelhantes de uma certa maneira e outro instigante e curioso pela abordagem da visão conservadora da população e do racismo estrutural do estado brasileiro.
O panorama apresenta um jovem negro, artista muito bem sucedido, que através do Rap e do Funk expressa sua visão de sociedade e a realidade das comunidades onde viveu e que ainda se apresenta em show bastante concorridos. Este jovem negro foi preso em uma operação com enirme espetacularização, com transmissão ao vivo para os canais de RV e Internet. Teve sua casa invadida e de lá saiu sem camisa e algemado, sendo exposto como um troféu de caça. A acusação foi de "apologia ao crime" ou coisa semelhante. Não foi intimado, não foi convidado a prestar esclarecimentos, enfim, não havia condenação.
A tendência ao se fazer uma análise fria da operação policial aponta para as eleições de 2026. O estado do Rio de Janeiro é refém há muito dos narcotraficantes, tendo grande parte de seu território controlado por milícias e grupos de traficantes fortemente armados. A população carioca está entregue à sanha criminosa de malfeitores que aumentam cada vez mais. Até os adolescentes sabem onde podem transitar ou não para não perderem a vida. Os sucessivos arrastões pululam por toda a cidade, os tiroteios nas comunidades ameaçam e assustam as pessoas de bem que lá habitam. A vergonhosa insegurança da cidade é despistada por ações típicas como a que houve na Comunidade da Maré culminando com a morte de um de seus controladores ou a recente incursão policial na comunidade do Santo Amaro no Catete, durante uma festa junina, onde vários moradores foram baleados e um jovem que trabalhava cono oficce boy morreu em consequência dos ferimentos, consagrando a necropolitica do estado sobre a população negra.
A prisão do MC Poze foi considerada ilegal pelo judiciário e o cantor saiu do presídio sob aclamação popular de milhares de pessoas que empreenderam uma vigília de vários dias defronte ao presídio onde estava encarcerado.
Os outros dois casos são semelhantes entre si e diversos do caso do MC Poze. As duas pessoas, Carla Zambelli e Léo Lins são brancos da classe média e Zambelli uma parlamentar do Congresso Nacional. Porém, ambos foram condenados e deveriam estar atrás das grades cumprindo suas penas. Como a lei brasileira admite recursos protelatórios para a burguesia, possivelmente terão suas penas atenuadas e quiçá paguem o que devem com distribuição de cestas básicas. É uma situação que ainda não está definida mas que nos leva a uma profunda reflexão sobre a luta de classes no Brasil.
Os condenados Léo Lins e Carla Zambelli estão recebendo por parte da grande imprensa, tratamento de vítimas do ativismo judiciário, enquanto MC Poze, como se diz por aí, é esculachado por esta mesma mídia, a mesma que endeusou os juízes Sérgio Moro e Marcelo Bretas, ambos pulverizados pela mesma justiça da qual faziam parte.
Carla Zambelli, pega com a mão na botija por invadir os sistemas eletrônicos da justiça e por promover e convocar um golpe de estado, atentando contra a democracia brasileira pedindo a volta da ditadura militar, após a sentença condenatória transitada em julgado pelo STF, deu uma banana para os brasileiros e fugiu do país na calada da noite, atravessando a fronteira com a Argentina, de onde voou para os EUA, onde em seguida embarcou para a Itália, país que lhe concedeu cidadania e se acha protegida de uma possível prisão.
Léo Lins está recebendo uma enxurrada de apoios, apesar de em seus shows de Stand UP promover a pedofilia e ridicularizar grupos de maioria minorizadas como mulheres, negros e negras, pessoas com deficiências e gordas. A lei diz que é crime e quem cometer deve ser julgado e cumprir pena como reza a legislação penal. Mesmo assim há uma enorme mobilização nacional para que o criminoso não cumpra sua pena.
Mas o bandido na história é o MC Poze, artista negro de origem periférica, que saiu algemado de sua própria casa, na frente de sua família, sem camisa, de short e descalço, sem qualquer tipo de condenação, ao vivo e em cores para todo o Brasil.


sábado, 3 de maio de 2025

O tudo e o nada

O corpo humano é constituído por um número praticamente infinito de átomos. Mas os átomos são constituídos de 99,9% de espaços vazios. Na verdade nosso corpo é um imenso vazio, um oceano de nada, enquanto achamos que somos tudo. Resta saber como a consciência surgiu no meio desse grande deserto vazio comandado pelo caos.

O que nos faz viajar pelas estrelas senão ir de encontro ao útero primordial de onde viemos. Somos poeira de estrelas que explodiram há milhões de anos atrás na imensidão universal.
A complexidade e a perfeição do ordenamento do universo como a física quântica e a relatividade geral nos mostram, torna perfeitamente exequível a possibilidade de que haja um Criador.
Somos um tudo e um nada diante da magnificência da imensidão universal.
O que não é compreensível são pessoas se sentindo superior a outras por conta de possuirem menos melanina na pele. A verdadeira essência da espécie humana está em seu arquétipo senciente, em sua capacidade inequívoca de organizar o pensamento, de buscar soluções para seu cotidiano, de amar e ser amada.
As guerras, o desamor, o machismo, o racismo e todas as formas de preconceito e exclusão não estão inseridas nos nossos átomos. São construções sociais que visam poder, domínio e enriquecimento.
A verdadeira essência do poder é invisível e não compactua com as construções destrutivas mesquinhas e empreendidas pelos humanos. A natureza ou no caso um ser superior, se criou a espécie humana à sua imagem, precisa consertar as peças com defeito que deixou por aqui.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Bergman e o Jesus da Goiabeira

O Ovo da Serpente, de Ingmar Bergman, é um filme denso e dolorido. Ali está, inteiro, o processo de esgarçamento social capitaneado por gente que se imagina salvadora da pátria e seus apoiadores nutridos pelo ressentimento. Mostra como se testava os limites da democracia alemã, em 1923: pela via do ódio e da corrosão das instituições, dos valores mais altos da existência e da civilização. Há risco de naufrágio, mas as massas, cada fez mais fanatizadas e manipuladas, se creem empoderadas. E ai de quem advirta sobre o rumo perigoso que trilham. O fanático encontra justificativa para tudo; sua atuação violenta silencia as vozes dissonantes. O título do filme de Bergman inspirou-se em Shakespeare, esse conhecedor da alma humana. É uma frase da tragédia Julio Cesar: "Pense nele como um ovo de serpente que, chocado, se tornaria mau, como os de sua espécie. E mate-o na casca". Algumas idéias - não as pessoas - devem ser cortadas no nascedouro. Elas chocam e dão origem a serpentes cujo veneno vai apodrecer a carne de quem as fez prosperar. O filme O Ovo da Serpente (1977) de Ingmar Bergman nunca deixa de ser atual. Naturalmente é uma obra prima cercada de gente laureada como Dino de Laurentis na produção, David Carradine (aquele do seriado Kung Fu) no papel de Alan Rosenberg, um trapezista judeu desempregado e a belíssima e talentosa Liv Ullman como Manuella, uma cantora de cabaré, cunhada de Rosenberg. O Ovo da Serpente e série televisiva Berlin Alexanderplatz (1980) de Werner Fassbinder formam o que há de melhor na cinematografia mundial sobre a surpreendente República de Weimar, berço que embalou o nazismo de Hitler e suas monstruosidades. O Ovo da Serpente reproduz com a tradicional agucidade de Bergman os complexos panoramas sociais, ideológicos, religiosos, políticos e culturais do período. A pesquisa de Bergman é primorosa e o roteiro mais espetacular ainda. O cineasta reproduz com incrível fidelidade os passos de uma sociedade saída de uma guerra perdida, que antecipou a república declarada na cidade de Weimar, onde Goethe morreu. A nova república nasceu cheia de esperanças, mesmo sendo a representação política de um país humilhado e destroçado economicamente. O propósito da república liberal era reconduzie a Alemnha para um período de reconstrução e prosperidade. O cenário que surgiu com a república foi desesperador com inflação gigante, industrialização pífia, criminalidade elevada, anti-semitismo, anti-comunismo, desemprego em massa e ahumilhação do Tratado de Versalhes. Foi o terreno fértil necessário para o nascimento do poderoso nacional-socialismo alemão que trouxe ao mundo o Terceiro Reich de Hitler. O período plúmbeo produziu obras de raro valor como A Montanha Mágica (1924) de Thomas Mann, Nosferatu (1922) de FW Murnau e Bram Stoker, Metropolis de Fritz Lang em 1927 e o Anjo Azul de Josef von Sternberg em 1930. A torrente expressionista era a resposta que a arte oferecia em contraponto ao medo e a insegurança do crescente movimento racista e xenofóbico, que foi respaldado por um corolário jurídico conservador que assistia a ascensão de um militarismo extremista que se apresentava como a única alternativa para livrar a a Alemanha dos comunistas de 1917, bem ali ao lado na Rússia. Não posso emitir um spoiler, pois vale à pena se surpreender com o filme. Os figurinos de Charlote Fleming se unem de maneira magistral à fotografia de Sven Nykvist que é fenomenal ao transmitir com fidelidade a aura daqueles tempos sombrios e assustadores. O Brasil vive tempos assustadores e sombrios. O Ovo da Serpente nunca se mostrou tão atual e verdadeiro aqui ao sul do Equador. Naquele distante 1923 Bergman denunciava as tentativas golpistas do Exército, a repressão a liberdade individual, o culto ao grande líder, ao ditador centralizador e a prática da segregação, do patriotismo enviesado, do nacionalismo inconteste, enfim, um ovo da serpente. Na Berlim de 1923 a população também buscava alimentos no lixo. Uma das cenas do filme mostra um mutirão de pessoas que se alimenta em torno do corpo de um cavalo morto. A arte imita a vida ou a vida imita a arte?

sábado, 5 de abril de 2025

Lei de Cotas i

O Ipea apresentou dados comparativos do número do quadro de servidores afrodescendentes na administração pública federal. Os indicadores compreendem o período entre o ano de 2009 quando a lei de cotas raciais foi criada e 2019, exatamente 10 anos depois. Os indicadores demonstram de maneira inequívoca a mobilidade social alcançada com a política de ação afirmativa, enquanto que ao mesmo tempo, expõe a presença cruel do racismo estrutural e excludente até o ano de 2009. O avanço não significa que a igualdade tenha sido atingida ou estabelecida, ao menos no serviço público federal. Negras e negros ainda não alcançaram o percentual mínimo comparativo, que representam no total da população brasileira. Em relação ao contingente branco, o Censo Demográfico do IBGE de 2022 aponta que a população negra, compreendia entre pretos e pardos, representa 54% do total populacional, enquanto que no serviço público federal corresponde a apenas 38%. No caso da população branca, que corresponde a 43% da população total do país, no funcionalismo federal são 57% dos servidores. Esses dados demonstram que ainda há muito trabalho a fazer no que tange a igualdade racial na administração pública federal brasileira.

quarta-feira, 26 de março de 2025

A madrugada e a poesia

Madrugada na cidade, onde somente os ansiosos ou os livres saem às ruas. Ouço ruídos desconexos enquanto me conformo em minha cotidiana jornada insone. Penso no tempo da vida, sobre o quanto ele pode ser importante e quanto quase nada vale, pois, durante a madrugada, o tempo dos notívagos insones pouco vale. Parece que o tempo é verdadeiramente importante quando há plateia, espectadores. Imaginem a cena de um circo, onde os trapezistas se encaram fixamente diante do salto mortal final em um picadeiro vazio, sem o suspense e o pulsar da adrenalina do grande público? A importância não está somente em você, ser humano precisa de plateia para se legitimar, de espectadores, assim é a vida. O tempo da madrugada é tipo uma ditadura perene, imanente, onde o insone sofre sob o lento passar do tempo. O tempo universal não se importa com o destino e as emoções dos humanos, é uma quarta dimensão inexorável que se abate sobre o catre, de maneira indiferente, arrastando as expectativas e os desejos para a sua própria dimensão, sem lhe dar importância ao clima distópico desse mundo de heróis superficiais. A madrugada possui um tempo lento, tempo de solidão, entremeado e compartilhado com suspiros e assombrações. Ali no espaço cruel da solidão, entre a realidade e o sono, existe o que podemos chamar de poesia estranha e difusa. É como se por força e diante de elocubrações cognitivas, a alma cede sua essência ao diáfano mundo da criação. Oh, alma criativa! Mãe de todos os deserdados do leito matrimonial! Via de escape dos atormentados pela incompreensão da vida! Dai-nos a paz, alma criativa. Sabemos bem da sua predileção pela noite, pelo silêncio do tempo perdido das madrugadas, pela dor desesperada dos poetas. Enquanto a cidade dorme, nós os poetas sofremos em nossa solidão soturna. Deitados caminhamos entre os moinhos de Cervantes e as amarelinhas de Cortázar, Eneidas, Odisseias, Lusíadas, Divinas Comédias, Ulisses, Whitman, Ezras, Alejos & Carpentiers, Borges, Manns e Policarpos Quaresmas. A madrugada dos poetas é um mundo à parte onde as letras saem iluminadas como vagalumes espectrais, compondo uma sinfonia eterna entremeada de luz e cores. Enquanto a humanidade dorme o sono dos justos o poeta insiste e teima em dormir, contrariando o afã pulsante de sua alma criativa. Quer ser normal como as outras pessoas, como todas as pessoas normais do mundo, mas como um sísifo fadado ao infinito labor, cumpre sua sina infatigável de subir as pedras das letras, noites após noites nos despenhadeiros da vida. Sua obra talvez nunca seja admirada, mas qual o quê! É realizada pela incompreensível vontade da psiquê incontornável dos loucos, determinados e incompreendidos. Uma criança chora ali, um cão ladrão acolá. São os ruídos da noite. Uma moto transporta sonhos para algum lugar e pássaros boêmios cruzam os ares embebedados pelo ar fresco da madrugada. Finalmente a madrugada vai nos deixando, silenciosa e sorrateiramente, dando lugar a um dia ainda envergonhado por dar fim aos pirilampos brilhantes de letras e suspiros. O sol surge então com seu poder avassalador de estrela, desperta os normais que correm expeditos aos seus trabalhos, aos compromissos de um mundo enlouquecedor. O poeta então desaba ao se defrontar com o mundo dos normais, com a busca insaciável por dinheiro, por coisas vãs, por desejos materiais. O poeta se espanta ao se ver cercado de cartões de crédito, boletos, prestações, hipotecas, crediários e caminhões de botijões de gás tocando músicas fanhosas. É o mundo dos homens, é o mundo do dia, das guerras, dos poderosos. É o mundo do dinheiro, da ganância, do egoísmo e individualidade. Nesse cenário caótico e humanamente incompreensível para se viver, o poeta caminha atento, tentando salvar seus vagalumes da tórrida existência dos conformes diurnos. A madrugada dos poetas é acolhedora. É como um ventre solidário e solitário, que nutre sonhos que iluminarão em tempos contemporâneos, outras almas ávidas por pirilampos de poesias.